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Anti-jornalismo nas HQs de Clark Kent e Peter Parker

Reunião de 4 de agosto de 2006 - Na primeira hora, aconteceu minha palestra sobre minha pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que se chama Jornalismo nas histórias de super-heróis: os quadrinhos de Clark Kent e Peter Parker. Fui orientado pelo professor Waldomiro Vergueiro, e com esta monografia me formei jornalista pela ECA/USP

O foco do estudo foi a construção ficcional dos personagens jornalistas super-heróis Clark Kent e Peter Parker (Super-Homem e do Homem-Aranha) e sua relação com outros jornalistas nos quadrinhos. Esta análise foi feita, questionando o estereótipo ligando o profissional de Jornalismo ao conceito do herói e do super-herói.

Os aspectos considerados, de maneira geral, foram: formação e motivação profissional, perfil, poder e privilégios, técnicas e tecnologia, ética, condições de trabalho, temas jornalísticos ou editorias, funções e meios jornalísticos.

Foram consultadas 172 revistas, principalmente da década de 1990, aproximadamente metade de cada personagem referido. Mas também há referências sobre a cronologia inicial e até de revistas publicadas em 2006. Transcrevo, a seguir, a conclusão do meu trabalho.

(Na foto ao lado, tirada por Denis Basílio de Oliveira, aparecem: eu, Maurício Kanno, à esquerda; e Tiago Souza, à direita, que também pretende realizar um TCC sobre personagens jornalistas nos quadrinhos, porém, europeus.)

Falsa identidade heróica
Esperávamos, inicialmente, queos jornalistas-super-heróis Super-Homem e Homem-Aranha, por estarem vinculados à tradição heróica que remonta desde a Idade Antiga, com seus heróis gregos, passando pelos cavaleiros medievais; refletissem também uma faceta heróica em seu lado jornalista.

Não é o que ocorre, no entanto, já que, devido aos seus super-poderes e suas conseqüentes responsabilidades auto-determinadas eticamente, tais personagens acabam por negligenciar as atividades “normais jornalísticas”.

Entendemos, no entanto, que esses as narrativas de ficção enfatizam mesmo possibilidades incomuns, e é por isso que não se encontra a ação jornalística privilegiada, mas sim a super-heróica. Os personagens se valem do tradicional discurso jornalístico para cumpri-lo como super-heróis.

No entanto, eles não só fazem essa conversão, como, também, quase sempre realizam a devida cobertura jornalística de seus próprios feitos heróicos, atuando como assessorias de imprensa infiltradas nos jornais. Esse fenômeno acaba por, secretamente, cumprir o corporativismo observado por Travancas (1993: 71), de que “é freqüente que fatos atingindo jornalistas cheguem facilmente ao conhecimento do público”, ao contrário do que ocorre com outras profissões.

Apesar de Clark Kent, identidade secreta do Super-Homem, por exemplo, até ser envolto por todo um discurso “heróico jornalístico”, tido como bem-sucedido, nobre e famoso, sendo reconhecido e sustentando expectativas de que os ideais jornalísticos seriam cumpridos por um bem à humanidade, na prática profissional esse papel não é cumprido.

Isso nos leva a responder afirmativamente à questão de Vieira Filho (1991: 113): “O Clark Kent não seria a personificação do super-homem frustrado?” Sim, Kent representa um profissional em eterna contradição consigo mesmo.

Nem mesmo aparece com freqüência atuando como jornalista, função cumprida verdadeiramente pela sua parceira repórter Lois Lane. Isto se deve à sua onipotência como Super-Homem, que acaba subjugando a identidade normal.

No caso de Peter Parker, identidade secreta do Homem-Aranha, ele nem se compromete, em discurso, com o cumprimento de qualquer tipo de ética profissional dos jornalistas, interessando-se assumidamente apenas pelo dinheiro decorrente do seu trabalho, o que chegaria até a horrorizar muita gente que pensa no jornalismo como o meio de colocar em prática nobres ideais. Ao menos, ele não entra em contradição nesse sentido ético/heróico jornalístico. O jornalismo para Parker é mesmo encarado somente como um “emprego”, como algo transitório, que se cumpre principalmente por motivos econômicos. Por isso, o jornalismo não chegaria a ser uma “profissão” para ele.

No entanto, surpreendendo o senso comum de que Peter Parker “nem é jornalista”, o personagem até acaba produzindo, por mínimos que sejam, alguns resultados sociais positivos por meio de suas reportagens fotojornalísticas e tem uma atuação evidente, no mundo do jornalismo, ao menos mais freqüente que a de Kent. Apesar disso, Parker promove uma visão deturpada e “celebrizante” do mundo com as suas fotografias.



Bem maior e privilégios

Nossa análise se efetiva melhor, no entanto, se levarmos em consideração uma ética universalista e uma teoria utilitarista do “bem maior” aplicada aos super-heróis. Eles, freqüentemente, utilizam seus super-poderes para a realização de reportagens, o que lhes dá uma grande vantagem no competitivo mundo jornalístico. Simultaneamente, aproveitam-se da estrutura e recursos dos jornais e da condição de serem jornalistas para os auxiliarem como super-heróis. O papel humanitário deles não fica limitado ao jornalismo, mas o transcende.

É interessante também perceber como, apesar de Clark Kent ser identificado como um verdadeiro e universal símbolo do jornalismo, ele, assim como Peter Parker, não representam integralmente a profissão. Eles mesmos são tidos como jornalistas modelos e celebridades, mas são poucos os jornalistas reais nesta categoria; ficam concentrados na editoria de Cidades, e não há só esta editoria, mas pelo menos seis, pelo que considera Travancas (1993: 25); e na cobertura de suas próprias celebridades-super-heróicas, como repórteres de jornal impresso (Parker como repórter fotográfico).

Apesar das variações e diferentes versões dos personagens produzidas, é esta a idéia essencial de jornalismo passada, que converte os assuntos mais importantes dos grandes jornais de seu mundo, de Política e Economia, para assuntos mais populares. Mesmo nessa realidade alterada, devemos discordar do observado por Pereira (2003: 18) em relação aos filmes de jornalistas, de que “não se entra no mérito das questões de produção de notícias”; nas histórias em quadrinhos, pudemos identificar diversas situações delicadas, que envolvem profundas análises éticas. Além disso, categorias usualmente tidas como desfavorecidas pela sociedade, como as mulheres e os negros, acabam sendo, com freqüência, bem valorizadas nas histórias, servindo como modelos de competência e ética.

O caso da repórter negra Tana Moon, que teve algum destaque nas histórias do Super-Homem na década de 1990, representa um amálgama desta discussão, com a personagem demonstrando esperteza e escalada meteórica de cargo.

O fato é que foi identificado um grande destaque para mulheres jornalistas, como Lois Lane, Betty Brant (que se tornaria jornalista depois de secretária, nas histórias do Homem-Aranha) e e negros também (principalmente Joe Robertson), nas histórias analisadas.

Mas as atitudes éticas de Tana Moon foram ambíguas, como identificamos ser a regra geral no caso da “objetividade jornalística”. Nas histórias, esta norma aparece mais como discurso, sem ser levada muito em consideração na prática. É privilegiado mesmo o fator emocional e parcial do jornalista, inclusive em altos postos de comando, como um importante recurso narrativo e expressivo para as histórias.

Download -O trabalho integral está disponível nos links, à escolha:
http://www.eca.usp.br/agaque/TCC-MPK.pdf ou
http://kanno.com.br/tcc-mauricio.pdf


Comics & Culture
Após a palestra sobre o Jornalismo nas HQs, foi dado prosseguimento à discussão do livro Comics & Culture: analytical and theoretical approaches to comics, sob coordenação do colega Osni. Saiba mais neste link.
de greve.

Maurício Kanno

 

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