Entre a capela e a caixa de abelhas: identidade cultural de gringos e de gaúchos
Veneza Ronsini
por Rene Goellner, Doutorando do PPGCOM/ UFRGS
O presente texto resulta da leitura da versão integral da tese de Veneza Ronsini, defendida em 2000, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo. Isto implica afirmar que o que segue não contemplou a leitura da versão publicada sob o mesmo nome pela EDIPUCRS, 2004, embora a tese segue sendo a matriz teórico-conceitual, em que pesem possíveis modificações na apresentação formal do trabalho agora editado. Num primeiro momento, serão sinalizados aos leitores os caminhos percorridos pela autora e os atalhos e encruzilhadas implicados em tal trajetória.
As muralhas teórico-metodológicas da pesquisa foram erguidas e reforçadas para dar conta do seguinte problema: diante de uma programação midiática nacional e internacional, em que medida o discurso regionalista se enfraquece? Ou, posto de outra forma; quais são as conseqüências de tais discursos para os receptores? Dado o problema, a tese se justificaria na medida em que o entendimento da dinâmica de constituição de uma identidade cultural e de como ela se apropria dos discursos midiáticos revelariam os mecanismos de resistência ou subordinação de tal identidade, frente a um universo globalizado/nacionalizado, pouco pautado pela diversidade.
Antes de apresentar os objetivos, hipóteses e marco teórico, toma-se a liberdade de antecipar – criticamente - a explicitação da fase de observação do objeto, tal como concebido pela autora, já que esta é necessária, inclusive, para a compreensão dos questionamentos a serem expostos a seguir, análise que se oferece enquanto uma contribuição ao debate desta obra.
Inicia-se pelo universo da pesquisa, composto pelos gringos e gaúchos de origem rural que migraram para o meio urbano de Santa Maria. A autora considera “gringos” os descendentes de italianos e “gaúchos” os descendentes de índios, espanhóis e portugueses. A amostragem utilizada foi não-probabilística, compreendendo um total de quatro famílias, respectivamente, duas de “gringos” (provenientes da colônia italiana) e duas de “gaúchos” (provenientes da campanha). A seleção das famílias obedeceu ao critério da intencionalidade, uma vez que escolheu-se aquelas com as quais a pesquisadora já havia tido um contato prévio, por ocasião do Mestrado (1989-1993), ou mesmo um contato pessoal direto ou indireto (neste caso, alguém conhecido apresentou a família ao pesquisador).
A autora fez uso da metodologia qualitativa através de uma abordagem etnográfica, utilizando como técnicas de observação entrevistas estruturadas, histórias de vida, história do consumo cultural, diário de campo e observação participante, levada a cabo em cinco meses de visitas periódicas.
Apresentada a fase de observação, centraremos nossa análise na definição do objeto, principiando com os objetivos. Veneza é enfática ao apresentar, logo no início da introdução, o seu objetivo principal como sendo o de “estudar os usos sociais da televisão por grupos familiares de origem rural ao se estabelecerem no meio urbano na cidade de Santa Maria, de modo a perceber a utilização da realidade social veiculada pela TV para a transformação/permanência de uma identidade” (RONSINI, p.2). Distante apenas duas páginas do objetivo principal, o leitor se depara com outro objetivo de maior força e amplitude, na medida em que expande o escopo do que foi posto até então. Nesse momento, a autora se propõe a “investigar o processo de hibridização cultural como conseqüência da migração, isto é, o processo de transformação parcial da identidade” (RONSINI p.04). De imediato, a televisão, triunfante no primeiro objetivo, passa a ser coadjuvante no segundo. Percebe-se claramente um enfraquecimento da televisão e seus usos socais para o que seria um contexto social e cultural do informante, do qual a televisão é apenas uma parte. Este deslocamento acompanha as hipóteses de trabalho.
Na principal hipótese de trabalho, a autora supõe que “a adoção parcial da cultura gaúcha pelosinformantes é um modo de atualizar o passado rural, quando sua participação no mundo urbano se realiza tenuemente, e por isso, necessitam tornar presentes os valores/significados de um modo de vida anterior (...). Assim, os trabalhadores rurais, que migraram do campo para a cidade em busca de melhores condições de vida, apesar da origem cultural e étnica distintas, devem encontrar nas tradições gaúchas propagadas pelos MCM, pela escola, pelo movimento tradicionalista e nativista certos elementos para uma identificação com o grupo social ao qual pertencem” (RONSINI, p.03). Da maneira como a hipótese está exposta os meios de comunicação de massa – e não apenas a televisão – ganham uma importância equivalente a outras instituições das quais participam os informantes. Inclusive, por este motivo, opta-se, nesta análise, pela não utilização do termo receptor, pois quando as relações extrapolam o contato com os meios de comunicação, a denominação “receptor” perde do sentido.
Nesse momento, é apresentado o marco de referência. Nas palavras da própria autora, para investigar a recepção televisiva foram utilizadas a Sociologia da Cultura, para pensar os meios e as audiências; a Antropologia Hermenêutica, para a interpretação do mundo dos sujeitos e o Modelo de Recepção, como uma teoria das disposições sócio-culturais com as quais os estratos sociais negociam as mensagens dos meios.
Situando o seu trabalho num quadro dos estudos interdisciplinares dos Estudos Culturais, o marco teórico se encontra em dois capítulos, intitulados “Cartografia de Recepção” e “a Migração Campo-Cidade e a Televisão”. No primeiro capítulo, a autora além de expor a metodologia, se propõe a construir uma espécie mapa da recepção, este dividido em dois tópicos: os cartógrafos anglo-saxões e os latino-americanos. Esta disposição, se por um lado orienta o leitor, por outro materializa uma implacável inversão em relação às referências teóricas. Dos anglo-saxões, Veneza seleciona três trabalhos que seriam representativos para os estudos de recepção e, especialmente para a tese. O primeiro deles é The Nationwide audience: structure and decoding, de David Morley (1980), que trabalha a articulação entre classe, ideologia e poder, estabelecendo os conceitos de leitura opositiva, dominante e negociada (quanto à interpretação dos textos televisuais).
O segundo trabalho é Watching Dallas, de Ien Ang (1982), no qual, a autora verifica que existem discursos contraditórios em relação ao mesmo produto cultural, além de constatar que o receptor reconhece nas novelas situações da vida cotidiana: disputa, problemas, intrigas etc. Entretanto, Veneza critica Ang na medida em que seu estudo não contemplou o mundo social do receptor, universo que Morley contempla. O terceiro trabalho é World families watch television de James Lull (1988) que, além de utilizar a metodologia etnográfica para abordar o uso da televisão, evidencia em seus estudos a importância do contexto social como condicionador do uso que se faz da televisão.
Grande parte do capítulo dedica-se a comentar estes três trabalhos, muito embora, as noções mais importantes para a tese, sejam as de “mediações” e de “hibridismo cultural”, dos latino-americanos Martín-Barbero e Nestor Garcia Canclini, respectivamente. Veneza promete utilizar o modelo das Mediações de Martín-Barbero pelo fato de “ser operacional” e a noção de hibridização para analisar a relação entre os informantes e os meios massivos. Porém, nas 13 páginas dedicadas aos latino-americanos no capítulo, - contra 23 dos anglo-saxões – registram-se inúmeras críticas acerca da reflexão desses teóricos pela não adoção do conceito de classe como um fator explicativo ou estruturador das relações sociais.
Inexplicavelmente, finda o capítulo e a própria tese e o leitor não é apresentado ao modelo das mediações, e infelizmente, e a nenhuma problematização sobre a noção de hibridação. A única definição de mediações que encontramos no trabalho é bastante genérica, já que Veneza se resume a afirmar que as mesmas seriam os lugares a partir dos quais se configuram os significados atribuídos à televisão. A família, o bairro, o trabalho, escola, a cultura, grupo social e contexto cultural seriam as mediações estudadas.
Ainda que alguns acreditem que a noção de mediação de Martín-Barbero seja aberta para interpretações, faltou uma maior contextualização e precisão em relação ao que a autora considera mediações e como estas serão analisadas no trabalho. Afinal, tal noção apareceu em poucas linhas dispersas ao longo da tese. O mesmo vale para a noção de hibridação. Esta última, citada inclusive nos objetivos, carece pelo menos de uma exposição, já que é definida, superficialmente, como sendo o processo de transformação de uma identidade, no qual haveria por parte do receptor uma dinâmica de construção simbólica híbrida, algo entre a vivência popular e a cultura hegemônica. Tem-se a impressão que o trabalho deu uma atenção demasiada a produção exógena quando os autores latinos dariam conta da questão.
Antes de findar a análise deste capítulo, é perceptível a preocupação de Veneza de inserir a classe social como um dos fatores – não o único – determinantes na leitura dos bens simbólicos. A autora, tão raro hoje em dia, preocupa-se com as relações de poder, impostas via meios de comunicação, muito embora a noção de classe acabe sendo utilizada indistintamente. Veneza afirma, enfaticamente, que não utilizará o termo classe em função da tradição marxista-determinista. Entretanto, no lugar de classe utilizam-se as noções de classes populares, classes subalternas, estrato social, estrato sócio-econômico, “gente humilde”, “gente modesta” e de grupo social. Além do excessivo uso de “sinônimos” que acabam por confundir o leitor e causar uma espécie de poluição conceitual, a última nominação é ambígua, pois em alguns momentos refere-se à família e noutros ao bairro. Este problema se expande a outros campos, como o da amostra da pesquisa, já que na tese encontramos os termos “gaúchos”, “gringos”, “colonos”, “ex-colonos”, “peões”, “ex-peões”, “gringos italianos e alemães” e “gringos sulinos”, por exemplo.
No capítulo “Migração Cidade-Campo e a Televisão”, Veneza aborda o tema da migração e aproxima o leitor do universo que compõem a cidade de Santa Maria e do qual faz parte sua amostra, composta por “gringos” e “gaúchos”. Neste mesmo capítulo, é analisada a oferta da programação televisiva. Aqui restaria observar que mesmo que a autora lance mão da noção de fluxo televisivo para apreender a recepção, o que pressupõe reconhecer e se dedicar a vários gêneros, no que tange a oferta televisiva, Veneza acaba analisando, desproporcionalmente, a telenovela e a RBS TV, um dos quatro canais abertos disponíveis em Santa Maria. Ao se regressar à primeira hipótese de trabalho apresentada, pode-se verificar que a autora preocupa-se, de fato, com a cultura gaúcha veiculada nos meios de comunicação. Seria a telenovela o gênero mais indicado para tal análise? Este procedimento não contradiz a própria noção de fluxo?
Pelas informações até então disponibilizadas, deparamo-nos com os usos sociais da televisão, recepção televisiva, identidade cultural, cultura local, cultura gaúcha, hibridação, migração e fluxo televisivo. Isto sem contar que, na introdução, a autora lançara um objetivo - específico mas capaz de engendrar uma outra tese – propondo verificar nada menos do que as articulações entre cultura, classe, gênero e etnia no processo de hibridização cultural. Promessas à parte, a encruzilhada que se impõe diante do caminho nos remete a uma procura pelo objeto de estudo. Recepção televisiva ou identidade cultural? Tal questionamento carece de uma resposta, embora as inúmeras evidências façam o leitor pendular entre um e outro. Somados todos os indícios, o foco sobre a identidade cultural - abarcando a cultura gaúcha e italiana -, vence. Justamente por isto, sente-se falta de um capítulo sobre identidade cultural, já que o tema é relevante e aparece ao longo do texto de maneira fragmentada, dificultando a leitura.
Apesar da autora se referir ao seu estudo como uma pesquisa de recepção televisiva, a construção e re-construção das identidades culturais frente ao processo de migração do espaço rural para o urbanotem uma importância maior. A televisão é apenas um vetor que influencia esse processo. Exemplo disto é o rádio – e também a Escola - que, ao longo do trabalho, vai adquirindo uma significação fundamental para a divulgação e manutenção da identidade local, ganhando inclusive, uma referência no título da tese. Esse fato, ao passo que demonstra a sensibilidade da autora que não se furta a engessar a pesquisa, causa um certo desconforto, já que é a identidade cultural de gringos e gaúchos o verdadeiro objeto da tese.
Há que se notar que as críticas acima expostas, em parte, são resultantes de uma típica encruzilhada vivenciada pelos estudos de “recepção” da época que, ao mesmo tempo em que procuravam legitimar-se, descobriam outros vetores - como por exemplo, o contexto social - debruçando-se e fazendo sombra sobre o seu objeto. Apesar disto, Veneza Ronsini consegue com firmeza e sensibilidade construir uma tese que hoje é referência. Firmeza não lhe faltou, já que defender uma tese de “comunicação” num programa de Sociologia Rural não é, como se pode facilmente imaginar, uma tarefa fácil. Sensibilidade, por construir um rede metodológica que lhe permitiu apreender, com muitos detalhes, as perdas e os ganhos simbólicos daqueles que deixaram um mundo para trás. Trata-se de uma obra importante e exatamente por esta relevância, suas fragilidades ou indefinições teórico-metodológicas devem ser apontadas. O debate está aberto e a crítica aqui construída se coloca como uma contribuição ao mesmo.
As famílias são as seguintes: Família Cagnin, composta por quatro indivíduos. O casal reside na cidade há 17 anos. Os dois filhos migraram com 3 e 4 anos de idade; Família Cardone, composta por três indivíduos. Os pais migraram há 33 anos. A filha é casada e reside em outra cidade (não foi entrevistada). Família Vargas, composta por cinco indivíduos. Os pais migraram há 19 e 22 anos. Os filhos nasceram na cidade. Dois são adolescentes (sexo feminino e sexo masculino) e uma criança de 9 anos. (A criança não foi entrevistada) Família Rodrigues, composta por dois indivíduos. O casal mudou-se para a cidade há 7 e 10 anos.
A autora justifica a não inserção de um capítulo sobre o tema uma vez que ele já fora deveras problematizado pelas Ciências Sociais.