O pênalti que não foi

...e poderia nunca ter sido

Por Edgar Lepri e Felipe Lobo

 

 

Logo às 7 horas da manhã os garotos, entre 7 e 9 anos, se reúnem e são orientados pelo professor Fernando. O sol era forte naquela manhã de sábado em Inoã, bairro do município de Maricá, no Rio de Janeiro. Como em todos os sábados, é dia de futebol. Os garotos, ansiosos para começar, vestem o uniforme da escolinha, vinculada ao América, time da capital fluminense, atualmente na segunda divisão do Campeonato Carioca, mas com uma imensa tradição.

Antes de começar mais uma aula, o professor Fernando se despede de um grupo que irá fazer um jogo no campo do adversário. Em um ônibus, os garotos são orientados pelo professor, que leva palavras de apoio e pede dedicação. É a semifinal do torneio e a primeira partida daquela categoria é fora de casa. Na semana seguinte, os meninos decidiriam o seu futuro jogando no campo de Inoã, sua casa.

No apertado escritório, dona Lú organiza pagamentos da escolinha, em meio a troféus empoeirados, papéis e fotos na parede. Garotos que saíram da escolinha para serem profissionais. Um deles chegou ao Vasco, o mesmo clube que o professor Fernando aparece, em fotos antigas, em um Maracanã lotado.

Depois de se despedir dos garotos no ônibus, o professor Fernando, no escritório, conta que alguns daqueles garotos, de fato, viraram profissionais. Friburguense, Olaria, times espalhados pelo estado do Rio que absorveram alguns jogadores formados por ele. Enquanto isso, Dona Lú faz as contas. Tiveram que tirar dinheiro do bolso para pagar o ônibus. A maioria dos garotos não pagou o que era preciso para jogarem o campeonato.

Fernando conta que são mais de 20 garotos, entre os mais de 100 que frequentam a escola, que não podem pagar. E eles os mantêm, na medida do possível, porque sabem o quanto o futebol é importante para esses garotos. Assim que Fernando vai para o campo treinar os pequenos alunos, dona Lú diz que Fernando quer sempre manter aqueles que não podem pagar. Algumas vezes acontece de terem que completar do próprio bolso viagens para jogos. Dona Lú diz que, não fosse ela controlar, ele deixaria que mais garotos que não podem pagar jogassem. Essa é a ocupação dos dois, dali tiram o sustento. Por isso, o controle precisa ser feito.

donalufernando 

Dona Lú com Fernando, na casa do casal em Maricá

 

Fernando orienta os garotos, mas, principalmente, os deixa brincar. Os garotos chutam a bola, que parece enorme para crianças tão pequenas. O professor para o treino algumas vezes para orientá-los. Eles jogam apenas em pequeno trecho do campo, que é muito grande para quem ainda é tão novo. Em campo reduzido, podem brincar e tocar mais vezes na bola.

No bairro em volta, todos conhecem Fernando. O professor da escolinha, marido da dona Lú, técnico dos times que jogam ali aos finais de semana, em pequenos torneios regionais. Vez por outra, uma viagem mais longa para jogar fora da cidade, às vezes fora do estado. Fernando conta que dois jogadores que ele treina farão testes no Olé Brasil, time de empresários que é sediado em Riberão Preto, interior de São Paulo. Os dois por indicação dele, que conhece o gestor do clube, um amigo com quem jogou, quando foi profissional.

Fernando e dona Lú moram a alguns quilômetros dali. Saem daquele pequeno centro comercial de Inoã, de carro, e vão pela estrada até o local onde moram. Um condomínio, em um local sem ruas asfaltadas. A casa onde vivem tem um quintal na frente, com um gramado e um cachorro. O cachorro tem um brinquedo que não larga: uma bola, murcha pelas dentadas. Fernando chuta a bola para longe e o cachorro corre para buscá-la e trazer de volta.

Sem luxo, a casa tem uma churrasqueira pequena e uma garagem coberta. O sobrado tem ainda uma varanda na parte de cima, com uma rede, propícia para aproveitar a brisa do lugar. Conseguiram a casa há cerca de dois anos, quando o dono, endividado, precisou vender e colocou a casa a um preço abaixo do mercado.

Ali vivem sós, ele e a esposa Marilu, a dona Lú, como é chamada na escolinha. São visitados por vezes pelo filho do casal, Marcos, que tem um filho, Mateus, o grande xodó de vovô Fernando.


 Conteúdo:

O milésimo gol

O início de carreira no Juventus da Mooca

A ida para o... Santos?

De São Paulo para o Rio de Janeiro

O pênalti (inexistente) do milésimo gol

Explode a crise política

Bangu, onde conhece o melhor amigo

Vitória, a grande paixão

A vida de aposentado

 


 

  

O milésimo gol

Maracanã, 19 de novembro de 1969. Noite de quarta-feira. Taça de Prata, atual Campeonato Brasileiro. Segundo tempo, 33 minutos. Pênalti. Vasco 1x2 Santos. Pelé, 1000 gols. A história está na lembrança não apenas dos 65.157 pagantes que estiveram no palco mais famoso do futebol brasileiro naquele dia, mas de todos que assistiram pela TV, ainda rara no Brasil e apenas em preto e branco, às inúmeras reprises do maior jogador da história chegando aos quatro dígitos em gols marcados na carreira – até 2007, único a alcançar tal feito. Os personagens do outro lado dessa história, porém, podem ter sido esquecidos ou então tiveram a carreira “manchada” pela ocasião, em que até mesmo muitos vascaínos torceram para que o rei do futebol se consagrasse.

Entre os antagonistas da cena, o goleiro Andrada é o mais lembrado. Como se não bastasse, para um goleiro, sofrer o milésimo gol de Pelé, Andrada ainda teve que aturar brincadeiras por parte dos torcedores e da imprensa pelo fato de ser argentino. Apesar disso, o atleta de Rosário teve sua história no clube cruzmaltino escrita muito mais por títulos e adoração dos vascaínos do que por um gol sofrido de pênalti. Edgardo Andrada começou a carreira no Rosário Central e após nove anos defendendo o time de sua cidade natal, trocou a Argentina pelo Vasco da Gama, em 1969, onde ficou até 1975.

Um ano depois de sua chegada, Andrada caiu nas graças da torcida, que gritava seu nome antes dos jogos, e conquistou o primeiro título pelo Vasco, o campeonato Carioca. Mesmo incluindo o troféu de campeão Brasileiro, em 1974, entre suas glórias, Andrada ficou muito mais conhecido, principalmente pela mídia brasileira, como o “goleiro do rei”. Se, na época, o rótulo o incomodava, hoje o ex-jogador garante que se acostumou com o fato e convive bem com o milésimo gol. Ainda assim, entre os amigos, o “consolo” de Andrada é ter saltado para o mesmo canto que Pelé cobrou o pênalti: “Seus filhos e sobrinhos pelo menos te veem na foto do gol”, dizem.

Andrada foi o maior antagonista – e por alguns centímetros não passou a vilão – daquele Vasco x Santos, mas a história também teve muitos coadjuvantes. Entre eles, Manoel Amaro de Lima, árbitro que assinalou o pênalti sofrido por Pelé, e Fernando Silva, zagueiro vascaíno que se chocou com o camisa 10 no lance e jura até hoje que o pênalti não existiu. Embora o zagueiro seja lembrado pelo milésimo gol de Pelé, ele não ficou tão marcado na história como Andrada e, depois do Vasco, construiu uma carreira notável no futebol baiano, onde passou pelos grandes rivais, Vitória e Bahia, e ainda Fluminense de Feira e Leônico, de Itaparica. E na ocasião do milésimo gol de Pelé, Fernando, por muito pouco, não estava comemorando ao lado do Rei, no Santos.

  

O início de carreira no Juventus da Mooca

Mineiro de nascimento, mas criado em São Paulo, Fernando nasceu em 1948 e esteve ligado ao futebol desde a infância, quando a bola de futebol era seu brinquedo favorito. Ele ganhava muitas delas de presente, especialmente no Natal, e a paixão cresceu ao seu lado até a adolescência. Quando já trabalhava em um banco, aos 15 anos, começou a jogar nas categorias de base do Clube Atlético Juventus da Mooca. Em um campeonato dos bancários da capital paulista, que ex-profissionais ou veteranos jogavam para reforçar algumas equipes, o time do banco que Fernando trabalhava ganhou, com jogadores de 15 e 16 anos. Entre os profissionais, o ponta-esquerda Canhoteiro, ídolo do São Paulo e que chegou a atuar pela Seleção Brasileira, foi um de seus adversários.

Na época que começou a treinar no Juventus, o jovem tinha salário próximo de Cr$ 20 do clube. Somando aos Cr$ 80 que ganhava do banco, ele dava toda a quantia à mãe, para ajudar em casa. Destaque no tradicional time da Mooca, Fernando foi convocado para a seleção paulista juvenil e conquistou o título do Campeonato Brasileiro da categoria, em uma final jogada contra o outro grande time entre as seleções estaduais, o Rio de Janeiro, pelo placar de 1 a 0. A final foi jogada em Belo Horizonte. Dessa experiência, o jogador destaca as lições que teve com o treinador Mario Travaglini, considerado um dos introdutores do “futebol moderno” no Brasil. Travaglini passou de campeão paulista e brasileiro pelo Palmeiras, em 1966 e 1967, respectivamente, para conquistar o paulista em 1982 e 1983 pelo maior rival, durante a chamada Democracia Corintiana. Nesse meio tempo, conquistou o Brasileiro pelo Vasco, em 1974, e foi supervisor técnico da seleção na Copa do Mundo de 1978, na Argentina.

 

A ida para o... Santos?

Na categoria principal do Juventus, Fernando foi eleito o jogador revelação do Campeonato Paulista, em 1967. No forte campeonato estadual, o zagueiro precisou se acostumar a marcar grandes jogadores, como Ademir da Guia, Duda e Tupãzinho, da Academia palmeirense, e o Santos de Pelé, Pepe, Coutinho e companhia. Depois de um ano com boas atuações no Campeonato Paulista, Fernando começou a atrair o interesse de outros clubes. A Portuguesa, que estava prestes a fazer uma excursão para o exterior, foi a primeira a procurá-lo e queria contar com o zagueiro já nas viagens. Com o pai, Fernando foi tirar o passaporte, mas não conseguiu. A transferência foi cancelada.

1968 

Fernando, primeiro em pé à esquerda, no time do Juventus de 1968

 

O Palmeiras também demonstrou interesse no zagueiro e o Santos chegou a dar a contratação como certa. Porém, o Vasco entrou na negociação por intermédio de seu auxiliar técnico, Zezé Moreira, que havia treinado o Juventus há dois anos e conhecia Fernando das divisões de base. O jogador lembra como era difícil, para um paulista, jogar no Rio de Janeiro, já que a rivalidade entre os dois estados era muito forte. Não fosse por Moreira, Fernando teria ido para o Santos – que acabou contratando o zagueiro Marçal – e, um ano depois, estaria comemorando com Pelé seu milésimo gol, e não “cometendo” o pênalti que resultou no gol histórico.

 

De São Paulo para o Rio de Janeiro

Ao trocar São Paulo pelo Rio de Janeiro, Fernando logo começou a construir uma das grandes amizades que fez na carreira. Era com o carioca Brito, revelado nas categorias de base do clube, com quem formava dupla de zaga. Conhecido pelo forte vigor físico, Brito era o capitão do Vasco, aparecia em listas de convocação da seleção brasileira desde 1964 e foi titular na conquista da Copa do Mundo de 1970. “Para mim, o Brito foi o melhor zagueiro central que já vi jogar. Muitos criticavam nossa dupla, falavam que a gente brincava demais lá atrás. Certa vez, o Brito chegou a me dizer que nós dois faríamos uma tabela de cabeça dentro da área”, lembra Fernando.

As “brincadeiras” remetem ao estilo de jogo que tinham, sempre evitando os famosos “chutões” para sair jogando, com a bola no chão, tocando de pé em pé. A proximidade entre eles era tão grande que Brito dizia que, no futuro, casaria com a prima de Fernando – na época, com apenas 9 anos de idade. Se a vida de Fernando estava tranquila, o mesmo não se pode dizer do Vasco.

O final dos anos 1960 no cruzmaltino foi conturbado. Se o time teve o chamado expresso da vitória entre 1942 e 1952 e ainda conseguiu duas conquistas estaduais, em 1956 e 1958, a década seguinte acabou sendo ruim para o time. O clube viveu uma escassez de talentos formados pela base. Poucos dos jogadores que vieram da antes próspera categoria de base conseguiram fazer sucesso no time de cima.

Depois de 1958, o Vasco não conseguia mais ganhar títulos. Em 1961, disputou o título até o final, mas uma derrota para o Olaria em pleno estádio de São Januário por 3 a 2 acabou com suas chances. O impacto da derrota foi sentido também fora de campo, já que as eleições estavam por acontecer. Torcida e diretoria não tinham mais paciência, e os sucessivos fracassos fizeram o time tornar-se conhecido como “cemitério de técnicos”.

Não por acaso. Entre 1960 e 1969, o Vasco trocou de treinador 22 vezes. Apenas um deles conseguiu ficar duas temporadas no cargo, Zezé Moreira, que conseguiu os poucos sucessos do clube na década. Primeiro, a conquista da Taça Guanabara, o primeiro turno do Campeonato Carioca, que classificou o time para a Taça Brasil.

Na competição nacional, o time fez boa campanha. Nas quartas de final – fase que entravam os paulistas e cariocas, considerados os times mais fortes do país -, o Vasco eliminou o Náutico, campeão pernambucano. Empatou por 2 a 2 no Recife e venceu por 1 a 0 em casa. Na decisão, porém, enfrentou o Santos de Pelé. No primeiro jogo, no estádio do Pacaembu, 16.764 pessoas presenciaram uma goleada santista: 5 a 1, com gols de Coutinho, dois de Dorval e dois de Toninho. No jogo seguinte, no Maracanã, Pelé marcou o único gol da partida e o Santos venceu por 1 a 0, conquistando o título pela quinta vez.

Em 1966, o Vasco fez boa campanha no torneio Rio-São Paulo, que, porém, acabou sendo encerrado com quatro times empatados no primeiro lugar – além dos cruzmaltinos, Corinthians, Botafogo e Santos. Pelos critérios de desempate, o Vasco tinha o maior número de vitórias, empatado com o Corinthians, e levava vantagem no saldo de gols. Como os jogadores teriam que ir para a Seleção Brasileira que se preparava para a Copa do Mundo e os times se recusaram a entrar em campo com reservas, os quatro primeiros, empatados em pontos, foram declarados campeões.

Paulinho de Almeida, ex-jogador do Vasco e que treinou as categorias de base, assumiu o time em 1968. Foi justamente o ano que Fernando foi contratado. Paulinho teria uma participação importante na história do zagueiro. Foi com Paulinho no comando que Fernando tornou-se o titular da zaga vascaína, ao lado do consagrado Brito, um dos poucos jogadores revelados nas categorias de base que conseguiram vingar. Ele e outro zagueiro, Fontana, que acabou virando reserva com a contratação de Fernando.

Em meio a tudo isso, havia uma grave crise política no clube. O presidente, Reinaldo de Matos Reis, tinha que administrar uma forte oposição contra ele. Tudo isso a dias do jogo contra o Santos. A situação era ruim em campo, com um time que não conseguia vitórias, era pressionado pela torcida, nervosa pelo jejum de títulos, e ainda tinha uma grave crise de poder no alto escalão do clube e nos bastidores.

1969 

Fernando, quinto da esquerda para a direita, em pé, no time do Vasco de 1969

 

O pênalti (inexistente) do milésimo gol

Em pouco mais de 20 anos de carreira, Pelé anotou 1281, ainda que o número seja contestado, por incluir até jogos não-oficiais. O mais lembrado – ao menos pelo número emblemático – foi o milésimo, já que fora o primeiro registro de um jogador que alcançou a marca. E ela não veio tão rápido. O Santos realizou vários amistosos para que Pelé fizesse muitos gols e se aproximasse do milésimo.

Um desses jogos foi em João Pessoa, contra o Botafogo da Paraíba, no dia 14 de novembro, quando ainda faltavam dois gols. No Estádio Olímpico da capital paraibana, até mesmo os santistas temiam que “arrumassem” os gols que faltavam para que o estádio entrasse para a história, às custas do camisa 10. Tanto que Pelé marcou, de pênalti, o terceiro gol do time paulista. Seu 999º. Logo depois, uma lesão do goleiro Jairzão quando o Santos já havia feito todas as substituições permitidas forçaram um jogador de linha a ir para baixo do travessão. Como se a intenção fosse evitar o milésimo gol, o escolhido foi Pelé. O palco não estava à altura do rei.

Dois dias depois, a equipe santista entrou em campo na Fonte Nova, contra o Bahia, pela Taça Brasil. E pagou o preço por ter desdenhado do estádio paraibano. Pelé tentou de todas as formas que pôde furar a defesa adversária e teve até uma bola tirada em cima da linha, pelo zagueiro Nildo, depois de driblar o goleiro. Assim como a torcida vascaína no Maracanã, os baianos – precisamente 37.378 pessoas – queriam ter visto o gol histórico no estádio, ainda que fosse contra seu time. Ao evitar o gol, Nildo foi vaiado por grande parte da torcida do Bahia.  Outro antagonista na partida foi o volante Baiaco, que, se não esbanjava da técnica, conseguiu anular Pelé durante todo o jogo e ainda foi o autor do gol dos donos da casa, no empate por 1 a 1 – um dos poucos da carreira do volante, não muito afeito aos gols. Três anos mais tarde, Baiaco, que evitou o milésimo gol de Pelé, formou dupla de zaga, no Vitória, com Fernando, que não havia tido a mesma sorte no desafio de marcar o Rei.

Ao final da partida contra o Bahia, sem o tão esperado gol, os vascaínos davam como certo que o mesmo sairia no Maracanã, agora sim, o palco ideal. Quem lembra muito bem os dias anteriores ao duelo é Valdir Appel, goleiro reserva, que esteve próximo de substituir Andrada e ser “contemplado” pela história. No último treino da equipe de São Januário, o argentino deixou o gramado sentindo dores no tornozelo. Virou não só dúvida para o jogo, mas também motivo de piada e provocação por parte dos outros jogadores. Enquanto Chico, o massagista, trocava no gelo no pé inchado, Andrada ouvia de todos os lados que estaria pipocando. Valdir conta que o meia Adilson ia ainda mais longe, incluindo-o no deboche. “Ei, gringo! Está com medo? Não tem problema, o Valdir joga. Já entrou pra história com aquele gol contra. Este não vai fazer diferença”, dizia. O tal gol contra aconteceu diante do Bangu. Valdir tentou lançar a bola com as mãos, mas acabou fazendo o movimento errado e a jogou para dentro do próprio gol.

Mesmo machucado, Andrada resolveu entrar em campo. E não entrou apenas para ser um coadjuvante, mas para ganhar o papel de vilão. O goleiro teve uma de suas melhores atuações pelo Vasco, evitando gol certo de Pelé, em chute com o lado externo do pé no ângulo direito, na primeira etapa. Um salto de mão trocada para frustrar todos os presentes, até mesmo os diretores vascaínos, que torciam pelo gol histórico. O limitado time cruzmaltino, que fora de campo atravessava um de seus momentos mais instáveis, equilibrava a partida contra o temível Santos de Pelé, Pepe e Coutinho. Fernando, aos 21 anos, era um dos melhores do Brasil em sua posição e um dos responsáveis por limitar o poderoso ataque paulista. Aos 17 minutos, a surpreendente atuação rendeu vantagem no placar, com gol de Benetti. Na segunda etapa, o empate santista veio em um gol contra de Renê. Uma falha de Andrada, que saiu do gol e não alcançou a bola, pegou o zagueiro de surpresa. Renê não conseguiu se esquivar e, de cabeça, mandou para o fundo do gol. Tivesse se esquivado, Pelé estava logo atrás para mandá-la para a rede e comemorar o tão aguardado gol.

O tempo passava e as oportunidades do Santos paravam em defesas de Andrada, cortes da zaga e impedimentos apitados pelo árbitro Manoel Amaro de Lima. Esse, com o poder do apito, se tornaria um protagonista poucos minutos depois. Aos 33 do segundo tempo, roubada de bola do Santos no meio campo e lançamento para Pelé. Ele caiu na área após disputar a bola com Fernando. Fernando, aquele que um ano antes, por muito pouco, não foi contratado pelo alvinegro praiano. Fernando, que poderia estar fazendo o lançamento ao rei ao invés de tentar mantê-lo longe da área vascaína. Fernando, que jura, até hoje, que não foi pênalti. O árbitro não teve dúvida: apontou a marca da cal. A bola, depois da disputa entre Pelé e Fernando, sobrou para Andrada, que a atirou no campo, com raiva. Enquanto dez jogadores vascaínos pressionam de Lima, Fidélis dedica-se a chutar a grama na marca do pênalti, deixando-a irregular para a cobrança. A torcida – local – clamava pelo apelido de Edson Arantes do Nascimento. “Pelé, Pelé, Pelé!” Era o que o maior estádio do Brasil ouvia enquanto os jogadores, em vão, tentavam fazer com que o árbitro os ouvisse.

 

1000 gol

Fernando (segundo do Vasco, da esquerda para a direita) observa Pelé na cobrança do pênalti do milésimo gol do Rei

 

Andrada, a bola, Pelé e vascaínos que esperam um rebote da cobrança. Os santistas formaram uma fila no meio do campo para que o camisa 10 corresse até eles após o gol. Não deu tempo. Com passos lentos, Pelé partiu para a cobrança, no canto esquerdo de Andrada. O goleiro chegou a tocar na bola, mais não o suficiente para evitar o inevitável. O que todos os presentes no Maracanã queriam ver. Até mesmo o árbitro. Após a partida, de Lima declarou que já poderia encerrar a carreira, porque apitara o jogo mais importante do século XX. Logo que a bola passou, Andrada socou o chão, ciente de que ficaria marcado para sempre na história do futebol. Pelé correu para dentro do gol e, de lá, saiu ainda mais lentamente depois de beijar a bola. Dessa vez, não foi com passos, mas carregado por dirigentes do Santos e cercado por jornalistas e fotógrafos. Fernando, um dos vascaínos cabisbaixos, perto da grande área, poderia estar carregando o rei do futebol. Por muito pouco. O jogo, extra-oficialmente, acabava ali. Todos já tinham visto o bastante.

 

 

Explode a crise política

Uma semana depois do famoso milésimo gol de Pelé, a crise explodiu no Vasco. O então presidente, Reinaldo Reis, tinha escapado de ser cassado em uma assembleia depois que o vice de patrimônio, o jovem Eurico Miranda, desligou a energia elétrica do lugar. O dirigente, que ficaria notório no Vasco, sempre negou o ato. O jornal O Globo publicou, no dia seguinte ao episódio, uma foto de Eurico com a mão na chave, desligando a energia. A matéria tinha como título: “A mão de Eurico”.

Só que no dia 26 de novembro, não teve jeito. Reinaldo Reis foi cassado e Agartino Gomes, então vice-presidente, assumiu. Reinaldo era acusado de corrupção e teve quase todo o conselho votando a favor da sua cassação – foram 138 votos a 13. Um massacre. A nova diretoria ainda traria de volta o técnico Paulinho de Almeida, com quem Fernando acabou se desentendendo.  Brigado com o treinador, em 1970 Fernando foi para o Bangu.

 

Bangu, onde conhece o melhor amigo

Sem espaço no Vasco depois da briga com o técnico Paulinho de Almeida, o Vasco cedeu Fernando ao Bangu. Lá, Fernando chegou a atuar como volante e jogou com Jorge Mendonça, que se consagraria para o futebol brasileiro defendendo o Palmeiras.

Foi no Bangu que Fernando conheceu um dos seus melhores amigos na carreira, o atacante Almiro. Ele tinha passado antes pelo Santos de Pelé, onde era normalmente reserva, mas que também guardou boas histórias das excursões com o time alvinegro e com o Rei.

Pelé já interveio para pedir que Almiro não fosse cortado da delegação do Santos em uma das excursões do time. Em um torneio com Boca Juniors, River Plate, Nacional e Benfica, Pelé deu uma dura no treinador que pegou no pé de Almiro e queria cortá-lo para levar outros jogadores, que estavam machucados, para a segunda parte da excursão. Pelé falou com o treinador e, sendo o jogador que era, sua autoridade prevaleceu. Almiro ficou. Tinha uma razão extra-campo: Almiro sabia falar cinco idiomas e servia como tradutor para os jogadores nas saídas noturnas dos jogadores.

Na sua casa em Maricá, Fernando falava de Almiro com alegria. Tanto que, depois de falar sobre o amigo, resolveu ligar para ele. O telefone não existia mais. Fernando, então, resolveu ativar sua rede de contatos para conversar novamente com o amigo, com quem não falava há anos. Ligou para o jornalista Mário Freitas, de uma rádio de Salvador, para encontrar o telefone novo do amigo. O jornalista é da época que Fernando jogava. Diz que ele o tratava bem e, por isso, sempre o atendia quando ele o procurava para entrevistas, na época de jogador.  Ele passou o novo telefone para Fernando.

Ao ligar, falou alguns minutos, emocionado. Com lágrimas nos olhos, me passou o telefone para falar com Almiro, porque não conseguia mais falar de emoção, chorando. “Ele foi muito importante para Fernando”, conta a esposa, dona Lú.

Almiro, por telefone, conta que Fernando tem um estilo clássico, pouco visto. Diz que um zagueiro moderno que tinha o mesmo estilo de jogo era o paraguaio Carlos Gamarra. Estilo clássico, boa saída de bola.

Almiro e Fernando dividiam o quarto da concentração. Almiro conta, por telefone, que desde 1969, Fernando é que deveria ir para a Seleção Brasileira, no lugar de Fontana. Diz que Fontana não tinha qualidade técnica para ser jogador de seleção. Já Fernando tinha estilo clássico, técnico.

Fernando não foi para a Seleção Brasileira, mas seu reserva no tempo de Vasco, Fontana, acabou indo para a Copa do Mundo de 1970. O zagueiro não conseguiu se firmar e acabou sendo substituído no time titular pelo técnico da Seleção, Mário Jorge Lobo Zagallo, que preferiu improvisar o volante do Cruzeiro, Piazza, no seu lugar, abrindo espaço para Clodoaldo entrar no meio-campo.

No Bangu, Fernando foi treinado por Evaristo de Macedo, “uma das pessoas que mais entende de futebol no país”, segundo ele disse. Viajou por diversos países do mundo em excursões pelo clube. Passou pelo Marrocos, Iugoslávia, Romênia, França, Argélia e Gana antes de voltar ao Brasil e, em 1971, disputar novamente o Campeonato Carioca.

Em 1971, Paulinho de Almeida, ex-técnico de Fernando no Vasco, assumiu o Bangu. Lá, porém, os dois não tiveram problemas de relacionamento. O treinador acabou demitido. No final de 1971, o Bangu fez amistosos com o Vitória e o atacante Almiro acabou indo para o rubro-negro baiano. Em 1972, o Vitória queria um zagueiro. Almiro contou que indicou Fernando para ser contratado. “É o zagueiro que vocês procuram”, disse ele aos dirigentes. Fernando, então, foi contratado.

  

Vitória, a grande paixão

Chegou à Bahia em 1972 e ficaria ali o resto da carreira. Primeiro, no Vitória, clube que criou laços estreitos e pelo qual nutre um grande carinho até os dias de hoje. Passou também pelo Bahia, conquistando títulos em cima do Vitória, além de Fluminense de Feira de Santana e o Leônico, clube onde encerraria a carreira.

Em sua passagem pelo Vitória, pôde relembrar o seu passado, ainda em São Paulo, quando era adolescente. Fazia pacotes dos ternos de Djalma Santos, um dos grandes jogadores brasileiros da época, quando trabalhava em uma alfaiataria. Se reencontrariam no Vitória, em 1972, quando Djalma foi técnico. Foi quando Fernando contou ao ex-lateral que tinha feito os pacotes dos ternos que ele comprava no tempo que ele era jogador.

Com pesar, Fernando conta que Djalma Santos entendia muito do jogo, de futebol. Mas os resultados não apareciam. O técnico ia ficando cada vez mais pressionado. Dizia-se que o time tinha muitos jogadores de personalidade, indisciplinados, e que por isso era um trabalho difícil para o técnico. Djalma Santos deixou o cargo. Veio Jorge Vieira, que também não aguentou o rojão. Quem assumiu o time foi uma figura presente em boa parte da carreira de Fernando: o técnico Paulinho de Almeida. Foi com ele no banco que o Vitória conseguiu engrenar.

No clube rubro-negro, formou um time com Osni, Almiro e Mário Sérgio. Foi campeão estadual em 1972, quebrando um jejum de sete anos sem conquistar o torneio. Foi um time histórico, que foi disputar o Campeonato Brasileiro de 1972, criando algumas dificuldades para os times grandes, como Vasco e Botafogo, além do Santos, mas acabaria eliminado na primeira fase.

1972 

Fernando, quarto da esquerda para a direita, em pé, no Vitória, campeão baiano de 1972

 

Voltou a enfrentar Pelé no dia 29 de agosto de 1973, pelo Vitória, na Fonte Nova, com público de 41.596 pessoas. A equipe que tinha jogadores como Mário Sérgio e Osni derrotou o Santos de Pelé, Eusébio e do técnico Pepe, por 2 a 0. Não seria a única vitória. Em novo confronto, o time acabou vencendo os alvinegros por 1 a 0.

Em um dos jogos, Fernando deu um chapéu em Pelé. Os companheiros de Fernando brigaram com ele, porque diziam que isso era provocar “o negão”. Pelé, pouco depois, dominou uma bola no peito e chutou na trave, quase marcando um gol para o Santos.

Foi no clube baiano que Fernando desenvolveu uma das amizades que mais valoriza: a com o ponta esquerda Mário Sérgio, que acabou tendo uma carreira de muito sucesso pelo Brasil. Tanto que Fernando foi padrinho de casamento dele, em 1974. E foi pelo amigo que ele passou por uma situação embaraçosa.

Fernando tinha se desentendido com Paulinho de Almeida novamente. O técnico contratou um outro zagueiro e quis que Fernando mudasse o seu lado de atuar na zaga. Ele se recusou. Disse que preferia disputar a posição com o jogador contratado. Paulinho, então, afirmou que ele seria reserva, porque o contratado seria titular. O desentendimento entre os dois levou o jogador a deixar o clube.

Foi emprestado ao Bahia, o maior rival, em 1974. E mais do que isso: acabou sendo campeão estadual pelo tricolor, justamente contra o Vitória. No casamento de Mário Sérgio, Fernando conta que houve um clima tenso, pela presença de um jogador que agora era do Bahia em meio a dirigentes do Vitória, depois que ele tinha saído de lá. E que aguentou porque era um dos seus melhores amigos.

Foi no Bahia que Fernando pôde conhecer pessoalmente Baiaco, jogador que tinha feito a implacável marcação em Pelé no jogo entre Bahia e Santos, na Fonte Nova, em 1969. Fernando conta que Baiaco era rei na Bahia e, por isso, não aceitou transferências para clubes do Rio e de Minas Gerais, como Vasco e Cruzeiro, para não perder seus privilégios.

Morava em São Francisco do Conde, a 70 quilômetros de Salvador, e preferia ir de carro todos os dias para o treino, só para continuar morando na sua cidade. Virou ídolo da torcida do Bahia por ser um marcador implacável, sendo lembrado até para a Seleção Brasileira. Marcava poucos gols, mas conseguiu fazer história no Bahia. E isso mesmo sem sequer saber ler e escrever.

Fernando conta que Baiaco dirigia e tinha carta, mesmo sem saber ler. Ele era famoso por ser um jogador muito simples, humilde, e que protagonizava cenas que faziam os companheiros rirem. Uma delas foi justamente tirando a carteira de motorista – que só conseguiu por ser jogador de futebol, influente no estado. No teste, o instrutor diz para Baiaco que faltava só ele fazer a baliza para terminar o teste e instrui o jogador a entrar no lugar demarcado e depois sair devagarinho. Ele estacionou o carro na baliza, abriu a porta do carro, e saiu andando de fininho, arrancando risadas do instrutor.

Em um outro episódio, quando o Bahia foi jogar em Belém, Fernando conta que ouviu Baiaco dar entrevista e dizer algo que, depois ficou famoso por ter sido dito por outro jogador, Claudiomiro, do Internacional. Ao desembarcar na cidade paraense, o jornalista pergunta a Baicaco sobre Belém. E ele responde: “É uma honra jogar na cidade que Jesus nasceu”, fazendo os companheiros de clube e os jornalistas rirem.

Em 1975, dirigentes do Vitória o sondaram para voltar ao clube. Ele disse que aceitaria, claro. Fernando fez o caminho inverso e voltou a vestir a camisa do rubro-negro, no segundo semestre daquele ano. Disputou o Campeonato Brasileiro pelo clube e, em 1976, foi vice-campeão estadual.

No segundo semestre, porém, foi negociado com o Fluminense de Feira de Santana. Ficou no clube até 1978, quando foi para o Leônico. No clube de Itaparica, começou a conviver de perto com lesões. Sofreu uma forte lesão no rosto em uma cotovelada, antes de começar a sentir dor no tornozelo. Desenvolveu uma lesão crônica que o impediria de treinar regularmente. Assim, praticamente não treinava durante a semana para impedir as fortes dores

Parou de jogar em 1980, aos 32 anos, por uma lesão de aquiles. Para jogar, não treinava na segunda, terça, quarta. Fazia treino leve na quinta e sexta, jogava o coletivo no sábado para jogar no domingo. O médico aconselhou a parar, dizendo que se continuasse jogando teria um problema ainda mais grave. Acabou encerrando a carreira.

Quando perguntado sobre o jogador mais difícil de marcar que enfrentou na carreira, o primeiro nome que Fernando diz é óbvio: Pelé. “O negão”, como ele diz, era duro de ser parado. Ele cita ainda Jairzinho, o furacão da Copa de 1970, como outro jogador duro de marcar. Por fim, conta sobre Roberto, centroavante do Botafogo, que foi reserva na Copa de 1970.

 

A vida de aposentado

Muitos jogadores, ao encerrar a carreira, sentem falta do mundo do futebol. Fernando diz que não sentiu. Ficou mais aliviado, porque sua rotina tornou-se um sacrifício, físico inclusive. Mas o futebol voltaria a fazer parte da sua vida, desta vez fora de campo. Em 1987, Mário Sérgio, seu grande amigo, assumiu como técnico do Vitória. Fernando tornou-se seu auxiliar.

Fernando continuaria a carreira, mas o INSS afirmou que não podia pagar o curso de técnico, que era no Rio de Janeiro. Ele, então, acabou fazendo o curso de corretor de imóveis.

Só que foi em uma área completamente diferente que Fernando foi trabalhar. Gélson, ex-goleiro, que atuou no Vitória, o chamou para trabalhar no restaurante que tinha aberto. Dona Lú diz que Fernando sempre foi bom na cozinha. Ele, cozinhando o almoço, conta que aprendeu com o pai. Ainda cozinhando, ele continuou. Disse que no restaurante aprendeu mais, trabalhando com Gélson. Pelo telefone, o ex-goleiro, que ainda vive na Bahia, foi só elogios ao ex-companheiro de trabalho fora de campo. E fez questão de dizer que Fernando era um zagueiro como poucos. Que era um ídolo do Vitória, muito respeitado por lá.

Dona Lú disse que viajaram para a Bahia, de férias, em 2006. E que ficou impressionada em ver que há pessoas que o reconhecem na rua, muitos da velha geração de torcedores. A proximidade é tanta que Fernando mostra, no seu celular, o telefone do presidente do Vitória, Alex Portela Júnior. Ele que é filho do presidente na época que Fernando foi jogador.

Com moral no Vitória, Fernando tentou intervir quando Botafogo e Fluminense disputavam a contratação de Elksson, meia do clube baiano. Um amigo de Fernando, seu atual vizinho em Maricá, onde mora, botafoguense, queria a contratação do meia. Fernando ligou para o presidente do Vitória, Alex Portela, e colocou o amigo botafoguense para falar, apresentando-o como conselheiro do clube da estrela solitária – o que não era verdade. O dirigente confirmou que o Fluminense estava tentando atravessar o negócio, mas que ele tinha preferência por negociar com o Botafogo.

Foi na Bahia que Fernando começou a sua nova carreira, de professor em escolinha de futebol. Mostra fotos do tempo que treinava garotos em Salvador, do tempo que morava na capital baiana. Voltou para o estado do Rio de Janeiro para montar uma escolinha de futebol em Maricá, Região dos Lagos.

escolinha 

Fernando orienta as crianças na escolinha

 

A escolinha, vinculada ao Vasco da Gama, passou a ser o grande xodó do ex-jogador. Ali, podia realizar-se, passando um pouco do que sabe para garotos, que, como ele, no passado, sonham em ser jogadores de futebol. Foi justamente em uma excursão com os meninos da escolinha que aconteceu o reencontro com uma parte da família, que mora em São Paulo e não o via há anos, desde que encerrou a carreira.

Só que foi por um problema com o Vasco que Fernando teve que mudar a escolinha. Com a mudança de diretoria e com Roberto Dinamite assumindo como presidente do clube, mudaram algumas políticas. Uma delas, a das escolinhas. Fernando foi chamado a São Januário, onde conhece muita gente. Disseram que o valor dos royalties para continuar com o projeto aumentou. E que seria preciso comprar os uniformes para a garotada. Fernando deixou a sala da diretoria sem nem responder, inconformado.

Recebeu, então, o convite do América-RJ. Dariam os uniformes para que ele continuasse a escolinha e criariam o vínculo com o clube, como existia anteriormente com o Vasco. Assim, o projeto continuou como escolinha, mas mudaram as cores. Agora, era tudo com o vermelho sangue do América. Fernando diz que foi tratado com carinho e atenção pelo América, por isso resolveu aceitar o convite, que não cobrava tanto pelos royalties e ainda cedia os uniformes, inclusive os de jogo. Ele diz que as camisas são lindas e os garotos acabam não tendo esse custo, o que ajuda muitos deles a poderem continuar na escolinha.

A sua vida, porém, continua ligada ao futebol. Fernando acompanha atentamente ao Campeonato Brasileiro. Na sua casa, um relógio colocado no alto da sala não esconde o seu time do coração. Vasco da Gama. Só que ele não assiste a alguns jogos do clube, mesmo sendo hoje um torcedor. Não gosta de passar nervoso.

1969 maracana 

Com a camisa do Vasco, no Maracanã, em 1969

 

Fernando liga para um de seus auxiliares, que viajou com duas categorias do time. Pergunta, ansioso, quanto foi o jogo. Desliga o telefone e diz, feliz, que uma das categorias perdeu por 2 a 1, um resultado reversível em casa, já que basta ganhar de 1 a 0. Na outra, o time venceu por 2 a 0 e precisaria apenas administrar o resultado em casa para ir à final. Com a missão realizada, volta a cozinhar, preparando casquinhas de siri para dividir com a família.

O filho, em visita ao pai, diz que tenta aprender com ele os talentos na cozinha. Termina o dia bebendo sua cerveja, com o sol de Maricá se pondo, ao lado da mulher e falando, sorridente, do neto, a sua grande alegria quando o visita. Já planeja o fim do ano, quando passará a ver o neto. Quando já terá terminado os campeonatos com a garotada da escolinha, que faz questão de vencer.

 

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