Transitando através dos 9 círculos
July 1, 2012 – 11:07 pm | No Comment

por Raquel Torres

As aflições humanas foram pouco a pouco se mesclando com a concepção do abismo cristão.  A palavra inferno perde a denotação e  assume o manto da conotação, mergulhando nas cores do dia-a-dia. As …

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Onde o Diabo não tem vez

Submitted by on July 2, 2012 – 3:21 amNo Comment

por Leandro Gouveia

 

 

Uma fumaça branca introduz o encontro com Deus na calçada do número 791 da Avenida São João, no centro de São Paulo. O churrasquinho de todos os sábados na porta da sede da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) é indefectível. O hall de entrada ainda lembra o antigo Cine Metro, que ocupou o prédio de 1938 a 1997. À esquerda, ao lado do balcão da recepção, meia dúzia de pessoas sentadas em cadeiras vermelhas de plástico assistem ao culto transmitido ao vivo em televisões instaladas no alto, aguardam a próxima sessão, esperam amigos e parentes ou apenas passam o tempo.

São quase quatro da tarde do dia 21 de abril, feriado de Tiradentes. Está chegando ao fim a pregação do pastor Jayme de Amorim, iniciada duas horas antes, no Sábado da Prosperidade. Restam poucas das 1.000 poltronas estofadas vermelhas disponíveis para a acomodação dos fiéis. No andar de cima são mais 600 lugares.

Eles cantam as músicas reproduzidas no sistema de som. São trechos de CDs lançados pela gravadora Graça Music e vendidos pela Igreja como uma das formas de arrecadar fundos para pagar as despesas mensais milionárias. Os produtos são exibidos por pastores auxiliares posicionados nos corredores à la colegas de trabalho do Baú. Enquanto isso, as letras dos cânticos se alternam em dois telões posicionados em cada lado do altar. “Tenha fé, tenha fé, a sua benção já chegou, é só você acreditar”. Quando uma nova música começa, o pastor anuncia o nome do cantor. “Oh, Jesus, mi Señor, pode ser em qualquer língua, Jesus Cristo salvador”.

Depois do ritual, o pastor Jayme de Amorim conclama os fiéis a doarem uma quantia ao som de mais uma canção. “Quem dá com alegria, irá prosperar, irá prosperar, irá prosperar”. Faz questão de enfatizar que ninguém é obrigado a fazer o dízimo e interrompe a cantoria quando vê um dos ajudantes entregando um envelope destinado aos dizimistas a uma senhora: “Só para quem pediu, não força a pessoa a nada. Fiquei até sem graça”. A música é retomada e os pastores auxiliares passam as sacolinhas de veludo vinho em formato de coador de café aos que querem ofertar pequenos valores.

Com o fim do culto, o templo começa a ser esvaziado para dar lugar aos que irão assistir à Reunião dos Jovens, às quatro da tarde. No canto direito do palco, uma bateria, um baixo e um teclado fazem os primeiros aquecimentos. Enquanto isso, uma das componentes do Ministério de Louvor, Jéssica, chama os fiéis para se acomodarem na parte da frente do auditório, em nome de Jesus. O ideal é que as cadeiras vazias não apareçam na Rede Internacional de Televisão (RIT), o canal oficial da IIGD, liderada pelo missionário R. R. Soares.

R. R. era apenas Romildo Ribeiro, um pastor capixaba nascido em Muniz Freire, quando decidiu se desvincular da Igreja Universal do Reino de Deus, fundada com o cunhado e então pastor Edir Macedo (hoje, bispo), e criar a própria denominação, em 1980, no município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. De lá para cá, tem construído um império religioso. São mais de dois mil templos abertos em todo o mundo, além da editora Graça Editorial, a gravadora Graça Music, a produtora e distribuidora de filmes evangélicos Graça Filmes, a RIT, a Nossa Rádio e a TV por assinatura Nossa TV. Em maio de 2012, a Prefeitura de São Paulo autorizou a construção da Catedral da IIGD, após oito anos de espera. O prédio será construído no número 1.101 da Avenida Cruzeiro do Sul, próximo à Marginal do Tietê, onde hoje fica a Tenda da Graça, e terá capacidade para mais de 10 mil pessoas, de acordo com o próprio missionário R. R. Soares.

Às quatro em ponto, o burburinho na plateia é interrompido pela animação da jovem pregadora: “Todo mundo em pé, batendo palma”. E todos obedecem imediatamente. Os acordes do teclado, o ritmo da bateria e a condução harmônica do baixo entram em sintonia para o início de mais uma reunião. Todos no palco são levitas, responsáveis por transmitir a palavra divina através da música.

As palavras de motivação dominam o discurso de Jéssica, feminino de Jessé, do hebraico “a graça de Deus”. “Quantas vezes o Diabo vem com tentações e faz pensar que você não pode, que você não vai conseguir?”. Apoiada pelo fundo musical, o tom da voz sobe proporcionalmente ao volume da banda até chegar ao ápice. A animadora solta a primeira nota e mostra que a afinação é um dos pré-requisitos para pregar na Igreja. “Vamos dançar na presença de Deus. Vamos fazer o melhor em nome Dele!”. A plateia, no melhor estilo micareta de Salvador, dança e pula. Até que a pregadora solta: “Quem aqui gosta de funk? Gospel, que fique bem claro” e chama a participação mais que especial de MC Dentinho, uma mistura do funkeiro Mr. Catra com o pagodeiro Netinho de Paula. O cantor tivera um Acidente Vascular Encefálico e passara a noite na Santa Casa de Misericórdia, o que não o impediu de “pisar na cabeça do Chifrudo” e cantar em nome de Deus: “Se orar, cai tudo. Se orar, cai tudo (os Capetas e os Chifrudos)”. A menção ao CEO do Inferno é uma constante. A razão de todos os males. A letra do funk segue a tendência: “Se você está deprimido e anda triste do coração, sua vida está toda atrapalhada, sem rumo, sem direção, é só doença e bebedeira, isso é coisa do Chifrudo”.

Lúcifer, o chefe dos demônios, queria ser semelhante ao Altíssimo (Isaías 14:13-14), mas foi expulso do Paraíso, depois de travar uma batalha com Miguel e seus anjos. O grande dragão, a antiga serpente que engana todo mundo foi precipitada (Apocalipse 12:7-9) e consigo levou um terço dos anjos de Deus (Apocalipse 12:4). A quantidade de seres a serviço do Tinhoso, miríades de miríades de milhares de milhares (Apocalipse 5:11), deixa claro o poder do Mal sobre a Terra. São eles que procuram e possuem os que tem o coração vazio, que ainda não aceitaram Jesus, e ainda podem voltar com sete demônios piores que eles, diz o pastor auxiliar da IIGD Wesley Batista. “Outras igrejas invocam, entrevistam o Demônio”, explica. “Mas, na Igreja da Graça, a gente manda o Mal embora às sextas-feiras através da oração em nome de Jesus”.

Sexta-feira é dia de libertação, quando todos os males são expurgados pela presença do Maioral sobre todos os fiéis. O dia 27 de abril começou frio e nublado, com uma garoa fina, na capital paulista. Mesmo com o tempo propício para um chocolate quente ou uma sopa de mandioquinha para o almoço que está por vir, os fiéis começam a chegar para o culto do meio-dia.

A sessão é aberta com a pregação do pastor Elias, acompanhado por uma bateria, um teclado, um baixo, três backing vocals e dezenas de espectadores. Entre as músicas, dignas de um show de rock, palavras motivacionais entremeadas por espasmos verbais pipocam em cada canto do auditório. São repetições das ideias emitidas pelo líder do culto ou reflexões autistas que compõem uma cama sonora interrompida por eventuais clamores mais exaltados.

Um dos fiéis sai emocionado da fila do gargarejo, acompanhado por um pastor operário. No hall de entrada, os dois se sentam frente a frente. Depois de dois minutos de conversa, voltam para o culto, que já começava sob o comando do pastor José Roberto. O intermediário de Deus inicia a sessão interpretando três trechos da Bíblia Sagrada, que também poderiam ser usados em palestras de autoajuda ou sucesso empresarial. Munido de analogias que aproximam as escrituras do cotidiano dos ouvintes, espera que eles completem suas ideias com perguntas retóricas: “Quando nós ouvimos que está vindo tempestade por aí. O que nós devemos fazer, meus amados? Nos pre… parar. E pegar o quê? O guarda-chuva”, em referência à preparação espiritual para evitar pendências com o Cão. E a cada frase que acha necessário enfatizar, aproxima o microfone da boca: “Você tem que sair daqui hoje tendo a certeza absoluta de que a sua vida sairá transformada, EM NOME DE JESUS”. O que é imediatamente respondido por inúmeros améns e glórias a Deus.

Depois de deixar claro que o Diabo não será vencido, porque já está sob os pés de todos, inicia a oração de cura e libertação, eficaz contra síndrome do pânico, medo, agulhadas na cabeça, dor na coluna, câimbra na virilha, para quem foi vítima de bruxaria, trabalho ou feitiçaria. Todos ficam de pé e colocam as mãos ungidas por palavras de fé sobre a região do corpo afetada. De olhos fechados e rodeados pelos pastores auxiliares, repetem as palavras pausadas de José Roberto: “Senhor, meu Deus, eu declaro, a partir de agora, que nenhuma dor, nenhuma doença, nenhuma enfermidade, nenhum espírito do mal ficará sobre a minha vida, sobre o meu corpo, sobre toda a minha família, em nome de Jesus. Eu declaro que eu estou sarado, curado, liberto, em nome de Jesus”. Acompanhado por uma calma trilha musical e pelo burburinho do auditório, começa a falar com Deus.

O pastor José Roberto lembra ao Pai os feitos milagrosos que já proporcionou: “Pessoas que não andavam, passaram a andar. Pessoas que não enxergavam, passaram a enxergar. Pessoas que não ouviam, passaram a ouvir”. E pede para que Ele passe do alto da cabeça à planta dos pés curando cada parte do corpo. “Glória a Deus!”. Supondo os problemas que cada um dos presentes pudessem ter, cita os espíritos da insônia, determina a cura do câncer, da tuberculose, da trombose e outras patologias que deixariam um hipocondríaco transpirando de excitação. E num brado retumbante, proclama: “Jesus, nós declaramos agora que todas as doenças, que todas as dores, que todas as enfermidades já foram levadas na cruz do Calvário, EM NOME DE JESUS”.

O pastor pede, então, que todos coloquem as mãos ungidas sobre a cabeça e inicia a oração para libertar tanto os presentes como os que estão assistindo o culto de casa. “Há pessoas, aqui, possessas, meu Pai, que estão passando agora pelo Seu poder. Passa do alto da cabeça, agora, queimando, Pai, isso. Queima tudo. Queima agora essa pessoa que foi vítima de macumba! Queima agora esse espírito de feitiçaria. Em nome de Jesus, vamos lá! Vamos, Demônio! Dê o grito da derrota, agora, em nome de Jesus. Apareça, agora! Não adianta se esconder. A unção que liberta está passando por aqui! Demônio, você que foi pago para derrubar essa empresa. Demônio, você que foi pago para derrubar essa pessoa no trabalho. Demônio, você que foi pago para derrubar esse casamento, para entrar com um espírito de infidelidade. Em nome de Jesus, vamos! Sai daí agora, Satanás! Sai daí agora, espírito imundo! Você que foi pago para destruir essa família. Sai daí espírito da prostituição. Isso, isso! Sai daí espírito do homossexualismo! Agora! Nenhuma pessoa sairá dessa igreja sem ser curada ou liberta, em nome de Jesus! Toda maldição, todo espírito das trevas, todo espírito de feitiçaria, de macumba, de trabalho, de olho gordo, de inveja, em nome de Jesus, SAI! Espírito da bebida, espírito do vício, em nome de Jesus, SAI! E não voltes mais! Em nome de Jesus!”. Se o culto estivesse sendo medido em decibéis, o pico teria sido atingido neste momento, quando a súbita calmaria volta a reinar no mundo dos mortais e resquícios de súplicas surgem aqui e ali: “Obrigado, meu Deus!”, “Aleluia!”.

A música tensa dá lugar a uma trilha confortável para que o pastor José Roberto agradeça ao Todo Poderoso. “Como é bom, meu Pai, depois de uma oração como essa, você se sentir bem, você se sentir liberto, curado, aliviado, em nome de Jesus”. A transmissão pela televisão está para acabar, mas ainda há tempo para que os operados pela cirurgia divina deem seus depoimentos. Com o auxílio de bandeiras, as câmeras chegam aos interessados em dar uma palavra. São sete mulheres, no total. A primeira, com arritmia cardíaca diagnosticada, acordou com uma forte dor no peito e declara que se sente melhor. A outra não entende. Aos prantos, começa a falar de uma casa alugada e é interrompida pelo pastor: “Mas e agora, o que aconteceu?”. Uma fibrose estava trazendo uma agonia e uma tontura maior do mundo, mas tudo melhorou depois da oração. A senhora com dor nas costas tem de abaixar para provar o milagre. A outra, com a vista esquerda embaçada, tapa a direita e adivinha os sinais que a plateia faz.

O pastor José Roberto encerra a transmissão na televisão e finaliza o culto com o ritual da entrega de dízimo. Em seguida, posiciona-se no hall da igreja para ungir todos os fiéis que passam pela porta em direção à calçada da Avenida São João. José Roberto é o responsável pela sessão do meio-dia, mas os outros horários da Sexta-feira da Libertação são comandados por Jayme de Amorim Campos, líder estadual da IIGD de São Paulo. O culto das nove da manhã do dia 18 de maio se inicia pontualmente, como de praxe. A música começa, os fiéis se levantam, batem palmas e cantam em um movimento que parece ter sido ensaiado minutos antes. À bateria, ao baixo e ao teclado somam-se um saxofone e uma guitarra. Duas câmeras fixas posicionadas no altar, eventualmente, circulam entre o público. Uma terceira, instalada em uma grua, sobrevoa a plateia e provoca a impressão de que o local é maior do que é quando visto pela televisão.

O pastor Jayme de Amorim entra no palco e começa a pregar durante uma das músicas, depois de 34 minutos de abertura. “Se não for para ficar abençoado, você está perdendo o seu tempo aqui. Se não for para ouvir a palavra, está perdendo tempo aqui”. Antes do início do culto, fora avisado por um dos obreiros que um jornalista estava presente e gostaria de acompanhar o programa de rádio, que entraria no ar em seguida, e, quiçá, conversar por alguns minutos. Mas uma espécie de ressentimento o impediu. “Sabe por que eu não gosto de dar entrevista? Porque eles falam ‘nossa, que trabalho bonito vocês fazem’ e depois no texto só fazem a crítica, só falam do dízimo”, diz apontando para o suposto único repórter do recinto, armado com um bloquinho de papel e uma caneta.

Para provar a eficácia da libertação, recorre aos tradicionais depoimentos. A irmã de Suzana usa marcapasso desde 2002 e tem de trocá-lo a cada dois anos. Depois de muitos problemas, hoje está bem e trabalhando. Elizete assistiu ao culto do pastor Jayme e pediu para que Deus a libertasse, salvasse e fortalecesse. “Porque o inimigo está sempre querendo pegar a gente”. De volta para casa, percebeu que um caroço no braço, que já a acompanhava por 10 anos, sumira. O senhor Waldemar viu o missionário R. R. Soares pregando na televisão e decidiu conhecer a IIGD. Quando começou a frequentar a Igreja, sua vida mudou. Hoje não bebe, “nem cerveja eu estou tomando”, não fuma e não joga. “Eu estava sentado na cama contando o dinheirinho que eu tinha ganhado e o missionário falou do negócio de patrocinador. Aí alguma coisa falou pra mim: ‘você está ganhando dinheiro, você pode ajudar a Igreja da Graça’”, conta em tom inocente, provocando o riso dos ouvintes. Dos cinquenta reais iniciais, já passou dos 200 mensais. Além de 10 reais na quarta e mais 10 no domingo. “Minha vida melhorou muito. Já não ando nervoso, já estou mais calmo”.

Depois do culto, o ritual da unção na porta da igreja se repete. O pastor abençoa todos os fiéis que passam em direção à rua tocando-lhes a cabeça. Uma boa oportunidade para abordar o líder espiritual, que apresentaria um programa de rádio na sequência. O último consagrado sai e eu me apresento com um aperto de mão. Como um centroavante que foge do zagueiro, Jayme de Amorim se esquiva e começa a retornar ao interior do templo. “Acho que já respondi tudo o que você queria ouvir”, refere-se aos testemunhos da última hora. Com ele, também vão alguns homens trajados de terno e gravata. “Eles são pastores da Igreja. Não vai colocar na sua matéria que eu ando com seguranças”, ironiza e retoma o passo apressado aos bastidores do auditório. A insistente perseguição continua. “Eu conversei com você por 16 minutos pelo telefone. Você não anotou? Então pronto. O pastor Gabriel pode tirar as suas dúvidas”, diz apontando para um dos obreiros. E finaliza: “Mas Jesus ama você”.

No dia anterior, o pastor fora encontrado no celular, depois de uma semana de chamadas sucessivas. Ele estivera em campanha na cidade de Osasco, na Grande São Paulo. A negativa em conceder uma entrevista começou no primeiro minuto. Mas, nos 15 seguintes, deu o próprio testemunho.

Jayme de Amorim Campos nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1958. É seis anos mais velho que o irmão, Jorge de Amorim Campos, o Jorginho, ex-jogador da Seleção Brasileira e atual treinador de futebol. Ao todo, eram sete irmãos. Duas mulheres morreram, uma delas em um acidente de carro. O pai também morreu no trânsito, quando o pastor ainda estava na adolescência, em 1975, o que agravou a sua dependência alcoólica. Aos 18 anos, a bebida já estava consumindo sua vida. O coração acelerava, o corpo tremia, acordava de madrugada com dores no peito e na cabeça. A todo momento surgia a sensação de que iria morrer. Em casa, jogava objetos para o alto. Sentia que algo de estranho estava acontecendo. “A coisa me possuía”.

A família era católica-espírita. O pai frequentava terreiros de umbanda. A mãe acendia velas para os santos da Igreja Católica, mas recorria aos orixás quando passava por situações mais delicadas. Um dia, uma mãe-de-santo disse que ela poderia perder toda a família em acidentes trágicos, caso não fizesse uma oferenda mais forte do que o trabalho que fizeram contra ela. Foi quando recebeu o convite de uma amiga para conhecer uma igreja evangélica. A partir de 1976, começou um processo de libertação e transformação na família sem estrutura, marcada pelo vício, infidelidade e tragédias.

No auge do alcoolismo, em 1978, Jayme de Amorim escapou de um acidente que matou dois amigos, mas só encontrou Jesus e aceitou a nova vida em 1983. Neste ano, foi convidado para dar seu testemunho em um programa de televisão da IIGD. Agradou tanto, que foi convidado pelo missionário R. R. Soares para continuar. Desde então, já gravou quatro CDs, apresenta um programa pela Nossa Rádio e tem seus cultos transmitidos pela RIT e pelo canal da Igreja, na TV por assinatura Nossa TV.

Jayme de Amorim garante que foi liberto da ação do Demônio pela palavra divina. “Eu não passo perto de um bar dizendo: ‘eu não vou beber hoje, em nome de Jesus’. Aquilo é como se não existisse, porque Deus fez uma nova criatura, me libertou”. Semanalmente, proporciona a mesma sensação aos fiéis da IIGD. Deus opera tanto na opressão, quando os demônios agem externamente, com tentações sobre o mal-aventurado, quanto na possessão, em que o Belzebu se apodera dos sentidos e se manifesta. Se há espírito maligno, sai.

É chegada a hora. Todos se levantam. Uma música suave começa a ser ouvida. O pastor pede para que todos abram o coração e entreguem a vida para Jesus. Passa a conversar com Deus e invoca o seu poder sobre os oprimidos, emacumbados e enfeitiçados. Concomitantemente, conversam com o Pai os desafortunados. A trilha celestial é trocada pelo som apocalíptico de tambores e cordas. “Agora eu oro por você. Eu invoco o poder de Deus sobre a sua vida. Eu levanto a minha voz na autoridade do poder do nome de Jesus. Nós oramos agora, exigindo que o mal saia. É dor na cabeça, é dor no peito, é dor no olho. Oh, em nome de Jesus, vá embora! É doença crônica, é herança genética, é lesão cardíaca. Oh, eu digo vá embora, em nome de Jesus! Saia a doença da cabeça aos pés. Nós amaldiçoamos, em nome de Jesus. Nós repreendemos, em nome de Jesus”. O burburinho que emana do auditório se intensifica gradativamente. Um senhor vestido com uma blusa de lã, o dedo em riste, os olhos fechados, ordena que o mal saia. Os pastores auxiliares circulam pelos corredores. As palavras de ordem prosseguem durante quatro minutos, até a volta da calmaria.

O pastor Jayme de Amorim pede para que os fiéis levantem as mãos e os abençoa. Quem sentiu arrepios, perdeu o equilíbrio, foi vítima de bruxaria, vê vultos, ouve vozes, tem medo ou pânico deve ir para a frente do altar para ser liberto. A área não comporta o número de desventurados, que também ocupam os corredores. O líder do culto acalma os mais temerosos e explica que o Demônio que está em uma pessoa não passa para a outra. E quando ele se manifesta, não está entrado, mas sendo expulso. “Demônio não entra na pessoa aqui não”. Recomeça a expurgação. Os pastores auxiliares se embrenham entre os sectários e seguram a cabeça e a nuca de alguns fiéis, reforçando as palavras de ordem. Um dos membros da Igreja se ocupa de dois ao mesmo tempo. “Onde estiver maldição, vai passar!”. Jayme de Amorim chama a atenção dos pastores para uma pessoa que precisa de ajuda. “Eu exijo que saia, em nome de Jesus! Queima, Jesus!”. Depois de três minutos, uma música quebra a tensão. “O nome de Jesus é poderoso, não há quem possa derrotar”. Uma senhora negra de cabelos grisalhos tem um princípio de desmaio e é amparada por um pastor. E a música continua: “Sai, Demônio, sai! Sai, doença, sai! Sai, macumba, sai! Sai, pecado, sai!”.

O sacerdote da libertação solicita os famigerados testemunhos para comprovar a potência da força divina nas orações dos últimos 10 minutos. Em ritmo de 100 metros rasos, nove depoimentos são ouvidos em 85 segundos. “Jesus opera. Algumas pessoas falam que isso é da mente da pessoa. Tem igreja que leva para o lado do sensacionalismo, que é chegar e querer explorar aquela situação. Na Igreja da Graça é diferente. Nossos obreiros vão consolar a pessoa. Dizem: ‘Jesus ama você, Deus está contigo’. Jesus quer salvar você”. De fato, o processo de expulsão do Encardido em outras igrejas é parecido, mas diferente.

À presença do bispo, que sai de trás do altar como um maestro que entra no palco para comandar os músicos, os fiéis se levantam e se seguram para não bater palmas e soltar assovios. “Deem as mãos a quem está do seu lado”. Uma série de dizeres seguem em um tom de voz que faz o microfone perder a função. Estamos no Templo Maior de São Paulo, sede da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na capital paulista. O prédio localizado no número 1.800 da Avenida João Dias, em Santo Amaro, na zona sul, impressiona pela imponência quando visto da calçada. No interior, a decoração não ostenta riqueza, mas os 14 vitrais coloridos e geométricos, a imensa cruz que perpassa todo o teto do salão e as 6.128 poltronas deixam a sensação de que se é pequeno diante de Deus.

Novamente, o Tinhoso é tido como a razão de todos os problemas familiares, envolvimento com drogas, bebidas e o Diabo. Desta vez, quem sente que está com o Rubro no corpo deve ir à frente do altar com as mãos na cabeça. “Não precisa encostar no altar, só chega perto”. Os pastores se alternam na abordagem dos supostamente possuídos. Colocam uma das mãos na cabeça dos infortunados e dizem palavras de ordem ao pé do ouvido. O bispo escolhe uma das possessas, uma mulher em torno dos 40 anos, calça jeans e jaqueta preta. Uma pegada no cabelo e a mulher se ajoelha no chão com os braços para trás. Enquanto os outros libertados voltam para os seus lugares, o líder do culto volta-se à hospedeira do Demônio e passa a fazer perguntas, respondidas com risadas estridentes. O espetáculo é assistido por toda a plateia, que vocifera clamores de extermínio. Um homem negro de meia idade com os punhos cerrados e os braços levantados se balança energicamente. O bispo então pega nos cabelos desgrenhados da endiabrada, grita palavras de ordem e, ao sinal de um “XXXÔ!”, o Sete Pele escafede-se e deixa a fiel largada aos prantos no chão de pedra acinzentada. “Dá um copo de água e pega o telefone dela”, ordena o bispo aos pastores.

Era a Reunião dos Impossíveis das sete da noite de um sábado comum. O objetivo era orar pelas causas que pareciam não ter solução. Na IURD, o dia dedicado à libertação da alma é a terça-feira, na Sessão do Descarrego. Na noite fria de Primeiro de Maio, todo trabalho do mal seria desfeito. O culto do bispo Jades é iniciado com a onipresente “Segura na mão de Deus”, uma unanimidade entre os cristãos. “Se você crê, minha filha, meu amigo nessa mão invisível, mas poderosa, levante e feche as suas mãos como se você estivesse segurando nas mãos de Deus. Conte para ele qual é a sua dor, qual é a sua aflição. Clame a Ele, chame por Ele agora”. Enquanto conversa com o Senhor, os fiéis fazem cada um a sua ligação direta com o Altíssimo. O bate-papo divino é feito em voz alta. Mais uma música começa. “Uma coisa estou sentindo aqui agora. Que Deus está neste lugar”. E é interrompida pelo líder do culto. “A única coisa que eu estou sentindo hoje é frio”. O bispo diz que tem certeza da presença de Deus, não porque está sentindo, mas porque crê. E volta a cantar com a letra trocada. “Uma coisa estou crendo aqui agora. Que Deus está neste lugar”.

Projetado em três telões, o bispo calvo, vestido com camisa e calça sociais, pede para que aqueles que já tenham manifestado com encosto ou com espíritos vão à frente do altar. “Pegue o que é seu. Não deixe nada na cadeira, não, por questão de segurança”. Também são convocados os que sentem dores, desejo de suicídio, sofrem com depressão, síndrome do pânico, insônia, veem vultos e ouvem vozes. “Se ninguém for curado, eu me recuso a continuar a reunião”. Antes de orar, o bispo pede para que todos olhem nos olhos dele pensando nos próprios problemas. “Porque os olhos de Jesus são como chama de fogo”. Em poucos segundos, um grito descomunal de sofrimento parte de uma mulher. “Olha aí. Não precisa nem orar”. Ela é separada dos demais pelos obreiros. O Cramunhão está incomodado pela presença do representante de Jesus na Terra. O bispo seleciona mais uma suposta possessa e determina em tom cândido: “Olha pra mim, senhora. Fica alguém perto dela. O Demônio que está dentro dela pode manifestar. Vamos. Sai da família dela. O chefe. Sai da casa dela. Sai do teu esconderijo. O fogo de Deus chega onde você está escondido. Pode manifestar. O chefe”. A primeira incorporada grita novamente. E o bispo continua: “Eu estou dando uma ordem. XÔ!”. Alguns suspiros denunciam o susto tomado pelo grito, que é respondido pelo Satã: “Te odeio!”. O bispo insiste: “Mais forte! Isso, o Exu que está aí. XÔ! O Exu que está aí. Espírito das trevas que está na família dela. Sai de lá e vem para cá agora”. Quem está se sentindo mal deve agora levantar as mãos para receber atenção especial. “Mas não levanta muito, senão você cansa”. O hóspede do Inferno volta a se manifestar: “SAI!”. E o esforço do bispo Jades continua: “Vamos. Eu liberto ele agora. Porque o espírito do Senhor Deus está sobre nós para libertar os cativos. Tudo que estiver escondido na mente dele. Espírito de inveja. XÔ! Eu estou dando uma ordem, estou mandando. Vamos! O cabeça! Do maior ao menor, toda a Legião do Inferno. Vamos! O chefe seja queimado agora”. Os mandos do bispo e os gritos guturais prosseguem por mais alguns minutos. Enquanto isso, os obreiros atendem os possessos individualmente, tirando as imundícies com as mãos.

A hora é agora. O bispo consagra as mãos de todos os fiéis presentes no templo para a cura e a libertação. Elas são colocadas sobre a cabeça. “Não tenha medo, pessoal. Eu vou orar forte, hein. Eu vou me dirigir ao problema, ao mal. Não tenha medo porque a gente vai fazer um trabalho pesado, mas é para limpar a sua vida. Hoje é dia de descarrego. Descarrego é tirar carga”. E inicia a oração: “Em nome do Senhor Jesus, eu me levanto contra Lúcifer e toda a sua corja, toda a Legião do Inferno. Eu me levanto agora contra todos os espíritos malignos que estão alojados no corpo, na mente, no coração dessa pessoa”. Todos mesmo. Cita os espíritos que causam todos os tipos de problemas pelos quais qualquer um pode passar. Conhecedor de todos os termos da umbanda, esconjura o Malandrinho, o Zé Pelintra, a Maria Molambo, a Maria Padilha, a Pomba-Gira Sete Saias e a Pomba-Gira Dama da Noite. Pede para que os fiéis estendam os braços em direção à própria casa. “Vamos fazer a limpeza lá, agora. Vamos fazer um pacote só”. E uma faxina geral é feita em cada residência. Os ditos pausados são repetidos pelas centenas de fiéis: “Todo o mal, todas as dores, todas as doenças que estiverem no meu corpo, na minha vida têm que sair. E vão sair! Agora!”. E prossegue: “Diga: meu Deus! Que todo o mal seja queimado, destruído. Queima! Queima!”. Clamores surgem de todos os lados. “Queimando! Queimando! Queimando!”. Os fiéis vociferam com as mãos na cabeça, acompanhados pelo bispo. “Queimando! Queima ele! Queimando!”. O momento de êxtase chega ao ápice. “Diga: em nome de Jesus! Tira as suas mãos e diga: SAIA! E não volte nunca mais”. A calma volta, mas os demônios manifestos continuam gritando ao lado do altar. “Te odeio!”. Serão libertos, em seguida.

A prática dos depoimentos também é uma tradição aqui. “Se ninguém agora der testemunho, eu saio do altar e não continuo a reunião”. O bispo declara que todos que creem estão curados e pede para que os fiéis façam o autoexame. Os que sentiram o poder de Deus sobre o corpo levantam a mão e seguem para o altar para serem ungidos pelo azeite consagrado para a dor nunca mais voltar. Uma música anima a plateia enquanto dezenas de testemunhas do milagre se deslocam para o local. Destas, apenas 16 são selecionadas para relatar a cura.

Dor de cabeça, no braço e na coluna são os problemas mais comuns. Maria não conseguia segurar nada com as mãos antes do culto. Para provar o milagre, o bispo entrega a ela um objeto dourado nitidamente pesado, que é segurado sem maiores dificuldades. Gisleine, que tinha dores na coluna, abaixa diante de todos. A professora Juliana estava há um mês sem voz e deu o testemunho. Não precisa falar mais nada. Dona Célia se emociona nas primeiras palavras. Dá todo o depoimento com a voz embargada e os olhos marejados para falar sobre as dores nas costas que exigiam a ingestão de medicamentos para realizar simples atividades. “Agora não tem nada. Se tivesse, eu gritava: ‘Ai, que dor!’”. Fernanda levou exames médicos. Estava com hidrocefalia e um tumor encefálico. Compareceu em várias reuniões de terça-feira e passou por 19 cirurgias. Na última delas, teve uma parada cardiorrespiratória e uma lesão cerebral. “Os médicos disseram que eu não andaria mais, que eu levaria uma vida vegetativa”. Hoje é formada e trabalha normalmente. Os filhos da dona Maria José discutiam a todo o momento. Sem saber o que fazer, ela ofereceu a gota do milagre aos dois. O azeite que simboliza o espírito de Deus é pingado na água trazida pelos fiéis nos cultos de terça-feira. A menina aceitou, mas o menino jogou a bebida na pia. “Mas aí eu fui esperta. Botei dentro da geladeira e ele tomou de qualquer maneira, né?”. Todos caem na risada. As brigas sumiram. “Está uma benção!”. Enquanto isso, os demônios esperam pelo exorcismo.

As endiabradas estão curvadas, com os braços cruzados nas costas. Elas são levadas para cima do altar pelos pastores obreiros, que as seguram com força. O bispo explica o processo da possessão: “Você que está aqui pela primeira vez e vê isso pode pensar: ‘mas isso aqui é igreja ou é macumba?’. Na verdade, elas não receberam nada. Isso já estava escondido dentro delas. Quando nós manifestamos a fé, em nome de Jesus, foi como uma luz se acendendo sobre elas para revelar o que estava em oculto. A sujeira apareceu”. Contrariado, o Demo responde: “Maldito!”. Mas o bispo não se abala pela ofensa: “Esses espíritos aqui não são respeitados. Não estão aqui como santos, como deuses. São demônios que nós vamos mandar para o Inferno agora”. O líder religioso pede agora a contribuição dos fiéis para expulsar o Sem-Pai-Nem-Mãe de dentro das infelizes, repetindo as palavras de ordem com as mãos estendidas em direção às aberrações: “Meu Deus, queima agora todo o mal, todos os encostos que estão no corpo, na vida dessas pessoas. Que todo o mal agora seja queimado, destruído. Queima! Queima! Queima!”. A palavra e a variante “vai queimando!” são repetidas 18 vezes. Enquanto os obreiros expulsam o chefe da Legião do Inferno, o público canta mais uma música. “Fogo no Diabo da cabeça aos pés. Quem dá fogo santo é Jesus de Nazaré”. Para ganhar tempo, o bispo interrompe a cantoria e pede para que os fiéis levem os envelopes com o dízimo ao altar. As possuídas continuam urrando em cima do palco. E a música é retomada para a conclusão da esconjuração. “Fogo no Diabo da cabeça aos pés. Quem dá fogo santo é Jesus de Nazaré”. Os pastores as tiram do altar e saem do campo visual do público.

O bispo Jades lembra que apenas um demônio não é repreendido pela oração: “O espírito devorador só sai quando nós somos fiéis ao dízimo”. O alerta é sucedido pela entrega de ofertas, a venda da Folha Universal, por dois reais, e de bíblias de 30 a 100 reais. O líder do culto pede para que todos levantem as mãos e fechem os olhos para receberem o descarrego final. Os pastores circulam pelos corredores aspergindo a água consagrada pelo bispo com ramos de trigo, símbolo da prosperidade. Os abençoados abaixam as mãos. Outros permanecem imóveis até sentirem pelo menos uma gota no corpo. A reunião é concluída com uma salva de palmas. “Vão com Deus”.

Nesta noite, os demônios voltaram para o Inferno. Os fiéis saíram pelas portas de vidro do templo, desceram as escadarias, atravessaram a Avenida João Dias em direção ao ponto de ônibus, no corredor central, e voltaram para suas rotinas.

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