Transitando através dos 9 círculos
July 1, 2012 – 11:07 pm | No Comment

por Raquel Torres

As aflições humanas foram pouco a pouco se mesclando com a concepção do abismo cristão.  A palavra inferno perde a denotação e  assume o manto da conotação, mergulhando nas cores do dia-a-dia. As …

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O mal que habita entre nós

Submitted by on July 1, 2012 – 2:41 pmNo Comment

por Rafael Aloi

 

Fortunato era um rapaz com pouco mais de 25 anos que trabalhava como michê ao redor do Parque Trianon, em São Paulo.  Forte, e com traços viris, seu físico conseguia atrair muitos clientes. Em uma noite de trabalho, apareceu Antônio e, logo depois de alguma conversa os dois foram para a casa deste, onde se sentaram no sofá e começaram a tomar alguns drinks.

Porém, em determinado momento, a conversa começou a “tomar um rumo desagradável”, segundo Fortunato: “de repente ele começou com um papo de homossexualismo. Não! Não! Eu disse que não toparia manter relações por vários motivos”. No final da noite, Fortunato asfixiou Antônio com as meias deste, enfiando-as em sua boca até quase o esôfago, depois o enforcou com a perna da calça jeans, para no final terminar de matá-lo lentamente com facadas no estômago.

Em carta deixada após ter sido preso, Fortunato disse o seguinte:” Nunca me passou pela cabeça, um ato como esse, drástico. Afinal, sempre me considerei uma pessoa normal, com gestos e virtudes como qualquer humano. Romântico, cavalheiro, penso que ninguém pode me julgar por um ato, que foi o meu caso, e achar que sou diferente em relação a outras pessoas. Eu não tenho culpa pelo acontecimento, não tenho, pois foi ele quem me convidou. Me convidou apenas para beber um drink. Foi ele quem começou, dentro da casa dele. Se tive culpa, acredito puramente em Deus.”

Fortunato Botton Neto, assassinou pelo menos dez homossexuais, entre os anos de 1986 e 1989, com basicamente o mesmo modus operanti, com isso ficou mais conhecido pela alcunha de o Monstro do Trianon, um típico caso de psicopata.


Mas afinal, o que é um psicopata?

A psicopatia é um distúrbio de personalidade, mas não é uma doença visível, porque os psicopatas são, na sua aparência, pessoas normais. Ou pessoas “assustadoramente normais”, parafraseando aqui a célebre frase de Hannah Arendt.

Segundo um dos psiquiatras forenses mais importantes do país, Guido Arturo Palomba: “Você tem de um lado a loucura, do outro lado a naturalidade, e a psicopatia está na zona fronteiriça entre elas. Da mesma forma como na natureza existe a noite e o dia, e entre elas, a aurora”. Ou seja, eles possuem algum distúrbio, geralmente de sentimentos ou de valores éticos, mas não alucinam e nem deliram, possuem bom raciocínio, e geralmente são inteligentes. Os distúrbios que envolvem estas pessoas estão mais representados nos seus atos, na sua conduta, por isso, elas também podem ser chamadas de condutopatas, e a psicopatia de ‘loucura dos atos’.

Antigamente psicopatia era sinônimo de qualquer doença mental, mas com o passar dos tempos ela se restringiu aos transtornos da personalidade. Além de ter alguns fatores biológicos, a condutopatia também tem fatores sociais, “ela é uma contingência, uma construção social não visível, uma construção clínica. Não é igual um câncer ou uma miopia, não possui existência por si só″, explica Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Porém é possível perceber algumas características em comum nos psicopatas, entre elas a falta completa de empatia e de não se importar com a dor alheia, além da frieza e incapacidade de assumir responsabilidade, a culpa sempre será dos outros, como visto no caso do monstro do Trianon. O condutopata também possui um desprezo pelas normas, o que ocasiona um maior risco de quebrar as leis, e ele se tornar um criminoso, ou um assassino.

Mas isso não significa que qualquer pessoa fria e calculista seja um psicopata, por exemplo, um corretor da bolsa ou um piloto de corridas precisa ser frio e calculista, e nem por isso são psicopatas. Existem também os psicopatas que não cometem crimes, por exemplo, existe alguns distúrbios que não levam a delitos, os chamados abúlicos, que não fazem nada, tudo que começam não terminam e acabam por cometer infrações justamente por causa da sua extrema omissão. Ou ainda os psicopatas carentes de estima, que estão sempre ensimesmados, depressivos e não são criminosos obrigatoriamente.

Outra característica fundamental é que eles são altamente egoístas. Eles só se arrependem dos atos que cometem quando saem prejudicados por alguma consequência que recaiu em cima deles. Por exemplo, ao ser questionado por um médico se estava arrependido de um assassinato que cometeu, o condutopata responde: “Claro que estou doutor! Estou há três meses preso, estão me chamando de monstro.” Ou seja, ele não está arrependido por ter feito mal, ou por ter matado outra pessoa, e sim porque as coisas deram errado para ele.

É necessário explicar que uma pessoa só é considerada um psicopata, depois de uma análise feita com a ajuda de um questionário, que não analisa uma ação ou evento isolado, porque uma atitude apenas não define o diagnóstico, e sim toda a conduta da pessoa durante sua vida, com questões que analisam a impulsividade, o desprezo por normas, se já cometeu delitos anteriores, e como dito acima, se há arrependimento após os mesmos.


O demônio está sobre eles?

Quando paramos pessoas “normais” na rua e as questionamos sobre o que é um psicopata, as respostas são basicamente as mesmas: “São o demônio. A pessoa tem o mal dentro dela. São perigosos. Com certeza devem ter feito um pacto com o diabo. Precisam ser tratadas, trancadas longe dos outros.” Um exemplo de que os condupatas simbolizam o mal, é que nas novelas agora existe o mocinho, o bonzinho, e do outro lado há o bandido, o psicopata. “As pessoas não aceitam pessoas más, justamente porque a maldade extrema foge do padrão, é anormal. E quando algo foge do padrão, as pessoas logo veem aquilo como sinal de loucura, de doença. Mas nem sempre ser anormal é ser doente”, explica Daniel Martins.

A fronteira entre a demonologia e a psiquiatria é similar entre às existentes entre a alquimia e a química, ou a astrologia e a astronomia. E segundo uma teoria elaborada por Guido Arturo Palomba, a explicação para a ligação entre o demônio e a psicopatia está no passado distante. “Loucura era a mesma coisa que uma possessão demoníaca, e foi dado um nome a isso: Epilepsia. ‘Epi’ significa ‘o que está acima’; ‘lepsis’ quer dizer ‘abater’; ‘epilepsis’ quer dizer ‘abater por cima’. Os antigos pensavam que o diabo vinha e abatia o indivíduo”.

A chamada epilepsia possuia antigamente três tipos de relacionamento: a possessão completa, quando o diabo tomava o corpo e a mente da pessoa, que era vista geralmente se contorcendo e gritando; a incompleta, quando o demônio tomava só a mente da pessoa, que ficava falando coisas estranhas, alucinando e delirando; e por último, o bruxo, o macumbeiro que tinha um pacto com o diabo.

Com o passar dos anos, a chamada possessão completa passou a ser chamada, pela psiquiatria, de epilepsia neurológica, na qual os pacientes tem crises de convulsão, mas depois que acaba, volta ao normal.

A possessão demoníaca parcial passou a ser chamada de epilepsia psicótica, quando o doente tem surtos de psicose, começa a alucinar e a delirar. Alguns casos desta epilepsia são muito similares ao que religiosos chamam das possessões demoníacas propriamente ditas.

Como exemplo pode se citar a história de uma moça, bonita, loira, por volta dos 30 anos, que teve um surto, no qual assassinou a própria mãe ritualisticamente, e depois jogou mel por cima do corpo, pois a mãe vestia uma camisola com abelhinhas. Depois  disso, matou o um de seus cachorros e arrancou a língua de outro. Após cometer estes crimes, saiu à rua vestindo diversas roupas, uma sobre a outra, e invadiu a casa de um vizinho, onde falava coisas incompreensíveis, arrancou um pedaço do próprio dedo e atirava fezes nas pessoas. No final foram necessários seis policiais para controlá-la. Hoje ela está internada num manicômio, e foi diagnosticada como psicótica, doente mental, e reconhece que sofre de surtos psicóticos.

Já o terceiro tipo, onde se encontravam os que tinham pacto com o diabo, também surgiram os psicopatas, que é chamada por alguns especialistas como epilepsia comportamental, ou epilepsia condutopática, porque a patologia está na conduta. “E muitas pessoas ligam os condutopáticos até hoje com pessoas que tem pacto com o diabo”, diz Palomba.


E onde fica a Justiça?

Como a psicopatia pode ser descrita como a loucura dos atos, que são normalmente atos anormais ou bizarros, então eles estão mais relacionados a comportamentos fora da lei. Nem todos são assassinos, serial-killers, mas há também os golpistas, aproveitadores, estelionatários. Porém, como julgar os condutopatas? Eles são pessoas doentes? Psicóticos? Precisam de um tratamento, ou devem ir para a cadeia?

O louco quando julgado vai para a inimputabilidade, a pessoa normal vai para a imputabilidade, o psicopata vai para a semi-imputabilidade, ou seja, ele vai justamente para a fronteira. Vale lembrar que os psicopatas geralmente não tem problemas em discernir o certo e o errado, praticam crimes planejados, o que mostra um certo auto-controle, e “sabem exatamente o que fazem e fazem por que querem”, diz Daniel Martins. Porém, ao mesmo tempo, ele não é uma pessoa normal, pois possui diversos distúrbios, como já apresentado antes.

Resumindo o caso, na verdade não há uma resposta definitiva sobre como o psicopata deve ser julgado, a solução correta depende de cada caso em específico. O Código Penal de hoje diz, para fins penitenciários, que o individuo que foi para a semi-imputabilidade, ou é igualado ao criminoso comum e vai para a cadeia, ou é igualado ao doente mental e vai para a chamada medida de segurança, vai para uma casa de custódia, os antigos manicômios judiciários.

A definição acaba caindo nas costas do juiz que pegou o caso, que sempre é ajudado por peritos que assinam laudos dizendo se o criminoso está mais próximo da zona fronteiriça da normalidade, ou da anormalidade.

Na medida de segurança, o psicopata só volta  para a sociedade depois que cessar a periculosidades dele. “Ás vezes não cessa nunca, e ele nunca volta pra sociedade. Ao passo que na pena corporal [cadeia], se o juiz deu dez anos, acabou os dez anos ele tem que voltar para a rua, tendo acabado a periculosidade ou não.” explica Guido Arturo.

Tomemos como exemplo o caso de Fortunato Botton Neto, ele praticou por volta de doze homicídios, porém foi julgado por apenas um, e pegou uma pena de 20 anos, mas ficaria na cadeia apenas por um terço da pena, e já estaria de volta às ruas. Porém, ele acabou morrendo de Aids, no Carandiru.

Um dos problemas que ocorre é que durante um julgamento, principalmente se forem casos que se tornaram muito populares, o promotor público acaba jogando muito com a plateia, com o apelo público, e acaba por muitas vezes não escolhendo a medida de segurança, “porque as pessoas acham que medida de segurança é absolver o criminoso, só que não é”, explica Palomba.

Pode-se pegar de exemplo outro caso, o do estudante de medicina, Mateus da Costa Meira, que descarregou um pente de metralhadora dentro de um cinema na zona sul de São Paulo, matando três pessoas e ferindo outras cinco. Ele pegou 136 anos de cadeia, pois foi dado como normal. Apesar de ter recebido uma pena corporal de mais de cem anos, com bom comportamento, e outras atenuações, ele precisaria cumprir apenas dez anos dela dentro da cadeia, e já estaria de volta às ruas. Só que ele cometeu um outro crime dentro da penitenciária, e foi dado como doente mental e enviado para a medida de segurança.

Se ele tivesse pego a medida de segurança, a pena inicial é de apenas três anos, prorrogáveis por mais três, e assim o criminoso fica na casa de custódia, por 30 anos, ou até a vida toda, e não retorna às ruas. O promotor do Ministério Público recebe mais prestígio, é mais aclamado pela opinião publica se conseguir como pena os mais de cem anos na cadeia, “que o psicopata não vai cumprir, vai cobrir só dez, enquanto que no outro ele fica pro resto da vida, só o inicial é baixo”, completa o psiquiatra forense.


Mas e nós, como nos protegemos?

Não existe uma forma de se proteger de um psicopata, justamente pelo fato deles agirem como pessoas completamente normais, não alucina, não delira, é inteligente, então nunca são destacados em um grupo de pessoas como alguém perigoso, bizarro, ou anormal. As pessoas normais simplesmente não percebem que estão sentadas ao lado de um psicopata. Muito diferente de quando sentamos ao lado de um louco que começa a delirar e alucinar. Este sim, logo se destaca e todos se distanciam dele. O psicopata possui aquele plano de te enganar, de te iludir, faz um teatro, e você nunca percebe e cai no golpe dele.

Algumas pessoas chegam ao extremo de pensar que qualquer pessoa que faz algo de ruim é um psicopata, que qualquer assaltante, traficante, delinquente é um psicopata. Algumas levam a expressão ao extremo, chamando pessoas que terminam um relacionamento de psicopata, ou mesmo quem resolve praticar um aborto.

O que temos que perceber é que o psicopata não é qualquer pessoa que comete uma infração, um deslize, mas sim alguém que não compartilha dos sentimentos que outras pessoas normalmente sentem pelos outros. É alguém que deseja tão intensamente alguma coisa, que acaba-se gerando um distúrbio neste querer. Alguém que não mede esforços para fazer aquilo que quer, e pratica seus crimes com uma razão clara e não se importa em repetir aquilo que lhe faz bem, mas prejudica os outros. Como disse o Monstro do Trianon em famoso depoimento a um canal de televisão: “Matar é como tomar sorvete: quando acaba o primeiro, dá vontade de tomar mais.”

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