Sexta-feira Santa: a luz encardida da Augusta

por Anna Carolina Mello, Érica Chaves e Paulo Gama

Entramos: cinco reais, uma cerveja e um "drink". Era Sábado de Aleluia. A luz da casa era toda vermelha. Não sei se era o ranço deixado pelas sirenes do lado sujo da rua, mas aquilo não correspondia ao clima sensual que se espera de uma "casa da luz vermelha". A cor de sangue escorria pelos sofás, pelo tapete, no ar, por toda a casa. Tudo para seduzir, mas sem muito efeito. Um rubro sem luxúria. Um rubro sujo. Escuro. Esfumaçado. Na verdade, a sujeira desbancava a sedução. As putas, fedidas, bêbadas, caçavam! Nelas, o vermelho passava desapercebido, pareciam não ter cor. Imploravam um pouco de dinheiro. E se não quisesse ir para a cama com elas, não ficavam bravas, mas arriscavam um segundo pedido: me paga uma bebida, então? Assim que nós entramos, duas delas puxaram eu e meu amigo para um canto:

- Quantos programas você já fez hoje? Uns cinco? Perguntei, inocente. Ela deu risada.
- Cinco? Fiz pra mais de quarenta. - Isso porque deviam ser só umas duas da manhã.
- Tô aqui desde cedinho. A gente não descansa não! Ela explicou.
- E o que você gosta que um homem faça com você?
- Eu gosto é de dinheiro. Eu quero que se foda o que um homem faz comigo!

Demos o "drink" para elas e fomos embora. Saímos dessa casa e entramos em outra, bem maior. O preço era o mesmo, mas tinha mais mulheres, mais bonitas, mais articuladas, mas não menos bêbadas. De novo, era a mesma luz suja e escura que iluminava o ambiente. Mas diferente da sensação que a cor da casa deixava, o vermelho das garotas, apesar de decadente, dessa vez seduzia. Maquiagem forte, batom na boca, roupas instigantes. Finalmente o vermelho resgatava sua luxúria, ou trazia ao menos uma lembrança dela.

Levantei, curioso, e fui para os fundos da casa onde ficam os quartos. Um corredor, várias cabines, com divisórias que chegam até o teto - quase uma linha de produção. Nada que lembrasse o clima de meia luz, quente, que se espera de um espaço reservado para esse fim. Ao contrário. No corredor dos quartos, a mesma luz branca de escritórios e consultórios. Na hora que conquistam um cliente, as putas passavam no caixa entregavam a comanda do cliente, onde eram anotadas - uma cerveja, um uísque, uma mulher -, e pegavam sua embalagem com acessórios: duas toalhas, dois sabonetes, uma camisinha e um pote de lubrificante. O trato não tinha nada de vermelho.

Fomos para outra casa. O vazio dela impressionava. Não tinha nem as garotas de sempre, nem os costumeiros homens que freqüentam esses lugares em busca de tonalidades mais avermelhadas para suas vidas em preto e branco. Lá estávamos apenas eu, meu amigo e o barman. Reclamei na portaria. O atendente mandou, então, entrar uma menina. Só uma menina, que devia ter uns 16 anos. Ela já estava trocada, de calça jeans e blusinha, pronta para ir embora. Parecia não querer voltar ao mundo vermelho da noite que acabava de chegar ao final. Tentei trocar umas palavras, mas ela não respondia nada direito. Percebi que estava meio impaciente e falei que só queria conversar, mesmo. "Não vai pagar pra me comer? Então dá licença..." e saiu de perto. Avisei meu amigo que eu estava indo embora.

Enquanto eu ia subindo a Augusta, o sol nascia. A cor que sobressaía não era mais o vermelho - escuro e sujo de dentro das casas, ou quente de algumas prostitutas. Agora o clarão do sol era o principal. Nas portas, estavam as mulheres todas trocadas, perfumadas, de banho tomado, se despedindo, boa Páscoa, tudo de bom. Bêbadas, acabadas, mas dando risada. O vermelho tinha ficado lá dentro.