
A cor da pele é a cor do demo
por Eduardo Campos Lima
“A dança é que é boa,enfeitar-se, avermelhar-se, emplumar-se, tingir-se com urucum as pernas”
Essas são algumas palavras de Guaixará, um dos demônios do Auto de São Lourenço, peça teatral do padre José de Anchieta. Escrita em tupi no século XVI, auxiliava na conversão dos índios brasileiros e fazia prescrições do que devia ou não ser feito por eles no dia-a-dia. Em sua cataquese, Anchieta utilizava um recurso muito simples: colocava na boca dos diabos tudo o que considerava pecaminoso dentre os costumes indígenas. O urucum estava na lista negra. “Seu uso foi, desde o começo, visto como hábito nefasto e demoníaco”, explica Eduardo Navarro, professor de tupi da USP.
Era um ritual diário, como vestir-se ao acordar. Quase todos os povos indígenas da América passavam urucum no tronco e nos membros, cobrindo praticamente o corpo inteiro com o óleo das sementes da planta. Descrito no século XVI, o urucum recebeu o nome científico de Bixa Orellana, em homenagem a um de seus observadores, o navegador espanhol Francisco de Orellana. Além de proteger a pele contra o Sol, o pigmento também afastava outros perigos, como picadas de insetos e os terríveis espíritos malignos da floresta, conhecidos como anhanga.
“Toda a vida dos indígenas brasileiros se baseia em uma estrutura de caráter religioso – até hábitos mais simples”, conta Navarro. O tingimento diário também tinha fundo ritualístico: o vermelho se relacionava ao sangue, ao poder vital do guerreiro, à força espiritual. Para alguns povos, ainda simboli–zava agradecimento aos deuses pelas colheitas e pela saúde.
Para os europeus quinhentistas, porém, o vermelho pa–recia a cor do demônio. Tentativas dos missionários de desen–corajar o uso do urucum - como a peça citada – não tardaram. E foram justamente os religiosos – sobretudo os jesuítas – que tomaram maior susto. “Após o uso contínuo, o urucum entope os poros e não sai mais, deixando para sempre a pele averme–lhada”, afirma Navarro. Os índios, mesmo convertidos ao cristianismo, longe dos antigos hábitos bárbaros, ainda carre–gavam as marcas dos pecados do passado. Daí a designa–ção peles-vermelhas, segundo o folclorista Câmara Cascudo.
A cultura indígena foi destroçada, milhões deles foram mortos, centenas de anos se passaram. Entretanto, quase todas as tribos remanescentes continuam a utilizar o urucum – ao menos ritualisticamente – e a planta passou até mesmo a ser utilizada em cosméticos – se não pelas suas propriedades medicinais, ao menos pela sua cor vermelha inigualável.