
A cor do (im)pacto
Desde tempos remotos, a cor vermelha teve forte valor ritualístico nas sociedades ao redor do mundo. As ondas vermelhas são as mais largas do espectro de cores visíveis; maiores do que elas, somente as denominadas infra-vermelhas, sensíveis ao homem sem equipamentos apenas em forma de calor (não à toa, o vermelho é costumeiramente dito uma cor quente). Sendo assim, o efeito da percepção visual do vermelho aos seres humanos é marcante, e isso se traduz na sua simbologia.Talvez pelo próprio fato de ser diretamente associável ao sangue - quente na substância e na cor - o vermelho simbolizou ao longo dos séculos laços e pactos.
Os exemplos de associação sangüínea são diversos, desde os simplórios pactos de sangue que até hoje vemos crianças fazendo em filmes até os dolorosos rituais de circuncisão e subincisão dos aborígenes. Tais cerimoniais são feitos nos adolescentes do sexo masculino sem qualquer tipo de anestesia para representar o que a menstruação naturalmente simboliza para as mulheres, isto é, a passagem da infância para a fase adulta. Neste processo, a criança é incluída, enfim, na sociedade e considerada parte ativa dela.
Além da associação com a carne, o vermelho foi valorizado em diferentes culturas de formas diferentes - às vezes até mesmo de duas formas opostas dentro do mesmo conjunto cultural. A dificuldade em se extrair os pigmentos escarlates para tingir roupas na Europa fez com que os mantos dos reis europeus e as vestes de papas e bispos fossem desta cor, expressando sua superioridade temporal, espiritual e, em ambos os casos, financeira. Vale lembrar que a sanha européia pelos corantes avermelhados levou à forte valorização do pau-brasil no século XVI - e o conseqüente desmatamento da Floresta Atlântica. Por outro lado, o próprio corpo eclesiástico associava o vermelho ao inferno e a uma ampla gama de pecados, como a volúpia e a ira. Ao chegar em terras brasileiras, os portugueses não demoraram a associar os nativos ao demônio, com seus corpos nus pintados de urucum. (veja mais no site).
Enquanto isso, no Oriente, a cor vermelha continuou, de modo geral, ligada a aspectos positivos e de grande difusão. Rubras eram as roupas para celebrações de paz e boa sorte para os chineses, como acontece até hoje nas festividades do ano novo. Já para os indianos, simbolizava pureza espiritual.
Mas o panorama simbólico do vermelho pareceu se alterar no mundo ocidental a partir da Revolução Francesa. "Le rouge" era uma das cores da tríade representativa do movimento revolucionário - símbolo da fraternidade, da união pelo sangue do povo francês. Desta forma, o que antes representava o estabelecimento de laços aristocráticos passou a ser um dos estandartes da democracia e da igualdade de condições. Da herança de ruptura (com as estruturas) e união (daqueles que não participavam do poder) de 1789, o comunismo organizado tomou também a cor, à qual é até hoje vinculado.