
O vermelho na Igreja Católica e na Bíblia
por Henrique de Brito
A Igreja Católica usa vermelho para simbolizar martírio, paixão (sofrimento) e morte, porque essa é "o sangue derramado pelo Cristo" ou dos que morreram por ele. Na celebração da Paixão (morte do Cristo) - que são o Domingo de Ramos (uma semana antes da Páscoa) e a Sexta-feira Santa -, os padres usam a estola (fita larga usada sobre a batina) vermelha. Em qualquer celebração em honra a algum santo que foi martirizado, a estola também é vermelha. Além disso, missais trazem indicações para uso do vermelho em honra a São Paulo e a todos pontífices; e ainda depois da Páscoa até Pentecostes (vinda do Espírito Santo na forma de labaredas de fogo aos apóstolos de Jesus).
Na Bíblia, as citações a vermelho são muitas e diversas. E como tudo nesse livro, passaram por vários percalços no caminho - dando conotações múltiplas aos siginificados e até às prórpias tonalidades, porque são quase todos escritos em que a simbologia conta muito.
No Novo Testamento (NT), o Apocalipse de São João traz um cavalo vermelho (ou avermelhado, vermelho-afogueado, depende da tradução; em latim rufus, em inglês reddish) (Apocalipse, capítulo 6). Apesar da violência que demonstram os versos
"Quando (o Cordeiro) abriu o segundo selo, ouvi o segundo animal exclamar: Vem! Então surgiu outro cavalo, vermelho. Ao que o montava foi dado o poder de tirar a paz da terra, para que se matassem uns aos outros, e uma grande espada lhe foi dada.",
eles não têm valor de morte ou sangue. O cavalo é o intelecto dos membros da Igreja (cristã) primitiva, e vermelho é a natureza do que está relacionado ao bem. Matar-se uns aos outros seria a extinção de todas as verdades (para dar lugar a uma nova). É comum na Bíblia a associação do vermelho à chama divina (o Espírito Santo),e a passagem não foge disso, aqui escoltado pelo branco da luz divina (outra associação recorrente).
Acompanham o cavalo vermelho outros três animais, um branco, um preto e um amarelo (embora, esse último já tenha sido até verde; em inglês, pale). Agatha Christie, famosa escritora inglesa de romances policiais, tem um livro, Cavalo amarelo, em que usa essa mesma passagem no desencadeamento dos assassinatos (quem monta o quarto cavalo, amarelo, é Morte em pessoa). Mais para frente, em uma passagem bastante conhecida, João fala de um dragão vermelho(-afogueado) que aparece para uma mulher "vestida de sol" que dá a luz um varão que "deve apascentar todas as nações". O verme tenta comer o menino, sem sucesso (Apocalipse, capítulo 12: versos 1-6).
No velho Testamento (VT), o profeta Isaías cita a região de Edom (Isaías 63: 1-6). Um homem vem de Edom com vestes vermelhas (carmesins). Ele vem de vermelho (tanto o lugar de origem como as roupas que veste) tingido do sangue dos povos que subjugou. Fala de justiça. Suas roupas têm essa cor porque ele pisou sozinho vários povos, e "o sumo deles manchou todas suas vestes". Ele diz às cidades de Sodoma e Gomorra que seus pecados escarlates se tornariam brancos como a neve, mas só se as duas cidades escutassem a Deus (Isaías 1:1-20).
Em todo VT, o vermelho é o bem constituinte da vida. Todo bem flui do amor, que, por sua vez, é o fogo celestial e espiritual (novamente). O amor também é comparado ao - e até chamado de - fogo (não só no VT, não só na Bíblia) ou de sangue (assim, já que tanto sangue como fogo são vermelhos, o amor seria também vermelho).
Esaú (que significa peludo), primeiro neto do patricarca Abrão e irmão gêmeo de Jacó, era ruivo e peludo. Ele era chamado de Edom (ruivo ou ainda vermelho, também o nome de um lugar). Ele vendeu seu direito de primogenitura a Jacó, chamado Israel (daí o nome do Estado que os judeus criaram), que, certa vez, lavou suas roupas em sangue de uvas, para seus olhos ficarem mais vermelhos que o vinho (vinho e sangue de uvas são o Bem Divino e a Verdade Natural) (Gênesis 49: 11,12).
No livro do Êxodo, Deus passa a Moisés uma série de instruções para a conduta do povo. Isso inclui cobrir altares e casas com peles de carneiro vermelhas (Êxodo 25:5; 26:14; 36;19). A cor simboliza o bem que emana do Senhor e seu Reino. As peles também entram nas oferendas que deverão ser arrecadadas entre os fiéis (35: 5-7, 23). O vermelho tinha forte conotação sagrada e era usado na cobertura dos tabernáculos, os altares judeus, assim como púrpura e violeta.
E não pára por aí. Mas a discussão de todas as citações de vermelho (ou tons semelhantes) na Bíblia levaria horas, e a discussão de seus significados não teria fim.