A cor que não se via

por Marana Borges

A gota vermelha se agigantava com os segundos. Ia formar uma bolha, ia explodir, certeza. Era grossa, espessa. Ia dar bolha diferente das de sabão. Bolha daquelas, que iria se formar, não agüentaria pressão do vento. Porque era outono, o comecinho, mas já se via mulheres apanhando ligeiras as saias que voavam junto com a estação, as folhas secas, enrugadas. Na verdade, o homem não notara. Dirigia o carro sem óculos, mesmo tendo 73 anos. Eu ia ao lado, quieta, me contraindo toda pra perto da porta. Testa franzida de espanto, voz gaguejando o sotaque dos que falam envergonhados: “Ô, Seu Gilmar, acho que o sinhô tá cum arranhãozinho no braço direito”. “Isso foi agorinha ali, a corrente do cachorro me rasgou. Não é nada, não”. O homem passou a mão esquerda sobre a ferida, arrancou a pelinha fina de cima. Abortou minha bolha mal nascida. A essa altura sangue não cabia mais no braço, não se sabia mais o que eram pêlos e o que era a pele. Buraco se escondeu debaixo da sangria. “Um dia seca”, o senhor deve ter pensado. Secou foi o sangue na sua mão esquerda, e toda vez que ele dava tapinhas nos meus ombros eu previa suas impressões digitais tatuando vermelhas as mangas brancas da minha camisa. Brancas também eram as botas, os aventais, as máscaras e as toucas dos 38 funcionários do Americano, que desde 1965 abate frango no Cambuci. Nos anos 70 uma lei federal proibiu matadouros na cidade. Americano foi um dos únicos que ainda continuou aberto. Seu Gilmar conhecia o dono e o convenceu a me deixar fazer uma visita ao local. As paredes meio brancas, meio pretas de sujeira – a velhice também tem seus dias. No ar, penas alvas entravam no nariz e davam tosse. Eram oito da manhã, mas o cheiro não lembrava hortelã amanhecida: era coisa morta mesmo, quase moída, arrancada. Galinhas e galos eram da mesma cor, da mesma não cor, porque era tanto o branco que cheguei a pensar que faltasse cor ao lugar. Se diferenciavam porque o macho tinha a crista – vermelha - mais avantajada, a ostentava amarrotado entre asas e pés de outras aves no caixote. O caminhão chegava às sete de Mococa e trazia a multidão cacarejante em centenas de caixas.

Estavam todos entristecidos. A gripe aviária não vai chegar ao Brasil, diziam, mas o povo sabe como é, né? Tem medo, deixou de comer frango. A exportação caiu, toda a produção se voltou para o mercado interno e o preço despencou. Sem calculadora, Seu Gilmar, que há 55 anos trabalha no ramo e em mais de meio século aprendera as astúcias de mercador, disparou: “O frango abaixou mais de 60% o preço, o saco de milho com 60 kg caiu de 20 pra 7 reais e trinta centavos”. A desgraça era tanta que um granjeiro desesperado enterrou 60 mil pintinhos vivos. “Pra num perder dinheiro, ué”. Estavam todos lamentando, os de branco e aqueles que vinham em suas peruas cambaleantes, quase baleadas, buscar frango já no pacote. Seu Gilmar andava em nostalgias, dó dos granjeiros. Tanto que trouxe no banco traseiro do carro um álbum vermelho de fotografias. A capa não era de veludo, mas papelão tingido. Em poses majestosas, as pessoas das imagens testemunhavam a inauguração de seu primeiro abatedouro, em Cabreúva. Chamava-se Frambóia, referência a Flamboiã, nome de uma árvore de belas flores. Vermelhas. “Lá já chegamos a abater 10 mil por dia”.

Em Americano, as galinhas só começavam mesmo o esperneio quando suas bundas ficavam pra cima, os pés pendurados, cabeças pra baixo. Aquele cabide ia andando, vinha um banho com descarga elétrica que amolecia as consciências, e depois, uma por uma, as galinhas caíam nas mãos de uma mulher, que algumas vezes também podia ser homem, mas cuja função era simplesmente cortar com lâmina três mil goelas por dia. Os animais ficavam atrás de telas de alumínio, mas de lá deviam sair algumas gotas vermelhas, devia formar algumas bolhas, creio eu. Depois de depenadas duas vezes por máquinas com borrachas, tomavam mais banhos e iam para o corte. Quando saíam de dentro do maquinário pra caírem novamente nas mãos dos homens, que em grande parte das vezes eram mulheres, só se via a não cor. Carne fraca, carne branca. Cortavam os pés, não saía sangue; já haviam cortado a cabeça, e então maquinário também dava outros banhos gelados e empacotava. “Eu mesma num gosto de ver essas coisas, não. Tenho dó, dá pra ver que o bicho num quer morrer”, disse Francisca, há 35 anos funcionária da administração do abatedouro. “Mas você come frango?” , “Ah, sim, comer eu como sim”.

Morte também perdeu a cor. Vermelho lavado, expulso, esfregado. Walter Benjamin percebeu que já no século XIX os velhos não morriam mais em casa, nem davam seus conselhos derradeiros. Eram internados em quartos brancos de hospitais de corredores brancos, até que ouvissem o apito da Dita Cuja. “Hoje, os burgueses vivem em espaços depurados de qualquer morte e, quando chegar a hora, serão depositados por seus herdeiros em sanatórios e hospitais”, escreveu. As instituições higiênicas que foram construídas buscavam, acima de tudo, a não cor. Ali, num bairro da maior cidade do país, a morte higienizada, maquinal, o vermelho escondido, inferido: a cor que não se via.

[CORTAVAM OS PÉS, NÃO SAÍA SANGUE; já haviam cortado a cabeça, e então maquinário também dava outros banhos gelados e empacotava.]