
Pingos de bronze
por Pollyanna Cruz
Foram poucos segundos entre o vermelho que se via até perder a consciência.
Na casa de campo, o doutor Lauro César era mais um entre os camponeses da região. Passeava a cavalo, nadava no rio, deitava na grama e contava estrelas. Era bom estar longe das agitações urbanas!
Com esse espírito, resolveu passear sozinho pelos morros verdes iluminados pela luz amarela da tarde que nascia. Andara pelas matas sem temer os bichos escondidos entre bambuzais, apoiando-se na terra e nas vegetações baixas sempre que a encosta mostrava-se mais íngreme. Ao chegar no topo, sentou-se perto de um pé de araçá com frutos ainda verdes e olhou as árvores dançarem ao vento: isso anunciava que começava a tardar e era hora de descer.
Decidiu-se por um caminho diferente partindo pelo outro lado do morro, que devia dar numa estrada que o levaria para casa. Não foram muitos obstáculos, faltava apenas atravessar uma curva do rio para dar mais à frente com a estradinha de terra batida. Arregaçou a barra das calças e, passo a passo, atravessou o rio. Próximo à outra margem, sentiu o objeto ferir seu pé: a garrafa de cerveja quebrada ao meio que rapidamente soltou-se dele e seguiu virando a curva até perder-se de vista.
Lauro, por sua vez, teve tempo de sentar-se na beirada do rio antes de perceber os jorros de sangue que saiam de seu pé formando um arco invertido e empinado. A partir daí foram poucos segundos entre o vermelho que se via e as formas negras que se impunham aos sentidos. Era um cirurgião, operava corações, nunca se importava com sangue nessas situações, mas ali era quase irracional, antes que pudesse refletir, as náuseas tomavam conta de si, era um cirurgião, sabia que o corte cicatrizaria em alguns dias, mas ali já vomitava, era um cirurgião, percebia que os batimentos vinham numa seqüência fraca e só conseguiu pensar nos raios vermelhos da tarde morrendo refletidos na garrafa de cerveja quebrada que se despedia no rio, antes que desmaiasse.
E o sangue saiu... sozinho.