“As paredes têm ouvidos”, dizem. Elas podem escutar conversas, brigas, cantorias, orações, “causos”, lamúrias, segredos.... Chegam até a compreender contextos sócio-político-econômico-culturais.
Mas as paredes também têm boca. Através da pintura desbotada ou retocada tantas vezes, da marca que a criança fez ao se medir, da esquadria de madeira maciça ou de alumínio, do reboco que nunca foi coberto com massa corrida e de tantos outros pequenos detalhes, as paredes falam, contam histórias desse e de outros tempos, vividas pelas mais heterogêneas personagens – dentre elas, a própria cidade.
Deixe o olhar passear pela arquitetura que dá contorno às ruas, avenidas, vielas e becos de São Paulo, e prestar atenção ao modo como são apropriados seus 1.524 km2 de espaço físico.
Converse com a Sampa dos cortiços, favelas e Cingapuras. Bata um papo com os prédios antigos, que apesar de não serem devidamente reconhecidos e tombados, mantêm seu valor histórico.
Dialogue com aquela avenida a perder de vista que um dia abrigou um imponente casarão estilo colonial, ou com o bairro que relembra com certo saudosismo os seus tempos de chácara.
Ouça as reclamações de praças e outros projetos que nem sabem direito a que vieram e que são apontados como os responsáveis pela degradação da paisagem urbana.
Leve até um gravador para registrar o que tem a dizer o espaço que se cria todos os dias, aqui e ali, sem definição, por aqueles que não têm um endereço para chamar de seu.
A reportagem do Claro! decidiu fazer exatamente isso: sair às ruas pra ouvir essas histórias e, assim, conhecer como as pessoas se organizam no espaço da cidade, como ele próprio se organiza – ontem, hoje e, quem sabe, amanhã – e, ainda, como moradores e moradia se constroem, mutuamente, criando mudanças e sobrevivendo a elas.
A cidade, enquanto organismo vivo, tem deficiências, feridas, cicatrizes e rugas de expressão que, assim como em nós, seres humanos, tentam ser escondidas