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Não pode, mas eu faço...

pois não

chic é dizer não

não há Não que resista ao Sim

Não verás, não dirás, não pecarás

não sei se digo sim, se digo não...

"quem mata é Deus; eu só dava uma força"

pequenos ditadores: o "não" mais que necessário

nas artes é proibido proibir

 

 

Nas artes é proibido proibir

Por Arnaldo Gonçalvez e Michel Z. Al-Assal

Seguir imposições, regras, preceitos? Claro! que não. Seja em relação às normas acadêmicas, às velhas estruturas econômico-sociais ou aos tabus comportamentais, a arte assume seu papel histórico de contestar, negar ou questionar supostas verdades arraigadas na sociedade.

No fim do século XIX, a academia ainda promovia os ideais da Renascença, determinando que o tema da arte deveria ser nobre ou instrutivo e que o valor de uma obra poderia ser julgado pela sua semelhança descritiva com o real. O pontapé inicial para a rejeição aos valores vigentes foi dado pelo Impressionismo.

A escola nasceu em 1874, quando um grupo de jovens artistas de Paris decidiu realizar suas próprias exposições, já que suas obras não entravam nos salões oficiais. “O que unia esse grupo de artistas era sua rejeição ao establishment da arte e seu monopólio sobre o que podia ser exposto”, como revela Amy Dempsey em “Estilos, Escolas e Movimentos – Guia Enciclopédico da Arte Moderna”.

Ao se rebelarem contra as convenções dos chamados “guardiões da cultura”, os impressionistas serviram de modelo para os inovadores do século seguinte. A partir deles, mais escolas de caráter contestatório apareceram, caracterizando um dos períodos mais dinâmicos da história da arte: o movimento modernista.

“ A arte moderna, na maior parte das suas manifestações, propõe-se a ser uma arte dotada de negatividade, portanto, bastante crítica, em relação não apenas ao modelo anterior de arte, mas também à sociedade da época. É marcada estruturalmente pela idéia de luta e combatividade”, conta Luiz Renato Martins, professor do Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP.
Entre as escolas modernistas, uma que se destacou por esse espírito foi o dadaísmo, surgido na Suíça em 1915. Em “Dada: Arte e Antiarte”, Hans Richter afirma que, “em oposição a outros estilos, o dadaísmo não possuía características formais uniformes. Manifestava-se ora como arte e outras vezes como negação da arte”. Um exemplo dessa aparente contradição artística foi o conceito de ready-made, de Marcel Duchamp, que consistia em deslocar objetos do cotidiano, como um mictório, e promovê-los a obra de arte.

Para Luiz Renato Martins, a arte modernista buscava a autonomia, ao criar a própria regra, enquanto verifica-se uma ausência de regra ou normas na arte contemporânea. No entanto, para o professor, a mudança pode não representar uma evolução de caráter contestatório. “A arte contemporânea busca não ter regra alguma, nem mesmo para si mesma, o que, visto dialeticamente, não é outra coisa senão ter uma regra, que é a regra do mercado, o vale-tudo”, comenta.

Com nova roupagem, o conceito de negação da arte apareceu novamente nos anos 1960, dessa vez mais amplo e popular. A contracultura, reflexo do surgimento do rock and roll e do movimento beatnik, representou um ideário de rebeldia contra a ordem capitalista, consumista e conservadora, pregando a expressão libertária.

Um pouco dos movimentos beat, psicodélico e punk pode ser conhecido, ou relembrado, na exposição “Vida Louca, Vida Intensa – Uma Viagem pela Contracultura”. Televisores velhos sobre pneus usados, carros pichados, um cenário no qual o visitante é “engolido” por imagens psicodélicas são alguns dos atrativos da mostra e revelam o caráter de negação do movimento, bem representado pela aparente paradoxal frase “É Proibido Proibir”, nome inclusive de música de Caetano Veloso, expoente da Tropicália, representante da Contracultura no Brasil.

Vida Louca, Vida Intensa – Uma Viagem pela Contracultura
SESC Pompéia, em São Paulo
Até 22 de junho de 2008.
Confira programação de filmes e debates no site www.sescsp.org.br