Cinema
de macho não tem pipoca, só pipoco
Por André Mizutani e Rafael Kato
Ser macho é pilhar, matar e destruir? Se você for mulherzinha
demais para isso, então pode escolher um macho de cueca sobre
a calça ou ainda um cowboy em depressão. O cinema tem
macho a dar com o pau e não dá pra imaginar que todos
seriam iguais. São heróis de guerra psicopatas, homens-morcego,
alienígenas que têm medo de pedras verdes brilhantes e
até mesmo vigilantes da lei com transtornos afetivos.
“Na
média você tem alguns tipos construídos a partir
de alguns gêneros narrativos, como o faroeste de John Wayne, o policial
de Charles Bronson, e o filme de guerra, nos quais você valoriza a masculinidade,
normalmente violenta, e de arma na mão e que sabe brigar. Por outro
lado, eles têm certa ambigüidade: são frágeis, amam,
charmosos e gentis, mas podem ser machões”, fala Heloísa
Buarque de Almeida, professora de Antropologia da USP que estuda as representações
de gênero no cinema.
Os estereótipos,
diz a professora, são
opressivos para o homem. Segundo ela, é difícil ser o machão
do cinema o tempo todo. Afinal, não é todo dia que você é macho,
bonitão,
conquistador e mata dez ninjas raivosos antes do café da manhã.
O estereótipo tradicional impõe um único ideal de
macho e, portanto, não contempla a multiplicidade humana. “Há mulheres
muito mais viris que muitos homens e há homens muito sensíveis.
A sociedade é muito mais variada do que os estereótipos que
a mídia constrói”, diz Heloísa.
A opressão
da macheza midiática é ainda mais grave pelo
fato de a masculinidade estar muito mais ligada à sexualidade do
homem do que a feminilidade à sexualidade da mulher. Duvida? Então
pense em uma menina vestida de Batman; agora pense em um menino vestido
de Barbie. Entendeu? Essa sexualidade meio bamba (não confunda com
Bambi, da Disney) deve ser reforçada a cada momento e, como se isso
não
fosse suficiente, não reside totalmente no homem. A honra, por exemplo,
não está no macho, mas na sua mulher.
Cabum!
Macho
que é macho assiste filme com explosão. Ou, pelo
menos, esse é o estereótipo Schwarzeneggeriano, e
quem segue essa filosofia à risca é o
mineiro Alonso José Gonçalves, diretor do filme Confronto
Final. Não que, na opinião dele, machos devam assistir
apenas a isso, mas, “às vezes, filmes intelectuais dão
no saco”.
Confronto
Final conta a história de um pai que
vê sua família
ameaçada por uma quadrilha de assaltantes chefiados por um policial
corrupto. Decide então encher os meliantes de chumbo e, de quebra,
acabar com a ladroagem na polícia. Aliás, o astro da
película é Jackson
Antunes, também conhecido pela alcunha de Charles Bronson do
sertão.
Alonso
comenta que o propósito da contratação
de Jackson não foi sua inacreditável semelhança
com o ícone
macho norte-americano, mas sim a proximidade de idéias entre
os dois, já que ambos gostam de contar histórias de
heroísmo
e coragem. De preferência acompanhadas de muita pirotecnia,
que não
faz mal a ninguém.
O diretor
assume a influência do cinema
norte-americano em seu trabalho, que abusa dos efeitos de explosão. “Sou
mais o cinema norte-americano, que o público vê [...]
sou colonizado”, revela Gonçalves.
Não que ele ache que seus filmes devam competir com os enlatados,
até porque,
financeiramente, não há como Belo Horizonte fazer
frente a Hollywood.
Gonçalves
acredita que os filmes populares (categoria na qual se inserem os
filmes de macho) não conseguem
uma maior rentabilidade por não
receberem exposição na mídia. Segundo ele,
a atenção
da mídia é monopolizada pelos filmes mais intelectualizados,
que visam a ganhar prêmios, e não agradar ao grande
público.
Citou como exemplo, ainda, Dois filhos de Francisco, um filme
popular que recebeu destaque e que, segundo o diretor, foi um
dos poucos
filmes nacionais
a gerar
lucro.
Não que os filmes do diretor mineiro – não-intelectualizados
e cheios de explosões – sejam feitos especificamente
para o público
macho, mas ele admite que eles não fazem lá muito
sucesso entre as moças.