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Em busca do tempo perdido: No caminho de Swann

A transposição de obras de um meio de expressão para outro há muito não é novidade, mas um processo que ainda gera indignação por parte dos puristas. Narrativas criadas para serem apreciadas originalmente em livros têm sido adaptadas (com maior ou menor êxito) para o cinema e a televisão; muitos são os exemplos que podem ser citados.

No caso das histórias em quadrinhos, é comum - e muito rentável para os produtores -, serem levadas às telas dos cinemas ou se transformarem em séries exibidas na TV. Existem, ainda que em menor número, novelizações literárias de sagas publicadas em quadrinhos.

O contrário, porém, também ocorre: a adaptação de um filme ou de obra literária para as revistas ou álbuns de quadrinhos. Durante muito tempo, a revista Classics illustrated apostou na possibilidade de transportar para a linguagem dos quadrinhos obras consagradas da literatura, como peças de Shakespeare. Muitas dessas versões quadrinizadas de textos literários chegaram aos leitores brasileiros nas páginas da Edição maravilhosa , publicada de 1948 a 1960 pela Editora Brasil América Ltda. (EBAL), empresa que também se empenhou em adaptar para os quadrinhos obras da literatura brasileira. De 1990 a 1992, a editora Abril chegou a publicar doze números da Classics illustrated realizados por ilustradores contemporâneos, como Bill Sienkiewicz , que ilustrou a quadrinização de Moby Dick .

Mais recentemente, o livro Contos em quadrinhos , publicado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, apresentou na mesma edição textos literários escritos por Machado de Assis, João do Rio e António de Alcântara Machado e a versão para os quadrinhos destes contos, adaptados por Célia Lima e ilustrados por J. Rodrigues . Dessa forma, o leitor pode confrontar a obra original e a sua transposição para a linguagem dos quadrinhos, caracterizada pela justaposição de imagens e elementos verbais e por ser uma narrativa seqüencial, que pressupõe uma relação espaço-temporal entre cada unidade que compõe a história.

Agora, os leitores brasileiros podem apreciar e julgar mais um empreendimento ousado que se atreve a verter para os quadrinhos um clássico da literatura moderna: o romance Em busca do tempo perdido: No caminho de Swann , do escritor francês Marcel Proust . A obra, caracterizada por enredo psicológico movido pelas lembranças de um narrador que pode ser o próprio autor, parece, a princípio, ser a menos indicada para uma manifestação artística que costuma se pautar por figuras que imprimem ação a roteiros dinâmicos e cheios de tensão.

Todavia, o publicitário francês Stéphane Heuet encarou o desafio e realizou seu primeiro trabalho com narrativa seqüencial a partir do livro escrito por Proust na primeira década do século XX. Embora, em algumas passagens, o texto literário invada o espaço dos quadros, ocupando grandes recordatórios, a utilização da linguagem das histórias em quadrinhos - a junção de imagens e elementos verbais em continuidade - consegue transmitir ao leitor o conteúdo da obra de Proust.

Utilizando o estilo da linha clara (desenvolvido por quadrinhistas franco-belgas como Hergé, Edgar-Pierre Jacobs e Uderzo), o artista condensa neste volume o primeiro capítulo do livro, referente às lembranças da infância do narrador, passada na fictícia cidade de Combray (o segundo capítulo serviu de base para o filme Um amor de Swann , dirigido em 1984 pelo cineasta alemão Volker Schlondorff, tendo no elenco Jeremy Irons, Ornella Muti, Alain Delon, Fanny Ardant, entre outros astros europeus).

Heuet consegue ser bem sucedido em boa parte da adaptação para os quadrinhos. A versão quadrinizada exigiu poder de síntese e o levou a pesquisar objetos, paisagens e figurinos para compor o painel que dá forma às coisas e pessoas do passado, que se perderam no transcorrer inexorável do tempo e que o narrador, já adulto, procura reaver a partir de estímulos que acionam sua memória (a consciência, que se contrapõe às imagens involuntárias trazidas pelo sono), a exemplo do aroma do bolinho mergulhado no chá que traz à lembrança as manhãs de domingo, quando sua adoentada tia Léonie lhe oferecia a iguaria. O som dos sinos, o cheiro das plantas, a visão dos campanários de igrejas de cidades vizinhas durante uma viagem de charrete no fim de tarde, são fragmentos de acontecimentos percebidos e encerrados no inconsciente que voltam à tona como objetos do passado enterrados na areia e descobertos por um arqueólogo.

Proust, em seu relato, constrói não apenas um compêndio de lembranças de situações e pessoas, mas também monta um retrato de época, a chamada belle-époque , no final do século XIX. O autor descreve as atitudes e pensamentos, as vaidades e preconceitos da burguesia francesa, à qual pertenciam os familiares do narrador, assim como o refinado Charles Swann , dono de uma grande propriedade em Combray e que era recriminado por ter feito um mau casamento.

As personagens ganham, também, densidade psicológica: da tia que se prostrou após a morte do marido, mas que não deixa de se interessar pela vida de todos os habitantes da cidade, ao próprio narrador, que mantinha uma relação de dependência com sua mãe.

Necessariamente sintética, a adaptação para os quadrinhos da obra de Proust é extremamente fiel ao original literário, preservando a ironia e a sutileza do romance. A qualidade da arte e a suavidade da narrativa tornam agradável a leitura deste álbum e incentivam o leitor a conhecer outros livros do escritor francês. A história em quadrinhos, neste caso, busca na literatura sua inspiração e, ao mesmo tempo, estimula a procura pelo texto literário.

Em busca do tempo perdido - No caminho de Swann: Combray . O álbum editado pela Jorge Zahar Editor tem 80 páginas em cores e custa R$ 39,00 . Há mais dois volumes previstos para serem publicados.

Roberto Elísio dos Santos é Pesquisador Sênior do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, jornalista, doutor em Comunicação pela ECA-USP, professor do Centro Universitário de São Caetano e autor do livro "Para reler os quadrinhos Disney" (Editora Paulinas)

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