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Professor de Quadrinhos , WALDOMIRO VERGUEIRO

  Há quase 20 anos na ECA-Escola de Comunicações e Arte da USP, frente ao Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos, que inclui docência na área, o Professor Waldomiro Vergueiro é considerado um dos nossos - poucos - experts no fascinante assunto - além de Mestrado e Doutorado em Ciências da Comunicação, também tem pós-doutorado na Inglaterra e é o autor de vários trabalhos importantes publicados aqui e no exterior.

  -Meu caro Professor, para iniciar faça-nos sua apresentação: Idade, onde nasceu, cresceu e vive atualmente, estado civil, filhos.

Tenho atualmente 46 anos. Nasci em Guaratinguetá, Estado de São Paulo, onde cresci e passei parte de minha adolescência. Vivo na cidade de São Paulo desde 1975, quando aqui vim para fazer a faculdade. Sou casado e tenho 4 filhos.

  -O quê e quando iniciou seu interesse pelas Histórias Quadrinhos ?

  Eu não sei dizer o que me atraiu às histórias em quadrinhos. Sei que, desde bem criança, interessei-me por elas. Talvez fossem as figuras chamativas, talvez fossem as imagens dos super-heróis que, de uma certa forma, despertavam a imaginação do menino franzino que eu era. Eu sempre gostei muito de ler, lia tudo que me aparecesse pela frente, e quando as histórias em quadrinhos surgiram eu me apeguei a elas imediatamente. Também influiu muito na minha predileção por quadrinhos a companhia de um primo, dois anos mais velho que eu, que gostava muito de quadrinhos. Logo eu me tornei colecionador, como ele. Com o tempo, ele se afastou dos quadrinhos - hoje é veterinário -, e eu continuei me dedicando a eles.

  -Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura? Pode citar autores e obras que o influenciaram?

  Eu sempre fui um leitor voraz. Lia de tudo. Em minha cidade, eu era o maior freqüentador da biblioteca pública. Aos oito anos, já tinha lido todo o acervo infanto -juvenil. Como não me deixavam ler os livros para adultos, passei a ler os livros infantis novamente. Devo ter lido duas ou três vezes todo o acervo. Eu os lia muito rapidamente, pois pegava os livros e ia lendo enquanto caminhava, um hábito que cultivo até hoje; ao chegar em casa, já tinha lido boa parte dos livros que levava.

Dos autores de minha infância, lembro com muito carinho de Monteiro Lobato, que li por inteiro, mais de uma vez. Li todos os clássicos em versão infantil, também, desde Viagens de Gulliver a Moby Dick, os Três Mosqueteiros, Ivanhoé, as histórias de Sherlock Holmes, etc. (mais tarde, eu os leria todos na versão integral). Na adolescência, passei a ler livros policiais, uma preferência que tenho até hoje.

Nos quadrinhos, quando criança eu gostava muito de Disney, mas logo me aproximei dos Super-Heróis e com eles fiquei durante muito tempo. Principalmente com o Batman, que sempre foi o meu predileto. Hoje leio todos os tipos de quadrinhos, sem qualquer tipo de distinção.

  -Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?

  Ao terminar o curso de Biblioteconomia, eu sentia necessidade de continuar meus estudos, com uma pós-graduação. Fui buscar o mestrado na Escola de Comunicações e Artes, a ECA, e aqui deparei-me com a possibilidade de aprofundar meus conhecimentos sobre quadrinhos, elaborando uma dissertação de mestrado sobre eles. Foi o que fiz, desenvolvendo uma pesquisa sobre os quadrinhos e sua influência no sistema de comunicação de massa no Brasil, com um estudo de caso sobre a personagem Mônica.

Antes mesmo de terminar o mestrado, surgiu a oportunidade de começar a lecionar na ECA, no Departamento de Biblioteconomia e Documentação. Entrei na ECA em 1983 e aqui estou até hoje.

Em 1989, o diretor da ECA, sabendo de meu interesse sobre histórias em quadrinhos, convidou-me para coordenar uma Comissão de eventos sobre o genero. Faziam parte dessa comissão, além de mim, também os professores Álvaro de Moya e Antonio Luiz Cagnin. Iniciamos nossa atividade organizando a Semana Batman - o personagem fazia 50 anos, então - que foi um tremendo sucesso. Um ano depois, nós três propusemos a criação do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos, do qual sempre fui o coordenador.

  -Sofreu alguma espécie de preconceito por se dedicar ao estudo das HQs?

  Muito. Nunca é um preconceito aberto, mas sempre senti alguma resistência dos colegas quando comunico que me dedico ao estudo de histórias em quadrinhos. Invariavelmente eu senti a preocupação em mudar rapidamente de assunto, buscando outros temas que eles considerassem mais "acadêmicos". Mas isso nunca me afetou muito. Eu jamais coloquei em dúvida a importância dos quadrinhos na sociedade contemporânea e por isso não me importei com a opinião de qualquer colega. Continuei trabalhando na área, pesquisando, escrevendo, participando de congressos nacionais e internacionais, organizando eventos, dando disciplinas e criando um ambiente propício para o estudo de quadrinhos. Eu hoje me orgulho muito de dar duas disciplinas sobre histórias em quadrinhos para alunos de graduação, com salas sempre lotadas e pouquíssimas desistências ao longo do semestre. Estou no momento orientando três alunos em pesquisas de mestrado e doutorado sobre histórias em quadrinhos e aos poucos consigo que eles sejam melhor encarados na minha escola, conseguindo, inclusive, convencer alguns colegas a orientarem trabalhos que têm os quadrinhos como tema central.

  -Aliás, você acha que a denominação Histórias em Quadrinhos realmente tornou a nobre arte passiva de, no mínimo, ser considerada uma "arte", como pensa o grande Will Eisner (sobre o termo "comics")? Não seria melhor "novela-gráfica", como querem alguns?

Não concordo com o Eisner, nesse sentido. Eu gosto muito da expressão "histórias em quadrinhos" e acho que ela expressa exatamente aquilo que a 9 a . arte representa. No entanto, Eisner tem razão em referência ao termo "comics", que há muito tempo já não corresponde à realidade das histórias em quadrinhos no mundo inteiro, tendo adquirido uma acepção negativa, como produto de entretenimento dirigido a crianças. A utilização de uma nova expressão pode ajudar a dar um novo status aos quadrinhos, fazendo com que eles sejam vistos de forma mais positiva pela sociedade.

  -E esta nova onda de adaptações hollywoodianas de personagens famosos, principalmente os - odiados por homens, endeusados por outros - Super-Heróis, você acha que poderá contribuir de alguma forma para dar uma revitalizada no gênero?

  Eu encaro estas adaptações como uma apropriação por um outro meio. Não são exatamente a mesma coisa que o que está nos quadrinhos. Sua contribuição é sempre temporária, mas sem dúvida faz com que as histórias em quadrinhos sejam mais conhecidas e atrai novos leitores. Ainda que muitos apenas busquem os quadrinhos em função da adaptação cinematográfica e deles logo se afastem, com certeza passaram a olhar as histórias em quadrinhos de outra forma. A longo prazo, isso pode trazer bons frutos.

-Sob o aspecto de técnicas avançadas e/ou bem sucedidas de narrativa quadrinizada, quais obras do Quadrinhos mundial e nacional você destacaria?

Eu inicialmente voltaria aos clássicos, Krazy Kat, Little Nemo in Slumberland, Bringing Up Father, Flash Gordon, Terry and the Pirates, Spirit, Peanuts, entre outros. Iria também aos europeus, com Moebius, Manara, Hugo Pratt (o meu predileto), Hergé e outros autores da linha clara. Dos mais atuais, citaria Maus, Gen, Palestina. Nos quadrinhos de super-heróis, não haveria como não citar O Cavaleiro das Trevas (Frank Miller), Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons), as histórias de Grant Morrison, entre outras.

  -Quais os autores e desenhistas mais admira - ou admirou, se já faleceram ? Porquê?

  Entre os falecidos: Hugo Pratt, para mim inigualável; Alberto Breccia, pela ousadia gráfica; Hergé, pela criação de um estilo; Milton Caniff, pela utilização de técnicas cinematográficas; Charles Schulz, pela genial criação de Peanuts, entre outros. Dos atuais, Will Eisner, pela enorme contribuição à técnica dos quadrinhos; Keiji Nakazawa, pela utilização dos quadrinhos como relato autobiográfico; Joe Sacco, pela utilização dos quadrinhos como meio jornalístico; o brasileiro Laerte, pelas ousadias temáticas, entre outros.

  - Pesquisas diversas - até no Pentágono - já comprovaram a eficácia da Arte Seqüencial em ministrar informaçoes e  instruçoes por atingir plena e simultaneamente os dois hemisférios cerebrais. O autor inglês Alan Moore por sua vez, acha que os Quadrinhos são únicos justamente por poderem explorar técnicas narrativas que nenhum outro veículo consegue. Você concorda? Pode citar exemplos?

Concordo plenamente. Existem dezenas de exemplos disso. Basta olhar a quantidade de materiais voltados para educação e esclarecimento público que são cotidianamente produzidos com a linguagem dos quadrinhos. O México e a Índia, por exemplo, utilizaram as histórias em quadrinhos, em larga medida, em campanhas de educação popular, com um sucesso inquestionável.

-E falando nisto, quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra dele lhe causou algum impacto especial?

Meu primeiro contato foi provavelmente com o Monstro do Pântano. Á época, eu não me dava conta de que existia um autor britânico por trás do personagem. Posteriormente, com a leitura de Piada Mortal e, principalmente, Watchmen, tomei conhecimento do trabalho de Moore e passei a admirar sua genialidade.

  -Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?

Eu fico com Watchmen. Para mim, Moore conseguiu ir mais longe com os super-heróis do que qualquer outro autor. Cada página, cada quadrinho em Watchmen é extremamente, meticulosamente pensado e idealizado dentro de um plano geral. É uma obra densa, que permite incontáveis leituras, a cada uma delas o leitor descobrindo coisas novas, das quais não se havia dado conta.

  -Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa - já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte - o que tem a nos dizer?

O que mais admiro na obra de Moore, especificamente em Watchmen, é como ele se preocupou em criar uma obra que não deixa qualquer ponta solta. Ela é extremamente bem elaborada, fruto de um intenso trabalho de planejamento. Moore evidenciou que a linguagem dos quadrinhos não tem limitações, podendo gerar obras comparáveis ou superiores às de muitas outras artes. No caso de Watchmen, ele buscou exatamente o que os quadrinhos têm de mais comum, de mais corriqueiro, de mais simplório ou medíocre mesmo, os super-heróis, e, a partir desses personagens, criou uma obra que questiona a si mesma, que dialoga com o gênero e que propõe ao leitor novos caminhos para a nona arte.

  -E From Hell , você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento d e forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Eu confesso que ainda estou lendo From Hell. Acho uma leitura densa, difícil, que deve ser feita paulatinamente, aos poucos, e não como se lê uma história em quadrinhos qualquer. Ela é fruto de uma intensa pesquisa histórica e eu quero saboreá-la inteira. Ganhei os quatro volumes de um orientando meu, mas ainda estou na metade do primeiro, guardando o conjunto para ler em um momento apropriado.

  - O que você achou da versão cinematográfica de From Hell e o que espera da de Liga dos Cavalheiros extraordinários?

Não fiquei muito impressionado com a versão cinematográfica de From Hell. Pareceu-me muito inferior à obra em quadrinhos. Pelo que ouvi falar da versão de Liga dos Cavalheiros Extraordinários, está muito mais para uma abordagem de caça-níqueis do que para uma adaptação séria da obra de quadrinhos. Estou ansioso para conhece-la.

  -E de Big Numbers a inacabada magnus-opus , a Teoria do Caos, os Fractais? Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?

Eu confesso que não conheço Big Numbers. Mas não tenho dúvida de que as histórias em quadrinhos teem capacidade de abarcar qualquer tipo de complexidade. Basta apenas que a linguagem seja bem utilizada.

  -Voltando aos seus trabalhos, o que você fez que considera o melhor até agora?

Não tenho preferência. Eu gosto muito dos trabalhos que fiz sobre os quadrinhos brasileiros, principalmente aqueles em que busco refletir sobre a nossa realidade a partir das histórias em quadrinhos e tento entender como os quadrinhos expressam essa realidade ( veja aqui artigo - em ingles - sobre as HQs brasileiras, pelo entrevistado) Eu acho, por exemplo, que nós podemos conhecer muito mais da mentalidade do homem brasileiro na década de 50 lendo as histórias de terror em quadrinhos aqui produzidas. Da mesma forma, acho que ninguém refletiu mais a visão machista brasileira sobre o relacionamento entre homem e mulher, durante a década de 60, do que Carlos Zéfiro em seus catecismos. E assim por diante.

  -Especificamente sobre Alan Moore, o que você já criticou profissionalmente?

  Eu uso muito Watchmen em sala de aula, principalmente na minha disciplina de Leitura Crítica de Histórias em Quadrinhos, mas nunca cheguei a escrever nada sobre ele.

  - O que tem escrito atualmente? Algum projeto profissional?

  Tenho escrito muitos artigos para disponibilização na Internet e apresentado trabalhos em encontros internacionais. Atualmente, o projeto pelo qual tenho um especial carinho é o Diretório Geral de Histórias em Quadrinhos no Brasil, que visa gerar uma bibliografia de tudo o que já foi publicado em quadrinhos no Brasil. O diretório está começando e já tem informação sobre mais de mil e trezentos títulos. Espero disponibiliza-lo na internet durante o segundo semestre de 2003. (veja nota abaixo)

  -Sobre os nossos Quadrinhos, o que acha que falta para nossa produção ser alavancada de vez? Será que seria bons roteiros - pois bons desenhistas nós temos até para exportação, não é?

Acho que falta perseverança e senso crítico. Muitos desenhistas e roteiristas desistem na primeira dificuldade e muitos não conseguem enxergar que há um longo caminho a percorrer e muitas melhorias a implementar. Acham que sua obra está completa e não fazem auto-crítica, identificando áreas em que poderiam melhorar. Em geral, nossos autores querem também fazer tudo sozinhos, achando que são tanto bons desenhistas quanto bons roteiristas. Nem sempre isso acontece.

-Quais suas considerações sobre o trabalho de desenhistas nacionais de projeção, como o Mestre Mozart Couto, o velho samurai Shima, o conhecido Mike Deodato, o inovador Mutarelli, o nosso outro mineirinho Marcelo Lellis, e os não tão em voga na área comercial, Rodval Matias, Watson Portela, Mano - sabe do paradeiro deste? - e Olendino Mendes?

Sou grande admirador do trabalho de Mozart Couto, Rodval Matias, Watson Portela e Shimamoto. Do Deodato, gostava mais quando ele publicava como Deodato Borges Filho, pois acho que sua arte hoje ficou pasteurizada e totalmente dentro do modelo norte-americano. Mutarelli é um fenômeno, um quadrinhista dedicado e criativo como poucos hoje em dia. Dos demais, conheço muito pouca coisa. Eu conheci pessoamente Mano em 1992, durante a Bienal do Rio de Janeiro. Foi a primeira e única vez que o vi. Nunca mais ouvi falar dele.

  -Voce conhece e mantém algum contato com outros dos nossos poucos experts em HQ, Moaci Cyrne, Álvaro de Moya, Diamantino Silva, Cagnin e Dagomir Marquesi?

Tenho contato constante com Álvaro de Moya, que foi meu companheiro de ECA. Cagnin aposentou-se da escola e está fazendo pesquisas na França. Eu encontro Moacy Cirne apenas em eventos, mas somos grandes amigos e eu respeito muito o trabalho dele. Considero Moacy o nosso maior pesquisador na área, ainda que não concorde, algumas vezes, com algumas de suas idéias.

  -Como docente há quase 20 anos da ECA, pode nos dizer para onde foi esse pessoal todo que estudou Quadrinhos ali? Para a Publicidade? TV? Largou tudo e foi ser comerciante, concurso público ou algo do gênero?

  Cada um seguiu sua carreira. Como os quadrinhos são apenas uma disciplina, poucos são os que seguem a carreira. Alguns continuam publicando durante algum tempo na área, mas a grande maioria permanece apenas como leitores. Mas eu lembro de um aluno que se tornou editor e depois tradutor de histórias em quadrinhos, atuando na área até hoje.

  -Finalisando, Professor, o que achou de nosso modesto Site e quais as suas sugestões para aperfeiçoa-lo?

Gostei muito do site. Acho que ele representa um trabalho sério de valorização dos quadrinhos e de aprofundamento de questões importantes na área. Não tenho sugestões a apresentar, apenas gostaria de incentivar para que ele continue nessa linha. Parece-me que está no caminho certo.

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