Eugene Ionesco (1909 - 1994)

Martha M. F. Vieira


"It's not a certain society that seems ridiculous to me, it's mankind."

Você sabia que o "teatro do absurdo", criado por Eugene Ionesco, teve sua origem num livro-texto para o ensino de inglês, que apresentava diálogos entre um casal onde, a pretexto de ensinar o vocabulário de uma estrutura familiar, reproduzia conversas absurdas entre marido e mulher como, por exemplo, esta informando ao marido que eles têm três filhos, que ele trabalha como auxiliar de escritório e que o sobrenome deles é Smith? A consciência do absurdo desses diálogos inspirou Ionesco a escrever sua primeira peça, A Cantora careca, em cuja cena mais famosa dois estranhos dialogam sobre banalidades como o tempo, o lugar onde vivem, quantos filhos têm para, surpreendentemente, descobrirem que são marido e mulher.

Um pouco sobre sua vida...

Eugene Ionesco nasceu na Slatina, Romênia em 26 de novembro de 1909, filho de pai romeno e mãe francesa. Algumas fontes indicam seu nascimento no ano de 1912. Esse erro é devido à vaidade do autor; no começo dos anos 50 ele diminuiu sua idade em três anos, depois de ter lido um comentário do crítico Jacques Lemarchand que enaltecia o advento de uma nova geração de jovens autores, entre eles Ionesco e Beckett.
Ionesco foi criado na França, mas retornou à Romênia com o pai em 1925, depois que os pais se divorciaram. Ele estudou literatura francesa na Universidade de Bucareste de 1928 a 1933. Em 1936 casou-se com Rodica Burileanu, com quem teve uma filha, para a qual escrevia histórias infantis diferentes das tradicionais. Em 1938, estabeleceu-se em Paris quando recebeu uma verba do governo para estudar na França e escrever uma tese sobre "pecado e morte na poesia francesa desde Baudelaire". Enquanto trabalhava como revisor para editoras, decidiu aprender inglês.

Como tudo começou...

Aos 40 anos, Ionesco adquiriu um livro-texto de inglês que começou a estudar, copiando, conscientemente, sentenças inteiras, desde o primeiro capítulo, com o intuito de decorá-las. Relendo essas frases com atenção, ele não apenas aprendeu inglês, mas descobriu algumas verdades surpreendentes - que, por exemplo, há sete dias na semana, o que ele já sabia; que o chão fica embaixo e o teto em cima; coisas que ele também já sabia, mas sobre as quais, talvez, não tivesse pensado seriamente ou houvesse esquecido, e que, de repente, lhe pareceram estupendas por serem verdades incontestáveis. À medida que avançava no livro-texto, dois novos personagens foram introduzidos, o Sr. e a Sra. Smith. Para total espanto de Ionesco, a Sra. Smith informava seu marido de que tinham tido vários filhos, que moravam na vizinhança de Londres, que o sobrenome deles era Smith, que o Sr. Smith era um auxiliar de escritório e que tinham uma empregada, Mary, inglesa como eles. Era notável na Sra. Smith, o seu procedimento eminentemente metódico na busca da verdade. Mas, então, como Ionesco escreveria mais tarde, "Um estranho fenômeno aconteceu. Eu não sei como - o texto começou a mudar imperceptivelmente ante os meus olhos. As afirmações muito simples, luminosamente claras que eu havia copiado tão diligentemente em meu caderno, deixadas de lado por algum tempo, fermentaram, perderam sua identidade original, expandiram-se e transbordaram. Os clichês e a banalidade das conversações, que antes faziam sentido deram lugar a pseudo-clichês e pseudo-banalidades; esses se desintegraram em caricaturas selvagens e paródias, e, ao final, a linguagem se desintegrou em fragmentos isolados de palavras."
Ionesco acabou transformando essa experiência numa peça de teatro, La Cantatrice chauve (A Cantora careca), que foi representada por Nicolas Bataille, em 11 de maio de 1950, no Teatro dos Noctambules. Essa peça permaneceu despercebida até que alguns críticos e escritores renomados (Jean Anouilh, Raymond Queneau e Jacques Lemarchand) a assistiram e a apoiaram publicamente. A campanha que eles fizeram para atrair audiência foi bem sucedida e Ionesco, já na meia-idade, viu-se de repente numa posição de renome internacional. Com essa peça Ionesco inspirou uma revolução importante nas técnicas dramáticas e inaugurou o "teatro do absurdo" ou o "anti-teatro". Esse teatro era realmente um teatro "puro", despojado de convenções, cruelmente poético, arbitrário e imaginativo. Ionesco, influenciado por Kafka e Jarry, caricaturou o real e o "absurdo" juntos, exteriorizou fantasias secretas, geralmente obtendo uma relevância social profunda. Nessa mesma linha seguiu-se Adamov, com Ping-pong (1955). Mas foi Beckett, com Esperando Godot (1954), Happy days (1961) e Play (1963) quem talvez tenha atingido uma maior universalidade. Outros dramaturgos bem sucedidos nessa corrente foram Marguerite Duras, com Le Square (1955), Robert Pingent, com Lettre morte (1960) e Roland Dubillard, com sua tragédia barroca La Maison d'os (1962).

Suas outras obras...

Numa rápida sucessão, Ionesco escreveu várias peças, todas desenvolvendo as idéias anti-lógicas da A Cantora careca. Dentre essas obras destacam-se algumas peças de um só ato em que muitos de seus temas do final da carreira - como o medo e o horror da morte - começaram a aparecer. Destacam-se La Lesson (A Lição), apresentada pela primeira vez em 1953, Les Chaises (As Cadeiras), em 1952 e Le Noveau locataire (O Novo inquilino), em 1955.
Ionesco teve dificuldades em dominar a técnica de escrever textos para peças completas. As obras Amedée (Amedeu), apresentada pela primeira vez em 1954, Tueur sans gages (Assassino sem ordenado), em 1959 e Le Rhinocéros (O Rinoceronte), também em 1959, não tinham a unidade dramática que ele adquiriu, finalmente, em Le roi se meurt (O Rei está a morrer), produzida pela primeira vez em 1962. A este sucesso seguiu-se um de seus mais espetaculares vôos de fantasia filosófica, com Le Piéton de l'air (O Peão do ar), em 1963. Entretanto, ele voltou a um tipo mais fragmentado de construção com Soif et la faim (A sede e a fome), publicado em 1966.
A principal contribuição de Ionesco foi a popularização de uma grande variedade de técnicas surrealistas, tornado-as aceitáveis para uma audiência condicionada a um teatro que reproduzia o cotidiano da vida real.
Os seus trabalhos posteriores mostraram menos preocupação com o paradoxo intelectual, essa ânsia de ir contra o senso comum, voltando-se então para temas como sonhos, visões e exploração do subconsciente. Seu pessimismo, originado da consciência do "absurdo" de uma existência tornada sem sentido pela morte, foi ligeiramente abandonado depois de O Rei está a morrer. Ao mesmo tempo, entretanto, suas atitudes políticas endureceram. Ele, que se descrevia anteriormente como um "anarquista de direita", revela-se um implacável oponente de todo tipo de ideologia de esquerda em Journal en miettes (1967).
Em resumo, Ionesco rejeitava a estrutura lógica, o desenvolvimento dos personagens e o pensamento do teatro tradicional, tendo criado sua forma própria de comédia anárquica para expressar a existência sem sentido do homem moderno num universo governado pelo acaso.

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