A questão dos impactos causados pelas teorias científicas
nas sociedades na maioria das vezes é colocada
como se fosse possível separar as teorias científicas
de um lado e a sociedade de outro. Não podemos
negar que as teorias científicas e também
a tecnologia produzida por ela trouxeram, e ainda trazem,
transformações nos diversos âmbitos
sociais, políticos e culturais, como também
não podemos acreditar que tais teorias se apresentam
separadas destes contextos e que se sobrepõem a
eles provocando os nem sempre desejáveis “impactos”.
Pierre Levy, em Cibercultura, analisa a metáfora
dos impactos como sendo inadequada se pressupomos que
a ciência é parte daquilo que entendemos
por cultura. Visto dessa forma, as teorias científicas,
bem como a própria ciência são produtos
da atividade cultural humana e, portanto, são social
e historicamente determinadas, não podendo ser
analisadas em separado deste contexto.
Thomas
Kuhn |
A
História da Ciência está repleta de
exemplos que evidenciam o caráter social e histórico
do desenvolvimento de teorias científicas. Thomas
Kuhn, no livro A Estrutura das Revoluções
Científicas, expõe de que forma novas
teorias surgem e substituem modelos anteriores, pondo
em evidência seus vínculos sociais e históricos.
O autor traça a diferença entre a ciência
normal, período onde uma comunidade científica
se utiliza de um determinado paradigma (conjunto de teorias,
leis e métodos aos quais a comunidade adere e que
irá direcionar as pesquisas do grupo) e o período
de crise do paradigma. Até o momento de crise a
maioria dos cientistas não questiona o paradigma
e seu trabalho consiste em tentar resolver as partes dele
ainda não esclarecidas.
À crise se instaura na ciência normal quando
os pesquisadores não conseguem adequar os fatos
ao paradigma, essas são as chamadas anomalias,
que quando se tornam constantes colocam em dúvida
a própria ciência. À crise segue-se
a mudança do paradigma anterior, surgem então
novos conjuntos de teorias, métodos e técnicas
com os quais a comunidade científica irá
se ocupar, instaurando uma nova tradição.
O que nos interessa nesta obra é a questão
colocada pelo autor ao considerar os fatores externos
relevantes para as mudanças de paradigmas, como
por exemplo o desenvolvimento de novas tecnologias que
se fizeram necessárias para instaurar novos paradigmas.
A exemplo podemos citar o caso do telescópio inventado
por Galileu e que o auxiliou em seus estudos sobre os
movimentos da Terra em torno do sol. A mudança
de paradigma proposta por Galileu viria a transformar
toda uma época, dando inicio àquilo que
hoje conhecemos por Modernidade.
A História da Ciência trouxe à tona
questões anteriormente consideradas irrelevantes
para o desenvolvimento de novas teorias científicas.
O debate acerca do desenvolvimento de novas teorias travado
entre autores como Popper, Kuhn e Feyerabend se mantém
aceso à medida que novos dados históricos
são inseridos no contexto de discussão.
Por exemplo, o processo de mudança de paradigma
estabelecido por Kuhn contraria a perspectiva popperiana
de que o avanço na ciência se daria de forma
cumulativa. Kuhn rejeita essa concepção
tomando como base a História da Ciência,
que demonstra que, após um novo paradigma se instaurar,
o anterior é posto de lado, e dessa forma se daria
o avanço na ciência.
Paul
Feyerabend |
Paul
Feyerabend também utiliza a História da
Ciência para argumentar a favor da história
no desenvolvimento das teorias. O autor, no livro Contra
o Método, diz que “muitas vezes há
acontecimentos e não necessariamente argumentos
que são a causa de adotarmos novos modelos”
(p.31).
O que nos parece relevante perceber através da
colocação desses autores é a existência
de um processo onde tanto fatores externos à ciência
influenciam e emergem no espaço da atividade cientifica
quanto esta promove alterações no seu exterior,
mas não de forma determinante.
Acreditamos que enquanto atividade humana pertencente
ao domínio da cultura, portanto, como já
foi dito, social e historicamente determinada, as teorias
científicas e seus “impactos” serão
condicionadas pela forma como as sociedades se apropriarão
delas e utilizarão seus recursos. Portanto, os
mesmos “impactos” poderão ser favoráveis
ao desenvolvimento humano ou à sua exploração
e dominação - o que irá determiná-los
será o modelo de civilização que
escolhermos para nós mesmos.
Referências
bibliográficas
Feyerabend,
P. Contra o Método. Lisboa: Relógio
D’Água.
Kuhn,
T. A Estrutura das Revoluções Cientificas.
São Paulo: Perspectiva.
Levy,
P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34.
Popper,
K. A Lógica da Pesquisa Cientifica. São
Paulo: Cutrix-EDUSP.