Produto do Núcleo José Reis de Divulgação Científica da ECA/USP - São Paulo - Março/Abril de 2004 - Ano 4 - Nº19
Textos escritos e editados pelos alunos do Curso de Especialização em Divulgação Científica, do NJR-ECA/USP
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Teorias científicas, visões do mundo e sociedades
Priscila Farias dos Santos*
 

A questão dos impactos causados pelas teorias científicas nas sociedades na maioria das vezes é colocada como se fosse possível separar as teorias científicas de um lado e a sociedade de outro. Não podemos negar que as teorias científicas e também a tecnologia produzida por ela trouxeram, e ainda trazem, transformações nos diversos âmbitos sociais, políticos e culturais, como também não podemos acreditar que tais teorias se apresentam separadas destes contextos e que se sobrepõem a eles provocando os nem sempre desejáveis “impactos”.

Pierre Levy, em Cibercultura, analisa a metáfora dos impactos como sendo inadequada se pressupomos que a ciência é parte daquilo que entendemos por cultura. Visto dessa forma, as teorias científicas, bem como a própria ciência são produtos da atividade cultural humana e, portanto, são social e historicamente determinadas, não podendo ser analisadas em separado deste contexto.


Thomas Kuhn

A História da Ciência está repleta de exemplos que evidenciam o caráter social e histórico do desenvolvimento de teorias científicas. Thomas Kuhn, no livro A Estrutura das Revoluções Científicas, expõe de que forma novas teorias surgem e substituem modelos anteriores, pondo em evidência seus vínculos sociais e históricos. O autor traça a diferença entre a ciência normal, período onde uma comunidade científica se utiliza de um determinado paradigma (conjunto de teorias, leis e métodos aos quais a comunidade adere e que irá direcionar as pesquisas do grupo) e o período de crise do paradigma. Até o momento de crise a maioria dos cientistas não questiona o paradigma e seu trabalho consiste em tentar resolver as partes dele ainda não esclarecidas.

À crise se instaura na ciência normal quando os pesquisadores não conseguem adequar os fatos ao paradigma, essas são as chamadas anomalias, que quando se tornam constantes colocam em dúvida a própria ciência. À crise segue-se a mudança do paradigma anterior, surgem então novos conjuntos de teorias, métodos e técnicas com os quais a comunidade científica irá se ocupar, instaurando uma nova tradição.

O que nos interessa nesta obra é a questão colocada pelo autor ao considerar os fatores externos relevantes para as mudanças de paradigmas, como por exemplo o desenvolvimento de novas tecnologias que se fizeram necessárias para instaurar novos paradigmas. A exemplo podemos citar o caso do telescópio inventado por Galileu e que o auxiliou em seus estudos sobre os movimentos da Terra em torno do sol. A mudança de paradigma proposta por Galileu viria a transformar toda uma época, dando inicio àquilo que hoje conhecemos por Modernidade.

A História da Ciência trouxe à tona questões anteriormente consideradas irrelevantes para o desenvolvimento de novas teorias científicas. O debate acerca do desenvolvimento de novas teorias travado entre autores como Popper, Kuhn e Feyerabend se mantém aceso à medida que novos dados históricos são inseridos no contexto de discussão. Por exemplo, o processo de mudança de paradigma estabelecido por Kuhn contraria a perspectiva popperiana de que o avanço na ciência se daria de forma cumulativa. Kuhn rejeita essa concepção tomando como base a História da Ciência, que demonstra que, após um novo paradigma se instaurar, o anterior é posto de lado, e dessa forma se daria o avanço na ciência.


Paul Feyerabend

Paul Feyerabend também utiliza a História da Ciência para argumentar a favor da história no desenvolvimento das teorias. O autor, no livro Contra o Método, diz que “muitas vezes há acontecimentos e não necessariamente argumentos que são a causa de adotarmos novos modelos” (p.31).

O que nos parece relevante perceber através da colocação desses autores é a existência de um processo onde tanto fatores externos à ciência influenciam e emergem no espaço da atividade cientifica quanto esta promove alterações no seu exterior, mas não de forma determinante.

Acreditamos que enquanto atividade humana pertencente ao domínio da cultura, portanto, como já foi dito, social e historicamente determinada, as teorias científicas e seus “impactos” serão condicionadas pela forma como as sociedades se apropriarão delas e utilizarão seus recursos. Portanto, os mesmos “impactos” poderão ser favoráveis ao desenvolvimento humano ou à sua exploração e dominação - o que irá determiná-los será o modelo de civilização que escolhermos para nós mesmos.

Referências bibliográficas

Feyerabend, P. Contra o Método. Lisboa: Relógio D’Água.

Kuhn, T. A Estrutura das Revoluções Cientificas. São Paulo: Perspectiva.

Levy, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34.

Popper, K. A Lógica da Pesquisa Cientifica. São Paulo: Cutrix-EDUSP.


* Priscila Farias dos Santos é radialista, formada pela Universidade Estadual de Santa Cruz (BA).

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