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Corpo Detonador da discussão foi o texto de Günther Anders, de mais de cinqüenta anos, sobre as transformações estéticas, posturais e de personalidade, verdadeiro trabalho de "produção do corpo" de uma jovem de seu convívio que pretendia trabalhar em Hollywood. Naquela pequena história, o filósofo alemão relata a metamorfose integral sofrida por ela. As interferências no corpo foram tão profundas que após o processo surgiu uma outra pessoa, que nada mais tinha a ver com sua conhecida "senhorita V". Aqui a discussão pauta-se pela negação do corpo real e pela busca de moldagem, objetivando um corpo ideal, prática sistematicamente estimulada e realizada na nossa sociedade ocidental em todo o século 20, especialmente pela indústria da publicidade, do cinema e agora, mais recentemente, da TV. Ainda não estamos falando de corpo como máquina, mas já há a tendência. Os modelos publicitários e cinematográficos funcionam como manequins, robôs insuflados de vida, máquinas que não sentem, não têm depressão, descartam a espontaneidade e a naturalidade. Nesse sentido, a "inveja das máquinas", tema predileto de Anders, reproduz-se no caso da jovem: o andar ideal, o rosto ideal, o falar ideal são "embonecamentos" humanos, formas de negação da perecibilidade, da debilidade, das fraquezas de que o homem se envergonha quando se compara com os objetos que cria. O corpo tornou-se um território de explorações internas. Os aparelhos hospitalares e laboratoriais o invadem com raios X, laser, som e sondas. A nova exploração agora é endógena, cabe ir a fundo no corpo do homem. Micronaves dotadas de nanotecnologias deverão brevemente percorrer os rios das artérias humanas em busca de informações. Este continente obscuro e mágico agora está sendo descoberto pelas expedições devastadoras da pesquisa científica. Já não satisfeitos - ou desiludidos - com a exploração do planeta e do espaço sideral, os "corponautas" agora realizam a grande marcha para dentro. Ao seu lado, os engenheiros da massa corpórea projetam aparelhos, peças, adaptadores, sistemas integrados para substituir nossos velhos e desgastados órgãos. Como se a estrutura química celular, os processos de renovação e de trabalho desses agentes já tivesse demonstrado seus limites e clamasse pela substituição por peças melhores e mais confiáveis. Tudo isso buscando ao mesmo tempo duas realizações: um corpo que não envelhece, que pode ser eternamente portador e receptor do prazer, e uma vida que não deve acabar. Dois propósitos, duas ilusões desta humanidade que se recusa a aceitar sua debilidade e o destino, que, afinal, é de todas as espécies. O não-envelhecimento toca principalmente aqueles para quem o uso do corpo é seu grande capital, aqueles para quem o corpo é tudo: profissionais e amadores do sexo, todos aqueles que hipostasiam a aparência, para quem a boa e bem condicionada forma física e estética é tudo na vida. É algo muito mais além do que o mero narcisismo. Outros investem pesquisa, capital, energia no adiamento da morte. Mas por que prolongar tanto a vida? Será que ela é tão extraordinariamente bela, rica, prazerosa, que valha a pena continuar a dança indefinidamente, ou porque, ao contrário, jamais a vivemos plenamente e buscamos o tempo todo uma única chance de viver? Nossa angústia existencial talvez explique melhor essa nossa busca interminável por algo que jamais estará a nosso alcance. Ou então: por que todo esse medo da proximidade da morte? Nossa inquietude em jogá-la sempre um pouco mais para lá não remete a este destino trágico da humanidade, de recusar o fim, denegá-lo, passar o tempo todo se convencendo de que ele não existe? Todas essas questões ultrapassam de longe a modesta medicina de recuperação do corpo. Há aí, como no Projeto Genoma, intenções metafísicas, cósmicas, antropocêntricas muito grandes para o homem, que hoje tem de dar sozinho respostas para suas inquietudes diante de uma natureza, que após a saída de Deus do cenário, deixou-o desconsoladamente só.
AE 29 - O Corpo Este workshop discutirá o corpo. A idéia surgiu do fato de jamais termos nos dedicado ao estudo específico das relações entre o corpo e a sociedade atual, especialmente no que diz respeito às questões ligadas às novas tecnologias. Há algum tempo, o discurso teórico se preocupa com as mutações do corpo, afirmando que ele é cada vez mais passível de transformações, tornando-se entidade manipulável. Por intermédio de processos físicos, biológicos e cibernéticos trabalha-se a transformação do sexo, da idade, dos traços físicos e, futuramente - projetos já trabalham no sentido da manipulação genética -, se poderá ter formas de constituir o corpo antes mesmo que ele apareça como ser vivo. Ciro - Outro plano em relação à questão do corpo o vê como inscrição: corpo como suporte de idéias, de filosofias, de mitos; corpo como suporte publicitário; e corpo como suporte narcísico da nossa época, ou seja, as ideologias de culto ao corpo. Um outro plano ainda fala de sua atrofia na era tecnológica - no sentido de os equipamentos tecnológicos atuarem num processo de redução dos espaços - e do corpo como um espaço do possível, que se restringe às atividades cerebrais. Por fim, temos o corpo virtual, o corpo inserido nos processos da realidade cibernética. Nela, o corpo como instância física comunicante transforma-se por meio do chamado toque eletrônico, do sexo por computador; o tema envolve também as discussões sobre as formas de comunicação eletrônica que se realizam na ausência do corpo, ou mesmo na ausência dos entraves do corpo. Esses são alguns itens que nos ocupam atualmente na discussão do corpo. Eles fazem um mapeamento das transformações do corpo em nosso tempo presente, em que ele passa a ser objeto de investimentos do social e da manipulação dos próprios indivíduos. a paranóia do culto ao corpo Vani - As questões que tenho em relação ao corpo e à tecnologia têm a ver, em primeiro lugar, com o trabalho de Günther Anders sobre a metamorfose da moça que queria ser manequim. Ela vai ao estúdio, submete-se aos padrões de exigência colocados, e passa meses construindo sua própria metamorfose. Quando consegue a vaga, ela já se transformou numa outra pessoa. Havia se tornado um clone, igual a todos os outros modelos e manequins. Assim, para ser aceita, ela precisava ser igual a um modelo instituído na sociedade como um padrão de estética, de beleza, de consumo e de venda de imagem. Esse texto foi um estímulo para a reflexão sobre o comum que é entre as meninas a moda de se encaixar em padrões de beleza, fazer seu book, procurar reproduzir modelos que estão à venda nas revistas, nos filmes, nas capas de várias publicações. Na verdade, as pessoas almejam ser iguais a um modelo, a um tipo de estética e, para atingir esse ideal, fazem todas as transformações e metamorfoses possíveis. Tudo se inicia com o nascimento do bebê, momento em que a mãe começa a se preocupar com que ele seja um bebê "mediático", que use roupas "transadas" dentro do modelo socialmente transmitido pelas revistas e propagandas. A criança pequena passa a usar roupas "produzidas", determinados estilos de penteado. Assim como o "homem natural", a "criança natural" desapareceu há muito tempo. Desde que nasce, sua imagem é produzida de acordo com valores que não se relacionam com o indivíduo, mas lhe são externos, assimilados no processo sedutor das propagandas, da veiculação maciça de modelos positivados. A "criança natural" desapareceu há muito tempo. Desde que nasce, sua imagem é produzida de acordo com valores externos, assimilados no processo sedutor das propagandas, da veiculação maciça de modelos positivados. Decorrente desta, vejo ainda outra questão: o imaginário do corpo. Hoje as pessoas, independentemente da idade, nunca estão bem com seu corpo. Estão sempre querendo algo diferente, seja mudar, seja melhorar. E não se trata só de fazer uma cirurgia plástica ou implante com nova tecnologia; é a questão do próprio imaginário. Observam-se, por exemplo, pessoas macérrimas que desejam continuar emagrecendo porque ainda não atingiram seu "ponto ideal", e por isso mantêm-se em regime permanente. Outras dizem: "Estou fazendo fisioterapia para crescer trinta centímetros" ou "estou com 50 anos e coloquei um aparelho nos dentes para endireitá-los", etc. Não há mais a barreira da idade para se ter esse trabalho de imaginário do corpo. Contudo, há em verdade uma neurose, uma relação psicanalítica a ser estudada e compreendida nesses casos, porque, corrigido o problema nos dentes, a pessoa passa a procurar a próxima parte do corpo a ser corrigida, nem que sejam aqueles míseros gramas que se precisa tirar com lipoaspiração. As pessoas aceitam até correr o risco de morrer por conta dessas cirurgias estéticas. Preocupações que, aparentemente, não têm relação uma com a outra, mas que são profundamente narcísicas. Por outro lado, a medicina também se encontra em situação crítica. Os médicos tradicionais, que praticam tratamentos alopáticos, afastam-se cada vez mais do paciente. Eles não tocam o corpo; simplesmente ouvem o cliente e o encaminham para exames. Ou seja, toda a relação médico-paciente tornou-se mediada pela tecnologia. O diagnóstico do paciente já não é baseado em sua voz, sua dor, mas naquilo que os exames - feitos com fórmulas e aparelhagem cada vez mais sofisticadas - revelarem. Então, o paciente pode sentir uma dor de cabeça e o exame não constatá-la, ou ter uma debilidade qualquer e seu exame estar satisfatório. Os casos-limite são, por exemplo, aqueles que dão HIV positivo para uma pessoa saudável, resultado que pode até levá-la à morte. Enfim, o que conta é o exame, não o contato. Enquanto isso, as terapias orientais são cada vez mais procuradas porque mantêm uma relação muito forte com o contato. O do-in, o shiatsu e tantas outras práticas são basicamente formas em que ainda existe uma troca de energia entre corpos. É um corpo tocando outro, fazendo massagem em outro. Há um lado psíquico de contato que a sociedade ocidental perdeu. As terapias orientais são cada vez mais procuradas porque mantêm uma relação muito forte com o contato. O do-in, o shiatsu e tantas outras práticas são basicamente formas em que ainda existe uma troca de energia entre corpos. Beltrina - Gostaria de mudar o rumo da discussão e trabalhar o corpo como suporte, principalmente dos meios de comunicação. Nesse sentido, preocupo-me com a pertinência da relação corpo/cidade, a cidade como um corpo. Trago as reflexões do historiador Luis Bonfoglio, que há algum tempo definiu as cidades como "megamáquinas", onde um escritório de engenharia não difere de uma alfaiataria ou de uma fábrica de refrigerante. A cidade, como um corpo, passa a ser descartável; os edifícios transformam-se com muita velocidade, eles têm um tempo de durabilidade. Quando se tornam velhos, veste-se seu espaço com um novo edifício, como se troca uma calça jeans. Nesse sentido, Bonfoglio trabalha a cidade como um suporte demarcado e estratificado da relação da pós-modernidade. Quero discutir a assepsia pela qual o corpo humano passa, a busca da higienização total, bem como a cidade por meio de suas vias de transporte, por exemplo, e a cidade virtual, nas quais também se busca a assepsia, como num grande hospital. Ciro - Queria que Beltrina explicasse um pouco melhor essa associação que faz da cidade como corpo. No início, falei do corpo como geografia, mas como ver o corpo da cidade? Seria algo como imaginar as avenidas como artérias? Ou trata-se de algo mais abstrato? Beltrina - Trabalho com duas tendências. Primeiramente, a cidade como a segunda pele, a cidade revestindo a natureza. Em segundo lugar, o território como corpo feminino, sobre o qual é erigido o corpo masculino, que é a cidade. Este é um corpo erétil, fálico. Não estou discutindo o tamanho dos edifícios, mas sua potência. E, assim como o corpo tenta negar sua excreção, a cidade virtual caminha também para negar a poluição visual, sonora, etc. Caminha junto com a exclusão. as próteses no cotidiano Edvaldo - Gostaria de discutir a construção do corpo pelo viés das possibilidades múltiplas de próteses. Queria retomar duas expressões ditas aqui. Ciro usou a expressão do corpo como um "instrumento". E Vani disse que esse corpo que temos hoje, construído pelas mais diversas técnicas, nos afasta cada vez mais da natureza. Citarei um filósofo francês, considerado um filósofo das técnicas, chamado Bruno Latur. Ele diz que, na sociedade contemporânea, a glorificação da ciência e da técnica deu lugar ao mito da destruição do homem por um sistema técnico tornado autômato, que produz seus fins. E acrescenta que os homens estão muito imiscuídos com as técnicas para serem dominados por elas. Basta que uma máquina apresente defeito para que se vejam pessoas pulando. Essa história de que a natureza, em termos de corpo, vem sendo cada vez mais ignorada parece-me um certo romantismo de nossa parte. E isso - lembrando Baudrillard - existe em função de uma percepção de que a natureza vive seus últimos fôlegos, de que vivemos em um mundo que tende a ser mais e mais técnico e que, por isso, a natureza, como suporte das vivências e experiências, não faz mais tanto sentido. Mas, historicamente, o homem nunca foi a natureza; ele sempre quis se diferenciar dela. Daí a própria idéia de se construir as civilizações, de se tornar senhor da natureza. Sempre existiu a tentativa, por parte do homem, de se diferenciar e colocar, de alguma maneira, a natureza a seu serviço. Isso significa, a meu ver, que o homem é historicamente muito mais técnico do que poderíamos supor. Hoje, parece que todas as técnicas de construção do corpo, as mais avançadas possíveis, ocorrem num espaço de tempo cada vez mais reduzido. Quero dizer que o corpo, enquanto elemento técnico, sempre foi construído. Todas as civilizações sempre encontraram situações que permitiam a construção do corpo - claro que dentro dos limites técnicos e científicos da época. Essa é uma idéia que Denise Santana desenvolve no livro Políticas do corpo, e que me agrada bastante: mostrar que as tentativas de moldar o corpo são uma prática muito antiga - os gregos já faziam isso, preparando seus soldados com exercícios físicos, que nós poderíamos ver ao lado de toda essa onda de musculação americana. As próteses antigas já apareciam até mesmo na literatura, desde a mão do Capitão Gancho até o pé da chinezinha, amordaçado para não crescer. Quer dizer, são todas técnicas que vão se modelando em função de uma estética, em função de alguns interesses. Tudo isso é muito antigo; não estamos falando de uma situação recente. Denise tem bons trabalhos falando do uso dos espartilhos para moldar o corpo, nos séculos XVII e XVIII, o que tem relação com a postura física. Só que isso levava tempo: o indivíduo passava anos usando um aparelho e a chinezinha levava anos amordaçando o pé para alcançarem o resultado desejado. Hoje, nós temos técnicas cada vez mais velozes. Entra-se na clínica e pouco tempo depois se sai com um membro, um órgão novo, enfim, um visual e um corpo novos. Isso parece, para muitas pessoas, algo ainda muito chocante. Acho que o "chocante" não está na técnica de produção, mas na velocidade com que se adquire esse novo visual. Sempre existiu a tentativa, por parte do homem, de se diferenciar e colocar, de alguma maneira, a natureza a seu serviço. Isso significa que o homem é historicamente muito mais técnico do que poderíamos supor. Outro ponto que destaco é ainda em relação às próteses. Visualizo dois níveis de próteses. Um deles, mais materializável, mais concreto, é a prótese como máquina. Citarei uma situação que achei surpreendente. Algumas semanas antes do começo das Olimpíadas de Atlanta houve uma atleta americana que deu uma série de entrevistas aqui no Brasil. Muita coisa saiu nos media: a Folha de S. Paulo deu uma página inteira e o programa Fantástico fez uma reportagem. Essa atleta teve um problema de câncer, que a obrigou a amputar uma perna quando era apenas uma jovem universitária. Depois de colocar uma perna mecânica, ela teve de fazer muita fisioterapia e aprender a conviver com a prótese. Ela foi percebendo que podia adaptar essa perna para fazer atividades físicas que nunca havia feito quando tinha o corpo "normal". E descobriu também que poderia ter uma segunda perna mecânica adaptada ao movimento da bicicleta. A jovem comprou então a perna e começou a fazer ciclismo com velocidade. Ela passou a programar cada vez mais a perna mecânica. Descobriu, depois, que a natação lhe era um exercício muito prazeroso e a ajudava no desenvolvimento do corpo. Mas, para isso, sua perna mecânica não era suficiente. Então, ela comprou uma nova perna mecânica que lhe permitiu movimentos amplos na água. Assim, ela já tinha quatro ou cinco pernas mecânicas e dizia que agora possuía um corpo muito mais funcional e interessante. Não lamentava mais a perda da perna, pois agora tinha outras muito mais adequadas para as atividades que estava desenvolvendo. Nessa época, o Comitê Olimpíco Internacional estava criando alguns tipos de competições para pessoas que tinham aperfeiçoamentos técnicos no corpo e que poderiam participar de torneios esportivos. A moça iria competir nas provas de natação e ciclismo e estava animadíssima porque tinha muitas chances de obter a medalha de ouro. Nisso tudo está a idéia de que a prótese não é vista mais só como necessidade. A origem até foi uma necessidade: ela de fato teve de perder uma perna. Só que, para ela, não houve perda, e sim a possibilidade de ganhar diversas pernas e de fazer vários usos delas. Então, já parece bem aceita a idéia de que as próteses são cada vez mais comuns, e de que temos hoje possibilidades imensas de utilizar determinados aparelhos que permitem inclusive capacitar o corpo. Já não surpreendem muito as pessoas, pelo menos em termos da compreensão dessa realidade. Parece que temos caminhado, nos últimos anos, para outro tipo de prótese. Não mais essa prótese mecânica, visível, que cria uma impressão, de alguma forma, de um homem quase máquina, numa "mixagem" que altera a própria imagem dos indivíduos. Começamos a trabalhar cada vez mais com próteses imaterializadas. Baudrillard usa a expressão soft ways. São esses trabalhos que Ciro já apontou no começo, da engenharia genética, as técnicas da inteligência que Pierre Lévy aborda, da memória, que são coisas invisíveis. Refiro-me a isso porque fiz uma pesquisa de campo para meu doutorado e descobri que a imagem é uma das grandes discussões: a aparência que se tem ao usar próteses no corpo. Constatei que existe uma rejeição muito grande das pessoas quando se utilizam máquinas ou próteses que ficam muito aparentes no corpo, como, por exemplo, a perna mecânica. Essa me parece ser uma tendência já ultrapassada, das próteses da época "industrial". Agora, caminhamos para um outro tipo de prótese que não compromete mais o visual. Virilio diz que as próteses, hoje, são aquelas que podem ser engolidas, que são "biodegradáveis", etc. Elas incorporam-se ao corpo de outra maneira. Isso me faz pensar numa situação que nós já havíamos apontado antes: a de que a pele, num determinado momento, pode ser vista também como suporte das máquinas, quando elas não estão fora, mas grudadas no corpo. Estamos caminhando para uma situação em que as próteses serão interiorizadas por meio de pequenos implantes, ou mesmo pela deglutição. Isso significa que a relação do homem com a máquina ou do corpo com as próteses tende a ser uma questão crucial nestes anos, diante das perspectivas das novas tecnologias, que vêm sendo chamadas de nanotecnologias. As novas próteses corporais não alteram mais a aparência; o que está em questão é apenas o uso de certos instrumentos que possam potencializar, revitalizar, rejuvenescer o corpo, sem alterar a configuração da aparência. Há aí um caminho bem aberto. As próteses são cada vez mais comuns e hoje temos possibilidades imensas de utilizar determinados aparelhos capazes de capacitar o corpo. Estamos caminhando para uma situação em que as próteses serão interiorizadas por meio de pequenos implantes, ou mesmo pela deglutição. Ciro falou de todas essas técnicas como algo que nos permite ir além do corpo, um metacorpo. Beltrina falou disso também: a megacidade, um metacorpo, e assim por diante. Fico pensando ainda no processo de miniaturização das máquinas. Quanto menores, mais fácil degluti-las. Mas, voltando ao que Ciro falou, parece que também estamos caminhando para um corpo cada vez mais imprestável, já que as atividades são centradas na inteligência. O corpo fica muito defasado. Então, como se utilizar de determinadas máquinas para devolver ao corpo as funções de movimento e até mesmo de prazer? Eu não tenho muitas certezas acerca disso. Mas é um tema desafiante. Isso me lembra o australiano Stelarc, quando diz que a função dos artistas é apontar as inquietações e indagações sobre esse corpo que estamos construindo, mas que, apesar de todos os avanços, ainda estamos vislumbrando muito humildemente. Virilio fala que estamos numa espécie de Pedra Lascada da biologia: não podemos nos assombrar com aquilo que ainda está no começo. Sem dúvida, já são grandes os avanços no sentido da construção do corpo, com todas essas técnicas comentadas aqui. Mas o uso cada vez maior delas e as possibilidades que elas vêm anunciando apontam caminhos que de certa forma ainda soam distantes à imaginação. Tenho muito interesse que esse assunto seja aqui melhor desenvolvido. Não se trata de ficar simplesmente pensando no futuro, em como iríamos trabalhar esse corpo no futuro, mas de pensarmos o que se vislumbra diante das possibilidades colocadas no presente. Virilio fala que estamos numa espécie de Pedra Lascada da biologia: não podemos nos assombrar com aquilo que ainda está no começo. O uso cada vez maior das técnicas e as possibilidades que elas vêm anunciando apontam caminhos que ainda soam distantes à imaginação. Eugênio - Gostaria de discutir a condição do corpo na sociedade tecnológica. A imagem do "corpo técnico" está rondando nosso debate, portanto, estamos no caminho up-to-date de uma leitura correta. A relação do corpo com a cultura, a psicanálise e outras dimensões sociais compõe, da mesma forma que o corpo na sociedade tecnológica, uma rede de relações. Nesse sentido, coloca também uma rede de questões para as quais dificilmente teremos aqui alguma resposta. Não precisamos abordar essa temática por um só prisma; evidentemente, o corpo na sociedade tecnológica não se coloca sob apenas um viés temático. Foram citados aqui alguns tipos de corpos: o corpo artificial-inteligente, que ainda está na ordem do dia - embora o MIT tenha deslocado sua atenção para um corpo, como Edvaldo colocou, potencializado para a tecnologia. Além disso, Sfez coloca o problema da utopia do corpo, ou seja, o mais jovem finalismo tecnocientífico do corpo perfeito. A intuição e a reflexão me levaram a alguns pontos que gostaria de expor. Primeiro, há a questão do corpo produzido pela tecnologia e, segundo, o que venho chamando, provisoriamente, de corpus position standard. Com relação à primeira questão, pela primeira vez o corpo humano auto-organizado não tem mais a exclusividade da reprodução de um outro corpo humano auto-organizado. Isso significa, no limite, um problema. A mulher não tem mais a exclusividade, o privilégio de produção de um outro organismo. Isso remete à inseminação artificial, seguida da gestação por meios técnicos exteriores. Hoje a ciência e a tecnologia advogam para si esse direito de reprodução. Para colocar a questão em termos zoológicos, o homem está se instituindo como o único mamífero cujos descendentes podem ser totalmente reproduzidos exteriormente. Significa também que a ciência e a tecnologia podem agora produzir um agrupamento humano gerado por meios técnicos, diferente da humanidade gerada por meios naturais. Não é uma mudança pequena; é imensa, em termos da reprodução da espécie. Com relação ao corpus position standard, a combinatória de conceitos é inspirada no phallus exchange standard, de Baudrillard. Ele fala da utilização da psicanálise como prisma de leitura do que acontece com o falo na sociedade. Eu vejo por outro prisma. Essa combinatória de conceitos lembra o que Virilio coloca, em Inércia polar, como o corpo deficiente motor, que possibilita uma vinculação com a questão da velocidade. Lembro de duas situações colocadas pela tecnologia comunicacional e de transportes, na segunda metade do século XX. São as seguintes: o sedentarismo comunicacional nômade, possibilitado pelos computadores como veículos de transporte infoviário e de atividade espectral (nesse caso, trata-se da realização de viagens a partir de uma condição corporal de inércia), e o tecnonomadismo sedentário, possibilitado pelos veículos de transporte, os quais remetem a viagens a partir de uma mesma condição corporal de inércia (o corpo é levado pelo veículo). A mulher não tem mais a exclusividade de produção de um outro organismo. Em termos zoológicos, o homem está se instituindo como o único mamífero cujos descendentes podem ser totalmente reproduzidos exteriormente. Parece que a sociedade tecnológica está instituindo um homem da "dupla dobra". Quer dizer, trata-se de um homem que se coloca em posição de "L" e, especificamente, de duplo "L" invertido. Senta-se no veículo, no avião, senta-se para trabalhar, ouvir e discutir, como estamos fazendo aqui. Essa questão conduz exatamente ao fato de que a sociedade tecnológica institui um determinado padrão de postura para os indivíduos. Já houve esse homem da dupla dobra em épocas passadas. Porém, parece-me que a sociedade tecnológica institui a dupla dobra como um modus operandi padrão do corpo, como um hábito cultural de validade universal, e até mesmo como uma determinação. Curiosamente, essa posição em "L", do homem sentado, equivale a pelo menos metade do símbolo fascista. E qualquer semelhança não é mera coincidência. Existe uma ditadura da dupla dobra em relação ao corpo. Portanto, o homem da sociedade tecnológica não é o homo erectus, mas o homem cavado em "L". Para terminar esse tópico uso o conceito de phallus exchange standard de Baudrillard: assim como existe um valor de troca, fálico, na sociedade, no que diz respeito ao corpo, à posição padrão e à própria sociedade tecnológica, parece que também a dupla dobra se coloca como um valor de troca. Ou seja, quem quer entrar na sociedade deve pagar o preço dessa dupla dobra. Seria, portanto, um corpus exchange velho, um valor de troca na sociedade. Assim, o corpo humano é hoje produzido e reproduzido pela tecnologia, que o põe em circulação, potencializa-o e mata-o. Parece que a sociedade tecnológica - esta é uma apreensão muito subjetiva, e retorno a temas clássicos - institui uma economia política do corpo, com um ciclo que começa na produção e termina na própria morte do corpo. Parece que a sociedade tecnológica institui uma economia política do corpo, com um ciclo que começa na produção e termina na própria morte do corpo. Ciro - Na questão do corpo, as falas de Vani e Edvaldo, de certa maneira, pareceram-me iguais. Em relação à questão da moça de Anders, citada por Vani, e aos exemplos de próteses de perna dados por Edvaldo, vejo que ambos conduzem à mesma constatação. Trata-se, na verdade, do fato de que o homem não tem nenhuma posição de conflito ou negação de seu corpo em relação à técnica. Pelo contrário: tem uma ligação extrema com a técnica, quase uma adoração em relação ao objeto técnico. Ou seja, os artefatos construídos pelo homem projetam aquilo que ele não é mas no fundo gostaria de ser. De alguma forma, a técnica acaba funcionando como o alter ego do indivíduo. Parece-me que isso vai de encontro ao caso citado por Anders. Há várias leituras para o caso, se bem que também entendi de outra forma esse exemplo da jovem. Anders disse que a moça se transforma num modelo de modelos, isto é, a aspiração das pessoas é cada vez mais a de se "maquinizar", de se transformar em máquinas. Elas teriam quase uma inveja das máquinas. Sente-se que o ser humano é um ser incompleto, cheio de falhas e erros, e que o modelo idealizado de ser perfeito seria justamente o da máquina, do robô, que não falha. Assim, dentro desse modelo, a moça estaria se esforçando para ser um tipo maquinal de pessoa, um padrão, tal qual uma máquina, pois os homens se sentem incomodados diante da perfeição dos equipamentos técnicos. O homem não tem nenhuma posição de conflito ou negação de seu corpo em relação à técnica. Os artefatos construídos pelo homem projetam aquilo que ele não é mas no fundo gostaria de ser. Vani - Anders menciona esse aspecto em dois momentos: no primeiro, quando comenta uma exposição que visitou, em que as máquinas aparecem como modelos mais bem acabados, com melhor aparência e performance que os homens. Em outro, ele relaciona tudo isso ao corpo humano, que entra em desgaste, que não pode ser substituído e apresentar um modelo novo a cada ano. Quando ele fala da modelo, observa que ela "se produz" justamente para se aperfeiçoar, mas no sentido de ficar igual às outras modelos, para ser aceita nos mass media. Nesse momento específico, ele não chega a fazer referência a máquinas e sim a uma técnica de produção em série de corpos iguais, cujos modelos são bem aceitos pela sociedade. Quando Anders fala da modelo, observa que ela "se produz" justamente para se aperfeiçoar, mas no sentido de ficar igual às outras modelos, para ser aceita nos mass media. as duas faces da técnica Ciro - Concordo com sua leitura, mas vejo também outro plano: esses corpos sociais iguais são uma espécie de corpos em série, como os objetos técnicos. Fiz essa observação por achar interessante o fato de que, apesar de parecerem conflitantes a princípio, as posições de Edvaldo e Vani são, de certa forma, muito parecidas. Menciono isso para introduzir uma outra questão da técnica que me chamou a atenção, levantada por Sfez: as pessoas, diante das inovações técnicas, têm às vezes uma relação bastante defensiva. Tome-se, por exemplo, o caso de Baudelaire criticando a fotografia, como algo desumanizado em relação à reprodução da imagem. Tome-se o exemplo de Benjamin falando dos filmes. São pessoas que, no início das inovações técnicas, assumiam posições bastante defensivas, as quais, mais adiante, seriam tomadas como conservadoras, reacionárias, equivocadas. Ao mesmo tempo, existem aqueles que têm uma relação muito acrítica com o advento das novas técnicas e que entram num discurso quase eufórico diante do novo. Estes também se vêem depois decepcionados em relação aos problemas resultantes da técnica. Dessas duas constatações - de que há equívocos de ambos os lados -, acabamos supondo que a questão da técnica, na verdade, é uma falsa questão. A verdadeira questão parece transcender um pouco a relação do homem com a técnica, já que esta, como Edvaldo falou, é um artefato que o homem cria para melhorar seu próprio desempenho, e que em alguns momentos assume também um aspecto preocupante. Esses dois lados - tanto a crítica quanto o entusiasmo com a técnica - parecem na verdade encobrir um problema que está um pouco mais adiante. A questão da técnica em relação ao corpo também me incomoda, pois aí se encontra o conflito, que parece estar em algum lugar além da própria relação do homem com a técnica. Está em espaços onde o homem não encontra os parâmetros para trabalhar sua própria complexidade, suas próprias questões. E a técnica, nesse caso, funciona quase como um espaço utilizado preferencialmente para situar a crítica. Essa é uma primeira questão, que tem sido recorrente em nossas discussões. Sfez, em seu último livro, toma a postura de não justificar nem demolir a técnica, simplesmente compreendê-la - o que não ajuda muito a resolver a questão, mas vem bem ao caso. O que é na verdade essa "compreensão"? Em seu livro, ele faz um caminho que procura evitar as armadilhas da crítica à técnica, bem como as da euforia exagerada. Ou seja, parece que a questão irá se resolver em outros planos, diferentes daqueles que estamos acostumados a falar. A verdadeira questão parece transcender um pouco a relação do homem com a técnica, já que esta é um artefato que o homem cria para melhorar seu próprio desempenho, e que em alguns momentos assume também um aspecto preocupante. Queria chamar atenção sobre a questão levantada por Edvaldo, do atrofiamento do corpo e dos destinos da sexualidade em relação a uma cultura que está cada vez mais mentalizada. Apesar das possibilidades da realidade virtual, o tipo de experiência que ela proporciona não se compara com as experiências que envolvem o corpo como um todo. Como Vani falou, é também uma questão daquilo que a cultura ocidental perdeu: o toque do corpo, a sensação de aproximação de um corpo a outro, a emoção, o próprio sentir, tudo aquilo que faz com que nossa sociedade se afaste cada vez mais em função dos equipamentos que nos distanciam uns dos outros. E a tecnologia entra muito claramente nesse campo, à imagem de um substituto temporário, que deixa a lacuna mal-resolvida. Estamos imersos em uma cultura de distanciamento físico, real, e essas tecnologias, na verdade, não colaboram para melhorar isso. Talvez forneçam algum tipo de paliativo para o problema. Edvaldo - Abordarei duas coisas. Nós falamos da técnica como um meio de aperfeiçoar o corpo. Isso não é novo - já falamos sobre isso há bastante tempo. Mas é preciso levar em consideração que - sem querer fazer uma defesa ufanista da técnica - os objetos de alguma maneira não só favorecem o dia-a-dia das pessoas como melhoram o seu desempenho. Por exemplo: ninguém conhece alguém que troca uma TV em cores por uma em preto-e-branco. Não existe tal retrocesso. Quando as pessoas estão usando próteses, também existe uma concepção clara - e pude constatar isso com as entrevistas que fiz - de que elas podem reclamar de alguns aspectos dessa técnica que está sendo utilizada para aperfeiçoar o corpo. Elas podem desejar um novo tipo de aperfeiçoamento. Querem, na verdade, intensificar o aperfeiçoamento. Por exemplo: se a pessoa tem um defeito visual, usará óculos. A partir daí, pode reclamar de seus inconvenientes, mas nunca irá negar que o uso dessa prótese favorece sua visão - ela enxerga muito melhor, cansa-se muito menos, pode utilizar muito mais a visão. Se a prótese incomoda por ser muito visível, a pessoa pode recorrer a uma outra, invisível, imaterial, embora não totalmente, que seria a lente de contato. Já temos a perspectiva de que, em pouco tempo, essa lente de contato seja substituída por um chip capaz de redimensionar ao extremo a visão. Quer dizer, é uma idéia de potencialização crescente, que busca a melhora do corpo. Estou frisando isso para chegar à questão do atrofiamento. As pessoas estão melhorando e parecem estar fascinadas, não com a técnica em si, mas com o que ela devolve ao corpo, isto é, uma potência perdida ao longo dos anos, por desgaste, ou pela própria insuficiência do corpo. Mas é um jogo típico da sociedade tecnológica oferecer a satisfação e a frustração ao mesmo tempo. Hoje utilizo uma prótese que me amplia uma capacidade, mas, em pouco tempo, aquilo que foi redimensionado já parece insignificante diante de uma nova geração de máquinas, capaz de levar a potencialização muito mais longe. Essas máquinas estão sendo comercializadas no Brasil por meio dos anúncios de televisão, que vendem por cartão de crédito, etc. Lembro-me de ter ouvido falar de um aparelho minúsculo, adaptável à orelha, que amplia oito vezes a audição. Já é muito popular, está até em anúncios na TV, e não é um artigo caro, ao contrário do que se poderia pensar. Ampliar a audição oito vezes é fascinante mas apenas nesse momento em que se tem a audição "limitada" de ser humano. Na hora em que surge um aparelho que a amplia oito vezes, em alguns meses já poderá aparecer outro que a amplie cem vezes. As pessoas estão melhorando e parecem estar fascinadas, não com a técnica em si, mas com o que ela devolve ao corpo, isto é, uma potência perdida ao longo dos anos. Mas é um jogo típico da sociedade tecnológica oferecer a satisfação e a frustração ao mesmo tempo. A mesma técnica que frustra oferece uma nova sedução, uma nova possibilidade de redimensionar seu funcionamento. Esse conflito será contínuo. É muito interessante estarmos discutindo o aperfeiçoamento do corpo, mas ele não ocorre de uma única vez. Por exemplo, se estou insatisfeito com alguma parte de meu corpo, faço uma cirurgia plástica. Mesmo assim, não se diz que o problema foi resolvido. O que está em questão é que, para que meu corpo possa se adaptar cada vez mais ao modelo - Vani falou bastante sobre isso -, preciso de uma adaptação contínua. Tenho de trabalhar tecnicamente meu corpo a cada dia. Uma cirurgia plástica irá demandar novas cirurgias, assim como a musculação na academia exigirá novas baterias de exercício, ou um cooper no calçadão preverá um acréscimo no percurso. Talvez essa paranóia de preservação do corpo esteja muito ligada à idéia de que, atualmente, não temos mais limites de desenvolvimento. De agora em diante, o corpo nunca estará perfeito. É um processo sem fim, em que se pode incorporar cada vez mais coisas, com a vantagem de que as maquininhas são superadas e se pode substituí-las. Não se trata mais simplesmente de trocar um membro por outro. Embora isso seja possível, a verdadeira questão é a substituição das máquinas que ficam velhas. Volto à questão do atrofiamento do corpo, nos moldes colocados por Eugênio, porque me parece existir outro viés. Não consigo ver o corpo em função da inércia; hoje, parece-me que toda construção do corpo ocorra por causa do movimento. O que se quer levar ao corpo é o movimento completo, total, em tempo integral. Levar o corpo a um movimento infinito, ainda que aparentemente ele esteja parado. Virilio diz que, quando o corpo técnico, informatizado, está parado, ele na verdade está sendo acionado por inúmeros aparelhos. É um processo de mutação contínua. Parece-me que a sociedade tecnológica exige exatamente o contrário desse atrofiamento: ela vem oferecendo recursos para tirar o corpo dele. Quero dizer que temos revoluções radicais a todo momento nesse universo tecnológico, mas parece que a nossa reflexão fica atrasada, e não conseguimos superá-la. Essas novas técnicas não estão a serviço do atrofiamento. Penso exatamente o contrário: elas existem para romper com um certo atrofiamento. É verdade que a relação de trabalho que se tem hoje aponta de maneira muito forte para o cenário descrito por Eugênio, do homem parado, sentado o tempo inteiro. Mas se quer romper com isso: as pessoas vão à academia, correr no calçadão, enfim, buscam a aceleração de todas as maneiras possíveis, a fim de intensificar movimentos, gestos, sensações, paixões. Tudo deve ser vivido de uma maneira muito intensa, portanto, em movimento contínuo, "sideralizado", conforme a expressão de Baudrillard. Talvez essa paranóia de preservação do corpo esteja ligada à idéia de que não temos mais limites de desenvolvimento. De agora em diante, o corpo nunca estará perfeito. Pode-se incorporar cada vez mais coisas, com a vantagem de que as maquininhas são superadas e se pode substituí-las. parada x movimento Ciro - Vejo a questão do movimento contínuo também sob outro aspecto, talvez mais crítico. Trata-se da idéia do horror vacui, de se estar sistematicamente procurando - Edvaldo falou no "excesso de equipamentos" -, de se exercer movimentos perpétuos, da busca contínua do agir, do fazer algo, do trocar, do repor, de manter sempre uma pulsação maquinal. Voltando a Anders, ele considera isso uma espécie de eterna fuga da situação aterrorizante de ter de reservar um tempo a si próprio, para parar e pensar. Em última análise, é aquilo que ele aponta como recusa à liberdade, ou o mesmo que a incapacidade para a própria liberdade. Isso vai se tornando uma espécie de febre social - esse contínuo do mudar, substituir, aperfeiçoar, buscar, exatamente para evitar encarar de frente a própria vida, o próprio parar. "Se você pára, então morre", fala o Fausto de Goethe. A pessoa não pode se permitir chegar a esse ponto de parada. Nessas situações, a máquina fornece uma espécie de reforço ao motor contínuo que deve ser a vida de cada um. Trata-se de um movimento pelo movimento, mas é o caso de se perguntar: "será que é isso mesmo o que desejo? Será mesmo neste estado que me sinto bem? Ou será que estamos eternamente tentando escapar, fugir, não encarando de frente o momento de parar?" Beltrina - Ciro, quando você reivindica esse momento de parada, não estaria revalorizando o homem, o sujeito? Ciro - Não, estou revalorizando a reflexão sobre mim mesmo, sobre minha vida, o que faço, quero ou deixo de fazer. Ou seja, parece-me que todos esses equipamentos servem-me para tirar o "peso" que é pensar sobre mim mesmo. Rodrigo - Há um mercado de consumo que trata de tudo isso que Ciro falou. As próteses estão dentro desse mercado, assim como todo o corpo, e há um estímulo à renovação, a um "upgrade" geral a cada seis meses. Mas o que me preocupa nisso tudo é a questão da eugenia. É uma questão seriíssima. Concordo muito com o que Eugênio disse em relação ao poder sobre a reprodução, mas a forma como falou está, em minha opinião, um pouco inadequada, porque o homem agora tem poder total sobre a reprodução de várias espécies. De certo que ainda não de todas, mas estamos chegando lá. O que eu quero dizer com isso é que há várias espécies de animais domésticos que já não são viáveis sem a tecnologia. Com o avanço da manipulação genética, nós também não seremos viáveis sem a tecnologia. Isso é uma novidade muito marcante, tal como Eugênio falou. À medida que é possível produzir um bebê, manipular e combinar sua carga genética a partir de um único tipo de gene, sem se precisar mais do par - e isso já está sendo feito em animais de laboratório -, surge a possibilidade de se criar seres nunca vistos. Seres que não só vieram da tecnologia, como só terão condições de sobreviver por meio dela. Isso é um passo novo na nossa relação, que sempre foi dependente da tecnologia. Desde que o ser humano, o homo sapiens ou o macaco primordial, pegou a pedra e usou-a como instrumento, ele passou a manipular a natureza, e a relação com ela sempre foi conflitante. O homem "natural" nunca existiu. A eugenia - juntando com o que Beltrina falou - leva a um processo de exclusão em que não teremos grandes ideologias falando da raça superior. Isso também é determinado pelo mercado. À medida que hoje é possível produzir um bebê a partir de um único tipo de gene, sem precisar mais do par, está surgindo a possibilidade de se criar seres nunca vistos. Seres que não só vieram da tecnologia, como só terão condições de sobreviver por meio dela. Da mesma forma que a reprodução humana foi alterada pelo processo capitalista, no sentido de que seres biologicamente inviáveis foram preservados e se reproduziram porque eram economicamente viáveis, isso se agrava e a exclusão já determina os "escolhidos" para se salvar da explosão. A explosão não irá acontecer de fato; ela já está acontecendo no processo de exclusão. Setenta por cento da humanidade é hoje inviável por não ser mais necessária ao processo econômico. Eles não são mais necessários enquanto força a ser explorada, são um excesso. Estão soltos e o problema é deles. Setenta por cento da humanidade é hoje inviável por não ser mais necessária ao processo econômico. Eles não são necessários mais enquanto força a ser explorada, são um excesso. Ciro - Deixe-me só fazer uma intervenção. O problema não é só do ponto de vista econômico. Não podemos esquecer o texto, mesmo que relativamente antigo, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Hoje, por causa da questão do pós-moderno, nós nos desacostumamos a pensar a questão do poder na forma como ele foi preocupante, décadas atrás. De repente, pensamos que ninguém tem mais poder nenhum, que ele está pulverizado, fragmentado, diluído, que tudo ficou muito simples e inofensivo. Mas, se olharmos como de fato as coisas ocorreram na nossa civilização - a barbárie se alternando com a civilização, tendência que tem sempre se repetido, quer se queira ou não -, a hipótese lançada por Huxley (de se selecionar os genes e as características para formar exércitos de servidores) não é de todo extirpável do discurso. Se olharmos como de fato as coisas ocorreram na nossa civilização - a barbárie se alternando com a civilização -, a hipótese lançada por Aldous Huxley (de se selecionar os genes e as características para formar exércitos de servidores) não é de todo extirpável do discurso. Rodrigo - Em setembro de 1995 foi inaugurado, na Escola Paulista de Medicina, um centro de excelência sobre medicina esportiva. Um dos projetos que eles estão viabilizando - por meio da seleção de atletas potenciais para times de futebol e, depois, para outros esportes - é a construção de uma série de unidades móveis que farão testes de parâmetros esportivos nas escolas públicas. Descobrirão talentos. Isso, na medida em que se alia à alta tecnologia com perfis esportivos, é eugenia. Edvaldo - Volto à questão que Ciro abordou e que Rodrigo frisou muito bem. Parece que, nessa onda de movimento e aperfeiçoamento do corpo, parar é possível, sim. Mas quando é possível? O que acontece quando se pára? Fica-se à margem. Gosto muito de Stelarc quando diz que hoje a tecnologia habilita o corpo e garante a sua existência. Volta-se àquela história de que a tecnologia não existe para atrofiar, mas é o que garante o funcionamento do corpo. Se você não insere mais o corpo no processo tecnológico, não o torna um corpo técnico, ele simplesmente cai fora do movimento típico da sociedade, torna-se inadequado em termos de lazer, de prazer, de trabalho. Ele simplesmente sobra. Fiquei pensando na discussão de um workshop anterior, sobre os excluídos da sociedade - Atrator estranho nº 20. Parece que voltamos exatamente ao tempo do corpo que pode ser excluído ou incluído no contexto. Quando Baudrillard fala do movimento sideral, ele usa a expressão unicamente porque o movimento é sideral, não pode mais parar, é infinito. Parece que nós entramos nessa onda de produção do corpo de uma maneira também ininterrupta. Não é possível mais parar, a não ser que alguém deseje se colocar à margem. Se você não insere mais o corpo no processo tecnológico, não o torna um corpo técnico, ele simplesmente cai fora do movimento típico da sociedade, torna-se inadequado em termos de lazer, de prazer, de trabalho. Beltrina - Eu perguntei a Edvaldo o que significava "parada" porque sinto como se o corpo estivesse separado da mente. Reli algumas partes do livro O erro de Descartes, de Antonio Damasio, em que o corpo é colocado como aferição do mundo. As percepções do mundo ocorrem por meio do corpo. Não há mais essa separação entre corpo e mente. Então, quando Edvaldo fala sobre a parada, isso me vem à mente: afinal, é possível separar esse corpo do pensar? E as percepções que se tem a partir da audição, do tato? Há hoje um redimensionamento das nossas percepções que ocorrem através desse corpo em movimento? Ciro - Não sei. Acho que há isso, como também deve-se considerar outra coisa. Não consigo pensar enquanto estou em uma atividade muito turbulenta ou agitada; preciso parar, sair daquele ambiente ou situação para conseguir pensar. Ou seja, preciso me dar um tempo, retirar-me de um ambiente de muita excitação, de muito estímulo. Nem sempre as coisas são combinadas de formas casadas. Rodrigo - Será que sua filha é assim, Ciro? Ciro - Não sei, pode não ser agora, mas, futuramente, deverá ser assim também. Não sei se minha percepção é muito antiquada, mas de alguma forma certos tipos de movimento agitado e compassado de fato envolvem atividade mental - no sentido que está sendo afirmado aqui -, de o corpo estar em movimento contínuo e sua mente estar no mesmo ritmo. E esse compasso, para mim, inviabilizaria outro tipo de prática, possível apenas num momento de paralisia desse movimento. Isto é, é preciso um tempo para o pensamento trabalhar, desenvolver, criar e conduzir, atividades essas que não teriam espaço em um ambiente de contínua pulsação. Por isso, digo que essa separação, apesar de muito importante para mim, é absolutamente descartável para uma grande parte das pessoas, pois, na verdade, elas querem continuar vivendo nesse ritmo. São diferentes modos de as pessoas se relacionarem com esse movimento. Vani - Seguindo o caminho aberto por Beltrina, talvez seja o caso de tentarmos fazer um refinamento de conceitos: que corpo é esse, afinal, de que estamos falando? Isso porque há no corpo humano um corpo físico em funcionamento, que é a aparência externa, e um corpo com órgãos internos em funcionamento. A potencialização da audição ou da visão, por exemplo, entra em um processo que altera o desempenho mas não altera o corpo físico. Além disso, há a relação entre esse corpo físico e a mente, e entre outro ponto também, que é a sensibilidade. Há uma discussão bastante atual sobre a morte dos embriões congelados. Que corpo é esse que está sendo morto? Vejo-o como um conjunto de órgãos que ainda não tem uma forma física. E que tampouco seja dotado de uma mente, menos ainda de sensibilidade. Nesse momento, estabelece-se uma grande discussão sobre quando começa a existir o complexo que forma o homem. Que corpo tem o homem? Que corpo é esse que a tecnologia manipula, e até que ponto ela é invasora? A tecnologia chega a alcançar a sensibilidade? Ela altera a mente? Eugênio falou sobre a questão do corpus como moeda de troca. Eu não sei se, na verdade, seria o corpus ou o físico, a relação externa, aquilo com que me apresento concretamente diante da vida. Além disso, há a questão que Rodrigo abordou sobre o gerado fora do corpo. Há discussões acerca das possibilidades já existentes de se fazer a gestação fora do corpo. Arthur Kroker avança nessa questão, com a história da "robô grávida". Um corpo não é mais indispensável para gerar e criar mamíferos, inclusive o homem. Creio que essas novidades irão alterar bastante a compreensão do corpo, do homem e da relação homem-corpo que está em jogo. o imaginário do corpo Eugênio - Está em jogo uma nova forma de produção da espécie. Pontuarei algumas questões. Vani falou de um imaginário do corpo e Edvaldo da potencialidade do corpo. Parece-me que, se formos unir as questões e ratificá-las, existe, no final de século, um imaginário da potência do corpo de superação dos limites do que é humano. Parece que, se formos unir as questões e ratificá-las, existe, no final de século, um imaginário da potência do corpo de superação dos limites do que é humano. Vani - Em relação à questão do imaginário, deve-se dizer que ele pode chegar a níveis esquizofrênicos, quando a pessoa jamais se sente bem, mas não porque deseja se potencializar. Trata-se do indivíduo que sempre se acha mais gordo do que é, ou que tem um complexo por causa de sua altura, etc. Não se trata de querer melhorar o próprio corpo, mas de se sentir negativa ou positivamente - e de forma exacerbada - em relação ao seu modelo de corpo. É uma esquizofrenia em relação à sua própria condição de ser. Eugênio - Sim, mas de certa forma esse modelo é imposto pelos produtos culturais de massa. Edvaldo - E são modelos flexíveis, mudam o tempo inteiro. Beltrina - Além de variarem de indivíduo para indivíduo, pois cada um tem seu modelo. Edvaldo - Acontece que faço todo um esforço para adaptar o meu corpo a esse modelo, e quando consigo me aproximar o modelo já é outro. Eugênio - É uma espécie de adequação a um modelo que está sujeito a reciclagem. Mas existe um imaginário da superação dos limites do humano. Parece ser uma forma de tentar superar o corpo inútil, num universo técnico que se recicla (como foi dito aqui, o corpo imprestável). É exatamente a metáfora do corpo inútil: Anders - como Ciro e Vani lembraram - diz que as máquinas tornam o corpo fracassado, praticamente morto, sem a mínima capacidade de concorrer com elas. É justamente para sair desse contexto que parece elaborar-se culturalmente um imaginário da superação desse corpo inútil. Ao mesmo tempo, existe um desencanto, uma frustração com o corpo herdado da natureza. Ou seja, o corpo técnico como imaginário é exatamente a contraface de uma frustração antropológica com o corpo herdado da natureza. É, portanto, a sedução do artificial que está em jogo nesse imaginário. Sfez discorre a respeito em um tópico sobre a artificial life. O corpo técnico como imaginário é exatamente a contraface de uma frustração antropológica com o corpo herdado da natureza. É, portanto, a sedução do artificial que está em jogo nesse imaginário. Outra questão: Ciro lembrou-nos do sexo virtual, da questão do ciberespaço, e Beltrina falou a respeito do corpo asséptico. Vem-me à memória, como inspiração, o conceito do corpo pleno sem órgãos de Deleuze, para dizer o seguinte: o ciberespaço não institui mas ratifica a troca imaterial, sem corpo, que no ciberespaço é lateralidade, suporte, condição de possibilidade que permanece na inércia, justamente para possibilitar uma troca. Essa troca é estabelecida por espectros, e esses são hoje, no vácuo do corpo, os equivalentes gerais da sociabilidade e da solidariedade. Rodrigo - Eugênio, eles não são o corpo? Você os separa? Eugênio - Eles evidentemente são espectros de uma comunicação possível, remetem ao corpo, mas não são o corpo. Já as imagens televisivas são imagens de corpos, mas, da mesma maneira, não são os corpos. Beltrina - Será que não seriam extensões do corpo? Rodrigo - Também penso nesse sentido. Radicalizando o que Eugênio disse, a realidade virtual e a presença nela são algo separado do corpo. Tenho muitas dúvidas sobre isso. Será que, no momento em que se engloba tudo isso - e antecipo a pergunta de Beltrina -, não estamos fazendo a velha separação entre o corpo e o espírito? Eu preciso dos meus sentidos. Concordo com Eugênio pela mesma observação de Ciro: nós estamos colocando barreiras tecnológicas entre corpos, mas essas barreiras, extensões e próteses anexam-se ao corpo e são por si mesmas corpos contatados. Imagino que no ciberespaço também haja corpos se contatando. Edvaldo - Não estamos trabalhando apenas a diferença entre corpo e espírito como duas coisas separadas: o corpo e a máquina. O que Virilio e Stelarc vêm dizendo há tempos é que as máquinas acontecem no corpo, há uma mixagem, uma fusão. Hoje o corpo é máquina, como também a máquina é corpo. Mas afirmo frente ao que Eugênio disse que existe uma questão conceitual nisso tudo, e faz-se necessária uma distinção. Trata-se da idéia do corpo em movimento e do corpo acelerado. Quando falamos da inércia, podemos estar nos referindo à questão do movimento. O homem se locomove fisicamente cada vez menos, já que as viagens são cada vez mais virtuais. Então, ele está parado. Mas isso não significa que não esteja em aceleração contínua. Quando falamos da inércia, podemos estar nos referindo à questão do movimento. O homem se locomove fisicamente cada vez menos, já que as viagens são cada vez mais virtuais. Então, ele está parado. Mas isso não significa que não esteja em aceleração contínua. Eugênio - Sim. Essa é a idéia de inércia polar que mencionei no início. Por isso me remeteria à questão de Edvaldo. Estávamos falando praticamente de um mesmo ponto, sob perspectivas diferentes. Edvaldo - Isso mesmo. E vem a pergunta: o que não pode parar? Pode-se até parar fisicamente, mas o corpo está tão acelerado, há tantos sensores... Essa inércia só acontece aparentemente. Eugênio - Mas aparentemente se está em movimento também em algumas situações. Aparentemente nos colocamos em movimento. Edvaldo - E tanto num caso como no outro se está acelerado. sedentarismo nômade x nomadismo sedentário Eugênio - Rodrigo falou da questão do corpo e do espírito. Parece-me que não é essa a questão. No caso do ciberespaço, quando falei no espectro, como equivalente geral da sociabilidade, estão em jogo o corpo e suas produções espirituais, mentais. Essas produções acabam sendo colocadas, por assim dizer, no mundo, e não prevalecem mais como extensões do corpo, mas como objetos autônomos. O produtor intelectual coloca na sociedade um produto que ganha vida própria. A imagem na televisão ganha vida própria. As palavras ganham vida própria. Então, o sujeito é uma série de intempéries, afastado daquilo que se intencionou ao produzi-lo. Na fala anterior, Edvaldo disse que existe na sociedade um imperativo do movimento, que não seria o da inércia. De fato, são dois tipos de situação. Quando se trata do sedentarismo comunicacional nômade, se está parado mas se vai a diversos lugares. É possível contatar pontos da rede e ir ao Japão ou aos EUA. De fato, faz-se uma mobilização através do veículo computacional - conceito de Virilio - sem se sair do lugar. Por outro lado, tem-se o tecnonomadismo sedentário, que remete ao sistema de transportes: dentro de um veículo, estamos parados, em inércia, e em movimento concreto. Existem duas situações, portanto, e por isso não podemos dizer que existe um imperativo do movimento em desprestígio do imperativo da inércia e vice-versa. Parece-me que a sociedade tecnológica, ao mesmo tempo em que investe na mobilização, carregando junto situações de inércia, não só quebra as atrofias, como também gera novas atrofias. Para isso, devemos ficar alertas, porque o fato de a sociedade tecnológica, com todos os seus dispositivos instrumentais e imperativos, de alguma maneira nos levar a um movimento perpétuo não significa que as atrofias estejam sendo superadas. Não se trata de um movimento que ao mesmo tempo suspende qualquer tipo de atrofiamento. Ao contrário, ele gera novos, e nós precisamos saber quais são. Quando se trata do sedentarismo comunicacional nômade, está-se parado mas vai-se a diversos lugares por meio do veículo computacional. Por outro lado, tem-se o tecnonomadismo sedentário, que remete ao sistema de transportes: dentro de um veículo, estamos parados, em inércia, e em movimento concreto. Ainda não foi abordada a devassidão provocada pela ciência e pela técnica, o corpo cada vez mais devassado; é por aí que ocorre o controle. A ciência e a técnica quebram, mais do que em qualquer época, a opacidade do corpo, tornando-o transparente. Hoje se conhece muito mais sobre os órgãos, células e outros constituintes do corpo. O projeto Genoma quer devassar, em detalhes, os genes. Isso não seria possível sem os microinstrumentos de captação e reprodução de imagens. A partir daí, poderíamos refletir um pouco sobre o projeto Genoma, que já apareceu em um outro workshop e tem relação com o que tratamos agora. A ciência e a técnica quebram, mais do que em qualquer época, a opacidade do corpo, tornando-o transparente. Hoje se conhece muito mais sobre os órgãos, células e outros constituintes do corpo. Beltrina - Chamo a atenção para dois pontos que merecem ser melhor trabalhados. Edvaldo falou, no início, do romantismo que ainda se tem frente à natureza. Vejo duas tendências hoje no mundo. Por um lado, o homem que se potencializa por via da técnica e, por outro, o homem que nega a técnica e busca na natureza o seu Adão, como diz Sfez: usa unicamente a técnica da folha de parreira nos órgãos genitais. Identificamos essas duas tendências no mundo hoje, a adesão ou a negação total, principalmente daqueles que estão envolvidos no projeto Biosfera II. Vejo ainda outro aspecto, relacionado com o que Eugênio falou sobre o toque e as trocas, fazendo a relação entre o corpo e a cidade. Vejo os lábios pintados das mulheres hoje em dia como forma de mutilação do corpo. Como a boca da mulher, as ruas e praças públicas não são mais lugares de troca nem de contato sensual. Há outra conexão e outra troca, que não ocorrem mais na corporeidade. Como a boca da mulher, as ruas e praças públicas não são mais lugares de troca nem de contato sensual. Há outra conexão e outra troca, que não ocorrem mais na corporeidade. Ciro - Essa questão final é interessante. Iria colocá-la para Edvaldo, já que ele fala que a técnica é o homem. Temos de separar o que é a materialidade do próprio corpo e seus espectros, como questionaram Eugênio e Rodrigo. Não é preciso situar-se na era dos equipamentos eletrônicos; desde a era do telefone, quando se fala com uma pessoa à distância, está-se comunicando e realizando trocas sem a presença dos corpos físicos. Se encaramos as máquinas como prolongamento do homem, ou como sua outra encarnação, então, de fato, essa questão não se coloca, já que o contato ocorre de forma plena em toda parte. Edvaldo - Não disse que as máquinas são homens. Quis dizer que, no momento em que temos um processo de fusão completa com o homem por meio das próteses, não é mais possível separar o corpo da máquina do corpo do homem. Nós temos um novo corpo, por isso a expressão "homem-máquina". Ciro - Mas o contexto da discussão é o dos equipamentos eletrônicos, das comunicações por rede, e por isso surgiu a questão de as máquinas serem também homens. Precisamos estabelecer critérios de separação. Há uma confusão, porque a questão colocada inicialmente sobre o que significa a redução do corpo e do contato em termos de relações humanas está ligada ao fato de que o corpo não se confunde com a imaterialidade de suas próprias emanações, sejam elas a voz ou alguma forma de digitação. Quer dizer, está-se pensando no corpo enquanto espaço fisicamente circunscrito, diante de uma nova economia libidinal. A questão, na verdade, é discutir como essas novas formas se colocam em relação às antigas, as diferenças que isso traz às pessoas interagentes. Rodrigo - Mas é uma fronteira em diluição. Vani - Penso nisso de duas formas. Uma equivale a um primeiro momento, de ausência do sentir. Ao se conectar, se fica totalmente ligado às redes, quase que numa interação total, de que Edvaldo fala, em que se esquece que se tem um corpo. Envolve-se muito no agir, na cumplicidade com a ação por via da rede, da troca que completa tanto o indivíduo que ele não sente a cãimbra e o olho lacrimejar. Eugênio - Parece que as leis físicas suspendem-se. Suspende-se a lei da gravidade, a percepção de espaço e tempo. Parece que tudo ocorre em um outro tipo de imaginário. Vani - Pois bem, o corpo físico desaparece como algo circunscrito à concretude material da própria pele, osso e carne, e passa a ter uma outra complementaridade, que é o fato de se estar vivo e atuante dentro de um determinado espaço, mas com total ausência do sentir. Não se sente a dor, não se percebem os sentidos físicos. O corpo físico desaparece como algo circunscrito à concretude material da própria pele, osso e carne, e passa a ter uma outra complementaridade, que é o fato de se estar vivo e atuante dentro de um determinado espaço, mas com total ausência do sentir. Ciro - Isso remete à fala do corpo sem excreção. Todas as excreções são banidas e o corpo se torna puro, limpo. Vani - Sim, e isso é momentâneo. Quando se desconecta, começa-se a sentir todas as dores. Volta tudo, retorna-se à pequenez, à própria finitude. Esse é um ponto. O segundo momento é o da transposição. É ultrapassar isso, na fronteira da possibilidade de se interagir mais com a máquina, de recuperar um outro sentido, o sentido virtual. No primeiro momento, abstrai-se o sentido; no segundo, recupera-se um outro sentir, que é o da interação, um cibersexo ou outro tipo de interação virtual a partir de diversos simuladores. A essa altura, creio que se recupera outra ordem, hipervalorizada. Aqui se entra nesse sentido asséptico, limpo, etc., tão ao gosto dos autores pós-modernos. Mas essa nova ordem tem ainda outra potencialização, que o homem desconhecia na sua relação dual ou com as outras pessoas. Edvaldo - Queria fazer ainda uma ressalva. Vani aborda muito bem o momento do homem diante da máquina. Nesse flagrante, ele encontra-se muito seduzido pela máquina que permite o acesso às redes e trocas, mas tem um corpo que fica ali, meio esquecido, pendente. Parece-me que é exatamente isso: o corpo, o homem, diante da máquina. O homem encontra-se muito seduzido pela máquina que permite o acesso às redes e trocas, mas tem um corpo que fica ali, meio esquecido, pendente. Beltrina
- Que não precisa ser máquina: pode ser um livro, um filme
ou qualquer outra atividade mental. Edvaldo - Sim, este é um momento. Outro é quando a máquina, ou o instrumento técnico, não está mais diante, e sim no indivíduo. Uma coisa é o indivíduo com seu computador; outra possibilidade cuja viabilidade está sendo estudada é a de se colocar no mercado pequenos computadores que serão implantados no pulso do indivíduo. Uma coisa é o indivíduo com seu computador; outra possibilidade cuja viabilidade está sendo estudada é a de se colocar no mercado pequenos computadores que serão implantados no pulso do indivíduo. Vani - Quanto a essa questão só da máquina, nos EUA, na Europa e no Japão, por exemplo, há todos esses estímulos à disposição, presentes na mesma hora em que se solicita. Quer dizer, não se precisa de uma máquina, pois já se sente isso nas pequenas coisas que se tem à mão. Edvaldo - Parece-me que o desejo de potencialização do corpo existe exatamente para permitir que ele não fique à margem, que o indivíduo não se esqueça dele quando estiver diante das máquinas. A idéia de trazer as máquinas para o corpo é para devolver um certo pulsar, a fim de que a pessoa possa sentir muito mais o corpo. Não é para abandonar o corpo, mas para sentir todas as coisas com intensidade. Ao lado dessa economia libidinal de que Ciro falou, temos, portanto, um contraponto de excesso de sentido, de desperdício de energia, um corpo revitalizado continuamente para desprender cada vez mais emoções e sentimentos. A idéia de potencialização traz não só o fato de colocar o homem diante da máquina, como o de fazer com que o corpo esteja em completa sintonia, e de forma acelerada. O desejo de potencialização do corpo existe exatamente para permitir que ele não fique à margem, que o indivíduo não o esqueça quando estiver diante das máquinas. Eugênio - Beltrina levantou a pergunta sobre que tipo de experiência é essa que se separa da corporeidade. É isso? Beltrina - Sim, há uma conexão e uma troca, mas não há materialidade. Eugênio - Tenho a impressão de que há uma idéia rondando nosso debate. Ela remete a um tipo de subjetividade coletiva acerca do que é o corpo hoje, que, por sua vez, é uma subjetividade do vácuo do corpo. É exatamente esse tipo de subjetividade que permite a proliferação, o "emplacamento" de uma espécie de troca asséptica sem o corpo. Parece-me que nesse tipo de imaginário está embutido o imperativo da suspensão da corporeidade e que esse tipo de troca tornou-se uma sedução. A suspensão da corporeidade é também uma maneira de dizer sedução pelo artificial. Quando se está seduzido pela vida artificial, quer-se de fato suspender todas as leis que envolvem a própria corporeidade, e isso faz parte de uma subjetividade da qual participamos. A suspensão da corporeidade é também uma maneira de dizer sedução pelo artificial. Quando se está seduzido pela vida artificial, quer-se de fato suspender todas as leis que envolvem a própria corporeidade. Beltrina - Eugênio, nesse primeiro ponto, você não trabalharia no sentido inverso, com a subjetividade da era espacial? Eugênio
- Não, porque esse tipo de subjetividade exorciza a materialidade,
o contexto de corporeidade. No ciberespaço, por exemplo, relaciona-se
de uma maneira tal que o corpo é suspenso na própria materialidade.
Vive-se um imaginário - aquele do espectro, da voz, do escrito
- substitutivo do próprio corpo. E parece-me que esse é
o imaginário presente na sociedade hoje. Parecem existir três contextos básicos envolvendo o corpo: o contexto em que o corpo permanece em sua corporeidade (defasado, arcaico e anacrônico); o contexto do corpo ausente, que remete ao imaginário do vácuo do corpo; e o contexto do corpo potencializado maquinalmente. A quarta questão foi levantada por Beltrina e envolve o que Ciro falou a respeito do livro de Sfez. A técnica e a ciência, em relação ao corpo, abrem pelo menos duas perspectivas radicais e opostas: o romantismo da natureza e o ufanismo da técnica. Parece que, como pensadores, devemos trabalhar entre esses dois extremos que não se tocam, evidentemente por meio de uma análise fria desse contexto e, se possível, crítica. A técnica e a ciência, em relação ao corpo, abrem pelo menos duas perspectivas radicais e opostas: o romantismo da natureza e o ufanismo da técnica. Rodrigo - Vejo uma inversão. Não creio que haja uma tentativa de recuperação e potencialização do corpo, porque ele está ficando para trás nessas viagens, como Eugênio coloca. Reconheço que existe essa tentativa, mas não porque o corpo esteja sendo abandonado. À medida que a comunicação se torna o nexo central da técnica, naturalmente tem-se uma potencialização do corpo como instrumento básico da comunicação. É algo automático: à medida que a técnica deixa de ser produtiva, industrial, e passa à comunicação, o corpo se torna a grande fronteira. Não são mais as pontes, as selvas; a nova fronteira é interna, e nesse sentido vão as três tendências que Eugênio apontou. É importante revalorizar a primeira tendência, pois cada vez mais se reforçam noções místicas, de medicina, de vivência, e isso aponta fortemente para as temporalidades da primeira hipótese. É a noção arcaica de que Eugênio falou, ainda muito presente e revalorizada freqüentemente, em vários momentos, inclusive em sociedades altamente tecnológicas. O boom da medicina holística e oriental é exatamente na zona da Califórnia, onde fica o Vale do Silício.
Eugênio - Não lhe parece ser uma tendência, uma contraface, uma resposta a todo esse contexto de vivência artificial? Rodrigo - Não digo resposta, porque passa a impressão de oposição. É mais complicado do que isso. As três tendências de que você fala convivem em situações ao mesmo tempo conflituosas e harmônicas, mas não bipolares. A busca da corporeidade volta-se para o holístico. Tudo está meio misturado. Por quê? A transcendência e a corporeidade foram integrantes do meu primeiro sonho de criança: o superpoder de voar. O homem passa por isso desde que teve sua primeira necessidade básica atendida. A próxima era se libertar e sair voando como os passarinhos. Como não podia, atirou pedras para derrubar o passarinho. Então, esse tipo de transcendência de superação dos limites do corpo é uma das origens da discussão anterior de separação entre corpo e espírito. É um fator que levou a humanidade a essa dicotomia. Ciro - Deixe-me retomar uma questão que Edvaldo mencionou quando respondia a Vani e que também toca na potencialização eletrônica do corpo. O corpo, na verdade, está sendo lido aqui sob vários ângulos. De fato, ele é potencializado eletronicamente, tornando-se capaz e hábil para muitas possibilidades. Edvaldo falou do corpo revitalizado também do ponto de vista da sensibilidade. Não me pareceu muito convincente. Ainda estou pensando na questão das referências às possibilidades virtuais, e não compreendi se isso estava incluído ou excluído da fala. Mas, em relação a essas possibilidades virtuais, havia, ao contrário, uma redução. Marcuse falava em redução da potencialidade da sexualidade genital, porém sequer essa sexualidade ainda é ativada. Nas formas de sensibilidade que os equipamentos hoje estimulam temos uma vitalização do tato e da visão - ou da mente, na melhor das hipóteses -, mas todos os outros sentidos ficam excluídos. Temos, então, o corpo todo excluído, inclusive as zonas erógenas e a sexualidade polimorfa que Marcuse pleiteava como necessária. Ou seja, parece existir, ao contrário, um certo abandono de todas essas formas em direção a um outro tipo de prática que é antes um tipo de sensibilização de algumas poucas regiões do corpo, ainda não erotizadas da mesma maneira. Eugênio - Acompanha-nos uma tendência de pouca erotização do corpo - como já dizia Marcuse, de um corpo "deserotizado" -, em que a libido se distribui apenas em algumas partes, justamente pela incisão da repressão pela sociedade. A técnica, no caso, continua sendo só uma tendência, pois já vem culturalmente de longa data. Rodrigo - Sim, isso é muito interessante. Acho que o cibersexo encobre a libido, assim como o avião encobre o desejo de voar: resolve alguns problemas, mas não é o que queríamos, pois voar é flutuar, poder sair em qualquer direção. O progresso acelera tudo e cria uma nova problemática e uma nova solução, mas não é o que se desejava. O cibersexo encobre a libido, assim como o avião encobre o desejo de voar: resolve alguns problemas, mas não é o que queríamos, pois voar é flutuar, poder sair em qualquer direção. O progresso acelera tudo e cria uma nova problemática e uma nova solução, mas não é o que se desejava. Eugênio - Rodrigo disse que aqueles três contextos que citei convivem, e deveríamos de alguma maneira valorizar o corpo. Tenho a impressão de que a corporeidade é vivida porque é inexorável vivê-la. Mas o imaginário social mudou em relação ao corpo. Vive-se o corpo e sua materialidade em determinados contextos porque, de fato, não é possível passar sem isso, por uma série de razões. Não é possível, na vida prática, um descolamento da matéria do corpo. Mas parece que o próprio imaginário da técnica e da tecnologia atual, caso fosse possível, permitiria no limite esse descolamento; o corpo seria banido, absolutamente exorcizado, e se partiria para uma vida totalmente artificial, em que apenas dois momentos seriam valorizados: o corpo tecnicista, que já não é mais aquele corpo material herdado da natureza, e o vácuo do corpo. Vivemos a materialidade do corpo, porém o imaginário colocado pela técnica é outro. Rodrigo - A crítica de Eugênio, abordada dentro da especificidade da técnica, parece muito próxima à crítica que se fazia, por exemplo, ao misticismo religioso. Eugênio - Mas os faquires vivem muito o corpo, vivem a dor. Rodrigo - Mas para quê? Para superá-la e abandonar o corpo. O objetivo central é esse. São técnicas diferentes para sair da "prisão terrena" e ascender - ou descender, dependendo da orientação individual - para algo maior, mais belo, importante ou livre. Acho que a técnica está popularizando um velhíssimo sonho humano. Concordo com Eugênio pois, se houvesse tecnologia suficiente, eu mesmo experimentaria. prazeres sintéticos Edvaldo - É, essa parece ser a idéia. De alguma maneira, há ações de caráter religioso nisso, e devemos salvar alguma coisa que está além do corpo. Descreverei três questões - duas mais sistematizadas do ponto de vista teórico. Pierre Lévy diz que, com as tecnologias brandas, serializadas, disponíveis agora no final do século, temos todas as condições oferecidas para "migrar" do corpo - ele usa exatamente essa expressão. Virilio usa uma outra, dizendo que estamos construindo um "metacorpo", um corpo que não é mais corpo na sua organicidade e que implicaria, portanto, questões mais ligadas à mente, à inteligência, à memória. O metacorpo não concerne mais à área individual, mas, conforme Pierre Lévy, à coletiva. Migrar do corpo ou construir um metacorpo significa que nosso corpo está superado e que estamos buscando uma nova forma de existência que possa ser garantida por um viés puramente tecnológico. Isso está em concordância com a artificial life trabalhada por Sfez: construir gerações inteiras de indivíduos informatizados, que têm existência apenas nas telas dos computadores e que flutuam nas redes entre um terminal e outro. Migrar do corpo ou construir um metacorpo significa que nosso corpo está superado e que estamos buscando uma nova forma de existência que possa ser garantida por um viés puramente tecnológico. Isso tudo me faz pensar em um filme a que assisti na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1996: Prazeres sintéticos. Esse filme tem três blocos bem definidos. Um deles trata da construção do corpo pelas cirurgias plásticas, transplantes e implantes, indo da moda até as técnicas de academias de ginástica. Uma segunda parte mostra uma praia artificial no Japão e como as pessoas trabalham com o corpo nessa praia. O terceiro é sobre o corpo informatizado, que existe apenas nas telas. Quero falar um pouco sobre a segunda parte. A praia artificial é construída à beira de uma praia natural, a uma distância de uns cem ou duzentos metros. O filme mostra detalhadamente todo o processo de construção da praia, da assepsia total, que elimina inconvenientes da natureza tais como o sol forte, o buraco na camada de ozônio, o câncer de pele, a areia e o sal incômodos, o tubarão que pode arrancar a perna de alguém, enfim, tiram-se todos os inconvenientes da natureza para preservar naquele ambiente artificial apenas o que oferece prazer. O filme frisa que, para ir a essa praia asséptica, os indivíduos também fazem uma verdadeira limpeza do corpo em casa, antes de sair. Eles têm de tirar todas as impurezas, seja do alimento que ingerem, do ar puro que respiram, da busca da beleza por meio de uma "arrumação física", da busca de uma imagem mais limpa, inclusive no sentido estético. Para quê tudo isso? Por que as pessoas não vão à praia real, que está logo ao lado, mas "se produzem" para o espaço puro? Para a maioria das pessoas, cuidar do corpo é resgatar, de forma violenta, o prazer. Trata-se de intensificá-lo nos ambientes artificiais - no caso, a praia -, mas a intensificação não ocorre para e nesses ambientes. Não se trata simplesmente de vivenciar naquele espaço ou momento uma experiência única de artificialidade. Esse lugar, visto como artificial, promove acelerações físicas nas vivências dos indivíduos: entram em questão os sentimentos, as paixões, o modo como cada um sente sua despreocupação em um ambiente desses. Isso tudo está de acordo com a assepsia do planeta ou do corpo de que fala Sfez. Denise Santana escreveu um texto em que relaciona a limpeza do corpo com a limpeza da casa, da cidade, no sentido de uma limpeza do planeta. Quer dizer, a assepsia total visa intensificar redes cobertas prazerosas do corpo. Estou insistindo nesse assunto como resposta ao que Eugênio disse há pouco. Pode-se resgatar a materialidade, a corporeidade nesses ambientes artificiais. Isso é dito pelas pessoas no filme, que mais se assemelha a um documentário. As pessoas vão lá para se reencontrar consigo mesmas, com sua própria natureza; é o artificial que aponta as possibilidades de rever aquilo que havia sido deixado de lado no dia-a-dia. Eugênio fala que as fronteiras estão sendo cada vez mais eliminadas, como aquelas entre o artificial e o natural e entre o homem e a máquina. Quero chamar a atenção para o fato de que as pessoas, no filme, falam que estamos vivendo uma fase intermediária, em que é possível em determinados momentos abrir mão do corpo a fim de viver um mundo especial e informático, como o ciberespaço, mas é preciso, em outro momento, resgatar o corpo para continuar a vida. Mas interessa a mim resgatar meu corpo como ele é, simplesmente? Não, porque ele não teria mais graça, não teria mais sentido. A partir daí, quero a mixagem com a máquina para absorver as qualidades que invejo nela: precisão, velocidade, intensificação, aceleração, etc.; para permitir que eu resgate minhas vivências corporais, encontrando assim algum sentido para manter meu corpo hoje. Caso contrário, volta-se ao que Marc Rough dizia: se as máquinas são apenas extensões do corpo, é essa visão que irá atrofiá-lo. Por exemplo, o carro é a extensão das minhas pernas e elas ficaram atrofiadas. Como posso agora resgatar, por intermédio da própria máquina, significados físicos? Creio que não se trata somente de resgatar visões da natureza ou religiosas. Sfez fala que estamos voltando à origem e tentando construir um novo Adão; Virilio diz que estamos resgatando a questão de Deus na história pela porta do terrorismo, seja qual for. Nesse sentido, a tecnologia está contribuindo para voltarmos ao corpo, e não necessariamente nos expulsando dele. Se, como disse Pierre Lévy, existem algumas tecnologias que nos ajudam a migrar do corpo, há outras que nos ajudam a fazer esse "movimento migratório" de volta. Resgata-se a materialidade, a corporeidade nesses ambientes artificiais. As pessoas vão ali para se reencontrar consigo mesmas, com sua própria natureza; é o artificial que aponta as possibilidades de rever aquilo que havia sido deixado de lado no dia-a-dia. Ciro - Edvaldo, você não vê isso tudo como um processo altamente religioso, de purificação, de expulsão do mal, no sentido cristão? Edvaldo - Sim. Beltrina - Em ambas as posições que Eugênio coloca há esse processo. Eugênio - Resgata-se uma materialidade, mas ela é completamente expurgada de todo domínio do negativo, do defeito, do mal. Assim, como Edvaldo bem falou, já se trata de um outro corpo, mas se resgata uma materialidade. Se a técnica, a tecnologia e a ciência estão possibilitando um resgate do corpo, é preciso então saber de que natureza é esse resgate. É preciso estar aberto a qualquer tipo de surpresa. Resgata-se uma materialidade, mas ela é completamente expurgada de todo domínio do negativo, do defeito, do mal. Se a técnica, a tecnologia e a ciência estão possibilitando um resgate do corpo, é preciso então saber de que natureza é esse resgate. Vani - Uma questão que me incomoda é essa inclusão, essa fusão total do homem-máquina, sem a possibilidade do retorno. Não estou falando do retorno a um não-ser, mas a opção da escolha ainda é algo muito importante. Talvez eu seja um "animal de transição". Minha geração não se sente à vontade com a impossibilidade de optar. Ou seja, me incomoda o fato de ter um implante e esse impossibilitar o retorno a outro momento de não-implante. Não me incomoda a possibilidade de estar virtualmente em contato com algum outro tipo de vivência ou sensação a partir da máquina. Mas aí há escolha. Essa é a questão da praia artificial, por exemplo: é uma opção. Eu tanto posso ir lá e fazer todo o ritual de purificação, que também vejo como totalmente religioso, quanto ir à praia real. Tenho essa possibilidade do ir e vir de uma à outra. É também a questão de Johnny Mnemonic. Ele coloca a cápsula da memória, que o alimenta de milhões de dados que não têm nada a ver com ele, mas com a ruptura da infância, com a memória perdida. Para recuperar uma, ele terá de perder outra. A possibilidade de colocar chips no corpo e potencializá-lo seria sedutora no momento em que se tivesse a capacidade de desligá-los. A possibilidade de colocar chips no corpo e potencializá-lo seria sedutora no momento em que se tivesse a capacidade de desligá-los. Edvaldo - Eu não tenho mixagem, uso as próteses. A medicina usa até a palavra "órtese", quando as próteses são externas. Se preciso potencializar temporariamente minha visão uso óculos; quando não precisar deles, eu os tiro. Não se trata de mixagem, mas simplesmente do uso das máquinas. A mixagem implica mais nessa interação que não se rompe. Não sei se romperia com a liberdade de escolha; acho antes que o nível de escolha passa a ser outro, inclusive o de uma quantificação maior de potência, de aceleração, etc. É de outra ordem. Ciro - O exemplo que foi dado é bastante interessante e ilustrativo. Por outro lado, não parece ser tão incomum, porque quando se vê, por exemplo, o que é um shopping center em relação a uma natureza externa, trata-se de uma opção. As pessoas o preferem, é aquele o lugar aonde elas querem ir, ou seja, um lugar purificado, supostamente sem violência, sem sol. As pessoas querem as coisas construídas artificialmente, lagos, fontes, cidadezinhas. Querem ter essa fantasia do puro, de fato, quase religiosa. O exemplo é interessante, mas vai exatamente nessa direção da preferência das pessoas. Elas acabam rejeitando a praia natural. Rodrigo - Principalmente se a praia já estiver contaminada de mercúrio e outros poluentes. A opção entre construir uma praia artificial na margem do rio Tietê ou despoluí-lo é muito limitada. Vani - Na semana passada eu estava no Rio de Janeiro e fui ao Largo de São Francisco, onde não ia há muitos anos. Almocei na Confeitaria Colombo, visitei lugares antigos... Sinceramente, foi uma delícia. Eugênio - Essa é uma vivência do corpo. Vani - Essa foi uma escolha. Há lojas, shoppings, self-services, restaurantes. Tem de tudo, mas o melhor é voltar ao ambiente do século 19, com aqueles espelhos maravilhosos... Eu tenho essa opção, e ela, a meu ver, é minha riqueza. Não é simplesmente a opção de ir ao shopping; tenho a opção de ir a qualquer outro lugar. É isso que quero afirmar. Quando não tiver mais opção e for obrigada a ir somente em shoppings, podendo apenas escolher em qual deles ir, eu morrerei. Edvaldo - As opções entram numa possibilidade infinita. O fato de se poder carregar um telefone celular não significa que é necessário falar o tempo inteiro; está-se com ele ao alcance, à disposição. O que se discute sobre as próteses de comunicação no corpo é que, hoje, como não preciso mais dispor de um computador em casa, já que no dia-a-dia estou ausente, levo-o comigo, assim como levo o telefone e outras próteses fora da pele - ou dentro, daqui a pouco. Em todo caso, elas estão disponíveis para eu fazer as escolhas que quiser, no momento em que quiser. Ciro - Mas, Edvaldo, você acha que a implantação dessa praia artificial é na verdade tão inocente? Ela não convive com a outra praia; simplesmente serve de estímulo para inviabilizá-la. É como acontece no ambiente urbano: tem-se shopping centers e, automaticamente, as pessoas tendem a esvaziar as ruas, onde está o espaço da violência, do trânsito congestionado, etc. Ou seja, em última análise, esse outro se sobrepõe àquele, acaba com o mundo da Confeitaria Colombo de que Vani falava. Edvaldo - Mas essa é a melhora da técnica de que falei. Daqui a pouco, haverá um corpo tecnologicamente muito mais funcional, interessante e prazeroso, e não se irá querer resgatar aquele outro. É a mesma coisa de alguém que faz uma cirurgia plástica para, por exemplo, reduzir o abdome e depois conclui que antes estava melhor. Ela pode não ter ficado satisfeita o suficiente; de qualquer forma, irá querer fazer uma outra plástica. resgate do corpo Eugênio - Inspirado no que Edvaldo falou há pouco, vejo que, de fato, a técnica permite um certo resgate do corpo e de sua materialidade. Mas esse resgate acaba remetendo especificamente a um dos contextos que a técnica coloca para o corpo: a potencialização do corpo na sociedade. De nenhuma forma, a tecnologia e a ciência fazem com que o corpo seja resgatado, por exemplo, na experiência do ciberespaço ou do sexo virtual. O que está se passando ali é algo totalmente diferente. Então, o resgate da técnica existe, porém, apenas num movimento. Num outro movimento ocorre aquilo que Guillaume disse a respeito do minitel: as pessoas se relacionam por espectros, no vácuo do corpo, e preferem manter as trocas nesse primeiro momento, exatamente pelo medo de se frustrar com a troca corporal. De fato a técnica permite um certo resgate do corpo e sua materialidade. Mas esse resgate acaba remetendo especificamente a um dos contextos que a técnica coloca para o corpo: a potencialização do corpo na sociedade. A segunda questão foi levantada por Rodrigo: da mesma forma, no misticismo medieval - ou bem anterior, milenar, dos monges tibetanos, das experiências de meditação, em que se busca um outro plano por meio da sedução do sublime -, existe um afastamento do corpo material, até com um sentido pejorativo do corpo enquanto forma de constrangimento do espírito. Mas a técnica também permite um afastamento da corporeidade, e foi por isso talvez que Rodrigo fez uma associação com o misticismo. Vem-me à mente uma leitura às avessas da técnica enquanto metafísica, de Heidegger. Para ele, a técnica é metafísica porque, supondo-se que esta era sempre a forma pela qual a vida era explicada e vinha ao campo da cultura, também a técnica como metafísica era a forma pela qual os objetos vinham ao mundo, ou seja, era a porta de entrada para o mundo da cultura. Tudo o que era absolutamente técnico era metafísico, na realidade. Instiga-me pensar que a técnica institui e abre a possibilidade de um imaginário de afastamento do corpo, de suspensão da corporeidade. De fato, coloca uma nova metafísica em forma de imaginário social. A técnica, tanto como potencializadora do corpo quanto como instituidora de uma experiência de vácuo do corpo, coloca-se enquanto metafísica do possível, em que o corpo desaparece. Isso é interessante e deve ser notado. Em ambos os percursos temos um afastamento do corpo herdado pela natureza. Estamos, portanto, num outro momento. A técnica, tanto como potencializadora do corpo quanto como instituidora de uma experiência de vácuo do corpo, coloca-se enquanto metafísica do possível, em que o corpo desaparece. Edvaldo afirmou que, de fato, os objetos técnicos melhoram nossas vidas. Agora, em sua última fala, a partir do resgate do corpo proporcionado pela técnica, há, de fato, uma retomada do prazer. Então, é possível que a técnica tenha resgatado a relação entre corpo e prazer em outras bases. Para citar um exemplo bem corriqueiro: o liquidificador patrocina uma certa velocidade no preparo de alguns alimentos. Possibilita, por exemplo, que se faça um suco em pouquíssimo tempo. Mas esse instrumento que auxilia pragmaticamente a vida é o mesmo que promove uma atrofia bucal, na medida em que separa o indivíduo da fruta, da tolerância com sua materialidade. O microondas age da mesma forma: acelera o tempo de produção, de aquecimento, mas ao mesmo tempo está no limite da produção do câncer. O computador facilita muitas coisas, mas também é o ponto de partida para algumas doenças. Vendo os dois percursos, não podemos pensar só no momento pragmático. A técnica modifica a vida e sua convivência com o corpo ajuda em certos momentos, mas também é destrutiva. Portanto, retoma-se a crítica à tecnologia: a sociedade tecnológica que promove um primeiro momento pragmático e um segundo momento complicado e até mesmo perigoso não proporciona maior felicidade ao homem. Como Ciro afirmou no livro Televisão, a vida pelo vídeo, a sociedade é essa que nós estamos vendo, de aparelhos, próteses, imperativos tecnológicos, mas é bastante perigosa a conclusão de que o homem, nessa mesma sociedade, tornou-se mais feliz ou prazeroso consigo e sua vida. A técnica modifica a vida e sua convivência com o corpo ajuda em certos momentos, mas também é destrutiva. A sociedade tecnológica que promove um primeiro momento pragmático e um segundo momento complicado e até mesmo perigoso não proporciona maior felicidade ao homem. Edvaldo - Concordo com Eugênio. A tecnologia coloca alguns empecilhos, mas também oferece ao corpo habilitações para superar suas deficiências. Eugênio dizia há pouco que as pessoas preferem se esconder atrás da máquina, inclinando-se para um tipo de relacionamento invisível. Se tenho um corpo que é um verdadeiro "trambolho", que não corresponde a nenhum padrão de beleza que circula pela mídia, pela cultura, posso me descrever com as características desse padrão e tentar convencer a pessoa que estou paquerando via minitel, telefone, etc. de que sou uma sumidade. Isso, é claro, ainda está no estágio das máquinas de que dispomos. O que irá acontecer no momento em que essas máquinas ampliarem a capacidade de visão e forem capazes de revelar o corpo que está por trás delas? Vani - O telefone com imagens existe desde 1980. Não foi aceito e possivelmente nem o será. Edvaldo - Mas é exatamente por isso: ele expõe o indivíduo que está por trás. A idéia que se tem dos próximos computadores é que eles farão isso. Negroponte diz isso em Vida digital. Se houver um computador que me revele por inteiro aos outros, meu corpo antes de me sentar à frente dele deverá estar completamente adaptado. Tenho de passar pelo médico e fazer todas as cirurgias necessárias para ficar com o corpo perfeito. É nesse sentido que estou falando do resgate do corpo. Estamos num estágio da máquina que nos omite. Talvez essa omissão não seja mais possível daqui a alguns anos. Isso significa que não bastará retocar a foto ou a descrição para o outro: o corpo terá de ser resgatado e continuamente retocado para estar adequado aos imaginários, perspectivas e desejos dos indivíduos.
BAUDRILLARD,
Jean. A transparência do mal. Campinas, Papirus, 1996. DAMASIO, Antonio. O erro de Descartes. NEGROPONTE, Nicholas. Vida digital. SFEZ, Lucien.
A saúde perfeita. Crítica de uma nova utopia. São
Paulo, Loyola/Unimarco, 1995. |