O Tabernáculo Digital: Telespecções, Convergências e Interatividades
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Marco Toledo de Assis Bastos*

A técnica, captada em sua essência, não deve ser tomada de
forma instrumental, como meio para a fabricação de artefatos,
o que significaria neutralidade em relação com a realidade.
Ao contrário, ela é uma forma de comportamento diante de
uma realidade dada e uma forma determinada de
apropriação como produção de realidade.1

1. Dimensão tecnológica e reflexão.

Repensar o papel conferido à ciência e à técnica no sistema de controle do capital dos dias de hoje, é recolocar em pauta as mediações que os espaços de atuação, produção e corroboração do poder se fazem na atualidade. Desconsiderar categoricamente a importância da técnica (leia-se, neste novo século, “tecnologia”) como estruturante material e simbólico das relações sociais é igualmente não levar em conta que a sociedade muda, mas seus os modelos teóricos de explicação, não necessariamente.

No centro do front, temos os exemplos da alertada complexidade imanente da contemporaneidade; espécie de Minotauro que devora quaisquer possibilidades de reflexão sobre a técnica. É como se a técnica devesse ser compreendida pela própria técnica, sendo desnecessária qualquer outra vinculação aos extratos que a produzem e a utilizam. Tal “complexidade insuperável” serve usualmente a uma justificação inconteste para a manutenção de certas posições, e a deliberada caracterização da mesma como ‘impossível’, ‘impenetrável’, e assim por diante. É mais ou menos como uma caverna na qual o melhor mesmo é apenas assistir.

Mas essa complexidade é fatalmente produzida e mantida pela existência de relações materiais e simbólicas, de diversas ordens, que se amparam mutuamente, podendo também se modificar. Assim, parte da chamada “complexidade” da contemporaneidade, acaba por fomentar a mesma gleba de desencontro e discórdia que cerca as análises das formações políticas atuais. E “políticas”, aqui, não devemos perder de vista, intermedeia os mais diversos campos.

Mas este é um veio importante, pois nos habilita a pensar os investimentos de desejo como o próprio movimento de atualização e de formação de certas práticas e discursos, de certo tipo de sociedade. Assim, entender a profanada ‘sociedade da informação’, os media em seus desdobramentos eletrônicos, movimentando grandes solos de informação, pode surgir como forma de compreensão de certos movimentos culturais aparentemente imperceptíveis ou quistos como inúteis. Isso porque a utilização, a prática a que os usuários vão empreendendo dos meios eletrônicos que se fazem disponíveis – invariavelmente num crescendo de poucos para mais e mais – é campo de conflitos de interesses latente.

2. Telespecções, Convergências e Interatividades.

No século que há pouco passou, a TV foi o grande instrumento de formação de redes eletrônicas de agentes, que a crítica ortodoxa quis como meramente passivos e manipulados. Vamos nos afastar das abordagens centradas na alienação, pois não levam em conta o sistema de cooptação televisivo, calcado e comungado por um dinâmico prazer compensatório. Frisamos este ponto para que não se perca de vista que são as próprias pessoas, por desejo e satisfação, que investem a mídia do papel centralizador de sentidos e valores, dando-lhe crédito e realidade.

E se a TV modelou o capital moderno de agenciamentos, foi dando-lhe corpo e realidade. Acabou por receber, em contrapartida ao processo, uma opinião, pouco ou nada crítica, mas ainda opinião. Muito foi escrito sobre os meandros do processo em que a TV forma e se relaciona com seu público, e se tudo não foi dito, os mecanismos de cooptação que aqui nos interessam já foram suficientemente elucidados.

Umberto Eco2, entre outros, esmiuçou a importância do universo televisivo na construção da realidade da segunda metade do séc. XX. Investigando os circuitos de produção de sentido pela telespecção televisiva, rastreou a mediação entre o imaginário e realidade que a TV agenciou para as massas, capitulando e direcionando investimentos que se materializam num local, construído de forma virtual, mas que se realiza pela amplitude e poder de impacto das imagens televisivas. No desenrolar deste processo, a TV passa de “informante da realidade” para “produtora de realidade”. Tais aspectos, relativos a importância e ao funcionamento dos mecanismos de telespecção televisiva já foram, com mencionado, amplamente debatidos e elucidados. Mas a coqueluche do momento, a Internet, em suas variações e acoplamentos eletrônicos, coloca novas questões sobre funcionamento e impacto.

Pois que nas ‘sociedades em rede’, as possibilidades que a microeletrônica (leia-se computadores) e a Internet forneceram, acabaram por abrir outros horizontes aos fabricantes destes produtos e aos agentes que os utilizam, ou, se preferirem, à indústria de bens de consumo e aos consumidores, no jargão liberal. Estas possibilidades ultrapassam a conhecida TV e a bem menos conhecida Internet. O que se denomina ‘convergência’ nas suas muitas variantes, de mídia, de tecnologia, de mercado, ou até na também usada ‘convergência digital’ é a marca de um tempo que, na tentativa de fazer tudo ‘convergir’, eliminar as diferença e incompatibilidades, acelera discrepâncias ainda em gestação. Conforme o espírito da ‘convergência’ ganha corpo, desnudam-se conflitos embrionários. O desejo de criação de um tabernáculo digital cria sobreposições, pois não se pode resumir tudo a este ou aquele meio eletrônico, a um único canal. Tais sobreposições entre modalidades são interessantes, pois podem visualizar certos desenhos e embates.

Convergência é o nome dado ao processo em que muitos media se fundem para a criação de um novo meio, numa junção aparentemente sem limites. Televisão e computador, telefone e videogame, e assim por diante. A idéia, ao que consta, é fazer com que todas as mídias, todos os meios de comunicação passem a ser interligados, criando uma super-rede eletrônica sem fim nem propósito claro ou definido. Uma nova realidade de entretenimento, uma nova realidade comunicativa.

Outra palavra-conceito da era tecnológica é ‘interatividade’. Sobrepondo a televisão tal como conhecemos, esta inovação imperativa procura agregar possibilidades ao telespectador, que de consumidor passivo passaria a consumidor ativo (?), seja lá o que isso signifique3. Mas se a televisão que estamos acostumados a ver e assistir não tem nada de interativa, o que se pode dizer dos novos formatos da televisão digital? Existe alguma concorrência entre os projetos da TV interativa e outros recursos de interatividade eletrônica, fundamentados na Internet, e entre estes e os meios tradicionais de comunicação?

Estas questões, se descoladas da prisão tecnicista, campo habitual onde acontecem, podem nos levar a investigações de natureza reflexiva, como, por exemplo, se a multiplicidade de televisões que a interatividade promove realmente significa um aumento na liberdade de se informar e de atuar sobre a informação recebida, por parte daqueles que acostumamos chamar de ‘telespectadores’, ou mesmo sobre pressupostos da aclamada e desacreditada democracia digital. Os desdobramentos dessas possibilidades, o que esses fatos podem significar, tanto pela maneira como interferem na mobilidade das pessoas, como em sua sociabilidade e formas de contato, desnuda alguns princípios regentes que são os reflexos de quadros formativos da sociedade. O tipo de sociedade que se constitui a partir das novas formas de utilização dos meios de comunicação, sobretudo televisão e demais meios de massa – agora com as ‘alternativas’ da interatividade – articula possibilidades prontas para se materializarem. Afinal, o possível é o real na espera de existência.

A questão é o que se entende por “liberdade de se informar e de atuar sobre a informação recebida”, ou seja, a interação. A promessa da TV Digital interativa, que rezam os fabricantes revolucionará o mundo para sempre, compreende por interação um conceito exemplarmente pobre. Ótimo podermos ver os programas e os filmes na hora que bem entendermos, tanto melhor se o áudio e a imagem forem superiores ao padrão atual. Mas é isso realmente importante quando tratamos de “atuar sobre a informação”? Uma TV com teclado, que impute dados, números e valores em geral, proporcionando algumas opções, sempre dentro de uma gama pré-definida, não é uma idéia muito modesta do que entendemos por inter-ação?

A idéia de interatividade foi experimentada pela grande rede (Internet), que pelo seu caráter inovador acabou provocando ressonâncias nos demais media eletrônicos. Quando o computador pessoal possibilitou a função de central (entre milhões) de informação, temos um cenário de trocas complexas. Tal processo se deu pela apropriação da tecnologia bélica criada pelos EUA por sujeitos que tinham outras finalidades em mente. Steve Jobs, entre outros tantos inventores do computador pessoal, inverteu a disposição dos recursos tecnológicos para um uso personalizado. Este foi o embrião das redes informáticas que possibilitaram a interatividade, mas o que temos agora é diferente. Caso a dita TV Digital venha soçobrar a todos, a possibilidade de alterar, reprogramar ou dar cabo da menor mudança possível pelo usuário final é remota. Enquanto o computador foi o suporte, predominou a necessidade de compreendê-lo, de dominar o meio, com todas as dores de cabeça que isso representa. A procura pelas interfaces “amigáveis”, pela iconificação de todo comando, de toda intervenção homemàmáquina, conhecida pelo discurso de facilitação do uso, é também a busca da generalização e massificação do meio. A ditadura do usuário médio, também conhecido como usuário medíocre, é belíssima enquanto discurso de democratização do meio. O problema é o que ela esconde na sua concepção do meio.

3. Tabernaculando a imagem.

Falar em televisão, é também falar em sua forma bastante peculiar de assisti-la, é falar em sua telespecção, totalmente diferente dos outros suportes. Falaremos de telespecções, no plural, particular a cada media, produto de usos e interesses não só diferentes, mas conflitantes, que atravessam a todos os suportes eletrônicos. Achamos que essa idéia pode render algumas incursões interessantes.

A operação que impossibilita a adjetivação do substantivo, mutação do ‘telespectador’ para a ‘telespecção’, visa chamar atenção ao fato de que há muitas e diversas formas de se assistir televisão. Não esta televisão que temos atualmente, certamente; pois este modelo parece com os dias contados. Falamos das difundidas embora pouco discutidas operações entre televisão, telecomunicações e computadores, que tem por pano de fundo a instituição da televisão digital (DTV) e da televisão de alta definição (HDTV)4.

Vejamos algumas mediações estranhas nessa transformação. Começando pelos aparelhos eletrônicos e seus usuários, que pela inclusão da TV ainda é a grande vedete deste mercado. Há muitas idéias de TVs vindo nos próximos anos, por projetos diferentes e por vezes antagônicos dentro do saco-de-gato que se convencionou chamar de TV digital ou, em mais uma célebre confusão de característica com suporte: HDTV. Paralelamente, e conjuntamente, foram produzidas outras alterações no padrão de recepção da TV, nos quais a HDTV presume. Referem-se ao padrão de áudio (Dolby Digital 5.1) e de imagem (Widescreen), que somados podemos dizer que resumem o que convencionamos chamar de “Home Theather”5.

Os grandes fabricantes querem popularizar o Home Theather, dado que além de interessante nicho de mercado, seu padrão de áudio e de vídeo será o utilizado nas televisões digitais do porvir, na citada televisão digital de alta definição. Desta forma, quanto antes os novos padrões audiovisuais puderem ser massificados, tanto melhor para os negócios. No entanto costuma-se esquecer, em meio a este furacão, que a telespecção deste sistema é a mesma telespecção do Cinema, que é som ótimo e alto, tela grande, com qualidade e definição, atenção concentrada e nenhum diálogo entre os presentes na projeção/sessão. O cinema, com seus rituais, é um local sagrado.

Não se dá o mesmo com a TV. A TV só foi o sucesso que foi porque não prende a atenção, o telespectador televisivo assiste ao Domingão do Faustão, Programa Legal, ou qualquer outro típico programa televisivo com sua atenção tão difusa quanto possível. “Vemos TV para relaxar”, é o que se houve sempre. A experiência só é interessante porque a tela é pequena, o som pouco imponente, de forma que sua atenção possa peregrinar livremente, a qualquer hora que o programa não se mostre tão atrativo. A TV, atendendo a demandas de relaxamento, é um espaço profano, nestes termos.

A TV não destrói a sociabilidade e o diálogo familiar, como se quer na ortodoxia crítica de cunho moral. Tudo isso é possibilitado no universo ‘sala-família-TV’, tríade constituinte da sociabilidade tele-familiar, sucesso que foi no desenrolar da Modernidade Tardia – onde tanto se vê quanto se ouve, porque as pessoas conversavam diante dela – muito pouco é bem verdade. Mas a “Sala de TV” é a sala de visitas, duas em uma. Sala para se ver e conversar, tudo junto. Isso não acontece em cinemas. Home Theathers não permitem isto. Trata-se de telespecções radicalmente diferentes.

A imagem televisiva tem peculiaridades técnicas que vão de encontro à cinematográfica. A pouca definição em comparação à película é fundamental, ainda que pareça mera diferença entre suportes. Dos cerca de três milhões de pontos reluzentes que a TV emana, o telespectador escolhe alguns na ordem do acaso, se assim o desejar, para formar um retrato naturalmente precário. Assim se formam as imagens televisivas, na lógica de imagens pobres de dados, geradas por um conjunto de pixels que em nada lembram uma fotografia. Isso tudo, evidentemente, é frontalmente diverso do cinema, em que seus fotogramas são legítimas fotos6. Em termos mcluhanianos, a diferença é entre medium quente e medium frio. Os meios quentes, como o cinema, se pautam por um sentido único e absorvente, com alto um poder de definição que satura a percepção do receptor, que ao imergir nesta torrente de informações se fecha em pontos precisos e determinados. Os meios frios por sua vez, caso da televisão, fornecem informações pouco definidas, aonde o receptor deve preencher os vazios com o restante de suas faculdades, numa cooperação fantasiosa que lhe toma por inteiro. A diferença entre eles é tão grande que foi possível dizer que o meio era a mensagem.

As diferenças se dão nos fundamentos da constituição de cada fazer. A imagem aberta e chapada, sobretudo nos planos gerais do jornal televisivo, tem o afã de tudo mostrar, de tudo caber no enquadramento do vídeo. Como mentor de realidade, quer se fazer imparcial, provar que as lentes mostram tudo, que a elas nada escapa. Mas essa sede de tudo mostrar, sabemos, resulta numa imagem que não mostra nada, incapaz de produzir símbolos de expressão que fujam aos clichês de praxe. No cinema, pode-se dizer, a situação é contrária. O plano geral que se remete a si mesmo, o esmero do enquadramento, o foco que dialoga com pontos de fuga, remontam a outra ordem de produção imagética. A própria interpretação do ator cinematográfico é pautada pelo comedimento, num universo em que deixar de fazer e dar a entender, tem muito mais força que o grito e o desespero pelo registro. Tais condições de trabalho da imagem fornecem a célebre contraposição de que a TV se vale da verdade para contar a mentira, e o cinema, do método contrário. Para tanto, podemos nos valer de outra máxima, também bastante repetida, de que horas, dias ou meses de Jornal Nacional sobre a fome e a miséria, não trazem a envergadura da compreensão de um enfoque, primado que é como o de Glauber Rocha em seu ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, que se basta por poucos segundo de um close up na caveira de um boi, incrustado em meio à seca nordestina.

Mas mesmo que possamos vislumbrar um conflito nos tipos de mediações da tela ao espectador, nada disso soa importante ou sequer preocupante. Piorando, volta-se ao antigo modelo, talvez num simples clique de botão. Mas quando estas características forem fundidas ao universo cibernético e sua particular telespecção, os conflitos de interesse e de práticas de consumo tendem a serem maiores, ou pelo menos mais complicados.

O computador e a Internet, mais dias ou menos dias, serão popularizados e massificados. Muito importante é a questão do “quando”, aliás, pois que o desnível entre os alfabetizados e os analfabetos – que só faz crescer – adquire uma dimensão ainda mais dramática no enredo do abismo digital: o excluído não apenas deixa de ter importância, ele desaparece. Mas não menos importante, vale frisar, é a questão do “como”. Em verdade, qualquer análise séria sobre inclusão digital não deveria desvincular ambas as dimensões.

A telespecção da Internet, do universo computacional em geral, é muito distante das práticas e experiências da maioria da população, não só no Brasil. Trata-se de experimentação. A discussão que se convencionou denominar de ‘inclusão/exclusão digital’ esconde certos problemas bastante complicados, que dificilmente se resumiriam à pura e simples distribuição e/ou possibilidade de acesso para a população. Discussão antiga, camuflada de ‘problema técnico’ que procura passar a largo do fato de que, bibliotecas, por piores, poucas e deficientes que sejam, sempre tivemos. E analfabetos também.

Acreditar que o computador, com todo seu aparato técnico e seus pré-requisitos para domínio de uma interface possa ser sumariamente popularizado, fácil e simplesmente, constitui engano. Pois que este ideário, que acredita poder diminuir as diferenças sociais e educacionais pelo simples acesso à grande rede, aonde todos teriam virtualmente acesso a conteúdos e uma suposta formação, desloca a questão da exclusão, pois retira a gravidade e a proeminência das articulações sociais, produtoras desta exclusão, e a insere dentro de um mero problema de distribuição. O que se perde, nesta transferência, é toda a complexidade do social.

Mas se o computador não pode ser a figura chave deste processo de massificação tecnológica, outro artefato certamente o será. Nem é preciso procurar muito para se aperceber. É sabido de tudo e de todos que os celulares podem comportar (e já comportam) verdadeiros computadores, enviando fotos, processando informações, etc. O celular, é bastante crível, é que será o micro de amanhã.

A revolução que foi a produção e comercialização dos telefones celulares ao longo do mundo, exemplifica que não basta um artefato ser tecnologicamente poderoso ou inovador, é preciso ser de simples uso, é preciso ter bastante utilidade. Não se havia visto, até então, um aparato tecnológico que detivesse tão alta aceitação e desejo pelas massas como o celular. Como se diz no jargão econômico, termo que aliás resume o boom mundial do celular: é preciso ‘agregar valor’.

Simultaneamente ao deficiente protocolo Waap e outras ‘maravilhas’ da Internet móvel, o celular constitui a galinha de ovos de ouro do segmento de telecomunicações, que há muito já mapeou e direcionou seus gastos (apesar dos retumbantes prejuízos e das gigantescas falências7) para este setor. Sendo certa a junção TV e computador, também se quer como certa, sobretudo para os mercados de capitais, a junção deste último ao celular. Tal é, também, a razão pela qual a imensa maioria dos avalistas técnicos, neutros como cordeiros em suas opiniões, apontam sem rodeios o padrão Japonês de TV Digital, que permite a televisão em movimento (um celular com TV), como preferido.

Bastante interessante aos observadores de movimentos cabalísticos e afins, salta aos olhos perceber que da mesma forma que a Internet se viu forjada primeiramente por pessoas desprovidas da relação imediatista do lucro, a criação e estabelecimento do campo da Internet “sem fio” também se vê marcada por personagens bastante similares. O Movimento Wi-Fi, da ordem do dia, que começou com explorações experimentais neste sentido e hoje já possibilita um acesso de número respeitável, tem também forte caráter libertário e é bastante parecido ao desenvolvimento dos primórdios da Net: Feito por gente de universidade interessada em democratizar o meio. Cabalísticos porque, ao que tudo consta e repetindo, eis o novo campo de boom mercadológico, a bola da vez da bolha comunicacional. É ver para crer.

Comportando os telespectadores/internautas de amanhã, o celular coloca, igualmente, novos problemas. Depois que a rede estiver funcionando de forma devidamente aceitável nos receptores móveis, o acesso a sites será casual. Daí para se poder ver vídeos, enviar e receber sons e outras inutilidades deliciosas, é um pulo. Questão de liberar um pouco a banda. Caso a difusão maciça da grande rede se dê, como parece, por esta via, é de se imaginar que tipo de usuário é este que teríamos.

Pois que a telespecção do ‘micreiro’, do usuário de computador como um todo, é radicalmente diferente da telespecção dos amantes do celular, que sabidamente não são poucos. Neste contexto, uma diferença de telespecção haverá, mesmo porque, a ‘pluralidade’, o ‘espaço para todos’ e o ‘respeito às diferenças’, imperativos políticos da era pós-alguma-coisa, presente mesmo em discursos empresariais, lorotas de grupos participativos, são as mais recorrentes promessas e igualmente as menos cumpridas, dado que a dificuldade em encontrar um ponto óptimo para todos já imediatamente relativiza toda a ‘urgência’ deste primado moral. Pois o mercado, como se sabe, quer apenas vender, fazer dinheiro, e raramente há mercado suficiente para tão diferentes e díspares propostas, e quando o há, é fatalmente por tempo pequeno, que segue à procura de uma otimização do sistema, qual seja: a eliminação da gordura no mercado, riscando do mapa os circuitos os quais o capital deixou de freqüentar ultimamente. Exceto para as concepções mais liberalescas do social, do laissez-faire econômico e político, temos de forma bastante clara que nestes nossos tempos, o que o mercado não quer, não existe.

As identidades se definem não somente pelo que você defende e com que grupo está, mas também pela ampla gama de quem ou o que você é contra, ou que você acredita ser contra você. Às vezes um inimigo declarado, noutras nebuloso, Mas recorrente é essa polarização não ser claramente definida, clamando para que diante da necessidade de afirmação de uma via ou um projeto, projetos outros sejam riscados e suprimidos. No jargão do que ficou conhecido como ‘estudos culturais’, tal é o Outro, que, nestes nossos tempos, atua como elemento a se desconhecer. Com isso, é necessário não perder de vista que havendo telespectadores radicalmente diferentes, numa sociedade de consumo que se projeta e se conclui nessa ordem de importância, há guerra de interesses.

A interatividade proposta pela TV Digital, bem como a ‘internetificação’ associada ao celular trabalham de forma direta e objetiva com o consumo, tanto em ato quanto em idéia. Netbanking, compras em supermercado on-line, download de filmes na locadora BlockBuster virtual e assim por diante são metas da TV Interativa, que funcionam sobre o auspício de acesso mais rápido e confortável aos bens de consumo. Em contrapartida, as redes baseadas no que ficou conhecido como Internet trabalham (ou trabalhavam) com outra ordem de interesse. Compartilhar música, vídeos, textos. Conversar, fazer amigos, dar e receber ajuda são características estruturais e estruturantes das redes, que não funcionam sobre um princípio mercadológico, do consumo imediato e acachapante. O que a TV interativa e a geração celular entende como receptor é nada mais que um consumidor, em verdade tão passivo como sempre, em oposição às redes que acabam por permitir uma área de manobra do usuário incomparavelmente maior. O que estas sutilezas técnicas escondem, encobertas na neblina tecnológica, é que de um lado fala-se de consumidores, de outro, usuário. Ou seja, enquanto temos numa discussão o Sujeito, na outra ele vira mala-direta, sumariamente.

Querendo este capitalismo de nossos dias, como aparenta querer, fazer essa tecnologia ter um papel não apenas fundamental (como hoje em dia) na sociedade, mas absoluto e absolutizante, de forma a soldá-lo às suas engrenagens, é de se esperar que a expansão dos meios eletrônicos de massa forje interesses em conflito. Interesses, aliás, muito bem definidos. Talvez aí, localizadas diferenças manifestas e incongruentes, insurjam destes lugares reflexões não meramente técnicas. Assim feito, e em contraposição à desejada assepsia social que impregna a estética contemporânea, é de se imaginar que muitas rupturas serão engendradas por essa mediação. Não mais uma mediação de fluxos inomináveis, de arestas aparadas, mas de interesses.

 


NOTAS

1. Piepmeier, Rainer. Finis hominis? Filosofias pós-modernas e a questão da ciência e da técnica. In: Zimmerli, Walther Ch., (Org). Technologisches Zeitalter oder Postmoderne? Munique: Wilhelm Fink, 1991, (p.129-132).

2. Ver: Eco, Umberto. Viagem na Irrealidade Cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984., e também Eco, Umberto. A Estrutura Ausente: Introdução à Pesquisa Semiológica. São Paulo: Perspectiva, 1971.

3. O Código de Defesa do Consumidor pode não ajudar muito a esclarecer, mas a redundância da explanação dá bem a medida de quão misterioso pode ser essa questão: “Art. 2°: Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final.”

4. Digital Television e High Definition Television, respectivamente.

5. O formato de áudio AC3, também conhecido como “Dolby Digital 5.1” constitui-se de cinco canais independentes de áudio e um canal extra somente para graves. A idéia, como o nome denuncia, é simular uma sala de cinema dentro de casa. O padrão de áudio (como da imagem, claro) e seus formatos técnicos são de importância gigantesca para os meios audiovisuais. Recentemente, no caso do cinema brasileiro, as discussões sobre o ‘Sound Designer’ (espécie de Diretor de Som) começam a ganhar força, sobretudo tendo-se em vista o salto de qualidade que certos padrões, como o THX de George Lucas, rendem ao audiovisual. “WideScreen”, no que diz respeito à imagem, refere-se ao formato da tela de cinema (16:9), diferentemente do usado nas televisões de hoje (4:3).

6. O que não implica na impossibilidade do cinema digital, ou seja, filmes rodados digitalmente com definição de cinema, não de TV. Ainda que a tecnologia mais avançada de hoje para projeção digital, no aspecto da definição, seja normalmente de 4 K (4 megapixels por fotograma), sendo inferior à definição do 35mm, que ultrapassa os 8 milhões de elementos por quadro, é de se esperar que num prazo relativamente curto tal desvantagem seja alcançada. Tanto quanto em tonalidades de cinza. Mas o que aqui nos interessa é a telespecção da TV em contrapartida a do cinema, não a forma utilizada para fazê-los, ou seja, à parte o que é digital e o que não é, a produção desta imagem e a forma de se relacionar com a mesma, é regida por princípios e finalidades diversas.

7. A própria falência da WordCom, a maior de que já se teve notícia, reflete em boa medida a lógica que impera nesta área. Menos preocupados com a estruturação física dos serviços a serem oferecidos, a megacorporação se fez por fusões e políticas de crescimento espertinhas. Tanto o boom das telecomunicações quanto a quebradeira que seguiu explicam bastante da lógica de lucro selvagem, aonde nem mesmo o próprio serviço importa, mas apenas a capitalização desmedida. O que se perdeu nesta correria, é o princípio fundamental de que o valor de um bem tem que corresponder à capacidade de utilização real da sociedade. A mídia, por sua vez, não apenas participou como engendrou boa parte do frenesi deste boom. Bernard Ebbers, fundador da WorldCom e responsável pela fraude contábil de 4 bilhões, foi descrito como “visionário, incapaz de fazer algo errado”. Mesmo a Salon.com, de merecido respeito, descrevia Ebbers como um talentoso “serviçal dos seus acionistas”. Já para Scott Sullivan, chefe de operações financeiras da WorldCom, pairava o prêmio “Excellence Award” oferecido pela revista “CFO” por conta de sua genialidade fiscal. Para analistas do setor, Ebbers era um visionário das telecomunicações, e a WorldCom “a locomotiva da indústria das comunicações”. Em 1998 a revista Time o classificou como o 11º entre seus “Cyber Elite Top 50”. “Ebbers está aí para bater records”, escreveu à época a revista. Sem dúvida que sim, o problema é que records são estes. In: Cox News Service. Vilões de escândalos financeiros eram descritos como "gênios" pela mídia. 23/06/2002.

BIBLIOGRAFIA

ECO, Umberto. Viagem na Irrealidade Cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

____________. A Estrutura Ausente: Introdução à Pesquisa Semiológica. São Paulo: Perspectiva, 1971.

COX News Service. Vilões de escândalos financeiros eram descritos como "gênios" pela mídia. 23/06/2002.

PIEPMEIER, Rainer. Finis hominis? Filosofias pós-modernas e a questão da ciência e da técnica. In: Zimmerli, Walther Ch., (Org). Technologisches Zeitalter oder Postmoderne? Munique: Wilhelm Fink, 1991, (p.129-132).

 

* Marco Toledo de Assis Bastos é mestrando na ECA/USP.