Comunicação:
O Mundo Movente de Jacques Derrida
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Glória
Kreinz
“Parece evidente que o campo de equivocidade da
palavra ‘comunicação’ se deixa maciçamente reduzir
pelos limites do que se chama noção de contexto”
(Derrida:1991:350)
A
noção de contexto pode afetar os fenômenos midiáticos? Pelo texto
epígrafe deste ensaio já se percebe que Jacques Derrida não só acha
que afeta, como é responsável pela redução de limites no ato comunicacional.
Trabalhando
este enfoque, a comunicação será um dos conceitos discutidos criticamente
no livro Margens da Filosofia, por Jacques Derrida,
sobretudo no texto Assinatura,
Acontecimento, Contexto. Este ensaio, o último do livro, é instigante.
Uma de suas conseqüências foi gerar um debate com o americano John
R. Searle, que sustenta que os “desempenhos de atos de linguagem efetivos,
escritos ou orais, são eventos singulares que podem ser datados nos
contextos históricos particulares” (Searle:1991:208), negando portanto
a possível desconstextualização como forma de ampliar os limites da
ação comunicativa, proposta por Jacques Derrida. Como ficamos diante
desta polêmica?
Jacques
Derrida situa seu arcabouço crítico na sistematização da cultura ocidental,
poupando a cultura oriental de sua crítica, como também os elementos
culturais dos povos primitivos. Outros sistemas culturais são poupados,
mas a cultura ocidental tem seus elementos sistematizadores revistos
(sob a ótica da desconstrução), pois representam, segundo o filósofo,
uma forma cristalizada de pensar a relação homem/mundo. Jacques Derrida
só entende o pensamento como estado de movimento, matéria pulsante
como a própria vida.
A
cristalização representa a morte da comunicação, e da própria cultura.
Ao relacionar comunicação e contexto Derrida cria um elo difícil de
ser trabalhado, pois o conceito de contexto em Derrida liga-se ao
não determinado, ao não espacializado.
O
filósofo alemão Rainer Piepmeier, por exemplo, afirma que em Derrida
“o conceito de contexto não perde o sentido, mas passa a ser tido
como “jamais absolutamente determinável, possuidor de insaciabilidade
estrutural” (Piepmeier, 1991:138).
A
conseqüência desta insaciabilidade estrutural do contexto leva, como
diz Derrida, “à disrupção, em última análise, da autoridade do código
como sistema fixo de regras; a destruição radical, no mesmo lance,
de todo o contexto como protocolo de código”. (Derrida:1991:357).
Desta
forma, contextualizar não é estabilizar, mas desestabilizar a trama
das convenções/contextualizações dos fenômenos culturais, e da própria
comunicação/divulgação.
É
retirar do significante o significado estável. É questionar o conceito
de signo conforme visto por Saussure, redimensionando a relação significante/significado.
Em Gramatologia, Derrida alerta: “Identificamos
o logocentrismo e a metafísica da presença como o desejo exigente,
potente, sistemático e inexprimível, de um tal significado” (Derrida:1973:60).
Com
a desconstrução do significado e a
indeterminação espacial do contexto, tem-se também a ruptura
da presença, ou a ausência da presença “de qualquer destinatário empiricamente
determinado em geral” (Derrida:1973:62). Com esta afirmação, pode-se
concluir que, quando se produz um programa de rádio, por exemplo,
por mais levantamentos que se faça da audiência, não se consegue determinar
quem será o ouvinte de fato.
É
o que Jacques Derrida chama de morte do destinatário, acrescentando
que o que vale para o destinatário vale também, “pelas mesmas razões,
para o emissor, ou produtor”. O que Derrida coloca em questão é a
autoridade do código e o poder da escritura, entendendo esta autoridade
como “exercício da violência”, (Derrida:1973:63), mas que nem sempre
alcança os efeitos esperados.
Como
se observa, o conceito tradicional de comunicação foi questionado,
ficando em seu lugar a necessidade de revisão da teoria ligada com
conceitos tradicionais, que pressupunham um receptor passivo, diante
de um significado estabilizado no significante, que violentava o próprio
fluxo da significação, pois este fluxo está em movimento contínuo,
sem se poder mensurar suas possíveis combinações, em contextos que
não podem ser previamente determinados.
Segundo
Christopher Johnson, autor do livro Derrida:
A Cena da Escritura, da Coleção Grandes Filosófos “a concepção
de escritura de Derrida desfamiliariza as distinções habituais feitas
entre fala e escritura, vida e morte, presença e ausência, humano
e animal, humano e tecnológico, e enfatiza, no lugar disso, sua necessária
co-implicação e continuidade. As várias filosofias (logocêntricas)
da presença que priorizam o vivente, humano, individual, consciente
(intencional); tratam como simplesmente secundário e derivado qualquer
uma de suas mediações externas, precisamente por requererem essas
distinções e demarcações, a fim de manter sua ficção do sujeito puro
e integralmente auto-consciente, que é habitualmente denominado “homem”
(Johnson:2001:45).
Derrida
critica este homem logocêntrico, que segundo ele representa o protótipo
do homem ocidental, fechado no autoritarismo de um código que não
tem legitimidade, pois é calcado na relação significante/significado
estável, enquanto sabe-se que os signos estão em constante movimento.
O que tipifica o pensamento de Derrida em relação à cultura ocidental
é assinalar o lugar do contexto como o lugar do logos, da estabilização
e este lugar deve ser discutido.
Sua
crítica se liga à crença na estabilidade do código, portanto da comunicação.
Ao desconstruir esta estabilidade, instaurando a descontextualização,
Derrida coloca o movimento como proposta que obriga a rever constantemente
conceitos sedimentados estruturalmente, entre eles, Comunicação e
Divulgação.
Se
pensarmos em culturas panteístas, onde Deus/Palavra/Lei não são o
núcleo estável, mas disseminado por toda a natureza, veremos que a
desconstrução critica, basicamente, a relação cultura/realidade que
tipifica a visão de mundo ocidental, e a organiza em termos de uma
estabilidade inexistente. Isso porque o conceito de realidade, mais
do que nunca, se amplia e se redimensiona a cada instante, progredindo
quanto mais o homem reconhece e penetra nos domínios de um universo
incerto, regido pela imprevisibilidade da ciência e da Lei do Caos.
Um
impasse simples mostrado na mídia atual
revela esta imprevisibilidade, como, por exemplo, responder
a pergunta: Há ou não há uma guerra no Iraque? Jean Baudrillard declarou
à imprensa que não, porém Jacques Derrida afirma que há vítimas humanas,
portanto, este fenômeno se impõe como existente.
Um
dos fatos que se observa é que a desconstrução, segundo Derrida, é
movimento, sempre sujeito a novos contextos, novas leituras e novas
constatações e interrogações.
Segundo
Johnson “o traço ou o grammé,
como o chama Derrida (do grego gramma,
letra, escritura, um pequeno peso, daí “gramatologia”), não é uma
substância presente aqui e agora (não se pode ver, sentir ou ouvir
diferença): ele é diferença, isto é, diferença espacial e diferença
temporal (adiamento). Essa estrutura, ou melhor, esse princípio estruturador,
é comum a todos os sistemas complexos envolvendo o registro, armazenamento
e comunicação de informação” (Johnson:2001:44).
Quanto
ao aspecto contextual o autor diz:
“Embora
a concepção de escritura de Derrida seja num certo sentido transcendental,
isto é, situe a instância da escritura além ou por trás do cenário
de nossa experiência cotidiana dos fenômenos, ela não é uma abstração
ou especulação filosófica, e menos ainda uma referência quase teológica
a uma essência inefável extratemporal. A “não-presença” do grammé,
em contraste com o transcendentalismo filosófico clássico, está situada
na história, aquela da evolução do traço,
uma evolução que precede mesmo o processo da chamada história “natural”.
Deste modo, a teoria da escritura de Derrida é, ao mesmo tempo, estrutural (descrevendo a essência da escritura
como inscrição (violenta), diferença e adiamento) e histórica (descrevendo o continuum do traço desde o pré-biológico
ao bioantropológico até as diversas articulações e extensões do bioantropológico)”
(Johnson:2001:45).
O
próprio J. Derrida discute a afirmação que propõe que "a escritura
sendo totalmente histórica é ao mesmo tempo natural”, concluindo que
“é surpreendente que o interesse científico pela escritura tenha sempre
tomado a forma de uma história da escritura.” (Derrida:1973:32)
Colocando
também em discussão o discurso da divulgação científica, Derrida afirma
que “a ciência exigia também que uma teoria da escritura viesse orientar
a pura descrição dos fatos – supondo-se que essa última expressão
tenha um sentido”. (Derrida:1973:92)
Segundo
Johnson, estes conceitos de estrutural e histórico seriam a base trabalhada
por J. Derrida para construir sua teoria da escritura.
Há
ainda uma reflexão de Johnson sobre Derrida que discute o método filosófico
do autor de Gramatologia, primeiro, pelo processo de
diálogo e em seguida, por meio de uma negociação lingüística de “escritura”
que envolve a pluralização
de seus atributos em vez de sua fixação e substanciação, ou o exercício
da polissemia, como queria Roland Barthes.
Jonhson
discute este método de trabalho em relação ao discurso filosófico
tradicional e conclui:
"Sua
formulação da teoria da escritura, por exemplo, não se conforma aos
cânones do que poderia ser caracterizado como discurso filosófico
tradicional. De fato, não se encontra em parte alguma, ali, uma definição
sistemática de escritura no sentido geral da palavra. Derrida não
constrói sua teoria da escrita axiomaticamente, de baixo para cima,
mas antes de cima para baixo: primeiro, pelo processo de diálogo notado
acima, desmantelando e deslocando as infra-estruturas conceituais
da metafísica tradicional; em seguida, por meio de uma negociação
lingüística de "escritura" que envolve a pluralização
de seus atributos em vez de sua fixação e substanciação. Chega-se
assim a um complexo de termos associados que constituem não tanto
uma descrição de "escritura" mas uma aproximação de sua
essência problemática: inscrição-violência-traço (écart)-arquiescritura-grammè-diferença (différance)” (Johnson:2001:48).
Ainda,
segundo Jonhson, “esta estratégia de dispersão lingüística poderia
ser tida como a característica central da desconstrução, que tenta
circundar, se não transcender, o discurso essencializador da metafísica
tradicional” (Johnson:2001:48).
Jacques
Derrida, conforme se observou, examina as bases da cultura ocidental,
propondo a desconstrução de toda as significações contidas na sistematização
do logos, entendido como núcleo estável, tais como razão, signo, discurso,
palavra de Deus, e Verdade.
A
comunicação, por exemplo, um dos elementos mais discutidos nos termos
da globalização da cultura ocidental, é analisada criticamente, quando
Derrida observa a relação comunicação/contexto, conforme se observou
desde o início deste ensaio, e mostra o perigo de cristalização do
universo movente, se os fenômeno comunicacionais não forem considerados
em suas constantes descontextualizações.
Um
elemento, porém, permanece estável na discussão de Jacques Derrida,
ou seja, a referência à cultura ocidental em relação a outras formas
culturais, base de sua crítica desconstrutivista. O lugar do contexto
se identifica com o lugar do logos, e este com a violência da palavra
entendida como lei. Os jogos de linguagem são entendidos como instrumentos
de dominação no universo midiático.
A
desconstrução critica, basicamente, a relação cultura/realidade que
tipifica a visão de mundo ocidental, e a organiza em termos de estabilidade
e sistematização, elementos estes pulsantes, impossíveis de serem
totalmente dominados, tanto na comunicação/divulgação,
como no próprio relacionamento homem/mundo.
P.S.: Os grifos em negrito foram feitos pela articulista.
BIBLIOGRAFIA
Arrojo,
Rosemary (org.). O Signo Desconstruído. Campinas, Pontes
Editores, 1992.
Derrida,
Jacques. Gramatologia. São Paulo, Perspectiva, 1973.
Derrida,
Jacques. Margens da Filosofia. Campinas, Papirus,
1991.
Dictionnaire des Philosophes. Paris, Albin Michel.
1998.
Foucault, M. L’Ordre du Discours.
Paris, Éditions Gallimard,
1971.
Johnson,
Christopher. Derrida: a cena da escritura. São Paulo,
UNESP, 2001.
Saussure,
F. de. Curso de Lingüística Geral. São Paulo,
Cultrix, 1972.
Piepmeier,
R. "Finis hominis? Filosofias pós-modernas e a questão da ciência
e da técnica". Munique, Milhelm Fink, 1991, pp.132-140 (tradução
apostilada - Ciro Marcondes)
*Glória
Kreinz é jornalista, doutora em ciências da comunicação, coordenadora
de pesquisa do NJR e integrante da equipe de pesquisadores doutores
do FILOCOM e da ABRADIC.