| Bíblia
e Filosofia
De Lévinas tomo o título em Éthique et Infini. À pergunta de seu interlocutor: "Quais foram para o senhor os primeiros grandes livros encontrados: a Bíblia ou os filósofos?", responde : "Muito cedo a Bíblia, os primeiros textos filosóficos na universidade". Isso corresponde à primeira linha de relato autobiográfico: "A Bíblia hebraica desde a mais tenra idade na Lituânia" (Difficile Liberté). A outra pergunta: "Como entraram em acordo no senhor os dois modos de pensamento, o bíblico e o filosófico?", de princípio responde laconicamente: "Teriam de concordar?" Pouco em seguida, a marca liminarmente registrada de Lévinas pensador: "O sentimento de que a Bíblia é o Livro dos Livros, onde se dizem as coisas primeiras, as que devem ser ditas para que a vida humana tenha um sentido". Minha proposição é a seguinte: ninguém que não conheça adequadamente a Bíblia será capaz de perceber suficientemente a inspiração profunda que anima a obra filosófica de Lévinas. A respeito de Filosofia e Judaísmo, diz Ulpiano Vázquez: "Na geografia simbólica da nossa cultura, desabrochará um pensamento que ao mesmo tempo foi filosófico e judeu, ou como Lévinas diria a propósito de F. Rosenzweig, um pensamento elaborado não apenas por judeus filósofos, mas por filósofos judeus" ("Filosofia e Judaísmo"). Certamente Emmanuel Lévinas é filósofo judeu. O primeiro estudo que li sobre Lévinas foi de Luiz Carlos Susin, para quem seu pensamento se marca por "vigoroso confronto entre o horizonte grego e o firmamento bíblico" (O homem messiânico). A imagem é sugestiva de horizonte e firmamento, o primeiro circunscrevendo abrangência e o segundo valendo por altura inalcançável, Totalidade e Infinito. Fui conduzido a estudar Lévinas por Enrique Dussel, o qual, de seu encontro com ele, escreve: "Quando li pela primeira vez o livro de Lévinas Totalidade e Infinito, produziu-se em meu espírito um subversivo desconcerto de tudo que até então fora aprendido" (Liberación latinoamericana y Emmanuel Lévinas). Este pensador argentino - filósofo da libertação latino-americana (Para uma ética da libertação latino-americana) - tem estudos sobre o humanismo helênico e o humanismo semita. Diz a propósito da tradição semita: "uma tradição totalmente distinta, como o dia e a noite, da cosmovisão dos gregos". Trata amplamente de povos indo-europeus e povos semitas, indicando suas diferenças geográficas e culturais. É possível abrir este quadro comparativo:
Enrique Dussel aponta a índole guerreira e dominadora dos indo-europeus - o privilégio da "visão", da experiência originária do "homem-diante-da-natureza", da "lógica da Totalidade" - e a índole pacífica e acolhedora dos semitas - o privilégio da "audição", da experiência originária da "pessoa diante de outra pessoa", da "lógica da Exterioridade" -. Para os semitas, cita do código de Hammurabi: Pus
fim à guerra, criei o bem-estar, Pretendo comparar algumas coisa que leio na "Carta Constituinte" da tradição judaico-cristã", assim como chamo os primeiros quatro capítulos do Gênesis, com o pensamento de Lévinas, mostrando-lhe certos conteúdos fundamentais para seu entendimento. O semita Emmanuel Lévinas O primeiro versículo da Bíblia é por demais conhecido: No princípio, Deus criou o céu e a terra. O criacionismo distingue radicalmente o grego do semita. Vige a expressão creatio ex nihilo sui et subjecti, "criação do nada de si e de suposto". Isto é: nem emanação de si nem transformação de algo preexistente. Isso significa que todo o universo criado é a-teu, "fora de Deus", não é divino. A "metafísica" semita é ontologia pluralista e não é ontologia monista. Em Lévinas, do homem se pense o ateísmo do eu: Pode-se chamar de ateísmo tal separação tão completa que o ser separado mantém-se totalmente sozinho na existência sem participar no Ser do qual está separado. A ruptura com a participação está implicada nessa capacidade. Vive-se fora de Deus, junto a si, é-se eu, egoísmo. A alma - a dimensão do psíquico - cumprimento da separação, é naturalmente atéia. Por ateísmo entende-se uma posição anterior à afirmação e à negação do divino, ruptura da participação desde a qual o eu se põe como o mesmo e como eu, acrescentando: Certamente é uma grande glória para o criador ter posto de pé um ser capaz de ateísmo, um ser que, sem ter sido causa sui, tem olhar e palavra independentes e é junto a si (Totalité et infini). Não é possível compreender a responsabilidade por outrem senão desde "posição anterior à afirmação e à negação do divino". Exterior a Deus, é-se eu exterior a outrem, posição anterior à afirmação e à negação do outro. Para entender Autrement qu’être ou au-delà de l’essence, "Diferentemente de ser ou além da essência", faço a imagem do homem suspendendo-se pelos próprios cabelos. O versículo 27 do primeiro capítulo do Gênesis é notável: Deus
criou o homem à sua imagem, O versículo 7 do segundo capítulo do Gênesis dirá: Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo. Chouraqui considera o termo adâm e propõe "terroso" para traduzi-lo: Elohîms cria o terroso à sua réplica... forma o terroso - Adâm, pó do terreno - . Lévinas considera o "enigmático versículo de Gênesis 1,27: homem e mulher os criou": A diferença de sexo não é dualidade de dois termos complementares. Dois termos complementares supõem um todo preexistente. Ora, dizer que a dualidade sexual supõe um todo, é previamente pôr o amor como fusão. O patético do amor consiste, ao contrário, na dualidade insuperável dos seres, relação com o que se furta para sempre. A relação não neutraliza a alteridade, mas a conserva. O outro enquanto outro não é objeto que se torna nosso ou se torna nós: retira-se, pelo contrário, em seu mistério. Somente mostrando aquilo pelo que o eros difere da posse e do poder é que podemos admitir uma comunicação no eros. Não é luta, nem fusão, nem conhecimento. É preciso reconhecer seu lugar excepcional entre as relações. É a relação com a alteridade, com o mistério, quer dizer, com o futuro, com o que, num mundo em que tudo está aí, nunca está aí. E da carícia: A carícia é espera deste futuro puro sem conteúdo (Le Temps et l’Autre). É preciso afirmar que para a cultura semita na Bíblia o ser humano "homem" e "mulher" no entanto é "homem e mulher", não sendo o mito do andrógino. É preciso considerar que a "imagem" de Deus é o terroso "homem e mulher", quer dizer, o casal terroso. É pela imagem do "casal terroso" que, desde a primitiva tradição semita, "Deus é Amor"! Vamos ao versículo 8 do capítulo segundo do Gênesis: Iahweh Deus plantou um jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara. A tradição verteu comumente Éden em "paraíso", no grego, no latim e nas nossas línguas ocidentais, incluindo as eslavas. A interpretação judaica da palavra Éden a faz derivar da raiz hebraica ’dn, "delícias". O entendimento é que Iahweh Deus "põe ali o terroso que havia formado" num "jardim de delícias". Ressoa Emmanuel Lévinas: No princípio há um ser cumulado, um cidadão do paraíso (Totalité et infini). E dizendo do "amor à vida": Viver consiste em morder com todos os dentes os alimentos do mundo, em agradar-se com o mundo como riquezas, em fazer luzir sua essência elementar. Aí reside a verdade permanente das morais hedonistas: não procurar por detrás da satisfação da necessidade, uma ordem, em relação à qual tão somente, a satisfação da necessidade adquirisse valor (Totalité et infini). Antes já escrevera: "O homem que come é o mais justo dos homens". Respiramos por respirar, comemos e bebemos por comer e beber, abrigamo-nos por nos abrigar, estudamos para satisfazer nossa curiosidade, passeamos por passear. Tudo isso não é para viver. Tudo isso é viver. Viver é uma sinceridade. O mundo que se opõe ao que não é do mundo, é o mundo onde habitamos, onde passeamos, onde almoçamos e jantamos, onde fazemos visitas, onde vamos à escola, discutimos, fazemos experiências e pesquisas, escrevemos e lemos livros; é o mundo de Gargantua e de Pantagruel e de Mestre Gaster, primeiro Mestre de Artes do mundo, e também o mundo onde Abraão fazia pastar seus rebanhos, Isaac cavava poços, Jacó construía sua casa, Epicuro cultivava seu jardim e onde "cada um está à sombra de sua figueira e de sua vinha" (De l'existence a l'existant). Leiamos outros versículos do capítulo segundo do Gênesis: (19) Iahweh Deus modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse. (20) O homem deu nomes a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras selvagens, mas, para um homem, não encontrou a auxiliar que lhe correspondesse. Segue o mito tornado vulgar da mulher "costela de Adão". Contudo, não se tornou vulgar e assumido em nossa cultura o encanto do homem, ’îsh, com a mulher, ’îshsha: (23) Esta sim, é osso de meus ossos e carne da minha carne! Ainda acrescento: (24) Um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne, para comparar com o versículo primeiro do capítulo quarto: Adâm penetra Hava, sua mulher. Grávida, ela deu à luz Caîn (Tradução Chouraqui). Os animais são modelados do solo, quer dizer, adâm é terroso como os animais. A feitura terrena de adâm também é presente no emprego do termo "carne". Na oposição que mostra da antropologia helênica com a semita, Dussel sinaliza da primeira o "dualismo corpo e alma" e da segunda a "carnalidade unitária". Na Bíblia, o homem é indivisamente carne, basar no hebraico e sárx na tradução grega dos Setenta. Cita dessa antropologia carnal o versículo 14 do capítulo primeiro do Evangelho de João: E o Verbo se fez carne. No grego, Kaì ho Lógos sárx egéneto. Indica que o autor não emprega sôma, "corpo", nem ánthropos, "homem", palavras de seu conhecimento. Um grego teria dito: "O Verbo tomou um corpo", radicalmente diferente, ou: "O Verbo se fez homem". Outro testemunho do mesmo documento, capítulo sexto versículo 54, traz as palavras de Jesus de Nazaré: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna. Atesta não apenas uma antropologia carnal, mas igualmente uma socialidade carnal. Trata-se da comensalidade que o fundador do cristianismo estabelece para seus discípulos como religião entre eles, substituindo os sacrifícios precedentes. Todas as vezes que partirem o pão entre si, ele estará presente participando deste gesto amoroso. E certamente a comida e a bebida em refeição amiga é cerimônia humana particularmente sensível que suscita e distribui afeição carnal: a humanidade do homem tem a carne por substância. A filosofia grega começou perguntando "de que" (ex hoû) os entes eram feitos (água, ar...). A Bíblia diz que o homem é feito de "argila" ou de "carne". Em paralelo a adâm "terroso", dir-se-ia de adâm "carnoso". Abro algumas linhas de teoria do conhecimento. Adâm dando "nomes" aos animais é o realismo nominal das culturas primitivas, a ordem das palavras implicando a ordem das coisas. Pelo nome que lhes dá, o homem se apodera das coisas. Saber o nome é captar a essência da coisa e então poder agir sobre elas. No Gênesis isso está na continuidade do mandamento de Deus para adâm, homem e mulher: Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os animais que rastejam sobre a terra (1,26). E no capítulo segundo o terroso é posto como administrador ou gerente do jardim de delícias": Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar (2,15). Este poderio da palavra, a transcendência humana no conhecimento, é paralelo ao valor do lógos na metafísica grega. Heidegger denuncia esta metafísica como estando na origem da desproporção científico-tecnológica da civilização ocidental, quer dizer, onde "o ente só é ente precisamente no grau em que se presta ao controle exato da subjetividade" (Sobre o Humanismo). Ora, isso é diferente, tal como o homem dando nomes aos animais, ao que lemos: "Adâm penetra Hava, sua mulher. Grávida, ela deu à luz Caîn". Comumente se traduz: "O homem conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu à luz Caim". Está em jogo o sentido do verbo "conhecer" nas línguas semitas, yada’ no hebraico. É sentido todo diferente, primeiramente carnal: Indicando a união sexual, esse sentido, que não existe no grego profano, foi, sob a influência da Bíblia, adotado por diversas língua ocidentais, sendo conservado até hoje em traduções modernas da Bíblia (Dicionário Enciclopédico da Bíblia). De Jesus de Nazaré, Evangelho de João, capítulo, 10 versículo 14: Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, anota A Bíblia de Jerusalém: Na Bíblia, o conhecimento não provém de uma operação puramente intelectual, mas da experiência, de uma presença; ele desabrocha, necessariamente, em amor. É contudo de Chouraqui certa consideração mais aguda sobre sua tradução: penetra, iada’: este verbo significa, em geral, conhecer, daí as traduções habituais; mas é necessário precisar: por experiência concreta. Todavia, ele é empregado muito freqüentemente para relações íntimas entre casais, legítimos ou não (38,26), e ainda para casos de homossexualidade (19,5). Seu correspondente acadiano se aplica até ao acasalamento de cães. O rigor do sentido concreto de penetrar, com a ambivalência desta expressão, parece mais próximo do hebraico do que o eufemismo conhecer, propagado em todas as traduções". Dois modos do conhecimento: um conhecimento que resulta em poder e um conhecimento que resulta do amor. Não sendo mero jogo de palavras, para a cultura semita o "amor à sabedoria" supõe a "sabedoria do amor". Digo que, se, para um grego, o homem é animal racional, para um semita, o homem é animal sensual! A humanidade do homem não é alcançada quando dá nome aos seres transformando-os em coisas ao lhes dizer o sentido, a Sinngebung de Husserl. A fundação, a humanidade do homem está no encanto de adâm: Esta(e) sim, é osso de meus ossos e carne da minha carne! Ressoa Lévinas: A familiaridade do mundo não resulta apenas de hábitos adquiridos neste mundo, que lhe retiram as rugosidades e medem a adaptação do ser vivo a um mundo de que frui e se alimenta. A familiaridade e a intimidade se produzem como uma doçura que se derrama sobre a face das coisas. Não somente a conveniência da natureza com as necessidades do ser separado - ou seja como eu - na fruição; mas doçura proveniente de uma amizade a este eu. A intimidade que a familiaridade já supõe, é uma intimidade com alguém. A interioridade do recolhimento se refere a um acolhimento... O Outro, cuja presença é discretamente uma ausência e a partir da qual se realiza o acolhimento hospitaleiro por excelência que descreve o campo da intimidade, é a Mulher. A mulher é a condição do recolhimento, da interioridade da Casa e da habitação... É um recolhimento, uma vinda a si, um retiro em sua casa como uma terra de asilo, que corresponde a uma hospitalidade, a uma espera, a um acolhimento humano. Acolhimento no qual a linguagem que se cala existe como possibilidade essencial. As idas e vindas silenciosas do ser feminino, fazendo ressoar as espessuras secretas do ser, nada têm do turvo mistério da presença animal e felina cuja estranha ambigüidade Baudelaire se compraz em evocar (Totalité et infini). Confiro o Cântico dos Cânticos (Shir hashirim, genitivo superlativo da língua hebraica) na Bíblia. Suas palavras sobre o Amor dizem quem seja Deus. Certamente para a Bíblia Iahweh não é "pensamento, do pensamento pensamento" nem é "espírito puro". O terroso pode ter a experiência ou a revelação de quem seja Iahweh ao compor e viver os seguintes versos: O amado Os
teus pés... A amada Eu
sou do meu amado, Alguns lêem essas palavras por curiosidade erótica. Outros escarnecem a Bíblia por causa delas. Mas, para a tradição semita, o conhecimento supremo, quer dizer, do próprio Deus, se revela no interior do que descrevem! Não conheço de Lévinas nada que possa apor comentando diretamente estes versos. No entanto, seu entendimento da religião carrega a mesma intenção de amor serviçal, uma mística desconcertante: Colocar o transcendente como estrangeiro e pobre é impedir que a relação metafísica com Deus se cumpra na ignorância dos homens e das coisas. A dimensão do divino abre-se a partir do rosto humano. Uma relação com o Transcendente é uma relação social. É aí que o Transcendente, infinitamente Outro, nos solicita e apela para nós. A proximidade de Outrem, a proximidade do próximo, é no ser um momento inelutável da revelação de uma presença absoluta que se exprime. Sua própria epifania consiste em nos solicitar por sua miséria no rosto do Estrangeiro, da viúva e do órfão. O ateísmo do homem metafísico significa positivamente que nossa relação com o Metafísico é um comportamento ético e não a teologia, não uma tematização, mesmo que fosse o conhecimento por analogia dos atributos de Deus. Deus se eleva à sua suprema e última presença como correlativo da justiça feita aos homens. A inteligência direta de Deus é impossível, não porque nossa inteligência é limitada, mas porque a relação com o infinito respeita a Transcendência total do Outro sem nela se enfeitiçar e porque nossa possibilidade de acolhê-lo no homem vai mais longe do que a compreensão que tematiza e engloba o objeto. Mais longe, precisamente porque, desse modo, vai para o Infinito. A participação é um desmentido infligido ao divino, porque nada é mais direto do que o face-a-face, o qual é a própria retidão. Deus invisível não significa somente um Deus inimaginável, mas um Deus acessível na justiça. A ética é a ótica espiritual (Totalité et Infini). Caminho para o que segue, o capítulo quarto do Gênesis, restando nos 16 dos primeiros versículos: (3) Caim apresentou produtos do solo em oferenda a Iahweh; (4) Abel, também ele, ofereceu as primícias e a gordura de seu rebanho. Ora, Iahweh agradou-se de Abel e de sua oferenda. (5) Mas não se agradou de Caim e de sua oferenda, e Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido... (8) Caim disse a seu irmão Abel: "Saiamos." E, como estavam no campo, Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou. (9) Iahweh disse a Caim: "Onde está teu irmão Abel?" Ele respondeu: "Não sei. Acaso sou o guarda de meu irmão?". Escreve Emmanuel Lévinas: A relação com alguém é, de princípio, ética. Alguém é aquele que não se pode matar, ou aquele em cujo rosto o sentido consiste em dizer: "Tu não matarás nunca". Por certo, o assassínio é um fato banal: pode-se matar alguém, a exigência ética não é uma necessidade ontológica. A interdição de matar não torna o assassínio impossível, mesmo que a autoridade do interdito se mantenha na má consciência do mal cumprido - malignidade do mal – (Éthique et Infini). Pois é, contra incompreensão atribuindo ao semita que ele é autoritário, na verdade para ele só existe um mandamento: "ser o guarda do irmão". Considerem este diálogo com Jesus de Nazaré: (28) Um dos escribas foi até ele e perguntou: "Qual é o primeiro de todos os mandamentos?" (29) Jesus respondeu: "O primeiro é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, (30) e amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento, e com todas as suas forças. (31) O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior do que estes". (32) O escriba disse-lhe: "Muito bem, Mestre, tens razão de dizer que ele é o único e não existe outro além dele: (33) e amá-lo de todo o coração, de toda a inteligência e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios". (34) Jesus, vendo que respondera com inteligência, disse-lhe: "Tu não estás longe do Reino de Deus." E ninguém mais ousava interrogá-lo (Mc 12). E sobre este Reino de Deus diz Lévinas do amor ao próximo: Ama teu próximo, isso é tu mesmo, essa obra é como tu mesmo. Kamokha não se refere a "teu próximo" mas a todas as palavras que o precedem. A Bíblia é a prioridade do outro em relação a mim. É em outrem que vejo sempre a viúva e o órfão. O outro sempre passa adiante" ("Questions et réponses"). Conclusão Na verdade não tenho conclusão sobre o semita inspirando o filósofo Lévinas. Certamente ainda o tema do Servo de Iahweh, que encontramos no livro bíblico de Isaías. Então o tema do profetismo: O profetismo é o modo fundamental da revelação ...momento da própria condição humana. Assumir a responsabilidade por outrem é para todo homem um modo de testemunhar a glória do Infinito e de ser inspirado... Há profetismo, há inspiração junto ao homem que responde por outrem, paradoxalmente antes mesmo de saber o que se exige concretamente dele. Esta responsabilidade antes da Lei é revelação de Deus. Há um texto do profeta Amós que diz: "Deus falou: quem não profetizará" (Am 3,8), onde a profecia parece posta como o fato fundamental da humanidade do homem... O grande milagre da Bíblia é a confluência de literaturas diferentes num mesmo conteúdo essencial. O polo desta confluência é a ética, que incontestavelmente domina todo este livro... Qualquer homem ético poderia, em todo tempo e em todo lugar, dar testemunhos, escritos ou orais, que poderiam constituir uma Bíblia. Entre homens que pertencem a tradições diferentes ou que não se reconhecem por nenhuma tradição religiosa, poderia haver uma Bíblia comum" (Éthique et Infini). É sabido de Lévinas sobre a subjetividade. Referindo-se a Autrement qu’être ou au-delà de l’essence, diz em Éthique et Infini: Nesse livro falo da responsabilidade como da estrutura essencial, primeira, fundamental da subjetividade. Porque é em termos éticos que descrevo a subjetividade. A ética não aparece como acrescentamento a uma prévia base existencial: é na ética entendida como responsabilidade que se tece o próprio vínculo do subjetivo. Entendo a responsabilidade como responsabilidade por outrem, portanto como responsabilidade pelo que não me cumpre ou não me diz respeito. Ou precisamente me diz respeito: é abordado por mim como rosto... A responsabilidade não é um atributo da subjetividade, como se esta já existisse em si mesma antes da relação ética. A subjetividade não é um para si: de princípio é um para outrem. A proximidade de outrem é apresentada no livro como o fato de outrem não estar simplesmente próximo de mim no espaço, ou próximo como um parente, mas de se aproximar de mim enquanto me sinto - enquanto sou - responsável por ele. É uma estrutura que, de modo algum, se assemelha à relação intencional ...não se reduz ao fato de outrem me ser conhecido. Para mim resta uma interpretação primeira de Lévinas para percorrer todo o seu pensamento: Iahweh criou o céu e a terra, fez homem e mulher sua imagem, colocou-os num jardim de delícias, disse que se tornassem fecundos numa só carne, e para todas as gerações mandou que cada um se tornasse guarda do irmão. A criação significa ateísmo de adâm, liberdade para matar, mas também para "fazer tudo para que o outro viva" (Transcendance et intelligibilité). Bibliografia Lévinas, Emmanuel. Éthique et Infini: Dialogues avec Philippe Nemo. Paris, Fayard, France Culture, 1982. Lévinas, Emmanuel. Difficile Liberté: essais sur le judaïsme. Paris, Albin Michel, 1976. Vázquez, Ulpiano. "Filosofia e Judaísmo". Síntese Nova Fase. Revista da Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus. Belo Horizonte, v.20, n.62, 1993. Susin, Luiz Carlos. O homem messiânico. Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Petrópolis, Vozes, 1984. Susin, Luiz Carlos. O homem messiânico. Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Petrópolis, Vozes, 1984. Dussel, Enrique, Guillot, Daniel E. Liberación latinoamericana y Emmanuel Lévinas. Buenos Aires, Bonum. Buenos Aires, BONUM, 1975. Dussel, Enrique. Para uma ética da libertação latino-americana. Trad. Luiz João Gaio. São Paulo, Piracicaba, Loyola, UNIMEP, sd., 5 volumes. Dussel, Enrique. El dualismo en la antropologia de la cristiandad. Buenos Aires, Guadalupe, 1974. Dussel, Enrique. El humanismo helénico. Buenos Aires, EUDEBA, 1975. Dussel, Enrique. El humanismo semita. Buenos Aires, EUDEBA, 1969. Lévinas, Emmanuel. Totalité et infini. Dordrecht, Boston, London, Kluwer Academic Publishers, 1988. Lévinas, Emmanuel. Le Temps et l’Autre. Paris, Quadrige/PUF, 1985. CHOURAQUI, André. No Princípio (Gênesis). Trad. Carlito Azevedo, Rio de Janeiro, Imago, 1995. Lévinas, Emmanuel. De l'existence a l'existant. Paris, Vrin, 1986. Heidegger, Martin. Sobre o Humanismo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1967. Van Den Born, A., org. Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis, Vozes, Lisboa, Centro do Livro Brasileiro, 1971. Bíblia de Jerusalém (A), São Paulo, Paulinas, 1981. Lévinas, Emmanuel. "Questions et réponses". Le Nouveau Commerce, (14):76, 1976. Lévinas, Emmanuel. Transcendance et intelligibilité. Genève, LABOR et FIDES, Centre Protestant d’Études, 1984. *
Benedito Eliseu Leite Cintra é professor do Departamento de
Filosofia da Faculdade de Comunicação e Filosofia da
PUC-SP. |