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Extratos de Gilles Deleuze e Claire Parnet: Diálogos. Paris, Flammarion, 1996. Trad. CMF.
(...) A informática procede pela sucessão de escolhas duais e não se pode acreditar nela assim inocentemente. É talvez porque a informação seja um mito e a linguagem não seja essencialmente informativa. Inicialmente, há uma relação linguagem-rosto e, como diz Félix, a linguagem é sempre indexada sobre os traços do rosto, traços de "rostidade" [1]: "olhe para mim quando eu te falo... ou, então, baixe os olhos... O quê? O que foi que você disse, por que você faz essa cara?" Aquilo que os lingüistas chamam de "traços distintivos" não seria mesmo discernível sem os traços da rostidade. E é tanto mais evidente pelo fato de a linguagem não ser neutra, não ser informativa. A linguagem não foi feita para ser acreditada mas para ser obedecida. Quando a professora explica uma operação às crianças ou quando ela lhes ensina a sintaxe, ela não as leva propriamente a falar de informações, ela lhes comunica ordens, ela lhes transmite palavras de ordem, ela lhes faz produzir enunciados corretos, idéias "justas", necessariamente de acordo com as significações dominantes. É por isso que se deveria modificar o esquema da informática. O esquema informático parte de uma informação teórica supostamente máxima. No outro extremo, ele põe o ruído como interferência, anti-informação, e, entre os dois, a redundância, que diminui a informação teórica, mas também lhe permite vencer o ruído. Opostamente, isto deveria ser: no alto, a redundância, como modo de existência e propagação de ordens (os jornais, as "notícias" procedem por redundância); abaixo, a informação-rosto, como sendo sempre o mínimo requerido para a compreensão de ordens; mais abaixo, qualquer coisa que poderia ser o grito do silêncio ou a gagueira e que seria como a linha de fuga da linguagem, falar na sua própria língua em estrangeiro [2], fazer da linguagem um uso minoritário... Ou, então, também: desfazer o rosto, desfiar o rosto. Em todo caso, se a lingüística, se a informática têm hoje um papel de repressor é porque elas funcionam, elas também, como máquinas binárias destes aparelhos de poder e constituem toda uma formalização de palavras de ordem em vez de uma ciência pura de unidades lingüísticas e de conteúdos informativos abstratos. (p.30/31) 2. A interpretação: o pequeno segredo sujo (...) Lawrence denunciava aquilo que lhe parecia atravessar toda a literatura francesa: a mania do "pequeno segredo sujo". Os personagens e os autores sempre tiveram um pequeno segredo que alimentava a mania de interpretar. É sempre preciso que alguma coisa nos evoque outra coisa, nos faça pensar em outra coisa. Nós retivemos do Édipo o pequeno segredo sujo e não do Édipo em Kolonos, sobre sua linha de fuga, tornado imperceptível, idêntico ao grande segredo vivo. O grande segredo é quando já não há mais nada a esconder e que ninguém então pode te apanhar. Depois que inventaram o "significante", as coisas não se encaixam mais. Em vez de interpretar a linguagem é ele que se põe a nos interpretar e a se interpretar a si mesmo. Significância e interpretose são as duas doenças da terra, o par déspota e padre. O significante é sempre o pequeno segredo que jamais parou de girar em torno de papai-mamãe. Nós chantageamos a nós mesmos, nós representamos os misteriosos, os discretos, nós avançamos com o ar do "veja sob que segredo eu me curvo". O espinho na carne. O pequeno segredo reconduz geralmente a uma triste marturbação narcísica e piedosa: o fantasma! A "transgressão", conceito bom demais para os seminaristas sob a lei de um papa ou de um padre, os trapaceiros. Georges Bataille é um autor muito francês: ele fez do pequeno segredo a essência da literatura, com uma mãe dentro, um padre abaixo, um olho acima. Jamais se dirá o suficiente sobre o mal que o fantasma fez à escrita (ele invadiu até o cinema), alimentando o significante e a interpretação, um do outro, um com o outro. "O mundo dos fantasmas é um mundo do passado", um teatro do ressentimento e da culpabilidade. Vê-se bem as pessoas desfilando hoje, gritando: Viva a castração, porque é o lugar, a Origem e o Fim do desejo! Esquece-se daquilo que há no meio. Inventa-se sempre novas raças de padres para o pequeno segredo sujo, que não tem outro objeto a não ser se fazer reconhecer, nos meter num buraco bem negro, nos fazer rebater sobre um muro bem branco. [p.58-59]. 3. O agenciamento A unidade
real mínima não é a palavra, a idéia ou o
conceito; nem o significante, mas o agenciamento. É sempre um agenciamento
que produz os enunciados. Os enunciados não têm por causa
um sujeito que agiria como sujeito da enunciação, principalmente
porque eles não se referem aos sujeitos como sujeitos do enunciado.
O enunciado é o produto de um agenciamento, sempre coletivo, que
põe em jogo, em nós e fora de nós, as populações,
as multiplicidades, os territórios, os devires, os afetos, os acontecimentos.
O nome próprio não designa um sujeito mas qualquer coisa
que se passa, pelo menos entre dois termos que não são sujeitos,
mas agentes, elementos. Os nomes próprios não são
nomes de pessoas, mas de povos e tribos, de faunas e de floras, de operações
militares e tufões, de coletivos, de sociedades anônimas
e escritórios de produção. O autor é um sujeito
da enunciação mas não o escritor, que não
é um autor. O escritor inventa os agenciamentos a partir de agenciamentos
que se inventaram, ele faz passar uma multiplicidade na outra. O difícil
é fazer conspirar todos os elementos de um conjunto não
homogêneo, os fazer funcionar juntos. As estruturas estão
ligadas às condições de homogeneidade mas não
os agenciamentos. O agenciamento é o co-funcionamento, é
a "simpatia", a simbiose. [p.65] 4. Componentes do agenciamento: estado de coisas e enunciado Inicialmente
num agenciamento há como que duas faces ou duas cabeças
pelo menos. Os estados de coisas, estados de corpos (os corpos se penetram,
se misturam, se transmitem afetos); mas também os enunciados, os
regimes de enunciados: os signos se organizam de uma nova forma, novas
formulações aparecem, um novo estilo para novos gestos (os
emblemas que individualizam o cavaleiro, as fórmulas dos juramentos,
o sistema de "declarações", mesmo de amor, etc.).
Os enunciados não são ideologia, não há ideologia,
os enunciados são peças e engrenagens no agenciamento, não
menos que o estado de coisas. Não há infra-estrutura nem
de superestrutura num agenciamento; um fluxo monetário comporta
nele mesmo tantos enunciados quanto um fluxo de palavras em seu lugar
pode comportar de dinheiro. Os enunciados não se contentam em descrever
os estados de coisas correspondentes: são, antes, como duas formulações
não-paralelas, formalização de expressão e
formalização de conteúdo, de tal forma que não
se faz jamais aquilo que se diz, não se diz jamais aquilo que se
faz, mas não se mente entretanto, não se engana, agenciam-se
somente signos e corpos como peças heterogêneas da mesma
máquina. A única unidade vem do fato que uma só e
mesma função, um só e mesmo "funtivo" [3],
é o expresso do enunciado e o atributo do estado de corpos: um
acontecimento que se estica e se comprime, um devir ao infinitivo. Feudalizar?
É a maneira indissolúvel como um agenciamento é ao
mesmo tempo agenciamento maquínico de efetuação e
agenciamento coletivo de enunciação.[p.86] O plano de consistência [4]. Este plano só conhece relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, entre elementos não-formados, relativamente não formados, moléculas ou partículas levadas pelos fluxos. Ele não conhece antecipadamente os sujeitos, mas, antes, aquilo que se chama de "heceidades" [4]. De fato, nenhuma individuação se faz a partir da forma de um sujeito ou mesmo de uma coisa. Uma hora, um dia, uma estação, um clima, um ou vários anos - um grau de calor, uma intensidade, intensidades muito diferentes que se combinam - têm uma individualidade perfeita que não se confunde com aquela de uma coisa ou de um sujeito formados. "Que terríveis cinco horas da tarde!" Não é um instante, não é a brevidade que distingue esse tipo de individuação. Uma heceidade pode durar tanto tempo e mesmo mais que o tempo necessário ao desenvolvimento de uma forma e à evolução de um sujeito. Mas não é o mesmo tipo de tempo: tempo flutuante, linhas flutuantes de Aion, por oposição a Cronos. As heceidades são somente os graus de potência que se compõem, aos quais correspondem um poder de afetar e de ser afetado, de afetos ativos e passivos, de intensidades. [p.111] Plano de consistência, plano de imanência, já era assim que Spinoza concebia o plano contra os mantenedores da Ordem e da Lei, filósofos e teólogos. É assim que a trindade Hölderlin - Kleist - Nietzsche concebia a escrita, a arte e mesmo a notícia política: não mais como um desenvolvimento harmonioso da forma e uma formação bem regulada do sujeito, como o queriam Goethe ou Schiller, ou Hegel, mas de sucessões de catatonias e de precipitações, de suspensão e de flechas, de coexistências de velocidades variáveis, de blocos do devir, de saltos por cima dos vazios, de deslocamentos de um centro de gravidade sobre uma linha abstrata, de conjunções de linhas sobre um plano de imanência, um "processo estacionário" à velocidade louca que libera partículas e afetos. [114]
Máquina,
maquinismo, "maquínico" não é nem mecânica,
nem orgânica. A mecânica é um sistema de ligações
progressivas entre termos dependentes. A máquina, ao contrário,
é um conjunto de "vizinhança" entre termos heterogêneos
independentes (vizinhança topológica é, por seu turno,
independente da distância ou da contigüidade). O que define
um agenciamento maquínico é o deslocamento de um centro
de gravidade sobre uma linha abstrata. Como na marionete de Kleist, é
o deslocamento que engendra as linhas ou os movimentos concretos. Faz-se
a objeção de que a máquina, neste sentido, remete
à unidade de um maquinista. Mas isto não é verdade:
o maquinista está presente na máquina "no centro de
gravidade", ou mesmo de celeridade (rapidez), que a percorre. É
por isso que não adianta nada dizer que certos movimentos são
impossíveis à máquina; ao contrário, são
movimentos de tal máquina porque ela tem por peça um homem.
Assim é a máquina cuja engrenagem é um dançarino:
não se deve dizer que ela não possa fazer tal movimento
que só o homem pode fazê-lo, mas, ao contrário, que
o homem não pode fazer tal movimento a não ser como peça
de tal máquina. Um gesto vindo do Oriente supõe uma máquina
asiática. A máquina é um conjunto de vizinhança
homem-utensílio-animal-coisa. Ela é primeira em relação
a eles, pois é a linha abstrata que os atravessa e os faz funcionar
em conjunto. Ela está sempre montada sobre muitas estruturas, como
nas construções de Tinguely. A máquina, na sua existência
de heterogeneidade de vizinhanças, ultrapassa as estruturas com
suas condições mínimas de homogeneidade. Há
sempre uma máquina social primeira em relação aos
homens e aos animais, que ela toma em seu "phylum". 6. Dos regimes de signos (...) Em
primeiro lugar, devemos distinguir num regime de signos a máquina
abstrata que o define e os agenciamentos concretos no qual ele entra.
[p.134] Félix
Guattari escreveu um texto sobre os princípios lingüísticos
seguintes, que retomam, à sua maneira, certas teses de Weinreich
e principalmente de Labov: 1) é a pragmática que é
o essencial, porque ela é a verdadeira política, a micropolítica
da linguagem; 2) não há universais nem invariantes da língua,
nem "competência" distinta das "performances";
3) não há máquina abstrata interior à língua,
mas máquinas abstratas que dão à língua tal
agenciamento coletivo da enunciação (não há
sujeito da enunciação), ao mesmo tempo que elas dão
ao conteúdo tal agenciamento maquínico do desejo (não
há significante do desejo); 4) há, assim, muitas línguas
numa língua, ao mesmo tempo que todos os tipos de fluxos nos conteúdos
emitidos, conjugados, continuados. A questão não é
"bilíngüe", "multilíngüe",
a questão é que toda língua é de tal forma
bilíngüe em si mesma, multilíngüe em si mesma,
que se pode gaguejar em sua própria língua, ser estrangeiro
em sua própria língua, isto é, levar sempre mais
longe os pontos de desterritorialização dos agenciamentos.
Uma língua é atravessada por linhas de fuga que conduzem
seu vocabulário e sua sintaxe. E a abundância do vocaculário,
a riqueza da sintaxe são apenas os meios a serviço de uma
linha que é avaliada, ao contrário, por sua sobriedade,
sua concisão, sua abstração mesma: uma linha involutiva
não protegida que determina os meandros de uma frase ou de um texto,
que atravessa todas as redundâncias e explode a figuras de estilo.
É a linha pragmática, de gravidade ou de celeridade, em
que a pobreza ideal impõe a riqueza dos outros. NOTAS: (1) "Visageité" |