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ANO 5 - No.20  / JUL-AGO-SET de 2004

CONSELHO EDITORIAL

Histórias em quadrinhos e ensino: uma dupla cada vez mais dinâmica

Waldomiro Vergueiro *

Como um meio de comunicação de massa de grande penetração popular, com tiragens de milhares e, às vezes, até mesmo milhões de exemplares, histórias em quadrinhos sobre os mais variados temas e nos mais variados veículos são avidamente consumidas por um público fiel e sempre ansioso por novidades. Mesmo o aparecimento e a concorrência de outros meios não impediram que elas, neste início de século, continuassem a atrair um público considerável.

A popularidade dos quadrinhos, por outro lado, também gerou uma espécie de “desconfiança” quanto aos benefícios que elas trazem a seus leitores. Como um meio de comunicação de vasto consumo e com conteúdo majoritariamente direcionado a crianças e jovens, eles cedo se tornaram objeto de restrição, condenados por pais e professores, que tinham dificuldade para acreditar que eles pudessem, devido a seus objetivos comerciais, contribuir para o aprimoramento cultural e moral de jovens leitores ou representar elemento de reforço ao processo educativo. Por este motivo, a entrada dos quadrinhos em sala de aula encontrou severas restrições. Felizmente, aos poucos, esse banimento foi revertido, ainda que isso tenha representado uma longa e árdua jornada.

O desenvolvimento das ciências da comunicação e dos estudos culturais fez com que se passasse a olhar de outra maneira todos os meios de comunicação de massa e seu impacto na sociedade. As histórias em quadrinhos não foram uma exceção nesse sentido. Nesse processo, o “redescobrimento” dos quadrinhos fez com que muitas das barreiras ou acusações contra eles fossem derrubadas ficando mais fácil a eles serem encarados em sua especificidade narrativa e ótica própria, o que também favoreceu as práticas pedagógicas.

Ainda que a percepção de que as histórias em quadrinhos podem ser utilizadas para a transmissão de conhecimentos específicos já seja corrente no meio quadrinhístico desde muito antes de seu “descobrimento” pelos estudiosos da comunicação, a sua inclusão em materiais didáticos começou de forma tímida, para ilustrar aspectos específicos das matérias que antes vinham explicados pelo texto escrito. No início, em quantidade bastante restrita - pois se temia que pudessem ser objeto de resistência por parte das escolas – aos poucos alguns autores passaram a incluí-los com mais freqüência em suas obras, ampliando sua penetração no ambiente escolar. Ainda que nem sempre essa apropriação da linguagem tenha ocorrido de maneira adequada, a proliferação de iniciativas certamente contribuiu para refinar o processo, resultando em produtos mais satisfatórios. Hoje em dia livros didáticos, em praticamente todas as áreas, fazem farta utilização dos quadrinhos para transmissão de conteúdo, abrindo caminho para sua utilização em ambiente didático, tanto como elementos para tornar mais agradáveis as aulas, como, também, para transmissão de conteúdos e discussão de temas específicos. Em muitos países, os próprios órgãos oficiais de educação reconheceram a importância da inserção dos em quadrinhos no currículo escolar, desenvolvendo orientações específicas para isso (no Brasil isso ocorreu na LDB, Lei de Diretrizes e Bases, e nos PCN Parâmetros Curriculares Nacionais).

Foi um reconhecimento atrasado, mas nem por isso menos apreciado. De fato, existem vários motivos que levam os quadrinhos a terem bom desempenho nas sala de aula, destacando-se:

A atração dos estudantes pelos quadrinhos – há várias décadas eles fazem parte do cotidiano de crianças e jovens e, assim, sua inclusão não é objeto de qualquer tipo de rejeição por parte dos estudantes, que os recebem de forma entusiasmada.

A conjunção de palavras e imagens representa uma forma mais eficiente de ensino, ampliando a compreensão de conceitos de uma forma que qualquer um dos códigos, isoladamente, teria dificuldades para atingir.

O alto nível de informação dos quadrinhos – as publicações de quadrinhos versam sobre os mais diferentes temas e são aplicáveis em qualquer área. Mesmo o mais comum dos quadrinhos - como as histórias de super-heróis, por exemplo - oferece um variado leque de informações passíveis de serem discutidas por professores e alunos.

O enriquecimento da comunicação pelas histórias em quadrinhos – a inclusão dos quadrinhos possibilita ao estudante a ampliação de seu leque de comunicação, incorporando a linguagem gráfica às linguagens oral e escrita, que normalmente utiliza.

Auxilio no desenvolvimento do hábito de leitura, permitindo que os estudantes, pela leitura de quadrinhos, se abram para os benefícios da leitura em geral, encontrando menor dificuldade para concentrar-se no estudo.

Ampliação de vocabulário – na medida em que tratam de assuntos variados, os quadrinhos sempre introduzem palavras novas aos estudantes, cujo vocabulário se amplia quase que de forma despercebida.

Caráter elíptico da linguagem quadrinhística, que leva os leitores a complementar em sua mente os momentos que não foram expressos graficamente, desta forma desenvolvendo o pensamento lógico.

Caráter globalizador dos quadrinhos, que permite a compreensão por qualquer estudante, sem necessidade de conhecimentos anteriores ou familiaridade com o tema, por antecedentes culturais, étnicos, lingüísticos ou sociais.

Utilização em qualquer nível escolar e com qualquer tema – não existe qualquer barreira para o aproveitamento das histórias em quadrinhos nos anos escolares iniciais e tampouco para sua utilização em séries mais avançadas.

Todos os pontos acima mencionados levaram, ainda que tardiamente, ao aproveitamento das histórias em quadrinhos no ensino. Outros poderiam ser apontados, mas, mais do que lista-los, basta apenas salientar a grande vantagem que os quadrinhos têm sobre outras mídias: sua acessibilidade e baixo custo. Mesmo neste momento, início do século 21, quando a indústria dos quadrinhos está muito longe das tiragens astronômicas que atingiu no seu período de maior popularidade, pode-se dizer que sua disponibilidade é um fator ainda incontestável, fazendo de sua aplicação em ambiente didático uma possibilidade viável e proveitosa para alunos e professores.


* Waldomiro Vergueiro é coordenador de cursos do Núcleo José Reis da ECA/USP. Em outubro de 2004 lança, pela editora Contexto, o livro Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula, organizado em parceria com Angela Rama.


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