Como
um meio de comunicação de massa de grande penetração
popular, com tiragens de milhares e, às vezes, até
mesmo milhões de exemplares, histórias em quadrinhos
sobre os mais variados temas e nos mais variados veículos
são avidamente consumidas por um público fiel e sempre
ansioso por novidades. Mesmo o aparecimento e a concorrência
de outros meios não impediram que elas, neste início
de século, continuassem a atrair um público considerável.
A popularidade dos quadrinhos, por outro lado, também gerou
uma espécie de “desconfiança” quanto aos
benefícios que elas trazem a seus leitores. Como um meio
de comunicação de vasto consumo e com conteúdo
majoritariamente direcionado a crianças e jovens, eles cedo
se tornaram objeto de restrição, condenados por pais
e professores, que tinham dificuldade para acreditar que eles pudessem,
devido a seus objetivos comerciais, contribuir para o aprimoramento
cultural e moral de jovens leitores ou representar elemento de reforço
ao processo educativo. Por este motivo, a entrada dos quadrinhos
em sala de aula encontrou severas restrições. Felizmente,
aos poucos, esse banimento foi revertido, ainda que isso tenha representado
uma longa e árdua jornada.
O desenvolvimento das ciências da comunicação
e dos estudos culturais fez com que se passasse a olhar de outra
maneira todos os meios de comunicação de massa e seu
impacto na sociedade. As histórias em quadrinhos não
foram uma exceção nesse sentido. Nesse processo, o
“redescobrimento” dos quadrinhos fez com que muitas
das barreiras ou acusações contra eles fossem derrubadas
ficando mais fácil a eles serem encarados em sua especificidade
narrativa e ótica própria, o que também favoreceu
as práticas pedagógicas.
Ainda que a percepção de que as histórias em
quadrinhos podem ser utilizadas para a transmissão de conhecimentos
específicos já seja corrente no meio quadrinhístico
desde muito antes de seu “descobrimento” pelos estudiosos
da comunicação, a sua inclusão em materiais
didáticos começou de forma tímida, para ilustrar
aspectos específicos das matérias que antes vinham
explicados pelo texto escrito. No início, em quantidade bastante
restrita - pois se temia que pudessem ser objeto de resistência
por parte das escolas – aos poucos alguns autores passaram
a incluí-los com mais freqüência em suas obras,
ampliando sua penetração no ambiente escolar. Ainda
que nem sempre essa apropriação da linguagem tenha
ocorrido de maneira adequada, a proliferação de iniciativas
certamente contribuiu para refinar o processo, resultando em produtos
mais satisfatórios. Hoje em dia livros didáticos,
em praticamente todas as áreas, fazem farta utilização
dos quadrinhos para transmissão de conteúdo, abrindo
caminho para sua utilização em ambiente didático,
tanto como elementos para tornar mais agradáveis as aulas,
como, também, para transmissão de conteúdos
e discussão de temas específicos. Em muitos países,
os próprios órgãos oficiais de educação
reconheceram a importância da inserção dos em
quadrinhos no currículo escolar, desenvolvendo orientações
específicas para isso (no Brasil isso ocorreu na LDB, Lei
de Diretrizes e Bases, e nos PCN Parâmetros Curriculares Nacionais).
Foi um reconhecimento atrasado, mas nem por isso menos apreciado.
De fato, existem vários motivos que levam os quadrinhos a
terem bom desempenho nas sala de aula, destacando-se:
A atração dos estudantes pelos quadrinhos
– há várias décadas eles fazem parte
do cotidiano de crianças e jovens e, assim, sua inclusão
não é objeto de qualquer tipo de rejeição
por parte dos estudantes, que os recebem de forma entusiasmada.
A conjunção de palavras e imagens representa
uma forma mais eficiente de ensino, ampliando a compreensão
de conceitos de uma forma que qualquer um dos códigos, isoladamente,
teria dificuldades para atingir.
O alto nível de informação dos quadrinhos
– as publicações de quadrinhos versam sobre
os mais diferentes temas e são aplicáveis em qualquer
área. Mesmo o mais comum dos quadrinhos - como as histórias
de super-heróis, por exemplo - oferece um variado leque de
informações passíveis de serem discutidas por
professores e alunos.
O enriquecimento da comunicação pelas histórias
em quadrinhos – a inclusão dos quadrinhos
possibilita ao estudante a ampliação de seu leque
de comunicação, incorporando a linguagem gráfica
às linguagens oral e escrita, que normalmente utiliza.
Auxilio no desenvolvimento do hábito de leitura,
permitindo que os estudantes, pela leitura de quadrinhos, se abram
para os benefícios da leitura em geral, encontrando menor
dificuldade para concentrar-se no estudo.
Ampliação de vocabulário –
na medida em que tratam de assuntos variados, os quadrinhos sempre
introduzem palavras novas aos estudantes, cujo vocabulário
se amplia quase que de forma despercebida.
Caráter elíptico da linguagem quadrinhística,
que leva os leitores a complementar em sua mente os momentos que
não foram expressos graficamente, desta forma desenvolvendo
o pensamento lógico.
Caráter globalizador dos quadrinhos, que
permite a compreensão por qualquer estudante, sem necessidade
de conhecimentos anteriores ou familiaridade com o tema, por antecedentes
culturais, étnicos, lingüísticos ou sociais.
Utilização em qualquer nível escolar
e com qualquer tema – não existe qualquer
barreira para o aproveitamento das histórias em quadrinhos
nos anos escolares iniciais e tampouco para sua utilização
em séries mais avançadas.
Todos os pontos acima mencionados levaram, ainda que tardiamente,
ao aproveitamento das histórias em quadrinhos no ensino.
Outros poderiam ser apontados, mas, mais do que lista-los, basta
apenas salientar a grande vantagem que os quadrinhos têm sobre
outras mídias: sua acessibilidade e baixo custo. Mesmo neste
momento, início do século 21, quando a indústria
dos quadrinhos está muito longe das tiragens astronômicas
que atingiu no seu período de maior popularidade, pode-se
dizer que sua disponibilidade é um fator ainda incontestável,
fazendo de sua aplicação em ambiente didático
uma possibilidade viável e proveitosa para alunos e professores.
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Waldomiro Vergueiro é coordenador
de cursos do Núcleo José Reis da ECA/USP. Em outubro
de 2004 lança, pela editora Contexto, o livro Como usar
as histórias em quadrinhos na sala de aula, organizado
em parceria com Angela Rama.