Arte
e Ciência: Imagens e Contextos
Cleide
Borovik
Andrea Ramirez
Fernanda Ramirez *
A convergência
entre arte e ciência pode ocorrer de várias formas. Nota-se
que por um lado a ciência tem inspirado a produção
de obras artísticas. Por outro, cientistas utilizam arte para
ilustrar as suas descobertas.
A dicotomia entre ciência e arte ganha, ao longo da história,
importância no século XIX com a Revolução
Industrial. Segundo Celso Lafer, “a ansiedade relativa à
separação entre ciências exatas e ciências
humanas provem do impacto do conhecimento científico-tecnológico
no funcionamento das sociedades. Deriva da preocupação
que o cálculo e a mensuração, inerentes ao método
científico, poderiam abafar o cultivo da personalidade e da
sensibilidade que as humanidades propiciam.” (O Estado de São
Paulo, 2007).
Entretanto,
o livro de C.P. Snow,“As duas culturas e a revolução
científica” (1959) sustenta a importância da comunicação
entre as “duas culturas”, sem a qual não seria
possível lidar com os desafios e os problemas contemporâneos.
Para
o cientista Paulo Alberto Otto arte e ciência têm em comum
simplesmente o aspecto estético de ambas. Mario Schenberg,
cientista e critico de arte, destaca com insistência a presença
de elementos estéticos na ciência, em particular na física
teórica (ED, 2006). Já para a artista plástica
Solange Pereira Pinto, ambas – arte e ciência –
surgem da necessidade humana de "ordenar", "organizar",
dar forma à imaginação de novas possibilidades
ou nascem da tentativa de "explicar" que o há. Para
ela, enquanto o artista "denuncia suas descobertas por meio da
arte", o cientista "divulga suas descobertas por meio das
teorias". Questiona a diferença entre ciência e
arte: o que torna “ciência ser ciência” e
o que torna “arte ser arte”? Método? Técnica?
Objetivos? Experimento? Sua universalidade? Acredita que a inspiração
do homem é o "todo" em que ele vive o contexto. Se
por um lado a ciência pode desenvolver novas tecnologias para
servirem de meios (ou mesmo "inspiração")
para a produção artística, por outro a arte também
pode servir de instrumento (ou "inspiração")
para o desenvolvimento científico. Artistas e cientistas têm
em comum a curiosidade, a experimentação, a imaginação,
a ousadia e a inventividade.
Watson e Crick utilizaram a arte para materializar a estrutura química
da molécula de DNA elucidada em 1953, sob a forma de uma “escultura”
formada por placas e hastes de metal (Figura 1). Esta descoberta marcou
o início de uma nova era no campo da genética.
A
molécula de DNA é constituída de uma
dupla hélice formada por duas fitas contendo açúcares,
fosfatos e bases nitrogenadas. A sua representação
esquemática encontra-se em todos os livros de biologia. |
O
cientista Paulo Alberto Otto, acha que sob o ponto de vista prático
claramente é a ciência que inspira (ou "ajuda")
a arte. Por exemplo, na maioria das criações (desenhos,
pinturas e gravuras) tanto do Leonardo da Vinci como do Albrecht Dürer
– que considera os maiorais juntamente com o Rembrandt van Rijn
- os espaços estão distribuídos harmonicamente
obedecendo a cânones rigorosamente geométricos.
De
fato, a molécula de DNA tem inspirado diversos artistas desde
1953 até os dias de hoje e está presente em inúmeras
obras de arte. Vejamos alguns exemplos.
Salvador
Dali, artista plástico da escola surrealista, foi contemporâneo
de James Watson e Francis Crick e manteve freqüentes contatos
com eles. Fascinado pela estrutura do DNA como forma básica
da vida, a inseriu em uma série de obras (Figura 2). Dali achava
que a descoberta da estrutura do DNA seria a chave para a imortalidade,
significava a “prova real da existência de Deus”.
Depois
do projeto genoma, iniciado em 1990 e que em 10 anos alcançou
seu objetivo de seqüenciar todo o genoma humano, o DNA tornou-se
muito popular. Mais interfaces genético-artísticas surgiram.
É o caso dos Retalhos do genoma elaborados após uma
palestra sobre o Projeto Genoma Humano em 2001, cuja proposta é
revelar o significado profundo do código genético por
meio do prazer proporcionado pelas cores em design teoricamente tradicionais.
|
Genome
quilts, traduzido aqui como Retalhos do genoma, é uma
forma de costurar retalhos especificamente organizados de
acordo com uma seqüência do código genético.
Para a realização de tais obras de arte a psiquiatra
Beverly St. Clair criou formatos de retalhos, alternando tons
claros e escuros, que representasse cada uma das letras de
cada base nitrogenada da molécula de DNA conforme o
quadro abaixo:

Assim,
a seqüência GATCGCCCTT é artisticamente
representada por

Desse
modo ela explora a estética e a disciplina exibindo
Ciência na forma de genomas artísticos em exposições
de arte desde 2003. Para saber mais visite http://www.genomequilts.com/genome.php |
Recentemente,
uma empresa americana passou a oferecer o enquadramento de identidade
genética. Só é necessário que o interessado
passe um cotonete especial pela boca e pronto: as células contendo
DNA são enviadas à empresa que cria quadros gigantes
com trechos daquele código genético. Chamam esses quadros,
que não passam de fotografias digitalizadas e coloridas de
géis de eletroforese com amostras de DNA, de arte abstrata.
Cientista
e artista respondem se esses quadros podem ser considerados obras
de arte ou ilustrações científica.
Paulo
Otto – Neste caso acho que os artistas aproveitaram simplesmente
os resultados de técnicas moleculares, que simplesmente são
esteticamente agradáveis, para compor as suas "obras".
Por outro lado quando faço uma preparação microscópica
preocupo-me com o seu aspecto estético e, muitas vezes, considero
algumas dessas lâminas verdadeiras obras de arte.
Solange
- O que é obra de arte? Penso que um dos problemas da ciência
seja exatamente a mania de classificação e categorização
de tudo que há. Hoje é sabido que a definição
de arte é fruto de um processo sócio-cultural e depende
do momento histórico em questão, variando bastante ao
longo do tempo. Logo, estas obras são arte, pois por trás
delas estão seus autores-artistas. E, ainda, por que uma ilustração
(seja ela científica ou não) deixa de ser arte por ter
sido simplesmente denominada ilustração e não
obra de arte?
Foram
muitos anos de pesquisa até que os cientistas chegassem
nesse ponto. No fim do século 19, um bioquímico
alemão concluiu que os ácidos nucléicos,
longas cadeias de polímeros formados por nucleotídeos,
eram feitos de açúcar, ácido fosfórico
e diversas bases nitrogenadas. Mais tarde, descobriu-se
que o açúcar podia ser a ribose ou desoxirribose,
formando o DNA ou o RNA. Em 1943, Oswald Avery provou que
o DNA continha a informação genética.
Ele até sugeriu que o DNA poderia ser o gene. A maioria
dos pesquisadores na época achava que o gene seria
proteína e não o ácido nucléico,
mas no final dos anos 40, o DNA já era aceito pela
maioria como a molécula genética. Os cientistas
precisavam, entretanto, saber como era a estrutura dessa
molécula para saber como ela funcionava.
Em
1948, Linus Pauling descobriu que muitas proteínas
adquiriam a forma de uma alfa hélice. Em 1950, o
bioquímico Erwin Chargaff verificou que o arranjo
das bases nitrogenadas no DNA variava muito, mas a quantidade
de certas bases mantinha sempre uma proporção
constante 1:1.
Em
1950, Maurice Wilkins e Rosalind Franklin no King’s
College de Londres seguiam as pesquisas com uma estratégia
experimental, utilizando difração de raios-X
de imagens de DNA. Franklin verificou que o DNA poderia
existir em duas formas, dependendo da umidade relativa do
ar e deduziu que o fosfato estaria na parte externa. Mais
ainda, verificou que uma das formas do DNA tinha características
de uma hélice. Ela suspeitou que o DNA fosse constituído
por uma hélice, mas não divulgou suas idéias
porque achava que não tinha suficientes evidências
para isso.
Na
mesma época, na universidade de Cambridge, Francis
Crick e James Watson, baseados nos trabalhos de Pauling,
tentavam criar um modelo físico da molécula.
Inspirados pelos achados iniciais de Franklin estabeleceram,
inicialmente, um modelo falho. Entretanto, com as novas
hipóteses de Franklin e os achados de Chargaff, concluíram
que a molécula de DNA seria composta de duas cadeias
de nucleotídeos, sob a forma de hélice e que
as bases estavam interligadas na parte central, mantendo
a distância constante entre as duas cadeias. Mostraram
que cada cadeia de DNA era complementar à outra.
Durante a divisão celular elas se separariam e cada
metade serviria de modelo para a construção
(síntese) de uma nova molécula. Dessa forma
o DNA se reproduz (replica), sem mudar a sua estrutura.
|
Os
caminhos da Arte e da Ciência convergirão ou divergirão
neste novo Século?
Para
o cientista Paulo Otto os caminhos da Arte e da Ciência continuarão
apenas a manter associados os elementos que possuem em comum. Para
ele, como cientista, também fica difícil vislumbrar
o que mais pode ser feito em matéria de arte pictórica
e plástica, da mesma maneira que a música começou
com os italianos e Bach, passou por Haydn, Mozart, Schubert, Beethoven
e terminou com Brahms. Mas sempre aparece alguma coisa diferente,
que pelo menos marca época, como o impressionismo francês
e o expressionismo alemão.
Já
para a artista plástica Solange Pereira Pinto há pouca
informação e conhecimento quanto aos caminhos que a
ciência tem trilhado ultimamente. “Sei, por alto, das
novas descobertas e insistentes pesquisas, por exemplo, na área
de DNA, genoma, visando não somente o conhecimento da estrutura
e funcionamento humano, sua ancestralidade etc, mas também
ambicionando deter certo "controle" do que possamos vir
a ser ou não futuramente, a partir da possibilidade de manipulação
genética...” Da mesma forma, a arte tem promovido rupturas
("moleculares" se é que podemos chamar assim) de
velhas formas artísticas para, por intermédio de novos
meios de expressão e linguagem, chamar atenção,
denunciar, registrar, transformar o olhar da época em que vivemos
e seguimos.
A arte está aí para fragmentar os textos, para apresentar
objetos conceituais, para em seguida unir tempo, homens e máquinas
(arte-virtual-eletrônica) numa espécie "cyborges"
que possam, em terceira dimensão – a artística
–, enxergar os caminhos em franca construção pela
humanidade, para, se quiserem, mudar o rumo da história. Mas,
na essência, todo cientista é um artista e todo artista
é um cientista, o que muda é o valor que a sociedade
lhe atribui.
Arte e ciência caminham juntas, embora nem sempre artistas e
cientistas o percebam como diz Solange “A ciência cria.
A arte cria. A ciência desvenda. A arte desvenda”. E ambos
concordam que é necessário Investir na educação.
Popularizar sem distorcer é o desafio maior tanto da arte quanto
da ciência. Solange acredita que arte é mediadora de
tudo quanto o que se queira, do auto-conhecimento ao ensino multidisciplinar
e transversal de outros conhecimentos e conteúdos.
Em
nosso meio a Estação Ciência pode ser considerada
como um bom exemplo de interação entre arte e ciência.
Imagens
Fig.
1

Reconstrução do modelo da dupla hélice
do DNA feito por Francis Crick e James Watson em 1953, usando
algumas das peças originais. (Science Museum, Inglaterra).
Fig. 2

Salvador Dali “Butterfly Landscape (The Great Masturbator
in a Surrealist Landscape with DNA)“ 1957-58.
Fig. 3

Escultura de Tom Otterness, em NY
Fig. 4

Gaby
F. de Castro “Kroma Soma” Pintura em Acrílico
sobre Tela de 300 x 200
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