| Em
portunhol com sotaque francês, adquirido
em suas experiências pelo mundo, Etienne Delacroix
fala sobre sua escolha pela física e sua ligação
com a arte de uma forma metafórica. “A física
foi o único trem que poderia ser tomado, já
que o trem que desejava tomar tinha sido bombardeado”.
E
este trem era o da arte, que só pôde ser tomado
depois de dez anos.
Essa
relação entre arte e ciência foi algo
presente na vida deste físico e artista belga. Aos
23 anos, foi para os Estados Unidos fazer mestrado no College
of William and Mary, em Williamsburg, Virgínia, onde
teve uma vida dupla: dividiu-se entre os estudos em física
e a imersão no meio dos músicos, escritores,
pintores, ativistas culturais e políticos.
Em
1977, defendeu tese de doutorado e fez dois pós-doutorados:
em Paris e em Nova York, onde teve contato com o físico
Hans Bethe (falecido em março deste ano), um dos
gigantes da física do século XX e do nascimento
da moderna teoria atômica, cujo trabalho ajudou a
esclarecer como as estrelas produzem energia.
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Fotos do atelier de Etienne em Paris |
Em
Paris, ele se instalou em um pequeno atelier de 15m²,
perto da Bastilha, onde começou a “brincar”
com computadores. O atelier da bastilha funcionou durante
sete anos como um centro de encontro de jovens artistas
de todas as partes do mundo. Teve participação
ativa na cena undergound dos artistas sem teto.
Promovia performances públicas com computadores e
processos de desenvolvimento de software para performances.
Porém, em 1995, perdeu o atelier.
No
ano seguinte, Etienne foi trabalhar em Tóquio, Japão.
Depois voltou aos Estados Unidos e ficou oscilando entre
a Virgínia, San Diego, Boston, Montreal (Canadá),
até chegar ao Massachussets Institute of Technology
(MIT). Delacroix tem desenvolvido trabalhos com software
ligados à prática do desenho no MIT e, durante
os últimos quatro anos, ministrou a “Oficina
de Arte e Programação” para alunos da
engenharia, na Universidade de la República (UDELAR),
Montevidéu, Uruguai.
Ele
chegou ao Brasil através de um contato com Elaine
da Silva, do PT, militante do software livre. Mais tarde
chegou à Caverna Digital, na Engenharia Elétrica
da Poli/USP.
Este
intelectual nômade joga todas as suas inquietações
frente ao paradoxo observado na produção de
novas tecnologias em alta escala, o seu restrito acesso
pela grande parte do tecido social e o lixo produzido nesse
processo. Frente a este paradoxo, Etienne usa a expressão
“teatralização do conhecimento”
como uma forma de resolver a contradição entre
‘produtos’ e produção de valor
simbólico (arte) em relação ao conhecimento.
Este
apaixonado pela vida e pelos seus mistérios permanece,
como ele mesmo diz, a “vagabundear pelo mundo”,
levando sua peculiar forma de fazer e partilhar ciência,
tecnologia e arte com alunos de diversas áreas do
conhecimento.
Vox
Scientiae - Para começar,
você poderia nos contar um pouco da sua trajetória
na ciência?
Etienne
Delacroix - Nasci na Bélgica, onde fiz graduação.
Fui aos Estados Unidos para fazer o mestrado. Depois fiz
doutorado e dois pós-doutorados: um em Paris e outro
em Nova Iorque. Foram muitas “capas”. Os pós-doutorados
foram onde pude fazer a síntese da física.
Foi uma revisita, foi um repensar. Conectei realmente a
visão contemporânea da física. Isto
porque, às vezes, quando você faz doutorado,
se tem um campo muito fechado. Trabalha-se no contexto do
seu professor e, muitas vezes, falta cultura geral.
VS
- Como foi sua escolha pela física?
Delacroix - Eu escolhi física porque o caminho
da música estava fechado. Não tinha o contexto
social. Eu vinha de uma família onde era impossível
contrariar. Se você não faz o que a família
diz, você não sobrevive. Foi todo um retardo
para aprender a sobreviver, porque fui educado como um cavalo
de corrida: comecei muito pequeno e terminei aos 33 anos
com um doutorado, e nunca tinha trabalhado. Aos 35 anos,
encontrei-me na Alemanha e foi lá onde eu deixei
a física para me assegurar de que não terminaria
sem trabalho. Quando você vem de uma família
privilegiada e é super educado, é melhor você
ir a um país onde você não fala a língua,
porque aí você parece o idiota do povo e pode
fazer qualquer coisa.
VS
- Quando você foi estudar no MIT?
Delacroix - Quando saí de Paris e voltei
aos Estados Unidos. Lá, queria ficar e fazer um trabalho
de interface entre arte e tecnologia em nível mundial,
utilizando a estrutura do MIT e pesquisando essa problemática.
Mas não foi possível porque a pressão
do produto, do mercado do entretenimento, foi mais forte
do que qualquer consciência social.
VS
- A impressão que você passa
é que a sociedade americana é mais receptiva
a esse tipo de iniciativa.
Delacroix
- É, mas não pode manter isso. É conflituoso.
A sociedade norte-americana é mutante. Agora está
polarizada entre o conservadorismo e sua tradição
de utopia.
VS
- Como aconteceu de você vir ao Brasil?
Laboratório de
Etienne na Poli-USP |
Delacroix
- Vir para o Sul (América do Sul) foi um acidente.
O primeiro contato foi com uma militante de software livre,
Elaine da Silva, do PT, em uma conferência de software
livre em Montevidéu. Mantivemos contato durante esses
três últimos anos. Com a dificuldade que tinha
de integração no tecido social do Uruguai,
fiquei interessado em mudar o centro de gravidade do projeto
para o Brasil. Em março de 2004, em uma palestra
do Fórum Mundial de Educação, visitei
o ITI em Brasília, onde tive contato com pessoas
que me trouxeram até a Caverna Digital da USP. E,
em junho de 2004, formulei a proposta de matéria
optativa “Oficina de Arte e Programação”,
na Poli-USP.
VS
- Quando você despertou para a relação
entre a arte, ciência e tecnologia?
Delacroix
- Já no fim do meu mestrado entrei numa crise muito
grande de saber o que fazer. A arte era algo latente em
mim. Foi nos museus dos Estados Unidos que vi as primeiras
pinturas
de Cézanne. E aí comecei a descobrir o impacto
nervoso da pintura. A pintura é realmente um estado
de nervos da percepção da matéria.
Nessa época eu fazia música com os amigos.
Todos os meus amigos eram pintores e músicos, mas
eu fazia física. Cheguei à universidade do
estado da Virgínia, um campus rural, mas que abrigava
as instalações da NASA, onde havia cientistas
muito bons e experimentos interessantes. Ao mesmo tempo,
esse campus era sede de um grupo de radicais. Era tempo
das manifestações contra a guerra do Vietnã.
Eu participei dessas manifestações em 1971
e 1972. Lembro de cenas incríveis. Foi uma primeira
sensibilização.
VS
- Uma sensibilização social?
Delacroix - Tinha um sentido social muito abrangente:
dos valores fundamentais do mundo. Estava ao nível
da física fundamental e tinha que desenvolver uma
consciência política, não uma política
partidária, mas da problematização
da cultura. Isso foi muito importante. Depois, todo esse
campo desapareceu. A contracultura dos anos 70 foi um impulso
de alguns anos.
VS
- Em suas exposições você
usa o termo “Teatralização do conhecimento”.
Do que se trata?
Delacroix
- É complicado formular isso. Esta foi uma expressão
que entrou no meu vocabulário faz poucos anos, como
por intuição, por instinto ou necessidade,
tratando de resolver a contradição entre “produtos”
e produção de valor simbólico (arte)
em relação ao conhecimento. Interessei-me
por entender o impacto das obras de arte sobre os visitantes
da exposição, o momento de encontro com a
obra num momento de surgimento. Teatralização
tem a ver com o uso da máxima economia de meios para
chegar ao máximo impacto em termos de entendimento
por parte do receptor. Entendimento, aqui, tem a ver com
a associação, integração, conexão
de fragmentos já conhecidos.
*
Ana Cecília Aragão é
jornalista; Anna Karenina é nutricionista,
doutora em ciências (fisiologia humana) pelo Departamento
de Fisiologia e Biofísica do ICB 1 da USP. Atualmente
realiza pós-doutorado na mesma área.
Imagens:
(1
e 2) arquivo pessoal de Etienne Delacroix
(3) Anna Karenina |