Produto do Núcleo José Reis de Divulgação Científica da ECA/USP - São Paulo - Março/Abril de 2005 - Ano 5 - Nº25
Textos escritos e editados pelos alunos do Curso de Especialização em Divulgação Científica, do NJR-ECA/USP
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Etienne Delacroix: um intelectual nômade na vida e nas idéias
Ana Cecília Aragão e Anna Karenina*
 

Em portunhol com sotaque francês, adquirido em suas experiências pelo mundo, Etienne Delacroix fala sobre sua escolha pela física e sua ligação com a arte de uma forma metafórica. “A física foi o único trem que poderia ser tomado, já que o trem que desejava tomar tinha sido bombardeado”. E este trem era o da arte, que só pôde ser tomado depois de dez anos.

Essa relação entre arte e ciência foi algo presente na vida deste físico e artista belga. Aos 23 anos, foi para os Estados Unidos fazer mestrado no College of William and Mary, em Williamsburg, Virgínia, onde teve uma vida dupla: dividiu-se entre os estudos em física e a imersão no meio dos músicos, escritores, pintores, ativistas culturais e políticos.

Em 1977, defendeu tese de doutorado e fez dois pós-doutorados: em Paris e em Nova York, onde teve contato com o físico Hans Bethe (falecido em março deste ano), um dos gigantes da física do século XX e do nascimento da moderna teoria atômica, cujo trabalho ajudou a esclarecer como as estrelas produzem energia.


Fotos do atelier de Etienne em Paris

Em Paris, ele se instalou em um pequeno atelier de 15m², perto da Bastilha, onde começou a “brincar” com computadores. O atelier da bastilha funcionou durante sete anos como um centro de encontro de jovens artistas de todas as partes do mundo. Teve participação ativa na cena undergound dos artistas sem teto. Promovia performances públicas com computadores e processos de desenvolvimento de software para performances. Porém, em 1995, perdeu o atelier.

No ano seguinte, Etienne foi trabalhar em Tóquio, Japão. Depois voltou aos Estados Unidos e ficou oscilando entre a Virgínia, San Diego, Boston, Montreal (Canadá), até chegar ao Massachussets Institute of Technology (MIT). Delacroix tem desenvolvido trabalhos com software ligados à prática do desenho no MIT e, durante os últimos quatro anos, ministrou a “Oficina de Arte e Programação” para alunos da engenharia, na Universidade de la República (UDELAR), Montevidéu, Uruguai.

Ele chegou ao Brasil através de um contato com Elaine da Silva, do PT, militante do software livre. Mais tarde chegou à Caverna Digital, na Engenharia Elétrica da Poli/USP.

Este intelectual nômade joga todas as suas inquietações frente ao paradoxo observado na produção de novas tecnologias em alta escala, o seu restrito acesso pela grande parte do tecido social e o lixo produzido nesse processo. Frente a este paradoxo, Etienne usa a expressão “teatralização do conhecimento” como uma forma de resolver a contradição entre ‘produtos’ e produção de valor simbólico (arte) em relação ao conhecimento.

Este apaixonado pela vida e pelos seus mistérios permanece, como ele mesmo diz, a “vagabundear pelo mundo”, levando sua peculiar forma de fazer e partilhar ciência, tecnologia e arte com alunos de diversas áreas do conhecimento.

Vox Scientiae - Para começar, você poderia nos contar um pouco da sua trajetória na ciência?

Etienne Delacroix - Nasci na Bélgica, onde fiz graduação. Fui aos Estados Unidos para fazer o mestrado. Depois fiz doutorado e dois pós-doutorados: um em Paris e outro em Nova Iorque. Foram muitas “capas”. Os pós-doutorados foram onde pude fazer a síntese da física. Foi uma revisita, foi um repensar. Conectei realmente a visão contemporânea da física. Isto porque, às vezes, quando você faz doutorado, se tem um campo muito fechado. Trabalha-se no contexto do seu professor e, muitas vezes, falta cultura geral.

VS - Como foi sua escolha pela física?

Delacroix - Eu escolhi física porque o caminho da música estava fechado. Não tinha o contexto social. Eu vinha de uma família onde era impossível contrariar. Se você não faz o que a família diz, você não sobrevive. Foi todo um retardo para aprender a sobreviver, porque fui educado como um cavalo de corrida: comecei muito pequeno e terminei aos 33 anos com um doutorado, e nunca tinha trabalhado. Aos 35 anos, encontrei-me na Alemanha e foi lá onde eu deixei a física para me assegurar de que não terminaria sem trabalho. Quando você vem de uma família privilegiada e é super educado, é melhor você ir a um país onde você não fala a língua, porque aí você parece o idiota do povo e pode fazer qualquer coisa.

VS - Quando você foi estudar no MIT?

Delacroix - Quando saí de Paris e voltei aos Estados Unidos. Lá, queria ficar e fazer um trabalho de interface entre arte e tecnologia em nível mundial, utilizando a estrutura do MIT e pesquisando essa problemática. Mas não foi possível porque a pressão do produto, do mercado do entretenimento, foi mais forte do que qualquer consciência social.

VS - A impressão que você passa é que a sociedade americana é mais receptiva a esse tipo de iniciativa.

Delacroix - É, mas não pode manter isso. É conflituoso. A sociedade norte-americana é mutante. Agora está polarizada entre o conservadorismo e sua tradição de utopia.

VS - Como aconteceu de você vir ao Brasil?


Laboratório de Etienne na Poli-USP

Delacroix - Vir para o Sul (América do Sul) foi um acidente. O primeiro contato foi com uma militante de software livre, Elaine da Silva, do PT, em uma conferência de software livre em Montevidéu. Mantivemos contato durante esses três últimos anos. Com a dificuldade que tinha de integração no tecido social do Uruguai, fiquei interessado em mudar o centro de gravidade do projeto para o Brasil. Em março de 2004, em uma palestra do Fórum Mundial de Educação, visitei o ITI em Brasília, onde tive contato com pessoas que me trouxeram até a Caverna Digital da USP. E, em junho de 2004, formulei a proposta de matéria optativa “Oficina de Arte e Programação”, na Poli-USP.

VS - Quando você despertou para a relação entre a arte, ciência e tecnologia?

Delacroix - Já no fim do meu mestrado entrei numa crise muito grande de saber o que fazer. A arte era algo latente em mim. Foi nos museus dos Estados Unidos que vi as primeiras pinturas de Cézanne. E aí comecei a descobrir o impacto nervoso da pintura. A pintura é realmente um estado de nervos da percepção da matéria. Nessa época eu fazia música com os amigos. Todos os meus amigos eram pintores e músicos, mas eu fazia física. Cheguei à universidade do estado da Virgínia, um campus rural, mas que abrigava as instalações da NASA, onde havia cientistas muito bons e experimentos interessantes. Ao mesmo tempo, esse campus era sede de um grupo de radicais. Era tempo das manifestações contra a guerra do Vietnã. Eu participei dessas manifestações em 1971 e 1972. Lembro de cenas incríveis. Foi uma primeira sensibilização.

VS - Uma sensibilização social?

Delacroix - Tinha um sentido social muito abrangente: dos valores fundamentais do mundo. Estava ao nível da física fundamental e tinha que desenvolver uma consciência política, não uma política partidária, mas da problematização da cultura. Isso foi muito importante. Depois, todo esse campo desapareceu. A contracultura dos anos 70 foi um impulso de alguns anos.

VS - Em suas exposições você usa o termo “Teatralização do conhecimento”. Do que se trata?

Delacroix - É complicado formular isso. Esta foi uma expressão que entrou no meu vocabulário faz poucos anos, como por intuição, por instinto ou necessidade, tratando de resolver a contradição entre “produtos” e produção de valor simbólico (arte) em relação ao conhecimento. Interessei-me por entender o impacto das obras de arte sobre os visitantes da exposição, o momento de encontro com a obra num momento de surgimento. Teatralização tem a ver com o uso da máxima economia de meios para chegar ao máximo impacto em termos de entendimento por parte do receptor. Entendimento, aqui, tem a ver com a associação, integração, conexão de fragmentos já conhecidos.


* Ana Cecília Aragão é jornalista; Anna Karenina é nutricionista, doutora em ciências (fisiologia humana) pelo Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB 1 da USP. Atualmente realiza pós-doutorado na mesma área.

Imagens:
(1 e 2) arquivo pessoal de Etienne Delacroix
(3) Anna Karenina

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