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Existe
hoje um consenso geral entre os médicos de que o
esporte profissional, como praticado atualmente, é
nocivo à saúde. Isso porque, com as pressões
das competições, os atletas, sobretudo os
chamados “atletas de elite”, são levados
até o limite do corpo. A busca pelas quebras de recordes,
e pelos centésimos de segundo decisivos, apontam
para o fato de que a capacidade física máxima
do ser humano está na fronteira do limite. O melhor
atleta será aquele que se sacrificar um pouco mais
para atingir tal meta.
Esse
esforço exagerado acarreta, ao longo do tempo, desgastes
físicos e psicológicos. Além dos tradicionais
males dos esportistas, como fraturas, rupturas ou deslocamentos
ósseos e musculares, que levam os atletas ao abandono
ou um período de retiro do esporte, há as
doenças oriundas de problemas cardíacos, seja
conseqüência de uma predisposição
genética ou acarretada e agravada pela sobrecarga
de exercícios.
Quando
pensamos em pessoas cardíacas, associamos a pessoas
sedentárias, de maus hábitos alimentares e
submetidas ao constante “stress cotidiano”.
Assim, é bastante chocante quando atletas de destaque
sofrem, por exemplo, morte súbita em plena competição.
O porte atlético e as habilidades de muitos jovens
atletas escondem a fragilidade dos seus corpos e o extenso
esforço dos mesmos para executar suas exaustivas
tarefas diárias.
Ao
iniciar um exercício físico, a primeira reação
fisiológica do corpo é o aumento do fluxo
respiratório e sanguíneo como resposta à
aceleração do metabolismo, que em uma maratona
chega até 2.000% acima do normal (uma pessoa com
febre tem o metabolismo 100% mais acelerado), com conseqüente
elevação na demanda de oxigênio. A distribuição
dessa alta taxa de oxigênio para os tecidos é
suprida com o aumento da freqüência cardíaca.
Durante a prática saudável de exercícios
físicos, a freqüência cardíaca
é constantemente monitorada, seu valor máximo
varia conforme o sexo e a idade do praticante. Ao ultrapassar
muito esse limite, há um aumento da liberação
de radicais livres, relacionados a processos degenerativos,
associada com o aumento do consumo de oxigênio. É
claro que um melhor preparo físico suporta exercícios
mais intensos com menor freqüência cardíaca
e assim menor produção de radicais livres.
Ainda assim, por mais preparados que os atletas de elite
possam estar, além de eles treinarem diariamente,
isto é, sem passar pelo período de repouso
que pode causar a “Síndrome de Overtraining”,
os exercícios são feitos até a exaustão.
Na
prática esportiva, o coração é
o órgão mais exigido do corpo. Ele é
o um dos fatores determinantes no desempenho máximo
dos atletas. Muitas vezes a presença de grande massa
muscular esquelética (aquela associada a movimentação
do corpo) pode não ser vantagem quando a eficiência
do coração for baixa. Os maratonistas que
conseguem maior aumento do débito cardíaco,
com a prática de exercícios, são os
que, em geral, conseguem quebrar os recordes de tempo.
Essa
exigência constante da massa muscular cardíaca
leva um aumento do volume da mesma. Em outras palavras,
durante o treinamento atlético não são
apenas os músculos esqueléticos que se hipertrofiam,
mas também o coração. Esse aumento
está associado a uma maior capacidade de bombeamento
do sangue. O coração de um maratonista é
consideravelmente maior que o de uma pessoa normal, tendo
um aumento de 50% a 75% na massa cardíaca. Esse aumento
exagerado do coração pode estar relacionado
com os problemas cardíacos em atletas de elite. A
contração do músculo cardíaco
é controlada por sinais elétricos transmitidos
por sensores nervosos localizados na parede das câmaras
cardíacas. Esses sinais são despertados por
estímulos sensitivos que indicam o estiramento da
parede das câmaras do coração quando
preenchidas com o sangue, e controlam as duas fases de contração,
a sístole e a diástole. O aumento do coração
pode levar a uma alteração da inundação
dos ventrículos pelo sangue e conseqüente desritmia
cardíaca. Além disso, o espessamento das paredes
pode levar a uma obstrução na cavidade ventricular
esquerda e prejudicar o funcionamento e eficiência
no bombeamento do sangue.
Assim,
é de extrema importância fazer uma avaliação
física detalhada antes da prática vigorosa
de exercícios. Muitas vezes a busca pela saúde
e beleza físicas podem acabar sendo prejudicais em
casos de pessoas, jovens ou velhos, que apresentam alguma
predisposição genética, como em muitos
casos de hipertrofia cardiomiopática, responsável
por 36% dos casos de morte súbita em jovens atletas.
É claro que, de modo geral, a prática regular
de exercícios é um hábito saudável,
a curto e longo prazo, já que ela aumenta a eficiência
cardio-respiratória, deixando os praticantes menos
suscetíveis as doenças oportunistas e levando
a uma recuperação mais rápida de possíveis
enfermidades, já que há uma maior eficiência
de oxigenação dos tecidos. Mas esse fato pode
muitas vezes ocultar problemas individuais sérios
de saúde e, assim, a falta de acompanhamento médico
nas práticas esportivas.
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Camila Yumi Mandai é bióloga.
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