| Quando
os valores do crescimento econômico, social e político
de um país, região ou estado atingem novos
níveis em direção ao progresso ou em
torno de sua sustentabilidade, pressupõe haver crescimento
científico e tecnológico. É através
da ciência e da tecnologia que o homem pode impor-se
como sujeito à natureza. Se por um lado o homem biológico
pertence a ela, por outro, o homem racional a modifica através
de seus ofícios. Estes, sistematizados com métodos,
meios e instrumentos, passam a estabelecer novas relações
dele com o natural.
Neste confronto direto e constante com a natureza –
o que onera em muito a economia humana – sobressai
uma dicotomia entre progresso e meio-ambiente. Enquanto
as novas tecnologias vêm aumentando o tempo de permanência
do homem na terra, os espaços naturais que garantem
a sobrevivência futura vêm diminuindo. Desta
forma, além de se pensar em sustentabilidade, fica
claro que os índices de desenvolvimento não
devem estar calcados apenas nos números, mas também
serem vistos como resultado de um projeto planejado em que
se tenta elevar o nível de vida da população
em diversas dimensões.
Uma coisa influencia e depende de outra. Em relação
aos esportes, por exemplo, é possível se pensar
a importância de receber eventos como os Jogos Olímpicos
para o desenvolvimento social, político e econômico
de uma nação. Há investimentos públicos
altos em ciência e tecnologia, principalmente em relação
à infra-estrutura da cidade sede, que deverá
oferecer segurança, transporte e outros serviços
de qualidade, como alimentação e saúde.
Quer dizer, para uma cidade e para um país, trata-se
de um evento que promoverá mudanças sócio-econômicas
profundas e que ficarão enraizadas por um bom tempo,
quiçá para sempre.
Para os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Rio de Janeiro contou
com benefícios sociais gerados por investimentos
científicos e tecnológicos responsáveis
pela modernização da cidade. Por um lado estão
as instalações esportivas e os equipamentos
de última geração que ficaram como
importante patrimônio para a cidade e para o país,
servindo ao desenvolvimento do esporte, à formação
de um corpo técnico e de centros de excelência.
De outro lado, a modificação da infra-estrutura
urbana que, nas adjacências das instalações
dos jogos, sofreram melhorias. O projeto "Turismo no
Rio se prepara para o Pan" contou com um estudo de
alternativas tecnológicas, operacionais e econômicas
que recuperou seus investimentos ao mostrar uma cidade dotada
de riqueza artística, cultural e natural.
No entanto, nos dizeres populares, o buraco é mais
embaixo. A garantia do aumento da qualidade de vida deve
chegar a todos os brasileiros e não apenas a uma
região ou cidade. Uma política nacional de
desenvolvimento voltada ao crescimento social, territorial
e ambiental deverá estar envolvida pela ciência
e tecnologia em todos os setores, daí a importância
de se enraizar na população uma cultura científica,
tecnológica e educacional. É através
do acesso e compreensão da informação
que as pessoas poderão se posicionar criticamente
em relação ao mundo e ao ambiente em que vivem;
poderão exercer sua cidadania, conhecerem seu tempo
e sua história. É a partir disso e caminhando
em direção à inovação
que se pode pensar em um "Brasil Olímpico".
A candidatura única do Brasil para sediar a Copa
do Mundo de 2014 não está garantida já
que não existe um decreto ou lei que obrigue a FIFA
(Federação Internacional de Futebol) avalizar
a realização do torneio no país, que
pode ver seu sonho desmoronar de um dia para o outro. Mesmo
com apoio unânime da CONMEBOL (Confederação
Sul-Americana de Futebol), caso a candidatura brasileira
não esteja de acordo com as normas determinadas pela
FIFA, a competição poderá ser realizada
em outro país, inclusive fora da América do
Sul, continente previamente escolhido para sediar o evento.
Dependerá do Brasil provar sua capacidade de sediar
eventos de grande porte e de manter uma estabilidade social,
política e econômica em direção
ao progresso e a um desenvolvimento nacional que, nas palavras
do Ministério da Ciência e Tecnologia, seja
soberano e sustentável.
Entre os itens analisados pela FIFA, estarão, por
exemplo: uso da verba disponível para o evento, venda
de ingressos, estádios, estrutura para treinamentos,
facilidades para a mídia, possibilidade de realização
de congressos e eventos, segurança, telecomunicações,
transportes e capacidade de acomodação. Serão
indicadas 12 cidades sedes, que receberão os jogos
e melhorias na infra-estrutura local. Para se ter uma idéia,
14 estádios serão reformados a partir de novas
tecnologias e, no nordeste (Maceió, Natal, Bahia
e Pernambuco), serão construídas quatro novas
arenas.
Faz alguns anos que o mundo tem acompanhado os investimentos,
inclusive em ciência e tecnologia, promovidos pela
China em razão da realização dos Jogos
Olímpicos de Pequim, em 2008. O que mais se destaca
são as imponentes construções que vão
garantir a modernização ao país, em
substituição aos resquícios comunistas
ainda arraigados na cultura local. Estima-se que 15 milhões
de pessoas foram despejadas para dar lugar à renovação
de Pequim, mas, graças às medidas de proteção
do governo e ao apoio científico, a capital chinesa
continua a preservar suas relíquias históricas
como um monumento ao orgulho chinês e se destaca pela
enorme riqueza histórica e cultural, fato que oculta
as manifestações em desacordo com o gigantesco
projeto de engenharia social de Pequim.
Quando começarem os Jogos, Pequim contará
com um novo e exuberante terminal e um trem de alta velocidade
em seu aeroporto internacional, além de um sistema
de transporte subterrâneo e 11 instalações
esportivas de nível mundial. A cidade ainda prometeu
"Olimpíadas verdes" e investiu US$ 13 bilhões
em seu meio ambiente, aumentando o consumo de energia limpa
e plantando 28 milhões de árvores. Quase todas
as centrais de energia foram retiradas do centro da cidade,
assim como todos os fornos à carvão. A maior
contaminadora da capital (Shougang Corp, a terceira maior
fábrica de aço do país) foi deslocada
para uma ilha na vizinha província de Hebei.
Torna-se indiscutível o fato de que eventos desta
magnitude não têm como se descolar da esfera
política mundial, devido à projeção
natural. A China, por exemplo, enfrenta críticas
internacionais em conseqüência à repressão
aos protestos do Tibet. Já sob a bandeira do ideal
olímpico, os Jogos de Pequim, segundo Jacques Rogge,
presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional),
deixará o olimpismo acessível à 1/5
da população mundial. Desde que foram criados,
em 1896, os Jogos Olímpicos da era moderna sempre
tiveram como objetivo a promoção da dignidade
humana e da paz mundial.
Em julho de 2001, quando Pequim ganhou o direito de realizar
os jogos, o governo chinês prometeu ao mundo melhorar
seu país em matéria de direitos humanos. No
lado de lá da moeda, a unidade territorial está
no topo das prioridades do governo chinês, ao lado
da estabilidade política e do crescimento econômico.
A China, enquanto se esforça para transmitir uma
imagem de harmonia entre a maioria han e as 55 etnias minoritárias
que habitam o país e representam 8,4% da população
– grupos com religião, língua e cultura
próprias, como os tibetanos – mascara a realidade
social de uma cultura milenar que ainda sustenta muita pobreza.
Por mais que eventos de grande magnitude como os Jogos Olímpicos
sejam reconhecidos por levarem ao país sede um desenvolvimento
"real' e "sustentável", há
que se aliar à tecnologia um desenvolvimento saudável.
Em Pequim, os altos investimentos nos Jogos têm levado
a uma falta de transparência que vêm facilitando
a corrupção e o suborno, dando a entender
que a harmonia e a prosperidade estão sendo conseguidas
na base de injustiças. Milhares de casas vêm
sendo destruídas a fim de abrir espaço para
construções relacionadas às Olimpíadas,
sem que seus proprietários sejam devidamente indenizados.
Do lado de cá, o Rio de Janeiro está se candidatando
como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Assumindo
a perspectiva acima, o país deve se atentar ao fato
de que o papel da ciência e tecnologia para o desenvolvimento
nacional pode ser uma via de mão dupla: na mesma
medida em que pode levar prosperidade, pode criar um abismo
social ainda maior. Evidencia riquezas ao mesmo tempo em
que procria misérias e, ao custo do progresso, onera-se
o meio-ambiente aos templos de aço e concreto.
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Fernanda Ramirez é mestre em Educação
Física e desenvolve pesquisas em Psicanálise,
Esporte e Cultura. |