Produto do Núcleo José Reis de Divulgação Científica da ECA/USP - São Paulo - Março/Abril 2008 - Ano 8- Nº43
Textos escritos e editados pelos alunos do Curso de Especialização em Divulgação Científica, do NJR-ECA/USP
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Por um País Olímpico
Fernanda Ramirez*

Quando os valores do crescimento econômico, social e político de um país, região ou estado atingem novos níveis em direção ao progresso ou em torno de sua sustentabilidade, pressupõe haver crescimento científico e tecnológico. É através da ciência e da tecnologia que o homem pode impor-se como sujeito à natureza. Se por um lado o homem biológico pertence a ela, por outro, o homem racional a modifica através de seus ofícios. Estes, sistematizados com métodos, meios e instrumentos, passam a estabelecer novas relações dele com o natural.

Neste confronto direto e constante com a natureza – o que onera em muito a economia humana – sobressai uma dicotomia entre progresso e meio-ambiente. Enquanto as novas tecnologias vêm aumentando o tempo de permanência do homem na terra, os espaços naturais que garantem a sobrevivência futura vêm diminuindo. Desta forma, além de se pensar em sustentabilidade, fica claro que os índices de desenvolvimento não devem estar calcados apenas nos números, mas também serem vistos como resultado de um projeto planejado em que se tenta elevar o nível de vida da população em diversas dimensões.

Uma coisa influencia e depende de outra. Em relação aos esportes, por exemplo, é possível se pensar a importância de receber eventos como os Jogos Olímpicos para o desenvolvimento social, político e econômico de uma nação. Há investimentos públicos altos em ciência e tecnologia, principalmente em relação à infra-estrutura da cidade sede, que deverá oferecer segurança, transporte e outros serviços de qualidade, como alimentação e saúde. Quer dizer, para uma cidade e para um país, trata-se de um evento que promoverá mudanças sócio-econômicas profundas e que ficarão enraizadas por um bom tempo, quiçá para sempre.

Para os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Rio de Janeiro contou com benefícios sociais gerados por investimentos científicos e tecnológicos responsáveis pela modernização da cidade. Por um lado estão as instalações esportivas e os equipamentos de última geração que ficaram como importante patrimônio para a cidade e para o país, servindo ao desenvolvimento do esporte, à formação de um corpo técnico e de centros de excelência. De outro lado, a modificação da infra-estrutura urbana que, nas adjacências das instalações dos jogos, sofreram melhorias. O projeto "Turismo no Rio se prepara para o Pan" contou com um estudo de alternativas tecnológicas, operacionais e econômicas que recuperou seus investimentos ao mostrar uma cidade dotada de riqueza artística, cultural e natural.

No entanto, nos dizeres populares, o buraco é mais embaixo. A garantia do aumento da qualidade de vida deve chegar a todos os brasileiros e não apenas a uma região ou cidade. Uma política nacional de desenvolvimento voltada ao crescimento social, territorial e ambiental deverá estar envolvida pela ciência e tecnologia em todos os setores, daí a importância de se enraizar na população uma cultura científica, tecnológica e educacional. É através do acesso e compreensão da informação que as pessoas poderão se posicionar criticamente em relação ao mundo e ao ambiente em que vivem; poderão exercer sua cidadania, conhecerem seu tempo e sua história. É a partir disso e caminhando em direção à inovação que se pode pensar em um "Brasil Olímpico".

A candidatura única do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 não está garantida já que não existe um decreto ou lei que obrigue a FIFA (Federação Internacional de Futebol) avalizar a realização do torneio no país, que pode ver seu sonho desmoronar de um dia para o outro. Mesmo com apoio unânime da CONMEBOL (Confederação Sul-Americana de Futebol), caso a candidatura brasileira não esteja de acordo com as normas determinadas pela FIFA, a competição poderá ser realizada em outro país, inclusive fora da América do Sul, continente previamente escolhido para sediar o evento. Dependerá do Brasil provar sua capacidade de sediar eventos de grande porte e de manter uma estabilidade social, política e econômica em direção ao progresso e a um desenvolvimento nacional que, nas palavras do Ministério da Ciência e Tecnologia, seja soberano e sustentável.

Entre os itens analisados pela FIFA, estarão, por exemplo: uso da verba disponível para o evento, venda de ingressos, estádios, estrutura para treinamentos, facilidades para a mídia, possibilidade de realização de congressos e eventos, segurança, telecomunicações, transportes e capacidade de acomodação. Serão indicadas 12 cidades sedes, que receberão os jogos e melhorias na infra-estrutura local. Para se ter uma idéia, 14 estádios serão reformados a partir de novas tecnologias e, no nordeste (Maceió, Natal, Bahia e Pernambuco), serão construídas quatro novas arenas.

Faz alguns anos que o mundo tem acompanhado os investimentos, inclusive em ciência e tecnologia, promovidos pela China em razão da realização dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. O que mais se destaca são as imponentes construções que vão garantir a modernização ao país, em substituição aos resquícios comunistas ainda arraigados na cultura local. Estima-se que 15 milhões de pessoas foram despejadas para dar lugar à renovação de Pequim, mas, graças às medidas de proteção do governo e ao apoio científico, a capital chinesa continua a preservar suas relíquias históricas como um monumento ao orgulho chinês e se destaca pela enorme riqueza histórica e cultural, fato que oculta as manifestações em desacordo com o gigantesco projeto de engenharia social de Pequim.

Quando começarem os Jogos, Pequim contará com um novo e exuberante terminal e um trem de alta velocidade em seu aeroporto internacional, além de um sistema de transporte subterrâneo e 11 instalações esportivas de nível mundial. A cidade ainda prometeu "Olimpíadas verdes" e investiu US$ 13 bilhões em seu meio ambiente, aumentando o consumo de energia limpa e plantando 28 milhões de árvores. Quase todas as centrais de energia foram retiradas do centro da cidade, assim como todos os fornos à carvão. A maior contaminadora da capital (Shougang Corp, a terceira maior fábrica de aço do país) foi deslocada para uma ilha na vizinha província de Hebei.

Torna-se indiscutível o fato de que eventos desta magnitude não têm como se descolar da esfera política mundial, devido à projeção natural. A China, por exemplo, enfrenta críticas internacionais em conseqüência à repressão aos protestos do Tibet. Já sob a bandeira do ideal olímpico, os Jogos de Pequim, segundo Jacques Rogge, presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), deixará o olimpismo acessível à 1/5 da população mundial. Desde que foram criados, em 1896, os Jogos Olímpicos da era moderna sempre tiveram como objetivo a promoção da dignidade humana e da paz mundial.

Em julho de 2001, quando Pequim ganhou o direito de realizar os jogos, o governo chinês prometeu ao mundo melhorar seu país em matéria de direitos humanos. No lado de lá da moeda, a unidade territorial está no topo das prioridades do governo chinês, ao lado da estabilidade política e do crescimento econômico. A China, enquanto se esforça para transmitir uma imagem de harmonia entre a maioria han e as 55 etnias minoritárias que habitam o país e representam 8,4% da população – grupos com religião, língua e cultura próprias, como os tibetanos – mascara a realidade social de uma cultura milenar que ainda sustenta muita pobreza.

Por mais que eventos de grande magnitude como os Jogos Olímpicos sejam reconhecidos por levarem ao país sede um desenvolvimento "real' e "sustentável", há que se aliar à tecnologia um desenvolvimento saudável. Em Pequim, os altos investimentos nos Jogos têm levado a uma falta de transparência que vêm facilitando a corrupção e o suborno, dando a entender que a harmonia e a prosperidade estão sendo conseguidas na base de injustiças. Milhares de casas vêm sendo destruídas a fim de abrir espaço para construções relacionadas às Olimpíadas, sem que seus proprietários sejam devidamente indenizados.

Do lado de cá, o Rio de Janeiro está se candidatando como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Assumindo a perspectiva acima, o país deve se atentar ao fato de que o papel da ciência e tecnologia para o desenvolvimento nacional pode ser uma via de mão dupla: na mesma medida em que pode levar prosperidade, pode criar um abismo social ainda maior. Evidencia riquezas ao mesmo tempo em que procria misérias e, ao custo do progresso, onera-se o meio-ambiente aos templos de aço e concreto.


* Fernanda Ramirez é mestre em Educação Física e desenvolve pesquisas em Psicanálise, Esporte e Cultura.

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