OS FRADINS DE HENFIL [*]


Simone Carvalho Izidoro [*]*
( sandro@unincor.br )

Resumo

Mostra um pouco da história do quadrinhista Henfil e faz uma análise da maneira como ele utilizava a linguagem dos quadrinhos e da temática usada nas historias de Fradim, Baixim e Cumprido. Faz também uma análise das personalidades destes personagens e seu autor.

Palavras-chave

Henfil; Fradim; Histórias em quadrinhos brasileiras.

Abstract

Intends to show a bit of comics author Henfil s history and tries to analise the way he used the language of the comics and the issues he used to write about in his stories with characters as Fradim, Baixim, and Cumprido. Also analyses the personality of the creator and his characters.

Key words

Henfil; The Mad Monks ; Brazilian comics

Introdução

A maior parte dos livros sobre histórias em quadrinhos e artigos brasileiros falam da predominância dos quadrinhos estrangeiros, mais especificamente dos norte-americanos, sobre os nacionais. É verdade: no Brasil, lê-se mais sobre os heróis americanos e nacionais-americanizados  do que sobre os personagens tipicamente brasileiros. Por isso, este artigo não tem a intenção de ser técnico ou científico demais. Ele vem apenas mostrar um pouco de um autor brasileiro que muitos jovens de hoje desconhecem e dois de seus personagens, respectivamente, Henfil, Baixim e Cumprido. Os três são cidadãos-personagens  tipicamente brasileiros, vivem e falam de assuntos brasileiros, como a política, a civilização do índio, a hipocrisia e o falso moralismo da nossa sociedade. Falam também de assuntos universais, como a fome e a miséria.
O grande herói, ou melhor, a grande heroína das historias dos Fradins é a Verdade proclamada por eles.
No artigo Alguns aspectos da sociedade e da cultura brasileiras nas histórias em quadrinhos , publicado no primeiro número desta revista, Waldomiro Vergueiro diz que é fácil perceber que, independentemente do estágio industrial de produção, o artista/produtor de quadrinhos recebe uma influência definida, palpável, da sociedade na qual vive e onde seu processo de criação artística consegue concretizar-se  [1]. A obra de Henfil nada mais é que a afirmação dessa idéia. Por isso, para entender melhor as características de seu traço e dos temas de suas histórias em quadrinhos, é preciso saber quando, onde e como Henfil viveu.

1 - Henfil, sua época e personalidade

Em 1964, quando o General Castelo Branco assumiu a presidência da república, providências denominadas revolucionárias  foram logo tomadas, como a dissolução de organizações classificadas como subversivas e a prisão de líderes tidos como subversivos, submetendo-os aos inquéritos policial e militar e ocasionando os primeiros exílios.
As medidas econômicas tomadas nesse governo causaram graves tensões sociais e a repressão começou a ser marcante. A imprensa era fortemente censurada mas, mesmo assim, o humor político conseguia sobreviver tratando sobre a luta política, a anistia, a dívida externa, a tortura e as violações dos direitos humanos.
Foi nessa época, um tanto turbulenta, que o jovem Henrique de Souza Filho iniciou sua carreira de quadrinhista na revista Alterosa, em Belo Horizonte.
Henriquinho, como era chamado pela família, nasceu em Nossa Senhora do Ribeirão das Neves a 5 de fevereiro de 1944. Sua família logo se mudou para Belo Horizonte, onde passou toda sua infância e adolescência. Classificava sua infância de um horror . Hemofílicos, Henriquinho e seus irmãos não podiam jogar bola com os outros meninos, os móveis de sua casa eram acolchoados para que ninguém sofresse algum ferimento.
Extremamente amoroso em casa, era rebelde quanto à sua condição de hemofílico. Não gostava de estudar e foi reprovado várias vezes, indo para um colégio de ensino mais fraco. Para conseguir aprender as lições escolares, começou a desenhar tudo que o professor dizia e que acontecia na sala de aula. Com isso, começou a desenvolver seu traço.
Aos vinte anos, começou a trabalhar na gráfica da revista Alterosa, onde desenhava bobagens para seus companheiros. Foi aí que o editor da revista, Roberto Drummond, o surpreendeu desenhando e, como quem descobre algo valioso, ao invés de despedi-lo, deu-lhe duas páginas da revista para publicar seus desenhos e o nome com o qual ficou consagrado, Henfil. Hen  de Henrique e fil  de Filho.
Apesar da repressão e da censura da época, Henfil não teve problemas com seus primeiros cartuns, pois ainda não era conhecido, isto é, para o governo ele ainda não representava uma ameaça.
Em julho de 1964, nascem, na revista Alterosa, os primeiros personagens de sucesso, os Fradins, Baixim e Cumprido, inspirados em dois frades dominicanos. Donos de personalidades distintas, o frade Cumprido, com sua ingenuidade e extrema bondade, e o frade Baixim, com todo seu sarcasmo, falavam dos problemas sociais, religiosos e políticos de sua época. Algumas pessoas consideram os dois personagens facetas típicas da própria personalidade de Henfil.
Algum tempo depois, em .... , Henfil recebeu uma proposta para fazer cartuns esportivos no Jornal dos Sports e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde criou os personagens Urubu (que virou símbolo da torcida do time do Flamengo), Cri-Cri, Pó de Arroz e o Gato Pingado .
Entre 1965 e 1969 foi decretado o Ato Institucional número 2. Os partidos políticos foram reduzidos a dois, a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB. (Movimento Democrático Brasileiro). Foi elaborada uma nova constituição para o país, que incluiu a Lei de Imprensa e a Lei de Segurança Nacional. O General Costa e Silva assumiu a presidência da República. A repressão policial cresceu e estudantes foram presos. O Ato Institucional número 5, o mais violento, foi decretado em 1968.
Para combater o regime autoritário da época, em 1969 vários humoristas lançaram um jornal que criticava, com muito humor, toda a situação do país, o Pasquim. Quase um ano depois, Henfil passou a fazer parte da redação do novo jornal.
A censura agia fortemente sobre a redação do Pasquim. E o caricaturista Henfil começava a perturbar o governo. Em conseqüência, quase todas as suas tiras eram cortadas. Para fugir da repressão e também para tratar sua hemofilia bastante problemática, Henfil foi para os Estados Unidos em outubro de 1973.
Nos Estados Unidos, conseguiu o que todos consideravam impossível, publicar seus quadrinhos em vários jornais através do Universal Press Syndicate . No entanto, não obteve sucesso. Suas historinhas The Mad Monks ( Os Frades Doidos ) foram consideradas too sick , ou seja, doentes demais. Não querendo domesticar  seus personagens à imprensa e aos costumes americanos, e sem ter conseguido um tratamento melhor para sua hemofilia, Henfil voltou ao Brasil em julho de 1975.
Em 1978, lançou a revista Fradim. Pode então desenvolver ao máximo sua arte de quadrinização e conquistou mais leitores com a nova série sobre a vida na caatinga. Os personagens Bode Orelana , o bode culto que se informava comendo livros e jornais, Zeferino, o típico nordestino cabra macho, e Graúna, uma ave muito esperta, ridicularizavam o desenvolvimento do Sul Maravilha .
No dia 1 ° de janeiro de 1979, o AI-5 deixou de vigorar. Em março, o General João Baptista Figueiredo assumiu a presidência da República e iniciou a chamada abertura política . Para esses acontecimentos, Henfil publicou na revista do Fradim duas histórias especiais, uma dos Fradins e uma da Graúna, sobre O dia em que o AI-5 acabou... .
A anistia foi feita e o pluripartidarismo foi restabelecido, o que possibilitou a fundação do PT (Partido dos Trabalhadores), de Luís Inácio da Silva, o Lula, no qual Henfil teve grande participação.
Em 1983, foi lançada a campanha para eleição direta do presidente da república, na qual a atuação do PT foi fortíssima e contando com a colaboração de Henfil e seus personagens. Mas, em 1984, as eleições ainda foram indiretas e Tancredo Neves foi eleito, morrendo antes de tomar posse. José Sarney, seu vice, assumiu a presidência da república.
Entre 1984 e 1988, vários planos econômicos foram feitos para combater a inflação. O salário ficava cada vez menor, greves estouravam em todo país e a criminalidade crescia. Durante todos esses anos, a obra de Henfil sempre criticou a política, os políticos de direita, as diferenças e injustiças sociais, bem como a hipocrisia da sociedade.
Seu maior sonho era fazer desenho animado. Segundo ele, só assim suas idéias não morreriam, pois seus bonecos poderiam andar, cantar e falar, o que não acontecia quando ele desenhava e sua idéia virava papel, tinta, nanquim, clichê, jornal  [2].
Recebeu uma educação católico-protestante, que segundo ele, defendia que a felicidade se encontrava no sofrimento e no trabalho. Devido a isso e a sua doença, que lhe ocasionou artrose nos joelhos, impossibilitando-o de andar, fechava-se no trabalho para se sentir realizado. Ele desenhava os Fradins andando, correndo, fazendo tudo o que ele não conseguia fazer [3].
Henfil tinha ao mesmo tempo um medo e um ódio terrível da morte, que para ele estava sempre ao seu lado, cada vez mais próxima. Ele tinha raiva de ter que morrer [4]. A fama que ele buscava, não era fama de dinheiro, mas a fama de ser um espinho contra o estado de coisas , contra o mundo  [5].
Ele próprio se definiu como um sádico que agride todo mundo [6]. Já amigos que conviveram com ele, como o cineasta Braz Chediak, o definem como sendo as personalidades do Baixim e do Cumprido juntas, ou seja, sádico, malicioso, porém com atos de extrema bondade e solidariedade [7]. Vítima da AIDS, adquirida numa transfusão de sangue, Henfil terminou sua história no dia 4 de janeiro de 1988, no hospital São Vicente de Paula, no Rio de Janeiro, e se separou da história do Brasil.

2 - A personalidade dos Fradins

Os Fradins foram inspirados em dois frades dominicanos. Um alto e magro, chamado Humberto. O outro baixinho, gordinho e muito sacana , que vivia aprontando com os outros freis, principalmente com o frei comprido (Humberto). Nas primeiras histórias, publicadas na revista Alterosa, de Belo Horizonte, o frei Cumprido participava das sacanagens  do Baixim. Com o tempo, ele passou a ser a sua principal vítima.
As personalidades do Cumprido e do Baixim tornaram-se com o tempo muito mais radicais do que as personalidades dos freis verdadeiros. Elas foram se constituindo, talvez, das personalidades dos próprios frades mais a do seu autor.
O Cumprido e o Baixim formam uma dupla perfeita, pois são opostos e por isso se completam. Porém, nenhum é totalmente bom, nem totalmente mau. Há momentos em que se pode ver, como em todas as pessoas, o lado bom e o lado mau dos dois fradins.
O Cumprido é um personagem ingênuo, puro e alienado. É submisso a Deus, aos dogmas da igreja e da sociedade. Seu comportamento é igual ao das pessoas que possuem consciência ingênua. Ele assume a culpa por todos os problemas sociais, porém nada faz para resolvê-los e assim reflete a hipocrisia da sociedade.
O Baixim é um personagem sarcástico. Ele não teme nem a Deus, nem ao Diabo. É maldoso, sádico, masoquista, sacana e nojento. Usa todas as palavras censuradas  pela sociedade da época como cocô, meleca, putsgrila  etc. Possui consciência crítica, é realista e não hipócrita. Talvez, por querer agredir sempre a sociedade e por já ter formado na mente das pessoas uma personalidade maldosa, ele só tenha boas atitudes quando não há a possibilidade de alguém ver ou saber.

3 - A Linguagem dos Quadrinhos nas Histórias do Henfil

Henfil quase não usava quadrinhos nas histórias dos Fradins; porém, quando os usava, era sempre de forma diferente. Às vezes, ele cercava toda uma história, que poderia ser contada em três ou quatro quadros, em um único quadro. Outras vezes, não usava quadro algum, o desenho vinha solto  na página; ou, então, desenhava quadrinhos só no começo da história e no fim o desenho vinha sem quadros, ou vice-versa.
Henfil praticamente não seguia uma regra fixa para utilizar os quadrinhos. Sempre os fez do tamanho e da forma que possibilitasse ao máximo a grande movimentação de seus personagens. Ele aproveitava linhas significativas da própria figuração como traço limite para a divisão dos quadrinhos nas histórias. Em uma ocasião, ele usou a linha da superfície do mar, que compunha o cenário, para separar cada momento da história.
Os dois únicos tipos de balões que Henfil usava eram o balão-pensamento e um balão todo ondulado que designava a fala de Deus. As falas de cada personagem vinham escritas próximas a ele, ligados por um traço indicando de quem era a fala. Para mostrar que um personagem estava gritando, as letras eram feitas de maneiras diferentes (maiores ou em negrito).
As imagens das histórias dos Fradins são simples e sem cores. Em algumas delas, além dos dois frades e dos textos, existem duas pedras onde eles se sentam. Não há paisagens complexas, são raros os ambientes fechados e eventualmente aparecem outros personagens que contracenam  com os dois protagonistas. Quase não há legendas e os elementos figurativos aparecem pouco nas historias. Ao contrário da onomatopéia, que estão sempre presentes.

4 - O Traço de Henfil

O traço de Henfil é solto, indisciplinado e nervoso. Seus desenhos não são definidos, há muitos riscos sem ligações, o que sugere a idéia da grande movimentação dos personagens (principal característica do seu traço). Também os riscos em forma de espiral no lugar dos pés dos personagens que estão correndo dão a idéia de movimento.
Apesar de seus desenhos serem indefinidos e incompletos, seus traços, ou melhor, suas sugestões de traços nos fazem completar mentalmente a figura desenhada. As expressões faciais dos personagens são muito fortes, principalmente as de raiva e as de satisfação sádica do Baixim, na qual os olhos se arregalam e os dentes se mostram muitos e pontiagudos. O personagem se desfigura por completo, formando uma imagem impressionante.
Dos dois Fradins, o Baixim é quem tem o corpo mais definido. Seus braços são curtos e em muitos desenhos eles nem aparecem. Seus pés, na maior parte dos desenhos, são definidos, e seu olhar quase sempre é de deboche e desprezo.
Já o Cumprido tem o volume do corpo indefinido. Às vezes, a silhueta do corpo só possui um traço de contorno, que geralmente é o de trás. O que mais aparece do seu corpo é o traseiro, a bundinha . Os braços são longos e, como os do Baixim, também não aparecem sempre. Os pés muitas vezes são indefinidos, sendo representados por um ou dois traços. O olhar expressa ternura. Quando ele se assusta ou fica escandalizado com algo, seus cabelos ficam em pé e seus olhos, esbugalhados. Ao contrário do Baixim e de outros personagens, nas expressões de raiva do Cumprido são raras as vezes em que seus dentes se mostram pontiagudos; geralmente eles são retangulares.
Para conseguir entrar no Universal Press Syndicate e ter seus Fradins publicados na imprensa norte-americana, Henfil teve que padronizar seu desenho, cercando seus personagens com quadrinhos muito pequenos e tornando-os mais definidos. O que se pode observar, nessas produções, é que os pequenos quadros limitaram muito a movimentação dos personagens, fazendo com que eles saíssem dos limites dos quadros e atuassem nos espaços entre eles.

5 - Fradim Social

Sem dúvida alguma, os Fradins criticavam a política do regime militar. Mas suas histórias não eram essencialmente apenas políticas, mas também sociais. Pode-se dizer que a crítica social feita através deles era mais presente e mais feroz do que as críticas contra a política da época [8]. Na maioria das histórias dos Fradins, as críticas dirigiam-se aos tabus e à hipocrisia da sociedade.
As críticas à política apareciam em poucas histórias, e geralmente vinham em forma de metáforas, talvez para que não fossem percebidas pela censura.
Dentro de sua obra publicada na revista Fradim, há algumas histórias que podem mostrar isso. Aqui serão analisadas cinco: O Comunismo que assola o Baixim [9],  Baixim mostra aos negros seu lugar  [10],  Baixim civiliza índio  [11],  Fradim nuclear  [12] e O adeus do Baixim [13].
Na primeira, Baixim declara-se comunista para escandalizar as pessoas que acreditavam que estes eram maus e inimigos do país. Através de várias situações, ele consegue mostrar o preconceito, o medo e a falta de informação da sociedade em relação ao comunismo. Em uma delas cumprimenta um senhor, que sai correndo para se lavar. Em outra declara-se comunista a grupos organizados como policiais e estudantes, que o rechaçam por julgarem a sua audácia como uma atitude típica de um policial disfarçado.
Em  Baixim mostra aos negros seu lugar , as falas de Cumprido deixam claras duas características de sua personalidade e de toda a sociedade: a consciência ingênua por acreditar que no Brasil não há racismo e a hipocrisia por pregar a igualdade e, ao mesmo, tempo ter atos preconceituosos. Cumprido tenta provar que a sociedade não é racista e que o negro tem sua individualidade. Para contestá-lo, Baixim leva um negro rico para se associar a um clube e o diretor deste dá vassoura e o balde para o negro trabalhar. Baixim grita pega ladrão  no meio de vários brancos, que imediatamente correm para pegar o único negro que estava por perto. Ele solta um pum  dentro de um elevador lotado e todos olham e expulsam o único negro ali presente. Nesta mesma história aparecem ainda duas mulheres e uma criança, que não "contracenam" com os Fradins, conversando. Uma fala para outra que tem uma empregada negrinha mas limpinha , que macumba é coisa de preto, que o cachorro dela não pode ver preto que corre atrás; a criança que está com elas, ouvindo tudo, quando vê uma criança negra se aproximar lhe dá um chute e uma das mulheres fala para a criança "que isso Rossana, ele também é filho de Deus". Com isso, Henfil mostra o preconceito e a hipocrisia que são incutidos nas pessoas desde crianças , sem que elas se dêem conta disso.
Na historia  Baixim civiliza índio , Cumprido tem a missão de integrar o índio Madruga à civilização branca e começa querendo vaciná-lo contra doenças que não existiam no seu meio. Cumprido diz ao índio que, em primeiro lugar, ele deve aprender a falar português, mas praticamente só lhe ensina palavras em inglês, americanizadas. Isso mostra a influência norte-americana na sociedade brasileira e a falta de sentido em querer tirar do índio sua própria cultura, para lhe dar uma cultura que não é totalmente nossa. Cumprido também quer que Madruga tire carteira de identidade e este não entende o porquê, já que sabe quem é. O frade dá-lhe roupas para cobrir a nudez imoral  e o índio cobre as imoralidades sociais , como a prostituição, a pobreza, o menor abandonado, etc...
Por meio desta história, Henfil mostra a atitude hipócrita da sociedade brasileira e das instituições de proteção ao índio, que invadem seus domínios, contrariam seus hábitos e enfraquecem suas tradições em nome de uma cultura inautêntica, importada dos padrões do primeiro mundo.
Em  Fradim Nuclear , Baixim tenta agredir as pessoas, conscientizando-as da situação do país; fala de todas as coisas das quais devíamos nos envergonhar e, no entanto, só quando solta um pum  é que as pessoas se horrorizam e o chamam de imoral.
Nestas quatro histórias, a crítica maior dirige-se à hipocrisia da sociedade. Já na última historia analisada, O adeus do Baixim , Henfil faz uma comparação entre o céu, com seu regime celestial incontestável e com um ser Todo Poderoso que impõe regras e controla o destino de todos os seres terrestres, com a ditadura do Brasil, e entre o inferno, cheio de pessoas aparentemente normais, ou seja, com preconceitos e hipócritas, com a própria sociedade brasileira. Nesta história, os Fradins morrem e vão para o céu, de onde são expulsos devido à subversão  do Baixim, que queria ver Deus pessoalmente. Mandado para o inferno, onde se encontra a maioria dos intelectuais, cientistas e revolucionários, o Baixim acaba demonstrando, com seu sarcasmo, que todo aquele espírito progressista do inferno era regido por uma moral rígida e reacionária.
No céu, percebe-se claramente que Deus é uma invenção de um suposto Establishment entre os anjos, para manter um poder ditatorial. Tudo funciona perfeitamente bem e não há nada para quebrar a monotonia. Tanto, que os próprios apóstolos se mostram felizes com a chegada do Baixim, como quem espera há muito pela chegada de alguém de má índole para ensinar-lhes coisas novas, que mudem a rotina celeste. Mas Baixim comete o supremo pecado de exigir que lhe apresentem Deus em carne e osso, fazendo o céu mostrar sua verdadeira cara. Os dois frades são levados por outros anjos com cassetetes e mal-encarados à presença de um anjo chefe . Cumprido, com suas atitudes cristãs, fiel e não contestador dos dogmas da igreja, é a própria atitude do medo e submissão diante da ditadura. Ele só chora e brada que acredita sem ver. Mas com a ameaça por parte do Baixim, de colocar o caso nos jornais, o máximo que lhes acontece é serem expulsos do céu.
Ao caírem no inferno, Baixim e Cumprido descobrem um mundo revolucionário, onde este último é aclamado como uma figura extremamente popular, talvez por representar o modelo de cidadão cooptado pelo sistema, que permite que o mal se alastre pelo mundo enquanto repete frases de esperança e caridade. Só que o inferno também acaba sendo desmascarado pelo Baixim, que expõe a face conservadora e demagoga de seus habitantes. Baixim tanto apronta, que acaba sendo mandado para a fogueira junto com Cumprido, numa inversão ou alusão aos valores medievais da Santa Inquisição, que queimavam as bruxas  em nome das forças do bem.

6 - Os Fradins sob o aspecto psicológico

Sob o aspecto psicológico, pode-se observar que o traço de Henfil era nervoso e incompleto e que os Fradins eram catárticos, tanto para ele quanto para seus leitores. Henfil era uma pessoa reprimida pela educação severa que teve, pela hemofilia que o impedia de fazer exercícios fortes e pela artrose nos joelhos (conseqüência da sua doença) que o impedia de andar direito. Quando começou sua carreira de quadrinhista, foi reprimido pela ditadura, que cortou os direitos políticos e sociais seus e de todos os cidadãos brasileiros.
É por existir toda essa repressão à sua volta e por ele ter consciência da morte iminente que suas histórias são sempre agressivas, seus desenhos têm tantos riscos, sugerindo grande movimentação, e seus traços, na maioria das vezes, são incompletos. De uma certa forma, podemos comparar o estado debilitado da saúde física de Henfil com o corpo de seus personagens, prestes a desmanchar, frágeis, ligados por fios tênues que parecem volatilizar.
Para Henfil, os Fradins foram catárticos [14] porque era através deles que ele se liberava. Ele andava, corria, expunha suas taras e seus pensamentos a respeito da sociedade e da política. Já para os leitores, eles foram catárticos por dois motivos: primeiro, porque os dois frades criticavam a ditadura de 1964, satirizavam a situação política da época e debochavam dos políticos; segundo, porque eles mostravam a hipocrisia, os preconceitos e as imoralidades da sociedade brasileira. Eles agrediam e transgrediam os costumes da sociedade. Eles faziam tudo o que todos os leitores gostariam de fazer e não tinham coragem.

Conclusão


Henfil, apesar de não seguir totalmente a linguagem das histórias em quadrinhos e de seu traço ser geralmente incompleto, conseguiu fazer enorme sucesso com as histórias dos Fradins no Brasil, o que não ocorreu nos Estados Unidos, mesmo tendo padronizado a forma de seus traços e a maneira como usava a linguagem dos quadrinhos para a sindicalização americana. O motivo do seu sucesso aqui no Brasil foi o mesmo do seu insucesso nos Estados Unidos: a maneira como criticava a sociedade.
Os temas que Henfil abordava nas histórias dos Fradins eram, na maior parte das vezes, de cunho social, o que mostra que eles eram mais sociais do que políticos. Além disso, os temas sociais eram tratados com muita agressividade  e os políticos com mais sutileza. A agressividade não se mostra apenas na maneira como são tratadas as histórias, mas também no traço de Henfil, que via em seu trabalho uma oportunidade para transgredir e agredir todos os limites que lhe foram impostos pela educação que teve, pela doença e pela ditadura, mostrando, assim., como o meio influenciou a sua obra e como pode influenciar um artista.
Embora o momento em que Henfil viveu seja outro, um pouco distante e diferente do nosso, os Fradins podem ainda ser considerados atuais, pois a maior parte dos problemas que eles criticavam/denunciavam ainda existem e fazem parte do nosso dia-a-dia

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Recebido em agosto de 1999.
Disponibilizado em outubro de 1999.

[*] Artigo baseado na monografia Os Frades Doido , de Simone Carvalho Izidoro e José Helder Bustamante, realizada em 1995, sob a orientação do Professor João Baptista de Almeida Júnior, para a disciplina Estética e Comunicação de massa no curso de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Eugênio Pacelli , de Pouso Alegre, MG
[**] Jornalista, atuante na área de assessoria de imprensa em Três Corações  MG.
[1] VERGUEIRO, Waldomiro. Alguns aspectos da sociedade e da cultura brasileiras nas histórias em quadrinhos. Agaquê, v. 1, n. 1, 1998 ( Erro! Indicador não definido. )
[2] Citação extraída da entrevista dada à revista Pasquim em 1978 e republicada no livro Diário de um cucaracha , p 56
[3] HENFIL. Diário de um cucaracha , p.54-5
[4] HENFIL. Diário de um cucaracha , p. 55
[5] HENFIL. Diário de um cucaracha , p. 67
[6] HENFIL. Diário de um cucaracha , p. 51
[7] CHEDIAK, Braz. Sobre Henfil . Três Corações : 1995. (Entrevista concedida à autora em 7 de maio de 1995).
[8] Ao contrário da Graúna, que fazia uma crítica maior e mais clara à política e aos políticos da época, que priorizavam o desenvolvimento do Sul Maravilha  e se esqueciam  de resolver os problemas da fome, da seca e da miséria no sertão nordestino. Ainda que usando de metáforas nas histórias da Graúna, Henfil, através dela, era mais direto ao falar sobre a ditadura de 1964.
[9] Fradim n. 14, 1976
[10] Fradim n. 16, 1976
[11] Fradim n. 16, 1976
[12] Fradim n. 18, 1977
[13] Fradim n. 1, 2 ed., 1979
[14] HENFIL. Como se faz Humor Político (depoimento a Tárik de Souza), p. 36.