O FEMININO NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS. PARTE 1: A MULHER PELOS OLHOS DOS HOMENS

Janice Primo Barcellos [1]

(janclau@spo.matrix.com.br)
Introdução

 


Enquanto meio de comunicação de massa, as histórias em quadrinhos têm como objetivo, desde o início, atingir públicos diferenciados, econômica e socialmente. Ao trabalhar com uma linguagem mista (signos verbais e não-verbais) as histórias em quadrinhos, surgidas na imprensa norte-americana do final do século XIX, podem ser entendidas por todos os leitores do jornal: adultos e crianças, letrados e iletrados. Pois, se você não entende o texto, pode muito bem ler as imagens e se reconhecer nos desenhos/ambiente. E, a partir daí, interpretar o conteúdo da história de acordo com o seu repertório/contexto sócio-econômico (conferir: Moya, 1977 e 1993; Gubern, 1974 e 1979).
Dentro dessa perspectiva, os quadrinhos sempre foram o espaço por excelência da representação social. Dos cenários aos enredos, passando pelos personagens, tudo nas história em quadrinhos pode ser visto como uma apropriação imaginativa de conceitos, valores e elementos que foram, são ou podem vir a ser aceitos como reais.
No entanto, nesse campo fértil para a criação, certos conceitos sociais e valores morais acabam sendo perpetuados numa relação paternalista entre produtor e consumidor. Assim, de um lado temos o consumidor que prefere transitar por estruturas conhecidas a ter de se deparar com ‘novidades’ que coloquem em xeque antigos posicionamentos com os quais está habituado; e, de outro, o produtor da indústria cultural capaz de estabelecer regras/normas de homogeneização das histórias em quadrinhos para ter uma maior aceitação do produto em diferentes mercados. A relação de cumplicidade entre essas duas pontas da cultura de massa fica mais evidente quando o assunto é a representação do feminino nos quadrinhos. Tal gênero, quando aparece em cena, alia idealizações ou caricaturas daquilo que roteiristas e desenhistas, na maioria homens, imaginam das mulheres aos conceitos tradicionais do que é ser feminino. Este artigo, dividido em duas partes, busca, em um primeiro momento, discutir um pouco mais a fundo essa questão, e, em sua segunda parte, propõe um estudo de caso em torno de uma obra específica, de autor brasileiro contemporâneo.

1- Definições claras

Quando se fala em quadrinhos - e é importante lembrar esse ponto -, cada um de nós tem em mente um repertório, um formato, uma imagem ou um personagem associado ao significado dessa palavra. Por isso, ao pensar em um trabalho sobre os diferentes modos de olhar existentes nas representações femininas das histórias em quadrinhos brasileiras, tive como referência os quadrinhos publicados em tiras, nos jornais. No caso específico deste artigo, o campo de análise foi limitado à tira Aline, de Adão Iturrusgarai, publicada diariamente no jornal Folha de S. Paulo , cuja discussão será apresentada na segunda parte deste texto, que será disponibilizada no número 1, volume 3, da revista Agaquê ( http://www.gibindex.com./nphqeca/).
A preferência pelas tiras vem da minha experiência como leitora de jornais. Através dos quadrinhos publicados nesse meio, aprendi a gostar e admirar essa arte considerada menor. Em conseqüência, hoje, como estudiosa de quadrinhos, presto muito mais atenção nos trabalhos publicados em jornal - que considero um veículo mais rápido na divulgação de novos e/ou velhos talentos - do que os publicados em revistas. Não quero, com isso, dizer que as histórias em quadrinhos publicadas em periódicos jornalísticos são melhores que as publicadas em revistas, ou vice-versa. Apenas considero o jornal um espaço mais abrangente e acessível ao público que a revista.
Como, também, a palavra representação tem um espectro teórico muito amplo, optei por usar seu sentido lexical. Sendo assim, escolhi as definições apresentadas pelo Novo Dicionário da Língua Portuguesa - Aurélio , hoje em dia tão popular quanto as histórias em quadrinhos. Portanto, entendo por representação:

1. Ato ou efeito de representar (-se). 2. Coisa que se representa. 3. Reprodução daquilo que se pensa. 4. Qualidade indispensável ou recomendável. 5. Filos. Conteúdo concreto apreendido pelos sentidos, pela imaginação, pela memória ou pelo pensamento (FERREIRA, 1986, p. 1489).


2- A representação feminina

A partir da apresentação e definições sobre objeto de estudo e significados, ou seja, tiras e representação, o foco do trabalho dirigiu-se para as personagens femininas brasileiras publicadas no eixo Rio de Janeiro/São Paulo. Assim, buscou-se identificar como elas aparecem, o que fazem, em que situação sócio-econômica se encontram, como são tratadas dentro das histórias e quem são seus criadores.
O motivo que me levou a identificar os criadores (homens e mulheres) de quadrinhos e o contexto de seus personagens é o fato de que, na maior parte das vezes, e até inconscientemente, eles reproduzem e acabam incentivando a ideologia cultural dominante. No caso deste trabalho, a ideologia à qual me refiro é a patriarcal. Por isso, a linha de análise utiliza os teóricos de gênero.
Preferências e referências à parte, o propósito inicial deste artigo era tentar demonstrar, através da análise de tiras feitas por homens e mulheres, que, às vezes, a “biologia” interfere na linguagem visual e verbal utilizadas na representação. Principalmente quando se trata da representação feminina. Como diz a crítica feminista americana, Elaine Showalter,

as muitas diferenças específicas que foram identificadas no discurso, na entonação e no uso da língua dos homens e mulheres não podem ser explicadas em termos de ‘duas linguagens diferentes sexualmente específicas separadas’, mas, em vez disso, precisam ser consideradas em termos de estilos, estratégias e contextos de desempenho lingüístico. (...) A língua e o estilo nunca são crus e instintivos, mas sempre produto de inúmeros fatores, de gênero, tradição, memória. (...) Os buracos no discurso, os espaços vazios e as lacunas e os silêncios não são os espaços onde a consciência feminina se revela, mas as cortinas de um ‘cárcere da língua’. A literatura das mulheres ainda é assombrada pelos fantasmas da linguagem reprimida (...).. (SHOWALTER, 1994, p. 23-55).


Além de observar a linguagem e suas diferenças de gênero, a diversidade de olhares presentes na representação das histórias em quadrinhos também evidencia diferentes aspectos da ideologia patriarcal que constrói o feminino de acordo com suas necessidades.

3- Universo limitado

Com esses objetivos em mente, a primeira constatação, já pressuposta por mim, foi a de que entre as tiras publicadas em alguns dos mais destacados jornais brasileiros do eixo Rio/São Paulo - O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil - NENHUMA é feita por mulheres. Existem muitas personagens femininas, sim, mas todas são desenhadas por homens.
Algumas personagens atuam como protagonistas, caso da Aline, de Adão Iturrusgarai, publicada na Folha de S. Paulo , da Radical Chic [2]
, de Miguel Paiva, publicada no Jornal do Brasil e no Estadão, e da Dona Marta , de Glauco, também na Folha; enquanto isso, outras atuam como coadjuvantes importantes para o desenvolvimento da história, caso da mãe do Geraldão, personagem de Glauco, publicada na Folha de S. Paulo .
Não vou esconder a frustração que senti diante da falta de mulheres produzindo tiras e a conseqüente impossibilidade de comparação entre as linguagens utilizadas por homens e mulheres nos quadrinhos brasileiros, proposta como primeira parte deste trabalho. Não saberia explicar o motivo pelo qual não existe no mercado brasileiro de tiras do eixo Rio/São Paulo, neste final de século, UMA profissional feminina SEQUER sendo publicada. Sei que na área de gibis existem mulheres produzindo histórias em quadrinhos, mas também essas quase não assinam seus trabalhos.
Assim, diante de um universo de criadores exclusivamente masculino, optei por salientar algumas questões sobre representação e gênero, ou melhor, sobre o que se pensa e se vê retratado e sobre comportamentos culturais ideologicamente atribuídos a homens e mulheres, em uma única tira: Aline, de Adão Iturrusgarai.
A história em quadrinhos de Adão trabalha com questões comportamentais presentes na sociedade contemporânea, que acabam sendo vistas como “normais e naturais” também no universo dos quadrinhos. Mas, antes de chegar a essa análise, é necessário fazer uma rápida viagem no tempo para situar a representação feminina nos quadrinhos.

4- A mulher como imagem, o homem como dono do olhar

O movimento das mulheres, também conhecido como Movimento Feminista [3]
, iniciado no século 19 na Europa e nos EUA e catapultado ao centro dos acontecimentos, principalmente, pela classe média americana do pós Segunda Guerra Mundial, eclode nos nos 60. Brigando contra preconceitos e tentando assumir seu lugar na história, as mulheres ‘atacam’ em várias frentes [4] para divulgar suas idéias.
Embalados por esses questionamentos sociais, roteiristas e desenhistas de quadrinhos não perdem tempo e criam personagens femininas marcantes [5]
, objetivando atingir o principal público das histórias em quadrinhos para adultos: os homens. Assim, se, por um lado, ascender ao papel de protagonistas e ganhar maior visibilidade num veículo de comunicação de massa como as histórias em quadrinhos é uma vitória das mulheres, por outro, a “nova” mulher, que reivindica igualdade de direitos com os homens, não consegue se identificar com sua representação de papel. Tudo, porque as personagens femininas que passam a habitar os quadrinhos, independentes e liberadas, não são uma criação das mulheres, mas uma projeção masculina sobre os modelos reivindicados por mulheres no mundo todo [6]. Deste modo, tal projeção masculina não consegue escapar de uma outra representação: aquela que eles consideram como feminino.
A falta de identificação do público feminino com as mulheres de papel esbarra, sob todos os ângulos, no conceito de representação feminina difundido pelos artistas homens. Este conceito cultural, imposto às mulheres ao longo dos séculos pela sociedade patriarcal e muito pouco flexível em sua essência [7]
, cria um tipo de figura feminina de fácil identificação com o público.
Como bem contextualiza o professor João Alexandre Barbosa em texto publicado no livro A Mulher de Papel ,

existe um mecanismo, que não é só feminino mas de toda a sociedade, impondo uma imagem que é um produto já preparado por um certo ‘horizonte de expectativa’ marcadamente ideológico. Representa-se aquela mulher que a sociedade dirigida pelos homens espera ver representada. Não apenas uma imagem: uma imagem-reflexa que termina sendo o reflexo de uma imagem. A representação, deste modo, impõe-se como um símbolo e extrai a sua força do fato de que tal símbolo deve obedecer estritamente ao que se quer representado [8]
.


Conclusão: A indústria cultural dá as cartas

Ao demonstrar potencial para chocar os leitores, inovando técnicas narrativas e abrindo espaço para personagens e temas secundários tornarem-se protagonistas, e não o fazendo, os quadrinhos revelam sua face de produto industrial. E, como produto de cultura de massa submetido às leis econômicas que regulam a fabricação, a saída e o consumo, as histórias em quadrinhos devem agradar ao freguês e não lhes trazer problemas. Ao optar pela manutenção de uma estrutura paternalista de comunicação dos valores, onde é dado ao consumidor, com pequenas doses de variação, aquilo que ele tem condições de reconhecer como parte do seu repertório, os quadrinhos desprezam a possibilidade de romper com o establishment.
Na segunda parte deste artigo, um exemplo concreto dessa opção da indústria quadrinhística será discutido, analisando-se a tira Aline, de Adão Iturrusgaray.

Bibliografia


BARBOSA, João Alexandre. Prefácio. In: BUITONI, Dulcília Helena Schroeder. Mulher de Papel: A representação da mulher pela imprensa feminina brasileira . São Paulo: Loyola, 1981.
BARCELLOS, Janice Primo. Radical Chic: uma mulher do século XIX disfarçada em século XX . Florianópolis : Universidade Federal de Santa Catarina, 1998. [Dissertação de Mestrado – Universidade Federal de Santa Catarina]
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa . 2.ed. ver. e ampl.. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1986.
GUBERN, Román. El Lenguaje de los Comics . Barcelona: Península, 1974.
_______. Literatura da Imagem . Rio de Janeiro: Salvat Editora do Brasil, 1979.
MOYA, Álvaro de. História da História em Quadrinhos . São Paulo: Brasiliense, 1993.
MOYA, Álvaro de, Oliveira, Reinaldo de. História (dos Quadrinhos) no Brasil. In: MOYA, Álvaro de. Shazam!. - São Paulo: Perspectiva, 1977 p 197-236.

MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo.

SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território selvagem . In: BUARQUE DE HOLLANDA, Heloísa. (org.) Tendências e impasses: O feminismo como crítica da cultura . Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p.23–57.



[1]
Professora da Universidade Anhembi Morumbi (SP), Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde atualmente cursa o Doutorado em Literatura.
[2]
Ver dissertação de mestrado BARCELLOS, Janice Primo. Radical Chic: uma mulher do século XIX disfarçada em século XX . Florianópolis : Universidade Federal de Santa Catarina, 1998.
[3]
Além de reivindicar direitos e deveres iguais para mulheres e homens, o movimento também começou a trazer à tona informações pouco divulgadas sobre hábitos e modos do universo feminino. A luta pelo reconhecimento da mulher como “Sujeito” dentro da sociedade é o grande escândalo provocado por esse movimento na década de 60.
[4]
Uma das frentes mais importantes, em razão da grande influência que exerce na sociedade, é a das universidades. Por isso, durante a década de 60 as mulheres começam a questionar os cânones literários, fazendo com que o paradigma da crítica literária patriarcal vá, aos poucos, desmoronando. O foco de atenção do movimento na área literária é, primeiro, a representação da mulher na literatura e, depois, o restrito número de mulheres escritoras consideradas “à altura” dos escritores homens para pertencer ao cânone literário.
[5]
Entre as mulheres marcantes nas histórias em quadrinhos pode-se destacar Barbarela (1962), de Jean-Claude Forest, e Valentina (1965), de Guido Crepax. Depois surgem Jodelle, Pravda, Paulette, Little Annie Fanny , Saga de Xam , Scarlett Dream e Modesty Blaise , entre outras.
[6]
Não é só com as personagens das histórias em quadrinhos que as mulheres da década de 60 não conseguem se identificar. O mesmo ocorre com as personagens femininas da literatura e do cinema. Veja mais sobre “A Mulher como Imagem, o Homem como Dono do Olhar” no texto de MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo.
[7]
Quando falo “em essência”, refiro-me aos padrões estéticos, comportamentais, sociais, políticos e econômicos que não mudam com o passar do tempo. Essência, neste caso, seriam padrões rígidos que estariam na base do ser construído culturalmente. Quando estes padrões se referem às mulheres, eles transitam por uma série de representações culturais criadas na esfera pública para delimitar o espaço de circulação feminina na sociedade. Desta forma, na representação feminina criada pelos homens dentro da tradição cultural do ocidente, as mulheres são vistas como seres frágeis, delicados, dependentes e incapazes de assumir responsabilidades públicas, como o trabalho em uma empresa, por exemplo. Estas características, ainda hoje, estão na essência da representação cultural do feminino.
[8]
Cf. o texto de João Alexandre Barbosa na contracapa do livro BUITONI, Dulcília. Mulher de Papel . São Paulo : Loyola, 1981.