O MITO NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS:

UM EXEMPLO A PARTIR DE MANGÁS[1]

 

Selma Martins Meireles[2]

selmeirl@usp.br

 

O Mito é o nada que é tudo

Fernando Pessoa

 

A idéia de unir os temas de mito e história em quadrinhos é muito própria, pois ambos parecem ser uma espécie de “primos pobres” em comparação com um outro par formado por “filosofia e literatura”. Enquanto estes dois últimos são socialmente valorizados como produtos nobres da razão e da criatividade humana, ao mito e à história em quadrinhos parece ser reservado um lugar inferior, identificado com aspectos negativamente carregados como “mentira”, “invenção”, “produto de massa”. No entanto, o estudo dos mitos e da história em quadrinhos afirma-se repetidamente não como um subproduto acadêmico e cultural, mas sim como uma forma “alternativa” de apreender o universo e a relação do homem com o mundo natural e social e de expressar essa interação de um modo não apenas racional, mas também intuitivo e emocional, buscando a totalidade do ser humano. O mito passa a ser encarado como uma necessidade universal em qualquer época, não mais sendo visto como exclusividade de grupos menos desenvolvidos (JABOUILLE, 1986, p. 46), o que faz com que seja percebido como um fenômeno presente na sociedade contemporânea:

 

E não se deve ignorar, por outro lado, a concretização mitológica contemporânea, os “novos mitos” que surgem, que nos cercam e que nos definem: James Bond, Mickey Mouse, Superman, Rambo, a sociedade sem classes, o sexo, a política, a guerra das estrelas, etc. /.../ A “ciência dos mitos” contribui com uma compreensão mais geral e profunda, para um conhecimento do homem, do microcosmo que ele é e do universo em que se integra. Referente cultural, o mito atualiza-se, permanece vivo; por vezes adormecido, pode surgir numa erupção violenta e construtiva. (JABOUILLE, 1986: 117-8)

 

Dentre as várias tentativas de conceituar o mito, utilizo aqui uma concepção ampla baseada em C.G. Jung e em sua teoria dos arquétipos, entendidos como manifestações de um inconsciente coletivo, “isto é, os traços tornados hereditários, das primeiras experiências existenciais do homem perante a natureza, perante os outros homens e perante si próprio” (JABOUILLE, 1986, p. 95-6). Segundo Jung, os arquétipos não têm formas pré-definidas e acabadas, são virtualidades que podem se materializar de formas diferentes em diferentes épocas, culturas ou grupos sociais, na forma de mitos. Assim, mesmo pertencendo a culturas tão diferentes quanto a brasileira e a japonesa, esse substrato psicológico pode ser intuitivamente compreendido quando aparece em formas artísticas de expressão, entre elas a história em quadrinhos ou, como é conhecida no Japão, manga (ou mangá, em português). Conforme Jabouille, “mesmo racionalizado, a leitura do mito apela para o sensível, para aquilo que é perceptível intuitiva e inconscientemente. Daí, talvez, a popularidade do mito, a dimensão e a facilidade de sua implantação, o seu dinamismo e perenidade” (1986, p. 116). O que o habilita tão bem, para ser empregado em manifestações artísticas e em mídia de massa, é o seu apelo à intuição e a arquétipos universais, que prescindem da racionalização para atingir o público e passar a mensagem. Mas como isso acontece em mangás?

Segundo as informações apresentadas no livro de Sonia Bibe Luyten, Mangá – o poder dos quadrinhos japoneses, os japoneses sempre tiveram tradição em histórias ilustradas, inclusive pelo caráter pictográfico de sua escrita. Hoje em dia, os autores japoneses têm o monopólio do mercado, sofrendo pouca concorrência do exterior. Ao contrário das revistas brasileiras, os mangás são monocromáticos, impressos em papel jornal extremamente barato, com um volume de 150 a 600 páginas por exemplar e custam tanto como uma passagem de ônibus ou metrô, o que os transforma numa diversão barata e de imensa penetração na sociedade em geral. Existem mangás para todas as audiências: para crianças, jovens e adultos, homens e mulheres, didáticos, eróticos etc. Os quadrinhistas japoneses mais conhecidos gozam do status de artistas de TV. No que se refere aos personagens, os autores buscam uma grande identificação com o leitor, de modo que este possa participar da ação e da atmosfera das histórias.

Assim como em todas as outras formas de manifestação artística, os mangás freqüentemente recorrem aos mitos para codificar sua mensagem, recriando-os, quando necessário, para atingir o homem moderno. Apresento a seguir exemplos da presença de dois tipos de mitos em mangás: os mitos que podemos denominar de “teológicos” (que relatam os feitos de deuses e heróis) e os “escatológicos” (que se ocupam do futuro, da vida após a morte e do fim do mundo) (JABOUILLE, 1986, p. 47-8).

Provavelmente a noção mais difundida de mito e de mitologia é aquela de um grupo hierarquizado de deuses, semi-deuses, heróis, demônios e criaturas sobre-humanas, com as narrativas de seus feitos e eventuais relações com os seres humanos, como na mitologia grega, egípcia, nórdica, indiana, etc. No Japão antigo, a religião original xintoísta era politeísta e animista, ou seja, havia vários deuses superiores e espíritos para as forças da natureza, bem como demônios e outros seres maléficos. Com relação à vida após a morte, havia a crença na imortalidade da alma e no seu julgamento, que levava ao inferno ou a um lugar paradisíaco até o momento da reencarnação. Todo esse substrato de lendas e mitos permanece no imaginário japonês e é largamente utilizado em mangás. Podemos aqui traçar um paralelo com a cultura indígena brasileira, sendo que a revista em quadrinhos Turma do Pererê apresentava personagens da mitologia dos índios brasileiros, como a Iara e a Caipora. Do mesmo modo, figuras do imaginário japonês são utilizadas como personagens de mangás, como nas histórias sobre youkai, seres sobrenaturais nem sempre benignos, as quais constituem um gênero em si. Esse tipo de mangá geralmente enfoca menos os feitos dos youkai em si, mas sim as suas relações, amistosas ou não, com os seres humanos.

Tais histórias podem se passar em um tempo mítico no passado, quando humanos, demônios, espíritos e youkai conviviam cotidianamente, como em Yotoden, Inuyasha  e Youkaiyourentan. Nesta última, temos diversas histórias de encontros de humanos com youkai: na primeira história, por exemplo, vemos como um youkai da água, que havia sido capturado por humanos gananciosos que pretendiam usá-lo para obter lucro, fazendo chover em épocas de seca, é libertado por uma jovem ladra e, encantado com sua delicadeza, resolve casar-se com ela, salvando-a de vários perigos. Nos demais episódios, encontramos outros exemplos de youkai que se apaixonam por seres humanos ou que os usam como joguetes em seus planos.

No entanto, não é necessário que a ação se passe em um tempo mítico para que os personagens lendários japoneses possam interagir com os humanos. Em Yu Yu Hakusho, um jovem encrenqueiro da Tóquio moderna é morto ao salvar uma criança de um atropelamento. Quando sua alma vai ser julgada, recebe do senhor dos infernos a proposta de voltar à vida e se tornar um Detetive Espiritual, caçando demônios e seres sobrenaturais renegados. Em suas aventuras, o rapaz encontra um grande número desses seres, muitos dos quais fazem parte do imaginário tradicional japonês.

Ainda com base na mitologia ligada à religião, há referências constantes à existência de espíritos e demônios e à reencarnação, como em Sakura Card Captor, onde Toya vê o espírito de sua mãe e a reencarnação do Mago Clow volta ao Japão para terminar seu trabalho com as cartas, ou em Dragonball Z, onde, antes de matar o demônio Maijin Boo, Goku deseja-lhe que renasça como uma pessoa boa, para que eles possam lutar novamente como amigos. Assim, o contato com os entes queridos permanece e a possibilidade de redenção, de uma segunda chance, está sempre aberta.

Os mitos escatológicos são, a meu ver, um excelente exemplo da universalidade dos mitos com base na teoria dos arquétipos de Jung. A idéia da destruição da humanidade como resultado de seus pecados ou da decadência moral aparece de várias maneiras em diferentes culturas e obras de arte. Assim como o dilúvio bíblico quase destruiu a humanidade, em vários mangás temos a figura de um “anjo destruidor” que tenta acabar com o mundo como o conhecemos para recomeçá-lo com um grupo de justos ou eleitos. Essa é a intenção de Posseidon e Phoebo Abel em Cavaleiros do Zodíaco (sendo que Abel só aparece na versão em vídeo), de Shinobu Sensui em Yu Yu Hakusho e de Zaha Torte em Bakuretsu Hunter, entre outros. Embora bem intencionados, esses personagens são sempre os antagonistas, sendo que cabe ao protagonista (ou, muitas vezes, à protagonista) impedi-lo e fazer-lhe ver que tal conduta também destruiria os inocentes, cuja vida é apresentada como mais valiosa que a punição dos culpados. Geralmente, o ser destruidor é vencido ou muda de idéia, mas a humanidade é levada a repensar a sua atitude para evitar uma nova futura ameaça de destruição. Em outros casos, não é um ser sobre-humano que ameaça a humanidade, mas sim um ser criado artificialmente por ela própria (como em Akira e El Hazard). Temos aqui possivelmente um mito mais moderno, o “mito de Frankenstein”, no qual a criatura se volta contra o criador, alertando para os perigos da ciência extrapolando seus limites e tentando criar ou modificar a vida, o que seria atributo exclusivo de Deus. Ainda outros mangás apresentam como ponto de partida um mundo devastado pela própria humanidade, por guerras ou catástrofes ecológicas, nos quais os sobreviventes, reduzidos a um estado de quase barbárie, têm de começar tudo novamente, tentando evitar os erros do passado. Esse é o caso, por exemplo, de Kaze no Tani no Nausicaa (Nausicaa do Vale do Vento), no qual Nausicaa, a princesa menina de um mundo devastado pela guerra, ainda tem que lutar para que as últimas reservas da Natureza não sejam destruídas de vez.

Examinando esses temas, notamos uma grande preocupação com o destino da humanidade, apontando como o homem causa sua própria destruição. Temos, nos mangás, um forte componente de misticismo e religiosidade. Não estamos acostumados a ver tais temas levantados em "coisas para crianças", como são normalmente consideradas as histórias em quadrinhos, e geralmente não refletimos quão presente ainda estão os mitos em nossa sociedade, cumprindo seu papel de questionar e estabelecer o papel do homem no mundo. Os mangás em especial e as histórias em quadrinhos em geral deverão certamente ser reconhecidos como um novo e importante filão para o estudo das sociedades atuais e da psique do homem moderno.

 

Referências

 

LUYTEN, Sonia Bibe. Mangá – o poder dos quadrinhos japoneses. São Paulo : Hedra, 2000.

JABOUILLE, Victor. Iniciação à ciência dos mitos. Lisboa : Inquérito, 1986.

 

Recebido em outubro de 2001

Disponibilizado em outubro de 2001



[1] Comunicação apresentada em 26 de outubro de 2001 na mesa-redonda O Mito nas Histórias em Quadrinhos, no 4º Congresso de Arte e Ciência da USP.

[2] Professora Doutora da Área de Alemão do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.