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O agitado dia a dia do professor daqui a alguns anos

José Manuel Moran

Especialista em mudanças na educação presencial e a distância *

A primeira aula é presencial: o professor faz a sua apresentação e o mesmo é feito por cada aluno, com detalhes, dos hobbys, das atividades, das perspectivas.

O professor mostra para os alunos a importância do curso, a forma de trabalhar a distância, mas conectados audiovisualmente. Apresenta o plano do curso, explica as atividades principais, organiza atividades de pesquisa. Abre a discussão para dúvidas e sugestões. Os alunos fazem algumas simulações do ambiente virtual, para nivelar o conhecimento tecnológico de todos, para facilitar o uso das ferramentas a distância que acontecerão daquele momento em diante.

Uma câmara está gravando o que acontece na sala de aula e fica automaticamente disponibilizada, para quem queira acessá-la depois ou para quem não pode comparecer ou ficar até o final.

A primeira atividade a distância é cada aluno gravar um pequeno vídeo de apresentação e o coloca na rede, no tópico perfil do aluno. Assim cada colega pode checar quem é aquele que fez um comentário interessante ou estranho.

Os alunos têm o planejamento do curso na Internet por escrito, com um pequeno vídeo explicativo do professor sobre as primeiras atividades da semana. Nessa primeira semana, além do preenchimento do perfil, cada aluno faz um levantamento dos vídeos, reportagens, textos sobre o primeiro tema do curso: experiências inovadoras no ensino superior. Depois de pesquisar bastante, Pedro vê que sua colega Cristina está conectada e lhe pergunta se podem se encontrar já. Cristina lhe pede para ir para a sala 1 do vídeo-chat e comentam os filmes encontrados com experiências pedagógicas. Assistem os vídeos, comentam os pontos interessantes de cada um e escolhem um para comentar e mostrá-lo para a classe. Gravam uma introdução ao vídeo selecionado e escrevem um texto destacando os pontos inovadores da experiência que o vídeo mostra. Disponibilizam a atividade no lugar da Internet reservado para a atividade 1 e guardam uma cópia no portfólio ou da biblioteca pessoal de cada um dos dois.

No dia seguinte, Pedro viaja de carro para o interior a serviço e somente acha tempo para conectar-se ao curso no fim da manhã. Liga o i-phone e se conecta sem fio com o ambiente virtual do curso. Vê que tem vários vídeos de colegas com projetos que podem ser assistidos quando quiser. Como está com pressa, só dá uma olhada rápida e percebe que aparece uma mensagem gravada do professor: “Leiam, por gentileza, o texto 1 que está na módulo 1, no tópico materiais do curso. O tema é sobre as mudanças que as tecnologias trouxeram para o ensino superior. Comentem – continua o professor – no fórum quais foram essas mudanças”. Pedro envia, do celular, com imagem uma rápida mensagem para Cristina: “Cris, estou viajando. Dê uma olhada nos vídeos e no texto que o professor indicou. Hoje estou sem tempo. Amanhã, de manhã, conversamos sobre o assunto”. O professor marca alguns horários de atendimento, para grupos e para a classe como um todo. Encontram-se, a distância, num ambiente bem fácil de conversar. Cada aluno liga sua câmera, no lugar onde se encontra, aparece sua imagem na tela de forma reduzida. O professor saúda os alunos, ele faz breves comentários. A síntese aparece numa tela. Pergunta quem tem alguma dúvida. Várias pessoas se inscrevem. Ele vai dando vez a cada um. Alguns colocam as questões de viva voz; outros o fazem por escrito. O chat vai sendo gravado, com imagem, som e texto e fica disponibilizado depois para quem quiser.

A primeira atividade é a leitura de um texto sobre “As mudanças que a Internet trouxe para o ensino superior nos últimos quinze anos”. O texto tem uma introdução em vídeo gravada pelo professor e umas atividades no final com comentários explicativos gravados também pelo professor. O texto e os dois trechos de vídeo estão disponibilizados no tópico 1 do módulo 1 dos materiais do curso na página WEB do ambiente virtual interativo de aprendizagem. O texto remete a uma pergunta colocada pelo professor no fórum e que os alunos irão respondendo no prazo máximo de quatro dias.

Além do texto, a agenda do curso prevê também uma atividade de pesquisa em listas de discussão de educação superior, sobre novas questões que as tecnologias trazem para o ensino superior. Os alunos se inscrevem em uma lista, levantam como o tema vem sendo discutido a partir das mensagens gravadas na forma de texto e de áudio e elaboram um relato sobre as principais questões. Esse relato fica disponível no portfólio ou biblioteca virtual de cada aluno no formato texto e áudio para acesso pelo professor e pelos colegas do curso.

O professor marca um video-chat de atendimento de uma hora em dois horários diferentes da semana, para que todos possam ter oportunidade de participar e para evitar a aglomeração de alunos no mesmo momento. Neles os alunos se conectam de onde estão pela Internet, pelo celular, pela tela da televisão e vêem o professor, ele também vêem os alunos. Alguns enviam as perguntas por escrito; outros o fazem avo vivo. O professor tem uns comandos que lhe permitem escolher a mensagem que quer priorizar. Se um aluno demora na pergunta, lhe envia um sinal. Se demora demais, pode interrompê-lo. Professores e alunos podem estar conectados das suas casas, do trabalho ou viajando a partir de conexão sem fio (wireless). Orienta também os grupos de pesquisa. Termina o video-chat. Desfaz-se a conexão. O professor, se quiser, coloca o vídeo como arquivo para consulta, para que os participantes o acessem depois com mais calma. Pode pedir a um assistente ou monitor que edite o material, retire mais a parte social da conversa e deixe só o que interessa a todos do ponto de vista pedagógico.

O professor entra agora em um curso de pós-graduação e acompanha as atividades que os alunos enviaram no gerenciador de tarefas. Corrige algumas e deixa outras para mais tarde, porque agora tem que preparar-se para uma tele-aula em rede nacional, que vai atingir a milhares de alunos simultaneamente. Revisa o roteiro preparado por ele e pela equipe pedagógica e de produção. Vai para o estúdio de TV, testa os equipamentos, o microfone, as transparências eletrônicas, as vinhetas, os vídeos. Os alunos o aguardam em tele-salas com cinqüenta alunos em média, com telão, projetor multimídia, uma câmara local que registra o que acontece e é vista pelo professor remotamente. Em cada tele-sala há um tutor, um auxiliar que já recebeu antes o roteiro da aula, as instruções sobre as atividades que os alunos realizam agora durante o aquecimento para a aula, as que acontecerão em determinados momentos ao longo da aula e as que serão realizadas posteriormente para aprofundar conceitos, fazer pesquisas mais organizadas, chegar a conclusões. Quem não pode ir a uma tele-sala, acessa a aula de onde se encontrar.

O professor observa os alunos fazendo as atividades iniciais localmente, através dos monitores (vídeos) remotos. Tem alguns auxiliares, numa sala ao lado do estúdio, separada por vidro a prova de som. Ele vai até lá. Os professores assistentes dão orientações aos tutores, tiram as primeiras dúvidas, encaminham algumas questões para o professor principal. Este escolhe algumas e vai para o estúdio iniciar a tele-aula ao vivo. Alguns alunos não conseguiram naquele momento ir até a tele-sala e se conectam através de uma antena direta com a tele-sala ou por um canal via Internet de onde estão. O professor começa a aula comentando algumas questões que recebeu de algumas tele-salas, dirige-se a todos com familiaridade, brinca com algumas cidades, alguns tutores de sala mais conhecidos. Faz a passagem para o tema de hoje. Após uma introdução, passa um trecho de um filme que tem a ver com o tema. Comenta as cenas. Explica alguns conceitos, com apoio de PowerPoint animado. Faz uma pergunta com várias alternativas, para que os alunos escolham a correta. O professor recebe no seu vídeo a porcentagem de acertos e erros instantaneamente. Se percebe que o conceito não ficou claro o suficiente, esclarece melhor o ponto anterior. Se a compreensão foi boa, segue adiante. Pede que os alunos realizem uma atividade de aplicação daquele conceito à realidade deles. Os alunos têm quinze minutos para elaborar sua resposta e a enviam para sua área respectiva da Internet. O professor e os seus assistentes acompanham o andamento da discussão, conversam com os tutores locais sobre a atividade, escolhem algumas respostas para comentá-las no trecho a seguir. Pede, a continuação, que o tele-posto de Garanhuns em Pernambuco, explique sua resposta e a confronta com a de Vacaria, no Rio Grande do Sul. Explica as coincidências e divergências e os porquês, e continua com a segunda parte da aula, com uma explicação e um estudo de caso, que será debatido localmente, depois de uma parada para um descanso de 15 minutos.

Os assistentes neste meio tempo vão recebendo comentários, sugestões, perguntas de cada tele-sala. Respondem algumas, encaminham algumas para o professor principal. Há muitas mensagens com elogios ao interesse que a aula está despertando em várias cidades. Alguns pedem que haja mais tempo para os debates, porque está muito corrido. Os alunos têm um controle remoto, com uma série de funções. Depois do descanso, os alunos trabalham o case em pequenos grupos por 30 minutos, o analisam e o comparam a sua realidade. O professor acompanha o que acontece nas tele-salas, conversa com alguma em particular, se vê que precisa de maior atenção; os assistentes fazem o mesmo com outras.

Retoma a aula, com o relato de três ou quatro tele-postos diferentes dos anteriores. Comenta, avança no tema e faz uma rápida avaliação de compreensão de conceitos no fim, ao vivo. Pelas respostas constata se deve retomar o tema ou pode avançar para o tema seguinte na próxima aula ao vivo, na semana seguinte. Enquanto isso alguns textos serão lidos pelos alunos individualmente e realizados alguns exercícios. Se os alunos tiverem dúvidas poderão recorrer ao seu tutor-local ou ao seu orientador eletrônico, sempre o mesmo ao longo do curso.

O professor volta ao curso de graduação em Pedagogia. Tem um assistente – um monitor que ganha uma bolsa da instituição para fazer esse trabalho com alguns professores - que os ajuda a checar as primeiras informações, a responder às mensagens mais simples, que seleciona o que é prioritário para o professor. Este libera mais um texto para leitura dos alunos. É um texto mais acadêmico sobre “Tendências na pedagogia atual”. Tem links para o aprofundamento dos principais teóricos da pedagogia contemporânea. Esse texto será objeto de uma aula virtual on-line na próxima semana e pede que os alunos façam uma pré-leitura para ter mais base para a aula on-line. Prepara também uma nova atividade sobre “novas metodologias no ensino superior”. Os alunos se organizarão em duplas e pesquisarão experiências, programas, projetos de universidades que vêm desenvolvendo novas formas de trabalhar em sala de aula e em ambientes virtuais. Os alunos terão uma semana para realizar a pesquisa e para disponibilizá-la no portfólio deles e enviá-la no gerenciador de tarefas antes do fim da data marcada.

Na semana seguinte, tem uma aula virtual. Os alunos se conectam numa sala virtual disponível, previamente agendada e comunicada para toda a classe, sem ter que ir fisicamente à universidade. Os alunos mais carentes ou os que acharem mais conveniente vão a um dos laboratórios da universidade e se conectam lá. O professor retoma os comentários do fórum, os materiais dos portfólios dos alunos e os comenta às vezes de forma mais genérica e em outras referindo-se a determinados alunos. Algumas duplas apresentam suas pesquisas. Abre o debate os alunos, no vídeo-chat. Abre o whiteboard ou quadro branco eletrônico e apresenta alguns tópicos na forma de PowerPoint, enquanto fala. De vez em quando um aluno pede permissão para fazer algum comentário, o que acontece, quando o professor consente. A aula não é longa, para não ser cansativa. Ele enfatiza a importância da pesquisa que foi dada em dupla sobre experiências de universidades com aulas presenciais e a distância e marcam o retorno para a aula presencial, no campus, para a semana seguinte, onde avaliarão todo o processo das quatro semanas virtuais, apresentarão as últimas atividades de forma resumida e farão junto com o professor uma síntese do tema tratado no primeiro módulo. A última meia hora da aula presencial é para explicar o que vai acontecer na próxima etapa virtual (mais um mês) na passagem para o segundo módulo. A aula é gravada e disponibilizada com vídeo e áudio na página do curso para registro ou acesso de algum aluno que tenha perdido a aula presencial e assim o ciclo continua entre o presencial, o virtual e o presencial de novo até a avaliação final.

O curso de pós-graduação é com trinta alunos de várias cidades do Brasil. É sobre “A aprendizagem colaborativa na educação on-line”. O professor fez uma proposta de curso bem aberta. Ele tem alguns materiais e idéias, que quer compartilhar com os alunos e depois de ouvi-los ir construindo o curso, sem uma agenda previamente determinada. O curso é totalmente a distância, pela dificuldade em trazer os alunos para um mesmo campus, mas utilizarão todos os recursos de comunicação disponíveis pela universidade. O primeiro encontro é uma sala virtual, uma aula onde todos podem ser ver a distância. O professor faz uma rápida apresentação de si mesmo. O mesmo fazem seus alunos. A aula é agravada por uma câmara para posterior registro. A seguir o professor faz a proposta de um curso plenamente colaborativo. Ele elenca alguns tópicos que lhe parecem fundamentais para a questão da aprendizagem colaborativa. Os alunos vão fazendo suas sugestões e escolhas e escolhem o primeiro tópico para pesquisa: “O que é aprendizagem colaborativa e que autores trabalham melhor esse tema”. Os alunos se organizam em pequenos grupos para a pesquisa de textos, autores, experiências sobre aprendizagem colaborativa. Irão colocando os resultados ao longo de uma semana. Todos lerão as colaborações de todos os demais e participarão de um fórum sobre o tema ao longo da semana.

Sete dias depois se encontram virtualmente e comentam as principais contribuições, que pontos estão claros e o que vale a pena aprofundar. Decidem que o grupo 1, formado por três alunos, aprofundará e coordenará as discussões desta nova semana, centrada entre a colaboração e a cooperação na visão de vários autores. Cada grupo assume a coordenação por uma semana e todos vão decidindo que atividades utilizar semana a semana e que recursos serão on-line e off-line. Cada aluno desenvolverá um projeto colaborativo com uma classe específica e o acompanhará e avaliará para ser apresentado como trabalho final do curso, com todos os recursos telemáticos e audiovisuais a distância.

O professor, às vezes, sente saudades do presencial. É tão bom encontrar-se, tomar um café juntos. Quase não há mais tempo para fazê-lo. A vida está cada vez mais corrida, as atividades se multiplicam, os encontros são na maioria virtuais. Por isso os encontros ao vivo tornam-se tão importantes. Os professores falam de como antes todos os alunos tinham que ir a uma mesma sala durante quatro anos, de segunda a sexta feira. Os mais jovens não acreditam. Pensam que isso é do tempo das cavernas! Da pré-história!

O professor faz cursos de atualização. Já está na fase do “pós-doc” – pós-doutoramento. O faz a distância, em Barcelona, e como contrapartida, é convidado por alguns professores da Universidade Autônoma para falar sobre experiências significativas na educação brasileira, sem sair do Brasil.

Enquanto isso, muitos professores, também daqui a dez anos, continuam repetindo seus cursos, sua metodologia, não se atualizam. Repetem. Copiam aulas da Internet e as repassam para os alunos. Reproduzem as mesmas atividades, os mesmos assuntos, a mesma forma de avaliar. Dão aula do mesmo jeito, utilizando o mínimo de tecnologias.

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* Este texto faz parte do meu livro A educação que desejamos: Novos desafios e como chegar lá, 4ª ed. Papirus, 2009, p. 158).

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