O que é um bom curso a distância?
José Manuel Moran
Especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância
Texto publicado no boletim do
Programa Salto para o Futuro da TV Escola sobre educação a distância em 2002 e
disponível no endereço:
http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2002/ead/eadtxt1c.htm
Quando olhamos para nossa experiência de alunos em sala de aula, um bom curso
é aquele que nos empolga, nos surpreende, nos faz pensar, nos envolve
ativamente, traz contribuições significativas e nos põe em contato com
pessoas, experiências e idéias interessantes. Às vezes um curso promete
muito, tem tudo para dar certo e nada acontece. Em contraposição, outro que
parecia servir só para preencher uma lacuna, se torna decisivo.
Um bom curso depende de um conjunto de fatores previsíveis e de uma "química",
uma forma de juntar os ingredientes que faz a diferença.
No fundamental,um bom curso presencial ou a distância, possuem os mesmos
ingredientes:
Um bom curso, presencial ou a distância, depende, em primeiro lugar, de termos
educadores maduros intelectual e emocionalmente, pessoas curiosas,
entusiasmadas, abertas, que saibam motivar e dialogar. Pessoas com as quais
valha a pena entrar em contato, porque dele saímos enriquecidos.
O grande educador atrai não só pelas suas idéias, mas pelo contato pessoal. Há
sempre algo surpreendente, diferente no que diz, nas relações que estabelece,
na sua forma de olhar, na forma de comunicar-se, de agir
Um bom curso depende também dos alunos. Alunos curiosos, motivados, facilitam
enormemente o processo, estimulam as melhores qualidades do professor, tornam-se
interlocutores lúcidos e parceiros de caminhada do professor-educador.
Um bom curso depende também de termos administradores, diretores e
coordenadores mais abertos, que entendam todas as dimensões que estão
envolvidas no processo pedagógico, além das empresariais ligadas ao lucro; que
apóiem os professores inovadores, que equilibrem o gerenciamento empresarial,
tecnológico e o humano, contribuindo para que haja um ambiente de maior inovação,
intercâmbio e comunicação.
Um bom curso depende, finalmente, de ambientes ricos de aprendizagem, de ter uma
boa infra-estrutura física: salas, tecnologias, bibliotecas... A aprendizagem não
se faz só na sala de aula, mas nos inúmeros espaços de encontro, de pesquisa
e produção que as grandes instituições propiciam aos seus professores e
alunos.
Em educação a distância um dos grandes problemas é o ambiente, ainda
reduzido a um lugar onde se procuram textos, conteúdo. Um bom curso é mais do
que conteúdo, é pesquisa, troca, produção conjunta. Para suprir a menor
disponibilidade ao vivo do professor, é importante ter materiais mais
elaborados, mais auto-explicativos, com mais desdobramentos (links,
textos de apoio, glossário, atividades...). Isso implica em montar uma equipe
interdisciplinar, com pessoas da área técnica e pedagógica, que saibam
trabalhar juntas, cumprir prazos, dar contribuições significativas.
Um bom curso depende muito da possibilidade de uma boa interação entre os seus
participantes, do estabelecimento de vínculos, de fomentar ações de intercâmbio.
Quanto mais interação, mais horas de atendimento são necessárias. Uma interação
efetiva precisa de ter monitores capacitados, com um número equilibrado de
alunos. Em educação a distância não se pode só "passar" uma aula
pela TV ou disponibilizá-la num site na Internet e dar alguns exercícios.
Um bom curso de educação a distância procura ter um planejamento bem
elaborado, mas sem rigidez excessiva. Permite menos improvisações do que uma
aula presencial, mas também deve evitar a execução totalmente hermética, sem
possibilidade de mudanças, sem prever a interação dos alunos. Precisamos
aprender a equilibrar o planejamento e a flexibilidade (que está ligada ao
conceito de liberdade, de criatividade). Nem planejamento fechado, nem
criatividade desorganizada, que vira só improvisação.
Avançaremos mais se soubermos adaptar os programas previstos às necessidades
dos alunos, criando conexões com o cotidiano, com o inesperado, se conseguirmos
transformar o curso em uma comunidade viva de investigação, com atividades de
pesquisa e de comunicação.
Com a flexibilidade procuramos adaptar-nos às diferenças individuais,
respeitar os diversos ritmos de aprendizagem, integrar as diferenças locais e
os contextos culturais. Com a organização, buscamos gerenciar as divergências,
os tempos, os conteúdos, os custos, estabelecemos os parâmetros fundamentais.
Um bom curso a distância não valoriza só os materiais feitos com antecedência,
mas como eles são pesquisados, trabalhados, apropriados, avaliados. Traça
linhas de ação pedagógica maiores (gerais) que norteiam as ações
individuais, sem sufocá-las. Respeita os estilos de aprendizagem e as diferenças
de estilo de professores e alunos. Personaliza os processos de
ensino-aprendizagem, sem descuidar o coletivo. Permite que cada professor,
monitor, encontre seu estilo pessoal de dar aula, onde ele se sinta confortável
e consiga realizar melhor os objetivos, com avaliação contínua, aberta e
coerente.
Um bom curso, presencial ou a distância, sempre será caro, porque envolve
qualidade pedagógica e tecnológica. E a qualidade não se improvisa Ela tem um
alto custo, direto ou indireto. Mas vale a pena. Só assim podemos avançar de
verdade.
Um bom curso é aquele que nos entristece quando está terminando e nos motiva
para encontrarmos formas de manter os vínculos criados. Um bom curso é aquele
que termina academicamente, mas continua na lista de discussão, com trocas
posteriores, os colegas se ajudam, enviam novos materiais, informações,
apoios. Bom curso é aquele que guardamos no coração e na nossa memória como
um tesouro precioso. Professores e alunos precisamos estarmos atentos para
valorizar as oportunidades que vamos tendo de participar de experiências
significativas de ensino/aprendizagem presenciais e virtuais. Elas nos mostram
que estamos no caminho certo e contribuem para nossa maior realização
profissional e pessoal.
Bibliografia:
MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos & BEHRENS, Marilda. Novas
tecnologias e mediação pedagógica. 14ª edição, Campinas: Papirus, 2007.www.eca.usp.br/prof/moran/textosead.htm