Para onde caminha a educação básica
Especialista em mudanças na educação presencial e a distância
Umpasso imporante foi o de colocar todas as crianças na escola, aumentand a permanência dos alunos em dois turnos. Mas como educar em uma sociedade em mudança é muito mais complexo do que antes, só permanecer mais tempo não é garantia de resultados animadores.
As escolas ainda se sentem
fortemente pressionadas pelas expectativas tradicionais das famílias, pela
pressão do acesso às melhores universidades, pelo cipoal de normas das várias
instâncias administrativas, pela força da cultura educacional convencional.
Mesmo os colégios mais avançados tecnologicamente continuam apegados às aulas
com transmissão de conteúdo, fragmentadas em disciplinas, com presença
obrigatória e pouca flexibilidade e inovação. Os grandes portais de serviços
virtuais e franquias, no essencial, massificam fórmulas, materiais didáticos e
atividades. O virtual, até agora, é um complemento –só – do presencial, que é o
que realmente conta e que continua acontecendo da mesma forma.
Sabemos que os problemas
principais não são os tecnológicos, mas os decorrentes da brutal desigualdade
de acesso, de oportunidades, de condições. Mesmo com essa desigualdade, a
escola – como a sociedade, em geral - enfrenta mudanças estruturais profundas e
terá uma configuração muito diferente da que conhecemos até agora.
Uma educação
inovadora se apóia em um conjunto de propostas com alguns grandes eixos que lhe
servem de guia e de base: o conhecimento integrador e inovador; o
desenvolvimento da auto-estima/auto-conhecimento
(valorização de todos); a formação de alunos-empreendedores (criativos, com
iniciativa) e a construção de alunos-cidadãos (com valores individuais e
sociais).
São pilares que,
com o apoio das tecnologias, poderão tornar o processo de ensino-aprendizagem
muito mais flexível, integrado, empreendedor e inovador. Podemos, apesar das
inúmeras contradições, modelos e situações diferentes, apontar algumas
tendências na educação básica que parecem mais fortes e convergentes.
Aos poucos a escola se tornará
mais criativa e menos cheia de imposições e obrigações. Diminuirá sensivelmente
a necessidade de todos terem que aprender as mesmas coisas no mesmo espaço, ao
mesmo tempo e da mesma forma.
Diante da magnitude do problema e das mudanças necessárias não podemos pensar em uma escola que multiplique mais a si mesma, isto é, que reproduza o que já está superado. Temos que pensar diferente, buscar modelos diferenciados. Temos que pensar diferentemente.
Como aproveitar o potencial das tecnologias, muitas já instaladas para agilizar as necessárias mudanças?
Os grandes temas de cada área de conhecimento já podem estar pré-gravados por grandes especialistas e com recursos avançados de comunicação (material continuamente atualizado). Os alunos podem assisti-los coletivamente e individualmente. Coletivamente, em salas de aula. Individualmente, em casa, na biblioteca física ou virtual. Pode haver algumas aulas expositivas, mas só em determinados momentos.
O professor continua sendo importante, mas não como informador, mas como mediador, como organizador de processos e não como papagaio repetidor de informações prontas. O professor é um articulador de aprendizagens ativas, um conselheiro de pessoas diferentes, um avaliador dos resultados. O papel dele é mais nobre, menos repetitivo e mais criativo do que na escola convencional.
As aulas se estruturam mais em projetos do que em conteúdos. E os conteúdos necessários para informação são trazidos para a classe ou acessados individualmente, dependendo de cada situação. O importante é trabalhar essa informação, ampliá-la, experimentá-la, avaliá-la.
Currículo mais flexível
O currículo será muito mais
flexível. Teremos, em geral, menos disciplinas obrigatórias e alguns eixos
temáticos principais, sem um único modelo, imposto da mesma forma e simultaneamente
para todos. Algumas áreas serão privilegiadas - como saber ler, interpretar,
escrever, contar, raciocinar - e depois serão oferecidas alternativas
diferentes de avançar na formação. Haverá atividades individuais e atividades
colaborativas, em que os alunos pesquisem e desenvolvam projetos em grupo e
aprendam através de interação, da participação e da produção conjunta. Os
alunos terão mais liberdade para a escolha de atividades artísticas, cuja
importância será muito maior do que hoje. Cada aluno irá construindo um
percurso em grande parte comum, mas adaptado a si mesmo, personalizado, a
partir de um diálogo permanente com seu professor-orientador.
A aprendizagem será menos conteudística, mais rápida (módulos mais curtos) não
organizada em disciplinas e sim em grandes temas e questões, com abordagem cada
vez mais interdisciplinar e complexa. Focará mais o desenvolvimento de pesquisas,
de projetos, jogos, o aprender juntos e também
individualmente.
As aulas serão predominantemente
colaborativas, com turmas não muito grandes, com cada vez mais atividades
virtuais, interagindo por texto, imagem e som, com atividades online, - em tempo real - e outras, onde os alunos poderão
escolher quando e como acessar e realizá-las. O modelo de um professor por
disciplina para turmas de quarenta alunos será substituído por outros modelos
muito mais flexíveis espaço-temporalmente. Só deverá continuar o modelo atual
de um professor para uma turma nos primeiros anos de socialização, de
alfabetização. A aprendizagem será organizada progressivamente em diferentes
espaços e tempos. Os alunos permanecerão uma parte do
tempo na escola, mas não necessariamente na mesma sala. Farão visitas,
trabalhos em grupo virtuais e presenciais, pesquisas individuais e em grupos. À
medida que forem crescendo, mais horas de atividades virtuais (conectados
audiovisualmente) terão. A escola será menos presencial e mais próxima de
vários espaços - do bairro, da cidade - e de várias comunidades virtuais, de
acordo com a idade e com os interesses específicos dos grupos e das
competências desenvolvidas. Haverá também integração maior com comunidades
virtuais, dentro e fora do país,
Escolas com identidade próxima,
como, por exemplo, colégios de uma ou várias congregações religiosas,
utilizarão os melhores recursos humanos e tecnológicos para otimizar
custos, sinergia, mobilidade. Compartilharão ambientes virtuais multimídia e
comunicação digital audiovisual interativa, bases de dados, aulas prontas e
aulas ao vivo, em determinados momentos de forma mais intensa. Haverá parcerias
nacionais e internacionais freqüentes para certificações específicas, por exemplo em línguas, mas também em artes, história até
graus de intercâmbio mais amplo (validade do diploma em mais de um país, etc.)
É interessante prever aulas com
grandes especialistas, comunicadores – ao vivo e gravadas - e com tutores
on-line e presenciais para a melhoria da escola pública, principalmente de
periferia, onde os bons professores nunca chegariam de
outra forma. Com a TV digital e a Internet móvel de alta velocidade todas as
escolas poderão ter os melhores professores a seu dispor, combinados com
atividades tutoriais semi-presenciais. A escola da era
industrial - todos os alunos da mesma turma, no mesmo lugar, ao mesmo tempo,
fazendo a mesma atividade, sendo avaliados da mesma
forma - irá dando o lugar, aos poucos, para modelos flexíveis que valorizem o
melhor da presença e o melhor do estar conectado, o melhor do local e o melhor
do nacional e internacional.
Gerenciamento inovador
Uma escola ativa, focada em pesquisa, projetos, experimentação, criação já tem tudo pronto para acontecer. Não depende só de alta tecnologia, mas de pessoas criativas e de projetos pedagógicos institucionais bem gerenciados. O problema é mais de gestão inovadora.
Não se formam gestores e professores inovadores com oficinas e cursos de formação tradicionais. A escola precisa urgentemente de difusão de modelos viáveis de sucesso, de práticas inovadoras simples, acessíveis, adequadas para a situação em que a escola está.
Será cada vez mais importante
o papel dos gestores, dos dirigentes como animadores, pessoas de visão e dinamizadores das relações professores-alunos-comunidade.
Os professores diminuirão o papel de “dadores” de
conteúdo e organizarão projetos, acompanharão equipes, orientarão pessoas;
serão mais tutores do que docentes convencionais.
Temos que investir urgentemente em gestores jovens e motivados, que estão prontos para mudar, para inovar, para avançar com rapidez e firmeza, apoiados em professores com as mesmas características e disposição. Esta capacitação contínua pode acontecer mediante grandes acordos nacionais entre o setor público e o privado, entre o federal, estadual e municipal.
Conclusão
Não podemos perder mais tempo. A educação é um direito básico e não deve ter coloração partidária. Os países que avançam mais na educação, não mudam as políticas a cada governo; podem mudar algumas pessoas, mas não os fundamentos da política educacional.
O melhor que a sociedade pode
fazer pelas crianças e jovens é facilitar o acesso a estas tecnologias de
informação e comunicação numa escola mais flexível, aberta e próxima das suas
linguagens; numa escola ativa, participante, colaborativa, com professores bem
preparados intelectual, emocional e eticamente.
A implantação demorará um
pouco, pelo tradicionalismo de boa parte da sociedade, dos professores e pais.
Mas será inevitável e é melhor começar a experimentá-la, fazendo as mudanças
possíveis em cada etapa, para poder acompanhar as transformações gigantescas que
estamos vivenciando em todos os campos. Temos a chance histórica de reinventar
as formas de educar. Acredito que muitos compreenderão e se disporão a
re-aprender e inovar. Outros muitos, infelizmente, continuarão repetindo o
modelo tradicional cada vez mais superado. O desafio vale a pena. Depende de
nós.