< Aprender a colaborar na Internet
28/04/2005
 


Aprender e colaborar

Especialistas explicam por que é importante divulgar na Internet a produção dos alunos

Jaciara de Sá

http://www.educarede.org.br/educa/html/index_revista_prov.cfm

Navegadores da rede mundial de computadores geralmente localizam as informações que procuram na Internet. Na maioria das vezes, é possível encontrar muitos textos escritos por especialistas sobre determinado assunto. Mas nem sempre. Cresce a cada dia o número de páginas que também divulgam conteúdos produzidos por alunos.

O internauta é beneficiado com essa publicação. O aluno e o professor mais ainda. A divulgação desse tipo de conteúdo na Internet tem relação com a função social da escola, com a construção do conhecimento pelo aluno, sua capacidade de colaboração, com a avaliação do desempenho dele etc.

Para saber com detalhes os ganhos dessa publicação na Internet, o EducaRede entrevistou dois especialistas no assunto.

O prof. dr. José Manuel Moran é assessor da Faculdade Sumaré, docente aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP e especialista do MEC em avaliação de cursos a distância.

A profª drª Stela C. Bertholo Piconez é livre-docente da Faculdade de Educação da USP nos cursos da Graduação (licenciaturas) e da Pós-Graduação, além de coordenadora científica do Núcleo de Estudos sobre Educação de Adultos e Formação Permanente de Professores (NEA).

Confira a entrevista:

Qual a função social da escola?

Prof. Moran: A escola existe para organizar intencionalmente os processos de aprendizagem dos alunos – aprendizagem intelectual, emocional, ética – individual e coletiva, de forma que eles desenvolvam as competências necessárias para serem cidadãos plenos, se realizem pessoal e profissionalmente e contribuam para melhorar nossa sociedade.

Profª Stela: É através da escola que os alunos aprendem a participar da vida cidadã de maneira científica, cultural e política. Existe uma dupla dimensão na função socializadora da escola: vivenciar e compartilhar com outras pessoas diferentes matrizes culturais e ter acesso a um conjunto comum de saberes e formas de conhecimento. Para que os alunos se apropriem de conteúdos sociais e culturais de maneira crítica e reflexiva, a função social da escola se diferencia de outras práticas educativas desempenhadas pela família, trabalho, mídia, lazer etc., por ser intencional, deliberada, sistemática e continuada na constituição dos cidadãos. Torna-se, dessa forma, a principal responsável pela organização, sistematização e desenvolvimento das capacidades científicas, éticas e tecnológicas de uma nação. Inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, a escola tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania, sua qualificação para o trabalho, bem como oferecer meios para progredir nele e em sua continuidade permanente. O universo escolar favorece o aprendizado, o diálogo e o entendimento do mundo, o respeito e o direito de participação da vida social.

A publicação do que o aluno produz na escola pode ser considerado um aspecto importante nas discussões sobre Internet e Educação? Por quê?

Prof. Moran: Quando focamos mais a aprendizagem dos alunos do que o ensino, a publicação da produção deles se torna fundamental. Recursos como o portfólio, onde os alunos organizam o que produzem e o disponibilizam para consultas, são cada vez mais utilizados. Os blogs, fotologs e videologs são recursos muito interativos de publicação com possibilidade de fácil atualização e participação de terceiros. Há uma explosão destas páginas dinâmicas na Internet e, mesmo predominando a sua utilização mais como diários virtuais, também encontramos professores que incentivam seus alunos a criarem blogs individuais e grupais. Um entre inúmeros exemplos é o blog Geografismos que serve de ligação a 84 blogs de alunos de Geografia de sétimo ano, em Portugal, e que traz links para dezenas de outros blogs em Educação. Muitas plataformas de Educação a Distância permitem a publicação de materiais ou de páginas dos alunos. A possibilidade deles se expressarem, tornarem suas idéias e pesquisas visíveis, confere uma dimensão mais significativa aos trabalhos e pesquisas acadêmicos.

A Internet possui hoje inúmeros recursos que combinam publicação e interação, através de listas, fóruns, chats, blogs. Há ferramentas de criação sofisticadas como o Contribute da Macromedia, mas também temos as suas equivalentes simples como o Story Teller, que vem junto com as últimas edições do Windows e que facilita a criação de histórias audiovisuais, de narrativas vivas que são fáceis de aprender e de divulgar, como podemos constatar na página http://contaoutra.net, sob a coordenação do meu colega professor Eduardo Chaves. Existem portais de publicação mediados, onde há algum tipo de controle e existem outros abertos, baseados na colaboração de voluntários. O site www.wikipedia.org/ traz um dos esforços mais notáveis no mundo inteiro de divulgação do conhecimento. Milhares de pessoas contribuem para a elaboração de enciclopédias sobre todos os temas em várias línguas. Qualquer pessoa pode publicar e editar o que outras pessoas colocaram. Só em português foram divulgados mais de 30 mil artigos na wikipédia. Com todos os problemas envolvidos, a idéia de que o conhecimento pode ser co-produzido e divulgado é revolucionária e nunca antes tinha sido tentada da mesma forma e em grande escala.

Profª Stela: O que mais se almeja conquistar pela função social da escola é a possibilidade de conquista sistemática de convívio ético harmonioso. A utilização da Internet na escola revela as potencialidades do trabalho colaborativo, em rede, habilidade que deveria ser a prioridade número um do ensino. No entanto, o que observamos é uma tendência para o domínio de conhecimentos técnicos de utilização das novas tecnologias de informação e comunicação. Isto faz com que se relegue para segundo plano a importância estratégica das práticas sociais, essenciais na perspectiva das teorias sociointeracionistas, em relação à construção de conhecimentos. O que verificamos é que diferentes modalidades de expressão mediática e o modo como o aluno se apropria delas raramente têm sido objeto de reflexão no sistema educativo atual. A possibilidade de ter o computador, como instrumento e recurso a serviço da Educação, transforma o modo de pensar e de compartilhar informações, desenvolve maiores alternativas de cooperação e de colaboração, pois estimula os alunos a exercerem sua autonomia quando levados a interrogar-se sobre a seleção de conteúdos e/ou informações pesquisadas e também sobre as melhores estratégias para se comunicar com o outro, privilegiando e aprimorando a própria comunicação, essencial na construção de conhecimentos. Reforça a idéia defendida por Paulo Freire de que os conhecimentos só podem ser construídos em comunhão. A velocidade com que ocorre a socialização do pensamento e das idéias do aluno, o contato com idéias diversificadas, a sincronia de interação por chats ou fóruns têm conseqüências para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da própria democracia (convivência com as diferenças) e do trabalho cooperativo.

Que conseqüências podemos apontar da mudança de expor os trabalhos dos alunos na Internet, extrapolando as paredes da escola?

Prof. Moran: As mudanças principais se dão na atitude dos alunos para com a pesquisa e trabalhos. Divulgando-os, eles tomam mais cuidado com o "copiar" e "colar", porque se expõem muito mais. Os alunos tomam mais cuidado com a estética e com o conteúdo. Com a estética, porque criam páginas mais bonitas, atraentes, bem elaboradas, com animações e recursos interativos. Com o conteúdo, porque querem fazer bonito, mostrar valor. Hoje os alunos pesquisam quantas vezes aparecem na Internet e isso é um motivo de orgulho e motivação para torná-los pesquisadores e não meramente repetidores de conteúdos prontos. A escola, ao publicar trabalhos e pesquisas de professores e alunos, também se abre para o mundo. Os alunos participam de projetos interdisciplinares, dentro e fora da escola, com colegas do mesmo e de outros países. Isso traz um enriquecimento cultural, lingüístico e emocional muito necessários para a aprendizagem de hoje.

Profª Stela: A mais importante mudança refere-se ao fato de podermos aprofundar o modo pelo qual os alunos constroem conhecimentos. Em nosso trabalho com ambientes de aprendizagem cooperativa apoiada por recursos da Internet, constatamos que é possível a mudança de paradigma do processo de avaliação na Educação escolar. A publicação (postagem) dos debates e opiniões dos alunos permite que sua avaliação pelo professor forneça aos alunos o apoio e incentivo necessários à ampliação e aperfeiçoamento de suas aprendizagens. Os testes e provas tradicionais não favorecem a observação, pelo professor, da maneira que os alunos estão pensando, resolvendo problemas, analisando argumentos, sintetizando informações e aplicando o que aprendem a novos e desconhecidos contextos. O processo reflexivo é ampliado e incentivado com a publicação dos conhecimentos construídos dos alunos na Internet. Funda-se um processo de colaboração em que os alunos acabam estabelecendo e fortalecendo suas habilidades de auto-avaliação. Além disso, compartilham o processo de auto-aprendizagem e melhoram esse processo aumentando a capacidade de reflexão. E pela perspectiva do professor, a publicação e dinâmica dos debates dos alunos permitem aperfeiçoar o projeto pedagógico do curso e atender às reivindicações e expectativas dos alunos. E o interessante é observar também que os alunos assumem a responsabilidade pelo seu próprio processo de aprendizagem.

Que relação podemos estabelecer entre a função social da escola e a publicação de conteúdo feito pelos alunos na Internet?

Prof. Moran: Em parte esta questão já está respondida na anterior. A escola se abre para o mundo, o aluno e o professor se expõem, divulgam seus projetos e pesquisas, são avaliados por terceiros, positiva e negativamente. A escola contribui para divulgar as melhores práticas, ajudando outras escolas a encontrar seus caminhos. A divulgação hoje faz com que o conhecimento compartilhado acelere as mudanças necessárias, agilize as trocas entre alunos, professores, instituições. A escola sai do seu casulo, do seu mundinho e se torna uma instituição onde a comunidade pode aprender contínua e flexivelmente. Destaco, por exemplo, a importância do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) de Chicago, que disponibiliza todo o conteúdo dos seus cursos em várias línguas, facilitando o acesso de centenas de milhares de alunos e professores a materiais avançados e sistematizados, disponíveis on-line http://www.universiabrasil.net/mit/. Alunos, professores, a escola e a comunidade se beneficiam. Atualmente, a maior parte das teses e dos artigos apresentados em congressos estão publicados na Internet. O estar no virtual não é garantia de qualidade (esse é um problema que dificulta a escolha), mas amplia imensamente as condições de aprender, de acesso, de intercâmbio, de atualização. Tanta informação dá trabalho e nos deixa ansiosos e confusos. Mas é muito melhor do que acontecia antes da Internet, quando só uns poucos privilegiados podiam viajar para o exterior e pesquisar nas grandes bibliotecas especializadas das melhores universidades. Hoje podemos fazer praticamente o mesmo sem sair de casa.

Profª Stela: Os alunos valorizam as discussões on-line; assumem a responsabilidade por seu processo de aprendizagem; o professor passa a ter um papel de provocador cognitivo incentivando os alunos a refletirem sobre sua aprendizagem. No entanto, não poderia deixar de comentar que são escassos os estudos sobre os impactos da aprendizagem on-line. Os professores que desenvolvem atividades on-line não foram preparados para tal forma de ensinar, ou seja, um ensino centrado no aluno. Se precisamos de uma sociedade onde o convívio ético e cidadão seja mais democrático e harmonioso e, tendo a escola a função social de ajudar na constituição dessa cidadania crítica-participativa, não podemos continuar copiando e comparando com o que acontece no ensino presencial. A comunicação estabelecida, a possibilidade de feed-back orientado, a interação e sentido de comunidade, a cooperação e a colaboração, o atendimento a todos os estilos e tempos de aprendizagem, a convivência com a diversidade cultural, étnica, geográfica e de gênero permitem que a escola possa desempenhar sua função social de forma transformadora.

 

 

 

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