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Aprender e colaborar
Especialistas explicam por que é importante divulgar na Internet a produção
dos alunos Jaciara
de Sá
http://www.educarede.org.br/educa/html/index_revista_prov.cfm
Navegadores da rede mundial de computadores
geralmente localizam as informações que procuram na Internet. Na maioria das
vezes, é possível encontrar muitos textos escritos por especialistas sobre
determinado assunto. Mas nem sempre. Cresce a cada dia o número de páginas
que também divulgam conteúdos produzidos por alunos.
O internauta é beneficiado com essa publicação. O
aluno e o professor mais ainda. A divulgação desse tipo de conteúdo na
Internet tem relação com a função social da escola, com a construção do
conhecimento pelo aluno, sua capacidade de colaboração, com a avaliação do
desempenho dele etc.
Para saber com detalhes os ganhos dessa
publicação na Internet, o EducaRede entrevistou dois
especialistas no assunto.
O prof. dr.
José Manuel Moran é assessor da Faculdade
Sumaré, docente
aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP e especialista do MEC em
avaliação de cursos a distância.
A profª drª Stela C. Bertholo Piconez é
livre-docente da Faculdade de Educação da USP nos cursos da Graduação
(licenciaturas) e da Pós-Graduação, além de coordenadora científica do
Núcleo
de Estudos sobre Educação de Adultos e Formação Permanente de Professores (NEA).
Confira a entrevista:
Qual a função
social da escola?
Prof. Moran: A escola existe
para organizar intencionalmente os processos de aprendizagem dos alunos –
aprendizagem intelectual, emocional, ética – individual e coletiva, de forma
que eles desenvolvam as competências necessárias para serem cidadãos plenos,
se realizem pessoal e profissionalmente e contribuam para melhorar nossa
sociedade.
Profª Stela: É através da escola que os alunos aprendem a
participar da vida cidadã de maneira científica, cultural e política. Existe
uma dupla dimensão na função socializadora da escola: vivenciar e
compartilhar com outras pessoas diferentes matrizes culturais e ter acesso a
um conjunto comum de saberes e formas de conhecimento. Para que os alunos se
apropriem de conteúdos sociais e culturais de maneira crítica e reflexiva, a
função social da escola se diferencia de outras práticas educativas
desempenhadas pela família, trabalho, mídia, lazer etc., por ser
intencional, deliberada, sistemática e continuada na constituição dos
cidadãos. Torna-se, dessa forma, a principal responsável pela organização,
sistematização e desenvolvimento das capacidades científicas, éticas e
tecnológicas de uma nação. Inspirada nos princípios de liberdade e nos
ideais de solidariedade humana, a escola tem por finalidade o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania, sua
qualificação para o trabalho, bem como oferecer meios para progredir nele e
em sua continuidade permanente. O universo escolar favorece o aprendizado, o
diálogo e o entendimento do mundo, o respeito e o direito de participação da
vida social.
A publicação do que
o aluno produz na escola pode ser considerado um aspecto importante nas
discussões sobre Internet e Educação? Por quê?
Prof.
Moran: Quando focamos mais a aprendizagem dos alunos do que
o ensino, a publicação da produção deles se torna fundamental. Recursos como
o portfólio, onde os alunos organizam o que produzem e o disponibilizam para
consultas, são cada vez mais utilizados. Os blogs, fotologs e videologs são
recursos muito interativos de publicação com possibilidade de fácil
atualização e participação de terceiros. Há uma explosão destas páginas
dinâmicas na Internet e, mesmo predominando a sua utilização mais como
diários virtuais, também encontramos professores que incentivam seus alunos
a criarem blogs individuais e grupais. Um entre inúmeros exemplos é o blog
Geografismos que serve de ligação a 84 blogs de alunos de Geografia de
sétimo ano, em Portugal, e que traz links para dezenas de outros blogs em
Educação. Muitas plataformas de Educação a Distância permitem a publicação
de materiais ou de páginas dos alunos. A possibilidade deles se expressarem,
tornarem suas idéias e pesquisas visíveis, confere uma dimensão mais
significativa aos trabalhos e pesquisas acadêmicos.
A Internet possui hoje inúmeros recursos que
combinam publicação e interação, através de listas, fóruns, chats, blogs. Há
ferramentas de criação sofisticadas como o Contribute da Macromedia,
mas também temos as suas equivalentes simples como o Story Teller,
que vem junto com as últimas edições do Windows e que facilita a criação de
histórias audiovisuais, de narrativas vivas que são fáceis de aprender e de
divulgar, como podemos constatar na página
http://contaoutra.net, sob a coordenação do meu colega professor Eduardo
Chaves. Existem portais de publicação mediados, onde há algum tipo de
controle e existem outros abertos, baseados na colaboração de voluntários. O
site
www.wikipedia.org/ traz um dos esforços mais notáveis no mundo inteiro
de divulgação do conhecimento. Milhares de pessoas contribuem para a
elaboração de enciclopédias sobre todos os temas em várias línguas. Qualquer
pessoa pode publicar e editar o que outras pessoas colocaram. Só em
português foram divulgados mais de 30 mil artigos na wikipédia. Com todos os
problemas envolvidos, a idéia de que o conhecimento pode ser co-produzido e
divulgado é revolucionária e nunca antes tinha sido tentada da mesma forma e
em grande escala.
Profª Stela: O que mais se
almeja conquistar pela função social da escola é a possibilidade de
conquista sistemática de convívio ético harmonioso. A utilização da Internet
na escola revela as potencialidades do trabalho colaborativo, em rede,
habilidade que deveria ser a prioridade número um do ensino. No entanto, o
que observamos é uma tendência para o domínio de conhecimentos técnicos de
utilização das novas tecnologias de informação e comunicação. Isto faz com
que se relegue para segundo plano a importância estratégica das práticas
sociais, essenciais na perspectiva das teorias sociointeracionistas, em
relação à construção de conhecimentos. O que verificamos é que diferentes
modalidades de expressão mediática e o modo como o aluno se apropria delas
raramente têm sido objeto de reflexão no sistema educativo atual. A
possibilidade de ter o computador, como instrumento e recurso a serviço da
Educação, transforma o modo de pensar e de compartilhar informações,
desenvolve maiores alternativas de cooperação e de colaboração, pois
estimula os alunos a exercerem sua autonomia quando levados a interrogar-se
sobre a seleção de conteúdos e/ou informações pesquisadas e também sobre as
melhores estratégias para se comunicar com o outro, privilegiando e
aprimorando a própria comunicação, essencial na construção de conhecimentos.
Reforça a idéia defendida por Paulo Freire de que os conhecimentos só podem
ser construídos em comunhão. A velocidade com que ocorre a socialização do
pensamento e das idéias do aluno, o contato com idéias diversificadas, a
sincronia de interação por chats ou fóruns têm conseqüências para o
desenvolvimento e aperfeiçoamento da própria democracia (convivência com as
diferenças) e do trabalho cooperativo.
Que conseqüências
podemos apontar da mudança de expor os trabalhos dos alunos na Internet,
extrapolando as paredes da escola?
Prof. Moran: As mudanças
principais se dão na atitude dos alunos para com a pesquisa e trabalhos.
Divulgando-os, eles tomam mais cuidado com o "copiar" e "colar", porque se
expõem muito mais. Os alunos tomam mais cuidado com a estética e com o
conteúdo. Com a estética, porque criam páginas mais bonitas, atraentes, bem
elaboradas, com animações e recursos interativos. Com o conteúdo, porque
querem fazer bonito, mostrar valor. Hoje os alunos pesquisam quantas vezes
aparecem na Internet e isso é um motivo de orgulho e motivação para
torná-los pesquisadores e não meramente repetidores de conteúdos prontos. A
escola, ao publicar trabalhos e pesquisas de professores e alunos, também se
abre para o mundo. Os alunos participam de projetos interdisciplinares,
dentro e fora da escola, com colegas do mesmo e de outros países. Isso traz
um enriquecimento cultural, lingüístico e emocional muito necessários para a
aprendizagem de hoje.
Profª Stela:
A mais importante mudança refere-se ao fato de podermos aprofundar o modo
pelo qual os alunos constroem conhecimentos. Em nosso trabalho com ambientes
de aprendizagem cooperativa apoiada por recursos da Internet, constatamos
que é possível a mudança de paradigma do processo de avaliação na Educação
escolar. A publicação (postagem) dos debates e opiniões dos alunos permite
que sua avaliação pelo professor forneça aos alunos o apoio e incentivo
necessários à ampliação e aperfeiçoamento de suas aprendizagens. Os testes e
provas tradicionais não favorecem a observação, pelo professor, da maneira
que os alunos estão pensando, resolvendo problemas, analisando argumentos,
sintetizando informações e aplicando o que aprendem a novos e desconhecidos
contextos. O processo reflexivo é ampliado e incentivado com a publicação
dos conhecimentos construídos dos alunos na Internet. Funda-se um processo
de colaboração em que os alunos acabam estabelecendo e fortalecendo suas
habilidades de auto-avaliação. Além disso, compartilham o processo de
auto-aprendizagem e melhoram esse processo aumentando a capacidade de
reflexão. E pela perspectiva do professor, a publicação e dinâmica dos
debates dos alunos permitem aperfeiçoar o projeto pedagógico do curso e
atender às reivindicações e expectativas dos alunos. E o interessante é
observar também que os alunos assumem a responsabilidade pelo seu próprio
processo de aprendizagem.
Que relação podemos
estabelecer entre a função social da escola e a publicação de conteúdo feito
pelos alunos na Internet?
Prof. Moran: Em parte esta
questão já está respondida na anterior. A escola se abre para o mundo, o
aluno e o professor se expõem, divulgam seus projetos e pesquisas, são
avaliados por terceiros, positiva e negativamente. A escola contribui para
divulgar as melhores práticas, ajudando outras escolas a encontrar seus
caminhos. A divulgação hoje faz com que o conhecimento compartilhado acelere
as mudanças necessárias, agilize as trocas entre alunos, professores,
instituições. A escola sai do seu casulo, do seu mundinho e se torna uma
instituição onde a comunidade pode aprender contínua e flexivelmente.
Destaco, por exemplo, a importância do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT) de Chicago, que disponibiliza todo o conteúdo dos seus
cursos em várias línguas, facilitando o acesso de centenas de milhares de
alunos e professores a materiais avançados e sistematizados, disponíveis
on-line
http://www.universiabrasil.net/mit/. Alunos, professores, a escola e a
comunidade se beneficiam. Atualmente, a maior parte das teses e dos artigos
apresentados em congressos estão publicados na Internet. O estar no virtual
não é garantia de qualidade (esse é um problema que dificulta a escolha),
mas amplia imensamente as condições de aprender, de acesso, de intercâmbio,
de atualização. Tanta informação dá trabalho e nos deixa ansiosos e
confusos. Mas é muito melhor do que acontecia antes da Internet, quando só
uns poucos privilegiados podiam viajar para o exterior e pesquisar nas
grandes bibliotecas especializadas das melhores universidades. Hoje podemos
fazer praticamente o mesmo sem sair de casa.
Profª Stela:
Os alunos valorizam as discussões on-line; assumem a responsabilidade por
seu processo de aprendizagem; o professor passa a ter um papel de provocador
cognitivo incentivando os alunos a refletirem sobre sua aprendizagem. No
entanto, não poderia deixar de comentar que são escassos os estudos sobre os
impactos da aprendizagem on-line. Os professores que desenvolvem atividades
on-line não foram preparados para tal forma de ensinar, ou seja, um ensino
centrado no aluno. Se precisamos de uma sociedade onde o convívio ético e
cidadão seja mais democrático e harmonioso e, tendo a escola a função social
de ajudar na constituição dessa cidadania crítica-participativa, não podemos
continuar copiando e comparando com o que acontece no ensino presencial. A
comunicação estabelecida, a possibilidade de feed-back orientado, a
interação e sentido de comunidade, a cooperação e a colaboração, o
atendimento a todos os estilos e tempos de aprendizagem, a convivência com a
diversidade cultural, étnica, geográfica e de gênero permitem que a escola
possa desempenhar sua função social de forma transformadora.
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