CONTRIBUIÇÕES PARA UMA PEDAGOGIA DA EDUCAÇÃO ON-LINE
Especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância
Artigo meu, publicado
no livro organizado por SILVA, Marco. Educação online: teorias, práticas, legislação, formação
corporativa.
São Paulo: Loyola, 2003. p. 39-50.
Resumo
A
educação on-line pode ser definida como o conjunto de ações de
ensino-aprendizagem que são desenvolvidas através de meios telemáticos, como a
Internet, a videoconferência e a teleconferência. A educação on-line nos traz
questões pedagógicas específicas com desafios novos para a educação a distância e para a presencial. Existe hoje no Brasil uma
grande variedade de cursos on-line: cursos para poucos e para muitos alunos,
cursos com pouca interação e com muita interação, cursos centrados no professor
e cursos centrados nos alunos; cursos que utilizam uma tecnologia (Internet,
videoconferência, teleconferência) e outros que integram várias tecnologias.
Para cursos com grandes grupos, o processo de organização do
ensino-aprendizagem on-line é muito mais complexo do que o que realizamos no
presencial, exigindo uma logística nova, que está sendo
testada com mídias telemáticas pela primeira vez. Os papéis do professor
se multiplicam, diferenciam e complementam, exigindo uma grande capacidade de
adaptação, de criatividade diante de novas situações, propostas, atividades.
Palavras-chave: Novas tecnologias, Pedagogia, Educação a distância.
Os múltiplos papéis do educador on-line
Novas questões na educação on-line
Dificuldades na educação on-line
Proposta pedagógica para cursos
semi-presenciais
Educação on-line pode ser definida como o conjunto de
ações de ensino-aprendizagem que são desenvolvidas através de meios
telemáticos, como a Internet, a videoconferência e a teleconferência. A
educação on-line acontece cada vez mais em situações bem amplas e diferentes,
da educação infantil até a pós-graduação, dos cursos regulares aos cursos
corporativos. Abrange desde cursos totalmente virtuais, sem contato físico -
passando por cursos semi-presenciais - até cursos
presenciais com atividades complementares fora da sala de aula, pela Internet.
A educação on-line não equivale à educação a distância. Um curso por correspondência é a distância
e não é on-line. Por outro lado, não podemos confundir a educação on-line só com cursos pela Internet e somente pela Internet no modo texto.
A educação on-line está em seus primórdios e sua
interferência se fará notar cada vez mais em todas as dimensões e níveis de
ensino. Com o avanço da telemática, a rapidez de comunicação por redes, a facilidade próxima de ver-nos e interagir a distância, a
educação on-line ocupará um espaço central na pedagogia nos próximos anos.
A educação on-line nos
traz atualmente questões específicas com desafios novos. Ela é utilizada em situações onde o presencial não dá
conta, ou levaria muito tempo para atingir um número grande de alunos em pouco
tempo, como, por exemplo, quando precisamos capacitar milhares de professores
em serviço, que não possuem nível superior. É difícil organizar cursos presenciais simultaneamente para 7 mil professores. O uso de videoconferência, Internet e sala de aula permitiu
que a USP, PUCSP e UNESP realizassem
essa tarefa recentemente, a distância, em todo o Estado de São Paulo
[1]
.
E essas situações nos obrigam a pensar em processos pedagógicos que
compatibilizem a preparação de materiais e atividades adequados, a integração
de vários tipos de profissionais envolvidos (professores autores, professores
orientadores, professores assistentes e tutores), a combinação de tempos
homogêneos e flexíveis, da comunicação em tempo real e em momentos diferentes
[2]
,
as avaliações presenciais e a distância. É um processo muito mais complexo do
que o que realizamos no presencial, porque exige uma logística
nova, que está sendo testada com mídias telemáticas pela primeira vez. É muito tênue a linha que separa os cursos de massa com
qualidade e os cursos de massa de baixo nível.
Alguns cursos por teleconferência
[3]
estão procurando criar formas de interação on-line cada vez mais avançadas e
combiná-las com outros espaços e tempos complementares, num local próximo dos
alunos
[4]
.
A combinação do broadcast
[5]
com algumas ferramentas da comunicação on-line
e off-line
[6]
,
principalmente via Internet, é um dos caminhos mais promissores para o avanço
da educação a distância e permite, ao menos em teoria,
valorizar o melhor da transmissão para muitos grupos e novas formas de
interação.
A educação on-line
também está começando a trazer contribuições significativas para a educação
presencial.
Algumas universidades integram aulas presenciais com aulas e atividades
virtuais, flexibilizando tempos e espaços, ampliando os espaços de
ensino-aprendizagem até agora praticamente confinados à sala de aula. O
currículo pode ser flexibilizado, segundo a portaria 2253 do MEC, em 20% da
carga total. Algumas disciplinas estão sendo oferecidas total ou parcialmente a distância. O vinte por cento é uma etapa inicial de criação da cultura on-line.
Mais tarde, cada universidade irá definir qual é o ponto de equilíbrio entre o
presencial e o virtual em cada área do conhecimento.
Existe hoje no Brasil uma grande
variedade de cursos on-line: cursos para poucos e para muitos alunos, cursos
com pouca interação e com muita interação, cursos centrados no professor e
cursos centrados nos alunos; cursos unitecnológicos e
outros com múltiplas tecnologias. Muitos desses cursos simplificam o
processo pedagógico, se preocupam pouco com a construção do conhecimento, são massificadores, só visam o lucro fácil.
Com a educação on-line, com o avanço da velocidade de
conexão pela Internet, pela TV digital e pelo celular de terceira geração,
teremos tanto a massificação semelhante à de boa parte dos cursos superiores presenciais
como novas formas interessantes de aprender continuamente, presencial e virtualmente; teremos materiais prontos
focados no professor e outros em contínua construção, com intensa participação
dos alunos. É ainda prematuro definir
padrões pedagógicos na educação a distância, porque
estamos em fase de experimentação de vários modelos, formatos, que também
afetam ao ensino presencial.
Com a educação on-line os papéis do
professor se multiplicam, diferenciam e complementam, exigindo uma grande
capacidade de adaptação, de criatividade diante de novas situações, propostas,
atividades. Em uma parte dos cursos
on-line continuamos com as aulas presenciais regulares, acrescentando algumas
atividades complementares a distância. Em outros, as aulas são presenciais, mas
há uma incidência maior de atividades virtuais, que podem liberar os alunos de
alguns encontros presenciais previstos anteriormente. Em outros cursos só temos
um ou dois encontros presenciais e a maior parte das aulas e atividades é feita a distância. Finalmente, organizamos cursos em que o
professor não mantém contato físico com os alunos e todas as atividades são
realizadas basicamente pela Internet.
O professor alterna cursos on-line com um número de alunos
semelhante ao das aulas convencionais com outros com trezentos, quinhentos ou
vários milhares de alunos, onde ele gerencia uma equipe de professores
assistentes e monitores, que por sua vez
atendem a turmas menores de alunos. Em determinados cursos o professor é
somente um autor, não participa diretamente do andamentos dos cursos. Mesmo como autor, o conteúdo é tratado e editado por uma equipe
para dar o tratamento específico para as mídias e o perfil do público. O
professor participa de formas diferentes e exerce papéis diferentes em diferentes situações que se lhe apresentam na educação
on-line.
O professor on-line precisa aprender a trabalhar com
tecnologias sofisticadas e tecnologias simples; com Internet de banda larga e
com conexão lenta; com videoconferência multiponto e teleconferência; com
softwares de gerenciamento de cursos comerciais e com softwares livres. Ele não
pode acomodar-se, porque a todo momento surgem
soluções novas e que podem facilitar o trabalho pedagógico com os alunos.
Soluções que não podem ser aplicadas da mesma forma para cursos diferentes.
O professor on-line cada vez será mais solicitado por
outras instituições acadêmicas e corporativas para participar em um módulo ou
parte de um curso, muitas vezes distante do local físico onde se encontra. Em
determinados cursos poderá criar comunidades de aprendizagem, com grande
interação e enfatizando a construção grupal do conhecimento. Em outros cursos
lhe será pedido que interaja o mínimo por uma questão de diminuir custos, de
padrão da instituição ou da coordenação. Em alguns cursos poderá pensar em vídeos, apresentações complexas e câmeras para visualizar e
interagir com os alunos, como videochats, enquanto em
outros receberá a orientação de não utilizar o chat por ser dispersivo ou de focar mais o texto impresso e utilizar a Internet como
mídia complementar, pela dificuldade de acesso de uma parte significativa dos
seus alunos. Ele precisa ter flexibilidade para adaptar-se a situações muito
diferenciadas e ter sensibilidade para escolher as melhores soluções possíveis
para cada momento.
O professor on-line está começando a
aprender a trabalhar em situações muito diferentes: com poucos e muitos alunos,
com mais ou menos encontros presenciais, com um processo personalizado
(professor autor-gestor) ou mais despersonalizado (separação entre o autor e o
gestor de aprendizagem). Quanto
mais situações diferentes experimente, melhor estará
preparado para vivenciar diferentes papéis, metodologias, projetos pedagógicos,
muitos ainda em fase de experimentação.
Hoje temos questões pedagógicas novas que o avanço das
tecnologias de comunicação nos colocam na educação on-line e sobre as quais
ainda precisamos de avaliação mais cuidadosa.
É difícil definir uma metodologia adequada para cada tipo
de curso on-line. É relativamente fácil aprender a gerenciar cursos on-line que
reproduzem as condições da sala de aula convencional, os que têm um professor
para uma média de 40 alunos e que começam e terminam em datas específicas.
Neles transferimos para o virtual as concepções pedagógicas das aulas
presenciais. Os professores centralizadores, que se colocam como os que
conhecem, organizam o curso a partir de textos e atividades que reforcem o
papel principal do professor; outros docentes que possuem uma visão mais
participativa do processo educacional estimulam a criação de comunidades, a
pesquisa em pequenos grupos, a produção individual e coletiva. Temos programas
gratuitos como o AulaNet ou o Teleduc que facilitam a colocação de textos, a organização de atividades
no ambiente virtual para professores e
alunos sem muito conhecimento tecnológico prévio.
Como a educação a distância
permite formar múltiplas turmas simultaneamente, o gerenciamento dessas
situações novas exige planejamento, equipe pedagógica competente e
multidisciplinar e a aprendizagem de metodologias e utilização de tecnologias
ainda pouco conhecidos. Em educação on-line temos cursos que são, como no
presencial, de aprendizagem de habilidades específicas, cursos de atualização
profissional. Esses cursos podem ter uma proposta pedagógica mais “empacotada”,
mais programada e podem admitir alunos a qualquer momento, sem data definida
para começar e terminar.
Existem outros cursos que são de formação, normalmente de
longa duração, como os de graduação. Neles, a organização pedagógica tem que
ser muito mais cuidadosa. É importante criar classes que
mantenham identidade ao longo do curso, que tenham seu professor responsável ao
longo dos anos, e que equilibrem a transmissão de informação com
atividades de pesquisa em grupo e individualmente, construindo o conhecimento
de forma flexível e participativa.
Com o avanço da comunicação por satélite podemos abrir
tele-salas em todo o Brasil ou em toda a América Latina simultaneamente. Uma
mesma aula poderia estar sendo vista por milhares de alunos em centenas de tele-salas,
ao vivo, e com alguma interação: perguntas por e-mail, por áudio-conferência ou
por câmera remota podem ser feitas e o professor responder as que lhe pareçam
mais relevantes. O professor pode fazer uma avaliação instantânea da
compreensão da aprendizagem e ter um retorno imediato da porcentagem de alunos
com dúvidas em determinados pontos da aula e pode rever esses pontos ao vivo
para milhares de alunos.
Se tecnologicamente
podemos colocar milhares de alunos simultaneamente, do ponto de vista
pedagógico qual é o limite razoável para que o aluno aprenda?. Esta é uma situação que enfrentaremos cada vez com mais freqüência.
Vários cursos de nível superior têm experiência em utilizar quatro salas de
aula simultaneamente com até cinqüenta alunos em cada sala, com
videoconferência multiponto ou salas de teleconferência com alguma interação em
tempo real. Isso dá uma média de 180 a 200 alunos conectados simultaneamente.
Pelas observações que tenho feito, me parece possível realizar um bom trabalho
com esse número de pessoas, se houver um bom planejamento das aulas, das atividades e uma boa comunicação do
professor. Também é importante ter um monitor em cada sala para organizar os
grupos locais, para preparar os alunos para alguma pesquisa inicial antes de
uma aula expositiva, para organizar as questões e encaminhá-las para o
professor na aula ao vivo e para complementar a interação posteriormente. É
possível ampliar esse número de alunos em determinadas situações: por exemplo
para aulas magnas com grandes especialistas e que depois poderão ser debatidas,
adaptadas para grupos menores por professores assistentes e monitores.
Algumas instituições pensam a aula on-line por
teleconferência como o único momento importante do processo de
ensino-aprendizagem, replicando o conceito de aula que existe no presencial.
Penso que uma das formas predominantes nestes próximos anos será a combinação
de aulas por vídeo, teleconferência ou
pela Internet com atividades em pequenos grupos e individuais feitas antes e
depois das aulas, parte on-line e parte off-line.
Estamos caminhando para um conjunto de situações de
educação on-line plenamente audiovisuais. Caminhamos
para processos de comunicação audiovisual, com possibilidade de forte
interação, integrando o que de melhor conhecemos da televisão (qualidade da
imagem, som, contar estórias, mostrar ao vivo) com o melhor da Internet (acesso
a bancos de dados, pesquisa individual e grupal, desenvolvimento de projetos em
conjunto, a distância, apresentação de resultados).
Tudo isto exige uma pedagogia muito mais flexível,
integradora e experimental diante de tantas situações novas que começamos a
enfrentar. Não podemos confundir a
educação on-line só com cursos pela Internet e somente pela Internet no modo
texto.
Estamos aprendendo a
desenvolver propostas pedagógicas diferentes para situações de aprendizagem
diferentes. As
instituições sérias, mesmo quando têm muitos alunos, encontrarão formas de
organizá-los para que consigam aprender com qualidade. As instituições que só
buscam o lucro, organizarão cursos prontos, com pouca interação e apoio,
massificando o processo de ensino-aprendizagem, como acontece também no
presencial.
Dificuldades na
educação on-line
Existem dificuldades
sérias na aceitação da educação on-line. A primeira é o peso da sala de aula. Desde sempre aprender está associado a ir a uma sala de
aula e lá concentramos os esforços dos últimos séculos para o gerenciamento da
relação entre ensinar e aprender. O modelo cultural e burocrático predominante
nas organizações educacionais exerce também um peso avassalador na inércia
frente a necessidade de inovar. Tudo é planejado ou
decidido de cima para baixo. Os prédios, os currículos, a contratação de
professores são feitos em função do atrelamento
(muitas vezes, confinamento) a salas de aula.
Os professores aprenderam como alunos a relacionar-se com
o modelo convencional de ensinar-aprender dentro de um espaço bem específico
que é a escola e dentro dela a sala de aula. O papel principal que os
professores assumem ainda é o de responsáveis por uma determinada área do
conhecimento e insistem em utilizar predominantemente métodos expositivos com
alguma (pouca) interação. Os alunos, por sua vez, estão acostumados a ficar
ouvindo, em geral, passivos, o que os professores falam e esperam da
universidade ou escola que lhes tragam em bandeja as informações prontas. Nas
faculdades particulares é freqüente ouvir: “Eu pago, eu quero que me ensinem” e
reclamam quando o professor exige mais pesquisa e trabalho em grupo.
Ambos, professores e alunos, constatam a inadequação desse
modelo. Muitos intelectualmente sabem que precisam mudar. É freqüente o discurso
da participação, da mudança, mas, na prática, no dia a dia, muitos ainda
permanecem aferrados aos modelos tradicionais, até porque não existem muitas
experiências inovadoras perto de onde eles lecionam. Por todos esses fatores, é
difícil manter a motivação de forma permanente.
É difícil manter a
motivação no presencial e muito mais no virtual, se não envolvermos os alunos
em processos participativos, afetivos, que inspirem confiança. Os cursos que se limitam à transmissão de informação, de
conteúdo, mesmo que esteja brilhantemente produzido, correm o risco da desmotivação a longo prazo e,
principalmente, de que a aprendizagem seja só teórica, insuficiente para dar
conta da relação teoria/prática. Em sala de aula, se
estivermos atentos, podemos mais facilmente obter feedback dos problemas que
acontecem e procurar dialogar ou encontrar novas estratégias pedagógicas. No
virtual, o aluno está mais distante, normalmente só acessível por e-mail, que é
frio, não imediato ou por um telefonema eventual, que é mais
direto, mas num curso a distância encarece o custo final.
Com os processos convencionais de ensino e com a atual
dispersão da atenção da vida urbana, fica muito difícil a autonomia, a
organização pessoal, indispensável para os processos de aprendizagem a distância. O aluno desorganizado vai deixando passar o
tempo adequado para cada atividade, discussão, produção e pode sentir
dificuldade em acompanhar o ritmo de um curso. Isso atrapalha sua motivação,
sua própria aprendizagem e a do grupo, o que cria tensão ou indiferença. Esses
alunos pouco a pouco vão deixando de participar, de produzir e muitos têm
dificuldade, a distância, em retomar a motivação, o
entusiasmo pelo curso. No presencial, uma conversa dos colegas mais próximos,
do professor, pode ajudar a voltar a participar do curso. Á distância é
possível, mas não fácil.
A maior parte dos cursos presenciais e on-line continua
focada no conteúdo, focada na informação, no professor, no aluno
individualmente e na interação com o professor/tutor.
Os cursos hoje – principalmente os de formação – convêm que sejam focados na
construção do conhecimento e na interação; no equilíbrio entre o individual e o
grupal, entre conteúdo e interação (aprendizagem cooperativa), um conteúdo em
parte preparado e em parte construído ao longo do curso.
Existe hoje no Brasil uma grande variedade de cursos
on-line: cursos com professor e sem professor; cursos para poucos e para muitos
alunos, cursos com pouca interação e com muita interação, cursos centrados no
professor e cursos centrados nos alunos; cursos unitecnológicos e outros com múltiplas tecnologias, cursos em parte presenciais e cursos
totalmente a distância, cursos de formação e cursos de
atualização. Para cada curso podemos formular estratégias de
ensino-aprendizagem específicas.
Temos cursos totalmente presenciais que utilizam algumas
ferramentas de pesquisa e/ou comunicação on-line para
algumas atividades complementares. O foco principal é a sala de aula, mas o
professor cria uma lista de comunicação por e-mail ou uma página WEB, ou abre
um fórum para debates virtuais. Cada vez mais as disciplinas de cursos
presenciais incorporam ferramentas e atividades virtuais. Se o curso presencial
é participativo, o virtual amplia essa participação. Se o curso presencial é
centrado no professor, as atividades virtuais podem diminuir um pouco esse
foco, mas no essencial não o modificam.
Em cursos presenciais podemos ter disciplinas parcialmente
a distância. Freqüentamos algumas aulas presenciais e
as intercalamos com atividades virtuais. A proporção de presença e on-line pode
variar de uma disciplina para outra. Em algumas podemos ter vinte por cento
on-line, em outras metade e metade, enquanto outras podem ter oitenta por cento
ou ser totalmente on-line.
Em cursos a distância ainda
estamos influenciados pelos modelos tradicionais das grandes universidades como
a Open da Inglaterra ou a UNED, da Espanha, que na década de oitenta e nova estavam
muito centrados no conteúdo impresso, auto-instrucional, com apoio local.
Algumas instituições brasileiras copiam hoje esse modelo, focando o material
impresso ou digital. Criam cursos prontos, sem professor, com avaliação
corrigida pelo próprio programa.
Outras instituições focam as tecnologias que multiplicam o
conceito de aula presencial como a vídeo ou teleconferência. Vêem as aulas
centradas no professor, com o poder de atingir mais alunos simultaneamente.
Nestes últimos anos, com o avanço da Internet, começam a combinar aulas ao vivo
por vídeo ou teleconferência com atividades off-line via Internet. O avanço
maior foi na educação a distância on-line, no
desenvolvimento de cursos pela Internet ou Intranet.
Como a Internet combina a possibilidade de divulgar conteúdo com interação on e off-line a um custo menor, muitas
universidades e empresas estão focando a educação a distância utilizando essa mídia preferencialmente.
Encontramos vários modelos de cursos pela Internet.
1) Cursos focados no conteúdo, conteúdo pronto e alguma
interação via e-mail, listas ou fórum, que não ultrapassa vinte por cento da
duração. São os predominantes até agora, porque são mais baratos e rentáveis.
Desenvolveram-se mais até agora na área corporativa (cursos de e-learning, de
treinamento on-line).
2) Cursos que
equilibram conteúdo e interação. Os professores preparam o conteúdo, que fica
disponibilizado na Internet e depois desenvolvem atividades de pesquisa e
comunicação com os alunos, o que toma aproximadamente metade do tempo do curso.
Uma parte do conteúdo está pronta e outra é construída ao longo do seu
desenvolvimento.
3) Cursos que focam mais a interação que o conteúdo, que
se preocupam em formar comunidades de aprendizagem que constroem em conjunto o
conhecimento e contribuem decisivamente para o sucesso do curso. No Brasil
podemos citar, entre outros, como pioneira da educação
on-line construtivista a Professora Lea Fagundes, do Laboratório de
Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
[7]
e a equipe do programa de Pós-graduação
em Informática na Educação da mesma universidade. Outro grupo importante na
pesquisa e desenvolvimento de ambientes virtuais é o NIED – Núcleo de
Informática Educativa - da Unicamp, coordenado pelo Professor Armando Valente
[8]
.
Atualmente o Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo da PUC-SP está
desenvolvendo um bom trabalho de pesquisa e realização de cursos on-line,
principalmente na formação de professores
[9]
.
Merece destaque também a reflexão e
prática do Prof. Wilson Azevedo no gerenciamento de
cursos on-line de forma cooperativa
[10]
.
Entre os autores estrangeiros sobre educação on-line
destaco Robin Mason, professora do Institute of Educational Technology da Open University
[11]
e
também Rena PALLOFF e Keith PRATT pelo livro Construindo
comunidades de aprendizagem no ciberespaço – Estratégias eficientes para salas
de aula on-line
[12]
. Este texto resume a forma com
que encaram a educação on-line:
Uma proposta
pedagógica para cursos semi-presenciais pela Internet
Do ponto de vista didático, podemos valorizar o
melhor do presencial e o do virtual. O
que fazemos melhor ou mais rapidamente quando estamos juntos numa sala de aula? É mais fácil conhecer-nos, criar laços, mapear os grupos, as pessoas. É mais
fácil organizar o processo de ensino-aprendizagem, a seqüência de leituras, atividades,
pesquisas individuais e de grupo, o cronograma, a metodologia. É mais fácil
também que o professor ajude os alunos a ter as referências iniciais de um
tema, o estado da arte de um assunto, os cenários de uma pesquisa.
Depois desses contatos pessoais, podemos ir ao virtual e
aí aproveitar as vantagens que nos propicia. A flexibilidade de tempo e lugar
para acessar. Cada um acessa o curso compatibilizando-o com as demais
atividades pessoais e profissionais. Além dessa liberdade de organização e de acesso,
podemos no virtual desenvolver atividades de pesquisa individual e em pequenos
grupos. Cada grupo pode ter seu próprio espaço de comunicação para eventuais
trocas de resultados, antes de divulgá-los para toda a classe. Podemos discutir
alguns textos, fazer comentários num fórum ou em alguns momentos em um chat ou sala
de bate-papo. Podemos tirar dúvidas com algum professor ou assistente sem ter
que ir pessoalmente a um lugar. Podemos divulgar os resultados das pesquisas
individuais e grupais em algum espaço da página do curso e aprendermos juntos.
E depois podemos voltar a encontrar-nos fisicamente para aprofundar os
resultados obtidos no virtual, fazer as sínteses possíveis e encaminhar uma
nova etapa de aprendizagem, sempre
envolvendo os alunos, com prática, leitura e reflexão.
Não podemos perder de
vista, a integração dos dois espaços – presencial e o virtual - e de fazer
transições suaves entre ambos. Provavelmente necessitaremos de encontros mais freqüentes
no começo de um curso e depois podemos espaçá-los à medida que sintamos mais confiança, conhecimento das
pessoas e dos procedimentos didáticos.
Diante desse perfil planejamos as atividades, as leituras,
o formato do curso, as ações inovadoras e a integração das tecnologias.
Selecionamos as ferramentas que vamos utilizar e as personalizamos. Colocamos a
estrutura do curso, os temas principais, uma biblioteca virtual com os links principais comentados. Preparamos os textos básicos que vão sendo colocados
conforme o andamento do curso. Consideramos importante planejar o curso como um
todo e, ao mesmo tempo, estar atentos às situações concretas
que se apresentam em cada grupo, para incorporar o que nos pareça mais
válido, para valorizar as qualidades dos alunos, para interagir efetivamente ao
longo do seu andamento.
Procuramos ter uma sala de aula o mais rica possível de
tecnologias: computador e multimídia para apresentação e ponto de Internet para
acesso on-line. Isso nos permite
uma grande flexibilidade na passagem de um momento de apresentação de idéias,
para outro de ilustração, de pesquisa, de contribuições dos alunos. Se um aluno
conhece um texto ou site interessante, vai lá e o mostra diretamente à classe. Esse clima cordial e
otimista contagia à maior parte dos alunos e os predispõe a colaborar mais, a
dar o melhor de si.
Como uma parte do curso vai acontecer no ambiente virtual,
mostramos esse ambiente ao vivo, onde estão os textos, o espaço de colaboração,
o que facilita a navegação dos alunos depois.
É importante também orientar o processo de pesquisa, tanto
do ponto de vista metodológico como tecnológico (como fazer pesquisa na
Internet). Assim é mais simples realizar pesquisas orientadas, no virtual.
As primeiras aulas também podem ser utilizadas para
organizar os alunos em equipes, em grupos de pesquisa, de projetos. Assim
poderemos orientá-los melhor a distância.
Quando propomos flexibilizar o tempo presencial e virtual
damos mais importância ao estarmos juntos. Nada supera a presença física. O
virtual é um pálido reflexo das possibilidades de contato e intercâmbio que o
presencial propicia e que exploramos pouco. O virtual é mais “cômodo”, facilita o acesso a distância, a
comunicação em qualquer momento sem sair do nosso espaço profissional ou
familiar. Mas é uma interação muito pobre comparada com a de estarmos juntos.
Como até agora a aprendizagem é feita basicamente de forma
presencial, não lhe damos valor. Em cursos semi-presenciais,
se demoramos muito para retornar à sala de aula, há uma expectativa maior pelo reencontro,
um desejo de ver-nos, de estar juntos, de colocar em comum nossas impressões. A
flexibilização curricular re-valorizará a importância de aproveitar os momentos
de presença física.
Depois das primeiras aulas presenciais, podemos marcar uma
primeira leitura virtual de um texto e o início da primeira pesquisa. Os alunos
lêem o texto, colocam suas observações no fórum. Voltamos ao presencial,
aprofundamos as questões que apareceram no fórum e vamos dando mais tempo para
o virtual, vamos espaçando mais os encontros, de acordo com a maturidade da
turma, com o tipo de assunto. Como orientação pode-se fazer a primeira aula
virtual curta e depois manter uma relação de duas por uma: uma presencial e
duas virtuais. No virtual pode-se manter uma parte do tempo ocupado em
compreensão de textos fundamentais. Os resumos vão para o fórum. As questões
principais são resumidas pelo professor e se marca um encontro virtual em tempo
real (chat)
para aprofundar algumas das questões do fórum. Os alunos fazem suas pesquisas
sobre o mesmo tema, as colocam na página e as aprofundam no próximo encontro
presencial.
Algumas atividades no chat são para tirar algumas
dúvidas, onde quem quiser coloca alguma questão em relação ao texto projeto e o
professor procura orientá-lo. Em outros momentos, organizamos grupos para
discutir um tema bem específico dentro de cada sala de aula virtual, com a
supervisão do professor.
Cada experiência virtual on-line tem o seu valor. Tirar
dúvidas pode ser útil, se o grupo for disciplinado e não muito numeroso. Os
nomes dos alunos e do professor aparecem em um canto da tela e todos sabem quem
entra, sai ou permanece lá. Discutir um texto ou questão em pequenos grupos em
salas virtuais é interessante. Corresponde à discussão feita em grupos numa sala
de aula presencial. Através da lista de discussão ou fórum o professor organiza
os grupos com seus coordenadores e salas respectivas e discutem o texto ou
assunto indicado durante um tempo determinado. O professor navega pelas várias
salas, acompanha a discussão, participa quando percebe que é conveniente. Essa
conversa de cada grupo fica registrada para acesso posterior de qualquer aluno
na hora que ele quiser. É importante que cada grupo faça uma síntese do que foi
discutido para facilitar o próprio trabalho de aprendizagem e de quem acessar
depois. Essa síntese pode ser colocada também no fórum para dar-lhe mais
visibilidade.
É conveniente ter um assistente para acompanhar no
gerenciamento do chat.
A seqüência de perguntas e respostas é muito rápida. Ele se envolve mais com as
respostas imediatas e o professor fica observando mais o ritmo, o movimento e
faz rápidas sínteses ou colocações em menos momentos, mas significativos. Assim
consegue-se perceber melhor o que está acontecendo, quando há dispersões
desnecessárias ou quando ressaltar um aspecto que está sendo apresentado.
Como nem sempre é possível reunir os alunos em horários
predeterminados, o professor pode organizar também discussões gerais ou grupais
no fórum. É um espaço onde se podem criar tópicos de discussão e cada um
escreve quando o considera conveniente. Há fóruns gerais, para todos e podem
também ser organizados em grupos, para discutir
assuntos específicos e facilitar a interação. Os fóruns de grupos podem ser
abertos a todos ou só para cada equipe, dependendo do grupo e da atividade. O
importante é que os grupos participem, se envolvam, discutam, saiam do isolamento, um dos grandes problemas da educação a
distância até agora.
As ferramentas de comunicação virtual até agora são
predominantemente escritas, caminhando para ser audiovisuais.
Por enquanto escrevemos mensagens, respostas, simulamos uma comunicação falada.
Esses chats e fóruns permitem contatos a distância, podem ser
úteis, mas não podemos esperar que só assim aconteça uma grande revolução,
automaticamente. Depende muito do professor, do grupo, da sua maturidade, sua
motivação, do tempo disponível, da facilidade de acesso. Alguns alunos se
comunicam bem no virtual, outros não. Alguns são rápidos na escrita e no
raciocínio, outros não. Alguns tentam monopolizar as falas (como no presencial)
outros ficam só como observadores. Por isso é importante modificar os
coordenadores, incentivar os mais passivos e organizar a seqüência das
discussões.
O ritmo do
presencial-virtual depende de muitos fatores. Não se pode estabelecer a priori
um padrão rígido. Cada professor encontrará o seu ponto ideal de equilíbrio e
depende também do grau de maturidade e cooperação da classe. O importante é que prever uma espécie de aula-sanfona,
que vai do presencial para o virtual e volta para o presencial de acordo com o
ritmo do grupo.
Hoje a possibilidade que temos de troca no presencial é
muito maior que no virtual (embora não aproveitemos, em geral, o seu
potencial). Com o avanço da banda larga, ao ver-nos e ouvir-nos facilmente,
recriaremos condições de presencialidade de forma
mais próxima e sentiremos mais o contato com os outros, que estão em diversos
lugares.
Pela avaliação feita com os alunos, vale a pena utilizar ambientes virtuais como ampliação do
espaço e tempo da sala de aula tradicional, mas não são uma panacéia para a aprendizagem nem substituem
a necessidade de contatos presenciais periódicos. Equilibrando o
presencial e o virtual podemos obter grandes
resultados a um custo menor de deslocamento, perda de tempo, e de maior
flexibilidade de gerenciamento da aprendizagem.
Educar em ambientes virtuais exige mais dedicação do
professor, mais apoio de uma equipe técnico-pedagógica, mais tempo de
preparação – ao menos nesta primeira fase - e principalmente de acompanhamento,
mas para os alunos há um ganho grande de personalização da aprendizagem, de
adaptação ao seu ritmo de vida, principalmente na fase adulta.
Com o aumento do acesso dos alunos à Internet, poderemos flexibilizar bem mais o currículo,
combinando momentos de encontro numa sala de aula com outros de aprendizagem
individual e grupal. Aprender a ensinar e a aprender, integrando ambientes
presenciais e virtuais, é um dos grandes desafios que estamos enfrentando
atualmente na educação no mundo inteiro.
É importante neste processo dinâmico de aprender
pesquisando, utilizar todos os recursos, todas as técnicas possíveis por cada
professor, por cada instituição, por cada classe: integrar as dinâmicas tradicionais com as inovadoras, a
escrita com o audiovisual, o texto seqüencial com o hipertexto, o encontro
presencial com o virtual.
O que muda no papel do professor? Muda a relação de
espaço, tempo e comunicação com os alunos. O espaço de trocas se estende da
sala de aula para o virtual. O tempo de enviar ou receber informações se amplia
para qualquer dia da semana. O processo de comunicação se dá na sala de aula,
na Internet, no e-mail, no chat. É um papel que combina alguns momentos do professor convencional - às vezes é
importante dar uma bela aula expositiva – com um papel muito mais destacado de
gerente de pesquisa, de estimulador de busca, de coordenador dos resultados. É
um papel de animação e coordenação muito mais flexível e
constante, que exige muita atenção, sensibilidade, intuição (radar ligado) e
domínio tecnológico.
Cada curso, cada
professor vai fazer isso de forma semelhante e ao mesmo diferente. Não podemos
padronizar e impor um modelo único da educação on-line. Cada área do
conhecimento precisa mais ou menos do presencial. É importante experimentar,
avaliar e avançar até termos segurança do ponto de equilíbrio na gestão do
virtual e do presencial e de caminhar para ampliar as propostas pedagógicas
mais adequadas para cada situação de ensino-aprendizagem on-line.
Todas as universidades e organizações educacionais, em
todos os níveis, precisam experimentar como integrar o presencial e o virtual,
garantindo a aprendizagem significativa. Precisamos vivenciar uma nova
pedagogia do presencial e do virtual. Não temos muitas referências anteriores
que transitem pelo presencial e pelo virtual de forma integrada. Até agora
temos ou cursos em sala de aula ou cursos a distância,
criados e gerenciados por grupos em núcleos específicos, pouco próximos da
educação presencial. É importante que os núcleos de educação a distância das universidades saiam do seu isolamento e se aproximem dos
departamentos e grupos de professores interessados em flexibilizar suas aulas,
que facilitem o trânsito entre o presencial e o virtual.
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[1] Curso de Pedagogia nas séries iniciais para professores em serviço da rede pública do Estado de São Paulo, que teve a duração de dois anos: 2001-2002
[2] Denomino a comunicação em tempo real de on-line e a de tempos diferentes de off-line.
[3] A teleconferência é uma comunicação audiovisual, normalmente por satélite, que tem um centro produtor de imagem e som e muitos possíveis centros de recepção (telesalas) que permitem algum retorno (e-mail, fax, telefone ou áudio). A videoconferência tem mais de um centro produtor. Podem ser vistos os alunos de uma ou várias salas. A videoconferência entre duas salas chama-se ponto a ponto. A videoconferência com várias salas se denomina multiponto.
[4] Existem cursos hoje que atingem centenas de alunos simultaneamente em muitas telesalas e onde os alunos podem fazer perguntas ou participar de uma avaliação instantânea de compreensão de conceitos ou de uma parte da exposição de um professor.
[5] Broadcast é uma transmissão via televisão fundamentalmente. Com a televisão digital cobra uma importância muito maior para a educação, porque combina a qualidade da imagem e som (da TV ou DVD) com a interação e navegação que fazemos na Internet.
[6] Veja os conceitos de on-line e off-line na nota 2.
[12] PALLOFF, Rena M. & PRATT, Keith. Construindo comunidades de aprendizagem no ciberespaço – Estratégias eficientes para salas de aula on-line. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002
[13]
PALLOFF, Rena M. & PRATT, Keith. Construindo comunidades de aprendizagem no ciberespaço
– Estratégias eficientes para salas de aula on-line. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002