Especialista em mudanças na educação presencial e a distância
jmmoran@usp.br
“Continuo buscando, re-procurando.
Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para
conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”.
O mais importante no educador
A aprendizagem de ser professor
As etapas pessoais
como docente
O professor bem sucedido
A
rotina da profissão do educador
Aprendendo a construir a identidade pedagógica pessoal
______________________________________________________________________________________________
O importante, como
educadores, é acreditarmos no potencial de aprendizagem pessoal, na capacidade
de evoluir, de integrar sempre novas experiências e dimensões do cotidiano, ao mesmo tempo que compreendemos e aceitamos nossos limites,
nosso jeito de ser, nossa história pessoal.
Ao educar, tornamos visíveis
nossos valores, atitudes, idéias, emoções. O delicado
equilíbrio e síntese que fazemos no dia a dia transparece nas diversas
situações pedagógicas em que nos envolvemos. Os alunos e colegas percebem como somos, como reagimos diante das diferenças de opiniões, dos
conflitos de valores. O que expressamos em cada momento como pessoas é tão
importante quanto o conteúdo explícito das nossas aulas. A postura diante do
mundo e dos outros é importante como facilitadora ou complicadora dos
relacionamentos que se estabelecem com os que querem aprender conosco. Se gostamos de aprender, facilitamos o desejo de que os
outros aprendam. Se mostramos uma visão confiante e equilibrada da vida, facilitamos nos outros a forma de lidar com seus problemas,
mostramos que é possível avançar no meio das dificuldades. Alguns educadores
confundem visão crítica com pessimismo estrutural; eles só transmitem aos
alunos visões negativistas e desanimadoras da realidade. Esse substrato
pessimista interfere profundamente na visão dos alunos.
Da mesma forma, educadores
com credibilidade e uma visão construtiva da vida contribuem muito para que os
alunos se sintam motivados a continuar, a querer aprender, a aceitar-se melhor.
O educador é um ser
complexo e limitado, mas sua postura pode contribuir para reforçar que vale a
pena aprender, que a vida tem mais aspectos positivos que negativos,
que o ser humano está evoluindo, que pode realizar-se cada vez mais.
Pode ser luz no meio de visões derrotistas, negativistas, muito enraizadas em
sociedades dependentes como a nossa.
Vejo hoje o educador como
um orientador, um sinalizador de possibilidades onde ele também está envolvido,
onde ele se coloca como um dos exemplos das contradições e da capacidade de
superação que todos possuem.
O educador é um testemunho
vivo de que podemos evoluir sempre, ano após ano, tornando-nos mais humanos,
mostrando que vale a pena viver.
Numa sociedade em mudança
acelerada, além da competência intelectual, do saber específico, é importante
termos muitas pessoas que nos sinalizem com formas concretas de compreensão do
mundo, de aprendizagem experimentada de novos caminhos, de testemunhos vivos
–embora imperfeitos- das nossas imensas possibilidades de crescimento em todos
os campos.
Cada vez mais precisamos de educadores-luz, sinalizadores de caminhos, testemunhos vivos de formas concretas de realização humana, de integração progressiva, seres imperfeitos que vão evoluindo, humanizando-se, tornando-se mais simples e profundos ao mesmo tempo.
A aprendizagem de ser educador
O educador é especialista
em conhecimento, em aprendizagem. Como especialista, espera-se que ao longo dos
anos aprenda a ser um profissional equilibrado, experiente, evoluído; que
construa sua identidade pacientemente, equilibrando o intelectual, o emocional,
o ético, o pedagógico.
O educador pode ser
testemunha viva da aprendizagem continuada. Testemunho impresso na sua pele e
personalidade de que evolui, aprende, se humaniza, se
torna uma pessoa mais aberta, acolhedora, compreensiva.
Testemunha viva, também,
das dificuldades de aprender, das dificuldades em mudar, das contradições no
cotidiano; de aprender a compreender-se e a compreender.
Com o passar do tempo ele
vai mostrando uma trajetória coerente, de avanços, de sensatez e firmeza. Passa
por etapas em que se sente perdido, angustiado, fora de foco. Retoma o rumo,
depois, revigorado, estimulado por novos desafios, pelo contato com seus
alunos, pela vontade de continuar vivendo, aprendendo, realizando-se e
frustrando-se, mas mantendo o impulso de avançar.
Há momentos em que se sente
perdido, desmotivado. Educar tem muito de rotina, de repetição, de decepção. É
um campo cada vez mais tomado por investidores, por pessoas que buscam lucros
fáceis. Ele se sente parte de uma máquina, de uma engrenagem que cresce
desproporcionalmente. Sente-se insignificante, impotente, um número que pode
ser substituído por muitos jovens ansiosos pelo seu lugar. Sabe que sua
experiência é importante, mas também que outros estão dispostos a assumir o seu
lugar por salários menores.
Ensinar tem momentos “glamourosos”, em que os alunos participam, se envolvem, trazem contribuições
significativas. Mas muitos outros momentos são banais; parece que nada
acontece. É um entra e sai de rostos que se revezam no mesmo ritmo semanal de
aula, exercícios, mais aulas, provas, correções, notas, novas aulas, novas
atividades.... A rotina corrói uma parte do sonho, a
engrenagem despersonaliza; a multiplicação de instituições escolares torna
previsíveis as atividades profissionais. Há um aumento de oferta profissional
(mais vagas para ser professor), junto com uma diminuição das exigências para a
profissão (mais fácil ter diploma, muitos estudantes em fase final são
contratados, aumenta a concorrência). A tentação da mediocridade é real. Basta
ir tocando para ficar anos como docente, ganhar um salário seguro, razoável. Os
anos vão passando e quando o professor percebe já está na fase madura e se
tornou um professor acomodado.
Apesar de que cada docente
tem sua trajetória, há pontos da evolução profissional coincidentes. Relato a
seguir uma síntese de questões que costumam acontecer – com muitas variáveis -
na trajetória de muitos professores, a partir da minha experiência.
Primeira etapa:
iniciação
No começo recém formado, começa
a ser chamado para substituir um professor em férias, uma professora em licença
maternidade, dá algumas aulas no lugar de professores ausentes. Ele ainda se
confunde com o aluno, intimamente se sente aluno, mas percebe que é visto pelos
alunos como uma mistura de professor e aluno. Ele luta para se impor, para
impressionar, para ser reconhecido. Prepara as aulas, traz atividades novas, se
preocupa em cativar os alunos, em ser aceito. Sente medo de ser ridicularizado
em público com alguma pergunta impertinente ou muito difícil. Tem medo dos que
o desafiam, dos alunos que não ligam para as suas
aulas, dos que ficam conversando o tempo todo. Procura ser inovador, e, ao
mesmo tempo, percebe que reproduz algumas formas de ensinar que via como aluno, algumas até que criticava. É uma etapa de
aprendizagem, de insegurança, de entusiasmo e de muito medo de fracassar. O
tempo passa, os alunos vão embora, chegam outros em outro semestre e o processo
recomeça. Agora já tem uma noção mais clara do que o espera; planeja com mais
segurança o novo semestre, repete alguns macetes que deram certo no primeiro
semestre, busca alguns textos diferentes, inova um pouco, faz uma síntese do
que deu certo antes. Vê que algumas atividades funcionam sempre e outras não
tanto. Descobre que cada turma tem comportamentos semelhantes, mas que reage de
forma diferente às mesmas propostas e assim vai, por tentativa e erro,
aprendendo a diversificar, a desenvolver um “feeling” de como está cada classe,
de quando vale a pena insistir na aula teórica planejada e quando tem que
introduzir uma nova dinâmica, contar uma história, passar um vídeo, encurtar o
fim da aula, etc.
Segunda etapa:
consolidação
De semestre em semestre o
jovem professor vá consolidando o seu jeito de ensinar, de lidar com os alunos,
as áreas de atuação. Consegue ter maior domínio de todo o processo. Isso lhe dá
segurança, tranqüilidade. Os colegas e coordenadores vão indicando-o para novas
turmas, novas disciplinas, novas instituições. Multiplica o número de aulas.
Aumenta o número de alunos. É freqüente, no ensino superior particular, um
professor ter entre mais de quinhentos alunos por semana. Compra um
apartamento. Forma uma família. Vira um tocador de aulas. Cada vez precisa
aumentar mais o número de aulas, para manter a renda.
Desenvolve algumas fórmulas
para se poupar. Repete o mesmo texto em várias turmas e, às vezes,
Terceira etapa: Crise de
identidade
Sempre há alguma crise, mas
esta é diferente: pega o professor de cheio. Aos poucos o dar aula se torna
cansativo, repetitivo, insuportável. Parece que alguns coordenadores são mais
“chatos”, “pegam mais no pé”. Algumas turmas também não querem nada com nada.
As reuniões de professores são todas iguais, pura perda de tempo. Os salários são baixos. Outros colegas mostram que ganham mais
em outras profissões. Renova-se a dúvida: vale a pena ficar como está ou dar
uma guinada profissional?
Por enquanto vai tocando.
Torce para que haja muitos feriados, para que os alunos não venham
Muitas vezes essa crise
profissional vem acompanhada de uma crise afetiva. O relacionamento a dois não
é o mesmo, passa pela indiferença ou pela separação. Sente-se intimamente
bastante só, apesar das aparências. E em algum momento a crise bate mais fundo:
o que é que eu faço aqui? Qual é o sentido da minha vida? Tem tanta gente que
sabe menos e está melhor! Como defender uma sociedade mais justa num país onde
só os mesmos ficam mais e mais ricos?
Olha para trás e vê muitos
recém formados doidos para entrar a qualquer jeito, ganhando menos do que ele.
E esses moleques petulantes têm outra linguagem, dominam mais a Internet, estão
cheios de gás. Embora faça cursos de atualização, sente-se em muitos pontos
ultrapassado. Sempre foi preparado para dar respostas, para ser o centro do
saber e agora descobre mais claramente que não tem certezas, que cada vez sabe
menos, que há muitas variáveis para uma mesma questão e que novas pesquisas
questionam verdades que pareciam definitivas. Essa sensação de estar fora do
lugar, de inadequação vai aumentando e um dia explode. A crise se generaliza.
Nada faz sentido. A depressão toma conta dele. Não tem mais vontade de
levantar, chega atrasado. Justifica cada vez mais suas faltas.
Quarta etapa: mudanças
Diante da crise, alguns
professores desistem, entregam a toalha. Procuram algumas saídas, mesmo que
precárias: festas, um caso, bebida, algumas viagens. Depois vão se acalmando,
dizem: a vida é assim mesmo; “vou tocar a vida o melhor que puder e seguir
enfrente”.
Alguns procuram uma nova
atividade profissional mais empolgante e deixam as aulas como complemento, como “bico”.
Ele procura refletir sobre
sua vida profissional e pessoal. Tenta encontrar caminhos, reaprender a
aprender. Atualiza-se, observa mais, conversa, medita. Aos poucos busca uma
nova síntese, um novo foco. Começa pelo externo, por estabelecer um
relacionamento melhor com os alunos, procura escutá-los mais. Prepara melhor as
aulas, utiliza novas dinâmicas, novas tecnologias. Lê novos autores, novas filosofias. Reflete mais, medita.
Descobre que precisa se gostar mais, aceitar-se melhor, ser mais humilde e
confiante. E assim, pouco a pouco, redescobre o prazer de ler, de aprender, de
ensinar, de viver. Está mais atento ao que acontece ao seu lado e dentro de si.
Procura simplificar a vida, consumir menos, relaxar mais. Vê exemplos de
pessoas que envelhecem motivados para aprender e isso lhe é um estímulo para o
futuro, para seguir adiante, para renovar-se todos os
dias. Torna-se mais humano, acolhedor, compreensivo, tolerante, aberto. Dialoga
mais, ouve mais, presta mais atenção. Com o assar do tempo percebe que não é
perfeito, mas que tem evoluído muito e que redescobriu o prazer de ensinar e de
viver.
“Sinto-me como alguém que envelhece
crescendo” (Rogers)[1]
Esta é a atitude maravilhosa de quem
gosta de aprender. O aprender dá sentido à vida, a todos os momentos da vida,
mesmo quando ela está no fim.
Aprendi com Rogers a sentir prazer em aprender, e a perceber que podemos envelhecer vivenciando a
alegria de aprender com mais profundidade, descobrindo novas perspectivas,
idéias, pessoas. Sinto que muitas pessoas aprendem por necessidade, para
sobreviver, para não ficar para trás, para ganhar dinheiro. Quando se
aposentam, costumam aposentar-se também de aprender. E perdem uma das grandes
motivações de viver. Tornam-se previsíveis, repetitivos.
Essa atitude de gostar de aprender não se
improvisa. Vai se desenvolvendo ao longo da vida, a partir de experiências
positivas na infância, em casa e na escola. Se a escola incentiva a curiosidade, a descoberta, o aluno desenvolve o gosto por
ler, por ir além do exigido, pesquisa por si mesmo e vai atrás de novos
conhecimentos.
Por que, nas mesmas
escolas, nas mesmas condições, com a mesma formação e os mesmos salários, uns
professores são bem aceitos, conseguem atrair os alunos e realizar um bom
trabalho no ofício de ajudar os alunos a aprender?
Não há uma única forma ou
modelo. Depende muito da personalidade, competência, facilidade de aproximar e
gerenciar pessoas. Uma das questões que determina o sucesso profissional maior
ou menor do professor é a capacidade de relacionar-se, de comunicar-se, de
motivar o aluno de forma constante e competente. Alguns professores conseguem
uma mobilização afetiva dos alunos pelo seu magnetismo, simpatia, capacidade de
sinergia, de estabelecer um “rapport”, uma sintonia interpessoal grande. É uma
qualidade que pode ser desenvolvida, mas alguns a possuem em grau superlativo,
a exercem intuitivamente e facilita todas as atividades propostas.
Uma das formas de
estabelecer vínculos é mostrar genuíno interesse pelos alunos. Os professores
de sucesso não se preparam para o pior, mas para o melhor nos seus cursos.
Preparam-se para desenvolver um bom relacionamento com os alunos e para isso os
aceitam afetivamente antes de os conhecerem, se predispõem a gostar deles antes
de começar um novo curso. Essa atitude positiva é captada consciente e inconscientemente
pelos alunos que reagem da mesma forma, dando-lhes crédito, confiança,
expectativas otimistas. O contrário também acontece: professores que se
preparam para a aula como uma batalha, que estão cheios, cansados de dar aula
passam consciente e inconscientemente esse mal-estar que é correspondido com a
desconfiança dos alunos, com o distanciamento, com barreiras nas expectativas.
É muito tênue o que fazemos
em aula para facilitar a aceitação ou provocar a rejeição. É um conjunto de
intenções, gestos, palavras, ações que são traduzidos pelos alunos como
positivos ou negativos, que facilitam a interação, o desejo de participar de um
processo grupal de aprendizagem, de uma aventura pedagógica (desejo de
aprender) ou, pelo contrário, levantam barreiras, desconfianças, que
desmobilizam.
O
sucesso pedagógico depende também da capacidade de expressar competência
intelectual, de mostrar que conhecemos de forma pessoal
determinadas áreas do saber, que as relacionamos com os interesses dos
alunos, que podemos aproximar a teoria da prática e a vivência da reflexão
teórica.
A coerência entre o que o
professor fala e o que faz, como vive é um fator
importante para o sucesso pedagógico. Se um professor une a competência
intelectual, a emocional e a ética causa um profundo impacto nos alunos. Estes
estão muito atentos à pessoa do professor, não somente ao que fala. A pessoa
fala mais que as palavras. A junção da fala competente com a pessoa coerente é poderosa.
As técnicas de comunicação
também são importantes para o sucesso do professor. Um professor que fala bem,
que conta histórias interessantes, que tem feeling para sentir o estado de ânimo da classe, que se adapta às circunstâncias, que
sabe jogar com as metáforas, o humor, que usa as tecnologias adequadamente, sem
dúvida consegue bons resultados com os alunos. Os alunos gostam de um professor que os surpreenda, que
traga novidades, que varie suas técnicas e métodos de organizar o processo de
ensino-aprendizagem.
Ensinar
sempre será complicado pela distância profunda que existe
entre adultos e jovens. Por outro lado, essa distância nos torna
interessantes, justamente porque somos diferentes. Podemos aproveitar a
curiosidade que suscita encontrar uma pessoa com mais experiência, realizações
e fracassos. Um dos caminhos de aproximação ao aluno é pela comunicação pessoal de vivências, estórias, situações que o aluno ainda
não conhece em profundidade. Outro é o da comunicação afetiva, da aproximação
pelo gostar, pela aceitação do outro como ele é e encontrar o que nos une, o que nos
identifica, o que temos em comum. Um professor que se mostra competente e
humano, afetivo, compreensivo atrai os alunos. Não é a tecnologia que resolve
esse distanciamento, mas pode ser um caminho para a aproximação mais rápida:
valorizar a rapidez, a facilidade com que crianças e jovens se expressam
tecnologicamente ajuda a motivar os alunos, a que queiram se envolver mais. Podemos aproximar nossa linguagem da deles, mas sempre será
muito diferente. O que facilita são as entrelinhas da comunicação lingüística:
a entonação, os gestos aproximadores, a gestão de processos de participação e
acolhimento, dentro dos limites sociais e acadêmicos possíveis.
O educador não precisa ser “perfeito”
para fazer um grande trabalho. Fará um grande trabalho na medida em que se
apresenta da forma mais próxima ao que ele é naquele momento, que se “revela”
sem máscaras, jogos. Quando se mostra como alguém que está atento a evoluir, a
aprender, a ensinar e a aprender. O bom educador é um
otimista, sem ser ‘ingênuo”. Consegue “despertar”, estimular, incentivar
as melhores qualidades de cada pessoa.
Como em outras profissões
há uma distância entre os sonhos e a realidade. No começo, recém formados, os
jovens professores compensam com o entusiasmo a falta de experiência e de
formação nos métodos e técnicas de comunicação em sala de aula, de gestão do
processo de ensino-aprendizagem.
Aos poucos vão assumindo
novas turmas, trabalhando em duas ou três escolas para poder ter um salário
decente e o ensinar vai tornando-se sua profissão, seu ofício um ano após o
outro, uma profissão segura e previsível.
Com o tempo, domina os
macetes, procura dosar as energias para chegar até o fim da jornada, escolhe
turmas melhores, procura facilitar as tarefas de avaliação para não demorar
tanto na correção de atividades.
A profissão do professor
vira rotina, repetição, os semestres e os anos vão passando, tudo parece que se repete e costumam, muito deles, passar pelo período de
saturação: tudo incomoda, ensinar parece tedioso, improdutivo; consultam o
calendário olhando os feriados, as pontes sem aula, os domingos a noite cada
vez mais deprimentes, calculam o tempo que lhes falta para aposentadoria.
Uma parte dos professores
continua sua rotina a caminho da mediocridade. Fazem cursos de atualização para
ganhar pontos, melhorar o salário, mas pouco mudam na
sua prática pedagógica. Outros, insatisfeitos, procuram formas de melhorar, de
evoluir. Inscrevem-se em novos cursos, procuram melhorar suas aulas, se
preocupam mais com os alunos, introduzem novas tecnologias nas classes, novas
técnicas de comunicação.
Tem professores que se
burocratizam na profissão. Outros se renovam com o tempo, se tornam pessoas
mais humanas, ricas e abertas. As chances são as mesmas, os cursos feitos, os
mesmos; os alunos, também são iguais. A
diferença é que uma parte muda de verdade, busca novos caminhos e a outra se
acomoda na mediocridade, se esconde nos ritos repetidos. Muitos professores se
arrastam pelas salas de aula, enquanto outros, nas mesmas circunstâncias,
encontram forças para continuar, para melhorar, para realizar-se.
Não tem programas de
formação, de atualização que dêem certo se os professores não se motivam para
melhorar, se não estão dispostos a crescer, aprender, evoluir.
Quando
pensamos em educação costumamos pensar no outro, no aluno, no aprendiz e
esquecer como é importante olharmo-nos os que somos profissionais do ensino
como sujeitos e objetos também de aprendizagem. Ao focarmo-nos como aprendizes,
muda a forma de ensinar. Se me vejo como aprendiz, antes do que professor, me coloco numa atitude mais atenta, receptiva, e
tenho mais facilidade em estar no lugar do aluno, de aproximar-me a como ele
vê, a modificar meus pontos de vista.
A atitude primeira do
educador profissional em perceber-se como aprendiz o torna atento ao que
acontece ao seu redor, sensível às informações do ambiente, dos outros. Preciso
colocar-me junto com o aluno como professor-ensinante e professor-aprendiz. Parece
óbvio ou só um jogo de palavras, mas não o é e a mudança de atitude tem grandes
conseqüências. Se me coloco, como professor, sempre e somente
no lugar do aluno, trabalho com informações úteis para o aluno, adquiro
uma grande capacidade de senti-lo, de adaptar a minha linguagem, de sintonizar
com suas aspirações e isso é bom. Se eu, ao mesmo tempo, que penso no aluno,
também me penso como aluno, além de adaptar-me ao outro, eu estou aprendendo
junto, estou fazendo a ponte entre informação, conhecimento e sabedoria, entre
teoria e prática, entre conhecimento adquirido e o novo. Com um olho vejo o
aluno, como o outro me enxergo como aluno-professor. O que estou propondo é ampliar o foco da
relação para não colocar-me só na posição de professor e sim na de aluno/professor
com mais intensidade.
Quais são as conseqüências? Se aprendo mais, de verdade, se incorporo a
aprendizagem para o outro à aprendizagem também para mim, evoluirei mais
rapidamente, entenderei melhor os mecanismos de aprender, as dificuldades, os
conflitos pessoais e os dos meus alunos. Se eu aprendo mais e melhor, só me
falta pensar como encontrar o caminho para comunicar-me com os alunos, como ser
mediados entre onde me encontro e onde eles se encontram.
Roteiros previsíveis e semi-desconhecidos
Se me coloco como professor
que aprende e não só que ensina, viverei duas situações interligadas, mas
diferentes. Em muitas ocasiões, me coloco diante dos alunos como alguém que já conhece, que já percorreu o caminho anteriormente e que quer
ajudar os alunos a fazer essa travessia. Ensinar o que já conhecemos é o que
fazemos quando transmitimos nossas experiências, vivências, exemplos,
situações, leituras. Como pessoa mais experiente, espera-se que ajude os alunos
nesta travessia.
Mas há momentos e situações
que escapam mais ao meu controle, nas quais me vejo também vivendo como
aprendiz, que eu começo a enxergar de uma outra forma, sem ainda ter feito todo
o percurso de antemão. Nesta situação, sou um professor que está aprendendo e,
ao mesmo tempo, mostrando o processo de aprender enquanto acontece e não só o
resultado, como um processo plenamente dominado. É uma outra forma e situação
que hoje enfrentamos com freqüência e que é rica também para o aluno.
Com um exemplo ficará mais
fácil visualizar o que estou dizendo. Se eu já conheço Madri e Barcelona, ao
vivo e por leituras, posso ser guia dos meus alunos, ajudá-los a escolher os
melhores pontos turísticos para visitar, darei informações mais precisas sobre
o que estamos vendo. O meu conhecimento prévio me torna um informante e
mediador confiável. Isso me dá segurança e confere segurança também aos alunos:
temos um guia conhecedor e confiável.
Mas há outros momentos em
que posso fazer um convite aos alunos e dizer-lhes: Vamos viver uma aventura?
Vamos todos juntos para uma cidade desconhecida, fazer um caminho diferente,
que eu ainda não percorri? Apesar da minha experiência como
viajante-conhecedor, agora há elementos que me escapam, há conhecimentos que
preciso atualizar rapidamente, haverá um maior número de surpresas, os alunos
poderão trazer informações significativas que eu desconheço. Nesta última
situação eu aprendo junto muito mais, embora possa cometer alguns erros de
percurso, me perder em alguns momentos, ficar em dúvida sobre quais escolhas são as mais acertadas. E os alunos, sendo co-responsáveis
pelo processo, também estarão mais motivados e darão contribuições mais
significativas.
Se eu me coloco como um
professor-aprendiz e não só como um especialista em viagens, proporei aos
alunos novos caminhos, novos desafios, e não só roteiros previsíveis. Os roteiros previsíveis dão segurança, nos tranqüilizam, mas, na
segunda ou terceira vez, já perdem a graça. Muitos professores se comportam
como guias turísticos que fazem sempre os mesmos roteiros, repetem as mesmas
falas, percorrem cada semestre os mesmos percursos. Na décima viagem, será
muito difícil estar empolgado, a não ser fazendo um esforço, conscientizando-me
de que é minha atividade profissional e represento o papel da descoberta, mas
não a vivencio. Somente os alunos podem vivenciá-la, se para eles realmente é
uma descoberta, se eles já não tinham estado antes em outra excursão ou por si
mesmos. Se eu sou professor-aprendiz, mesmo que conheça os roteiros, estarei
atento a novos detalhes, novas informações, novos caminhos. Criarei estratégias
de motivação diferentes, farei entrevistas com pessoas que não conheço. Dentro
da previsibilidade do roteiro, farei inúmeras variações (porque eu também estou
aprendendo junto).
Se sou um professor-aprendiz
inovador posso combinar roteiros previsíveis, trilhados com diferentes
estratégias e caminhos, com roteiros semi-desconhecidos onde eu não sou tão
especialista e em que proponho que o grupo esteja mais atento para aprendermos
juntos, para utilizar todas as experiências prévias de todos, para trocar mais
informações. Sem dúvida é mais arriscado, mas mais excitante.
Numa sociedade como a
nossa, com tantas mudanças, rapidez de informações e desestruturação de
certezas, não podemos ensinar só roteiros seguros,
caminhos conhecidos, excursões programadas. Precisamos arriscar um pouco mais,
navegar juntos, trocar mais informações, apoiados no guia um pouco mais
experiente, mas que não tem todas as certezas, porque elas não existem como
antes se pensava.
Muitos transformam a
educação em uma agência de viagens, com roteiros pré-programados, previsíveis.
É, sem dúvida, mais seguro, fácil para todos e confortável. Hoje é insuficiente
esse modelo. Precisamos combiná-lo com roteiros semi-previsíveis,
semi-estruturados, com pontos de apoio sólidos, mas com muitos momentos livres
para permitir escolhas personalizadas e com outros de aventura, onde todos nos
sintamos empolgados e efetivamente participantes de uma aprendizagem coletiva.
O que é importante para ser professor
hoje
Algumas diretrizes são importantes para o professor que quer ser excelente profissional:[2]
· Crescer profissionalmente, atento a mudanças e aberto à atualização.
· Conhecer a realidade econômica, cultural, política e social do país, lendo atenta e criticamente jornais e revistas impressos e na Internet.
· Participar de atividades e projetos importantes da escola
· Escolher didáticas que promovam a aprendizagem de todos os alunos, evitando qualquer tipo de exclusão e respeitando as particularidades de cada aluno, como sua religião ou origem étnica.
· Orientar a prática de acordo com as características e a realidade dos alunos, do bairro, da comunidade.
· Participar como profissional das associações da categoria e lutar por melhores salários e condições de trabalho.
· Utilizar diferentes estratégias de avaliação de aprendizagem — os resultados são a base para você elaborar novas propostas pedagógicas. Não há mais espaço para quem só sabe avaliar com provas.
Cada um de nós vai
construindo sua identidade com pontos de apoio que considera
fundamentais e que definem as suas escolhas. Cada um tem uma forma
peculiar de ver o mundo, de enfrentar situações inesperadas. Filtramos tudo a
partir de nossas lentes, experiências, personalidade, formas de perceber,
sentir e avaliar a nós mesmos e aos outros.
Uns precisam viver em um ambiente super-organizado e não conseguem produzir se houver
desordem, enquanto outros não dão a mínima para a bagunça ou fazem dela um hábito.
Uns precisam de muita antecedência para realizar uma tarefa,
enquanto outros só produzem sob a pressão do
último momento.
Na construção da nossa
identidade é importante como nos vemos, como nos
sentimos, como nos situamos em relação aos outros. Muitos fomos educados para
depender da aprovação dos demais, fazemos as coisas pensando mais em agradar os
outros do que no que realmente desejamos.
Todos
experimentamos inúmeras formas de comparação, ficamos em segundo plano, fomos deixados de
lado, sofremos todo tipo de perdas e isso interfere na nossa auto-imagem.
Sempre
nos colocam modelos inatingíveis de beleza, de riqueza, de sucesso, de
realização afetiva. É intensa a pressão social para que nos sintamos infelizes, diminuídos em
alguns pontos ou para que nos contentemos com pouco.
Muitos permanecem
imobilizados pelo medo do julgamento alheio, pelo medo de falhar. Vivem para
fora, para serem queridos, aceitos. E sem essa aceitação se sentem mal, se
escondem fisicamente ou através de formas de comunicar-se pouco autênticas, desenvolvendo papéis para consumo externo.
Internamente – mesmo quando
aparentemente o negamos – temos consciência de que somos frágeis,
contraditórios, inconstantes e, em alguns campos, inferiores a outros.
A grande questão é que, intimamente, muitos não se gostam
de verdade,
não se aceitam plenamente como são, duvidam
do seu valor, tentam justificar seus problemas, procuram formas de compensação, de aprovação.
Boa parte
dos nossos descaminhos, das nossas dificuldades, perdas e problemas advém do medo de sermos felizes, de acreditar
no nosso potencial.
Ficamos marcando passo por
sentir-nos inseguros, por incorporar tantas injunções negativas, acomodadoras, medíocres.
Essa construção da nossa
identidade que fomos realizando tão penosamente não a podemos modificar
magicamente. Podemos, contudo, aprender a ir modificando alguns processos de
percepção, emoção e ação.
É importante reconhecer nossas
qualidades, valorizá-las, destacá-las e buscar formas de colocá-las em prática,
escolhendo situações em que elas sejam mais testadas e necessárias. Estar
atentos ao que acontece e ir antecipando-nos, prevendo, testando, avaliando.
Somos chamados a realizar grandes vôos.
Podemos ir muito além de onde estamos e de onde imaginamos e de onde os outros
nos percebem.
Podemos modificar nossa
percepção, aprendendo a aceitar-nos e a gostar plenamente de nós, a aceitar-nos
plenamente, intimamente como somos,
sem comparações nem desvalorizações, quando
ninguém nos vê,
quando não temos que representar para alguém e
ir adiante, no nosso ritmo, acreditando no nosso potencial.
Para mudar o mundo podemos
começar mudando a nossa visão dele, de nós. Ao mudar nossa visão das coisas,
tudo continua no mesmo lugar, mas o sentido muda, o contexto se altera.
Em geral não é preciso ir
morar em outro ambiente, em outra cidade, mas descobrir novas formas de olhar e
de compreender as pessoas, os ambientes com as que convivemos.
Construímos a vida sobre
fundamentos autênticos ou falsos. As construções em falso são como andaimes ou
contrapesos para segurar uma parte do prédio que pode vir abaixo, cair.
Procuramos esconder – até de nós mesmos - o lado negativo, o que anos incomoda, o que não gostamos.
Quanto mais muros de
contenção, duplas paredes, contrafortes criamos,
Quanto mais estruturas paralelas levantamos, menos evoluímos a longo
prazo, menos nos realizamos.
As pessoas podem criar
obras incríveis, maravilhosas em qualquer setor e, mesmo assim, girar em falso,
estarem construindo superestruturas paralelas.
Se o que nos leva a
realizar coisas é a necessidade de reconhecimento, de aceitação, de ser
queridos, o foco está distorcido e poderemos estar agindo a vida toda em falso.
Se eu preciso
necessariamente da aprovação de alguém para sentir-me bem, na mesma medida
deixo de aceitar-me, de gostar-me, de integrar-me. Eu me volto na direção do
outro, o coloco como eixo e começo a girar em falso. E quanto mais insisto
nesse padrão e direção, mais me afasto do meu centro, mais energia
preciso gastar, mais peso e superestrutura acumular. Posso ser
reconhecido e não evoluir nem ser feliz.
Creio que a grande maioria
das pessoas se agita muito, faz mil atividades, mas não foca o essencial. Chega
quase lá, mas lhe falta a atitude de total sinceridade
consigo, de permitir-se o desvendamento de tudo o que é e carrega
consigo. Espera a sua realização dos outros, de ser reconhecido por eles.
Hoje dá-se muita ênfase às profissões onde há visibilidade, de divulgação, de marketing,
que propiciam ser reconhecido como as de modelo, ator, esportista,
televisão...). Muitos buscam a TV, ser entrevistados, aparecer em comunas de
jornais. Em si isso é bom, mas a atitude pode atrapalhar. Precisam de reconhecimento social como condição
fundamental para sentir-se bem. São felizes se e quando aparecem, quando
são solicitados, quando estão em evidência.
É bom ser chamado, mas não
posso depender disso, não posso ser infeliz se não me chamam nem focar minha
vida em função do reconhecimento público. Se vier, ótimo, o aceitarei com
prazer, mas não estarei ansioso pelo sucesso, pela aprovação, por ser
reconhecido. Continuo minha vida focando a aceitação, a mudança possível e a
interação tranqüila com as pessoas e atividades que em cada etapa possuem
significado e que me ajudam a crescer.
A
comunicação autêntica estabelece conexões significativas na relação com o
outro. Desarma as resistências e provoca, geralmente, uma resposta positiva,
ativa, e desarmada dele. Em contrapartida, a comunicação agressiva gera reações
semelhantes no outro e pode complicar todo o processo subseqüente.
A
cada dia confirmo mais a importância de termos mais e mais pessoas na sociedade
e especificamente na educação que sejam capazes de relacionar-se de forma
aberta com os outros, que facilitem a comunicação com os colegas, alunos, administração
e famílias. Pessoas maduras emocionalmente, que saibam gerenciar os conflitos
pessoais e grupais; que tenham suficiente flexibilidade para compreender
diferentes pontos de vista, e intuição para aproximar-se de forma adequada a
diferentes pessoas e formas de viver.
Necessitamos
urgentemente dessas pessoas para mudar o enfoque fundamental das práticas
educacionais, para vivenciar práticas mais ricas, abertas e significativas de
comunicação pedagógica inovadora, profunda, criativa, progressista.
Descubro,
com satisfação, que mais e mais pessoas estão ou mudando ou querendo mudar.
Isso é um excelente sinal de que é possível realizar um grande trabalho na
educação brasileira. Vamos concentrar-nos nestes grupos que estão prontos para
o novo, que procuram aprender, que estão dispostos a avançar, a experimentar
formas mais profundas de comunicação pessoal e tecnológica.
Temos
um longo trabalho, no campo político, de implementar ações estruturais de apoio à mudança integrada, que contemple currículo, processos
de comunicação e tecnologias. Podemos ir incentivando as pessoas, grupos e
instituições que estão buscando soluções novas e sérias em educação. Na
universidade podemos dar subsídios teóricos e pedagógicos para essa mudança.
[1] Um jeito de ser, p.33.
[2] Adaptado de Denise PELLEGRINI. O ensino mudou e você?. Revista Nova Escola. Ed. 131, abril, 2000. Disponível em:http://novaescola.abril.uol.com.br/ed/131_abr00/html/cresca.htm
Este texto meu foi publicado no livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, p. 73-86.