Educação e Tecnologias: Mudar para
valer!
José Manuel Moran
Especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância
As tecnologias são só apoio, meios. Mas elas
nos permitem realizar atividades de aprendizagem de formas diferentes às de
antes. Podemos aprender estando em juntos em lugares distantes, sem precisamos
estar sempre juntos numa sala para que isso aconteça.
Muitos expressam seu receio de que o virtual e as atividades a distância sejam um pretexto para baixar o nível de ensino,
para aligeirar a aprendizagem. Tudo depende de como for feito. A qualidade não
acontece só por estarmos juntos num mesmo lugar, mas por estabelecermos ações
que facilitem a aprendizagem. A escola continua sendo uma referência
importante. Ir até ela ajuda a definir uma situação oficial de aprendiz, a
conhecer outros colegas, a aprender a conviver. Mas, pela inércia diante de
tantas mudanças sociais, ela está se convertendo em um lugar de confinamento,
retrógrado e pouco estimulante.
O conviver virtual vai tornar-se quase tão importante como o conviver
presencial. A escola precisa de uma sacudida, de um choque, de arejamento. Isso
se consegue com uma gestão administrativa e pedagógica mais flexível, com
tempos e espaços menos predeterminados, com modos de acesso a
pesquisa e de desenvolvimento de atividades mais dinâmicas.
Passando pelos corredores das salas das universidades, o que se vê é
quase sempre uma pessoa falando e uma classe cheia de alunos semi-atentos (na
melhor das hipóteses). A infra-estrutura é deprimente. Salas barulhentas, a voz
do professor mal chega aos que estão mais distantes.
Conseguir um datashow na maioria delas é uma tarefa inglória. Muitas vezes
existe um único equipamento para um prédio inteiro.
É hora de partir para soluções mais adequadas para o aluno de hoje. Os adultos mantemos o status quo,
em nome da qualidade, mas na verdade nos apavoramos diante da mudança, do risco
do fracasso. Mas o fracasso não está bem na nossa frente? Quantos alunos iriam
a nossas aulas se não fossem obrigados? Há maior fracasso do que este?
A escola pode ser um espaço de
inovação, de experimentação saudável de novos caminhos. Não precisamos romper
com tudo, mas implementar mudanças e supervisioná-las com equilíbrio e
maturidade.
Manter o currículo e as normas, tal como estão, na prática é
insustentável. As secretarias de educação precisam ser mais proativas
e incentivar mudanças, flexibilização, criatividade.
Professores, alunos e administradores podem avançar muito mais em
organizar currículos mais flexíveis, aulas diferentes. A rotina, a repetição, a
previsibilidade é uma arma letal para a aprendizagem. A monotonia da repetição
esteriliza a motivação dos alunos.
São muitos os recursos a nossa disposição para aprender e para
ensinar. A chegada da Internet, dos programas que gerenciam grupos e
possibilitam a publicação de materiais estão trazendo possibilidades
inimagináveis vinte anos atrás. A resposta dada até agora ainda é muito tímida,
deixada a critério de cada professor, sem uma política institucional mais
ousada, corajosa, incentivadora de mudanças. Está mais do que na hora de
evoluir, modificar nossas propostas, aprender fazendo.
O sistema bimodal – parte presencial e parte
a distância - se mostra o mais promissor para os alunos da quinta série em
diante. Reunir-nos em uma sala e reunir-nos através de uma rede são os caminhos
da educação em todos os níveis, com diferentes ênfases. As crianças precisam
ficar muito mais tempo juntas do que conectadas. Mas à medida que vão
crescendo, o nível de interação a distância deve aumentar progressivamente.
Hoje obrigamos os alunos a ir a um local para aprender. Em
determinados momentos isso é um contra-senso. O importante é que gostem de
aprendem de várias formas, motivados, utilizando as potencialidades de estar juntos e de estar em rede. Os alunos gostam da
comunicação online, da pesquisa instantânea,
de tudo o que acontece just in time,
naquele momento. As salas de aula precisam estar equipadas com acesso a
Internet para mostrar rapidamente o resultado de uma pesquisa em tempo real na
sala. Os alunos necessitam de mais laboratórios conectados, principalmente os
mais carentes, sem esse acesso em casa.
Para alunos com acesso a Internet é possível realizar uma parte do processo
de aprendizagem a distância/conectados.
E os alunos sem esse acesso poderiam fazer essas mesmas atividades nos
laboratórios.
Todos os que estamos envolvidos em educação precisamos conversar,
planejar e executar ações pedagógicas inovadoras, com a devida cautela, aos
poucos, mas firmes e sinalizando mudanças. Sempre haverá professores que não
querem mudar, mas uma grande parte deles está esperando novos caminhos, o que
vale a pena fazer. Se não os experimentamos, como vamos a aprender?
Não basta tentar remendos com as atuais
tecnologias. Temos quer fazer muitas coisas diferentemente. É hora de mudar de
verdade e vale a pena fazê-lo logo, chamando os que estão dispostos,
incentivando-os de todas as formas – entre elas a financeira – dando tempo para
que as experiências se consolidem e avaliando com equilíbrio o que está dando
certo. Precisamos trocar experiências, propostas, resultados.