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Nem Tudo a Ver José Manuel Moran A TV Globo suscita no mundo acadêmico um misto de admiração contida e de rejeição. De admiração, pela sua competência - num país de Terceiro Mundo - em tornar-se a rede de comunicação mais poderosa do País e um conglomerado de negócios altamente lucrativo e em contínua expansão. Desperta admiração também porque não é fácil manter-se como líder nos últimos 25 anos pela telenovelas, minisséries, e pela popularidade do Jornal Nacional, um programa que se mantém, desde 1969, entre os quatro programas de maior audiência. A Globo também provoca muita rejeição e críticas pelas estreitas alianças que sempre manteve com os que estão no poder, principalmente durante regime militar, por privilegiar escancaradamente os interesses dos elites, enquanto se apresenta como intermediária confiável de todos os segmentos sociais. Roberto Marinho tem um grande feeling para conseguir em cada momento histórico as alianças necessárias para a consolidação das suas emissoras e dos seus negócios. Soube buscar profissionais jovens e competentes, como o Walter Clark e o Boni. Importou de uma empresa de televisão norte-americana a experiência em gerenciamento organizacional e o capital do poderoso grupo Time-Life. Reinvestiu o dinheiro na melhoria dos equipamentos, na ampliação da rede de emissoras, no aumento dos salários e na qualidade dos programas. A programação da Globo começou popularesca, atraindo o público mais simples e, aos poucos, elevou a exigência estética, o bom acabamento, firmando o Padrão Globo de Qualidade. Em 69, aproveita a infra-estrutura de telecomunicações montada pela Embratel e lança os programas em rede, em particular o Jornal Nacional, com narrativa rápida, sintética, extremamente atraente na sua forma e asséptico no conteúdo, procurando não irritar a censura oficial e apoiando o capitalismo industrial. No horário nobre a TV Globo tem o mérito de conseguir substituir os seriados norte-americanos por vários tipos de telenovelas: as de época, no horário das 6 da tarde; as de trama leve e cômica às das 7; as mais folhetinescas, às das 8. A informação é imprensada entre as duas novelas de maior audiência, formato que permanece basicamente até hoje. Contrata bons escritores, que, além de saber contar histórias (como Janete Clair), conseguem aproximar-nos da realidade deformada pelos telejornais, como Dias Gomes, Lauro César Muniz e Jorge Andrade. A programação vai procurando refletir os gostos e expectativas da população, a partir de pesquisas cada vez mais freqüentes e sofisticadas. Mas a direção da TV Globo tenta diminuir a força de reivindicação dos sindicatos no ABC paulista, no fim da década de 70; a importância da criação do PT; o clamor por mudanças políticas que transbordam no movimento Diretas-Já, aliás, o que, somente muito tarde, é encampado pela cúpula da emissora. Trata de forma antagônica a apuração para governador, por intermédio do famoso Caso Proconsult (boicote) e a lenta agonia de Tancredo Neves (mitificação) e apóia ostensivamente conditos com passado comprometido, com Collor. Olhando os 30 anos, temos que reconhecer que a TV Globo foi e é competente para adaptar-se a cada momento para buscar o equilíbrio entre uma programação vencedora enquanto as outras redes fracassam. A Tupi, a mais antiga e maior, sucumbiu aos erros e desmandos. A Bandeirantes não conseguiu fixar um padrão. A Manchete, depois de um começo auspicioso, também quase naufragou completamente. A capacidade de adaptação continua, sim, aparece na busca de novos canais, de novas formas de comunicação através da evolução tecnológica. Por isso, a Globo vem se firmando na transmissão direta por satélite (Globosat) e entrou firme na tevê a cabo no Brasil-Net, Multicanal- onde domina mais da metade das 70 operadoras atuais. |