Novos desafios na educação
- a Internet na educação presencial e
virtual
Texto transcrito de uma palestra que dei na Universidade Federal de Pelotas e publicado
no livro Saberes e Linguagens de educação e comunicação, organizado por Tânia Maria E. Porto,
editora daUFPel, Pelotas, 2001, páginas 19-44.
Resumo
Com a
chegada da Internet defrontamos-nos com novas possibilidades, desafios e
incertezas no processo de ensino-aprendizagem. Como aprender com tecnologias
que vão se tornando cada vez mais sofisticadas, mais desafiadoras? Ensinar é
gerenciar a seleção e organização da informação para transformá-la em
conhecimento e sabedoria, em um contexto rico de comunicação. Não podemos ver a
Internet como solução mágica para modificar profundamente a relação pedagógica,
mas ela pode facilitar como nunca antes, a pesquisa individual e grupal, o
intercâmbio de professores com professores, de alunos com alunos, de
professores com alunos. A Internet propicia a troca de experiências, de
dúvidas, de materiais, as trocas pessoais, tanto de quem está
perto como longe geograficamente. A Internet pode ajudar o professor a preparar
melhor a sua aula, a ampliar as formas de lecionar, a modificar o processo de
avaliação e de comunicação com o aluno e com os seus colegas.
Ensinar e aprender com a
Internet
Utilização de recursos
simples da Internet
Avaliação do ensino/aprendizagem com a Internet
Alguns problemas no uso da
Internet
Procurarei
trazer algumas questões sobre como ensinar e aprender de forma inovadora, com
novas tecnologias, principalmente com a Internet.
A minha preocupação
está em como unir todas as questões humanísticas de comunicação interpessoal,
de troca entre professores, docentes, alunos, com tecnologias.
Em primeiro
lugar, vou apresentar algumas questões gerais. Estão acontecendo mudanças tão
profundas na sociedade, que elas afetam também a educação. Nunca tivemos tantas
mudanças em todos os campos – na medicina, nas ciências, no comportamento, e
também na educação. Ela está sofrendo processos sérios de gerenciamento, de
avanço do particular e reorganização do público. Está havendo pressão pela
educação contínua, pela educação a distância. Isso nos
obriga a repensar os modelos pedagógicos que nós temos, aqueles modelos
centrados no professor, que começam a mudar, a ser mais participativos. Hoje,
começam a se aproximar metodologias, programas, tecnologias e gerenciamento,
tanto dos cursos presenciais como dos cursos a
distância ou virtuais. Aos poucos a educação vai-se tornando uma mistura de
cursos, de sala de aula física e também de intercâmbio virtual. Há um processo
de aproximação. Daqui a cinco anos, aproximadamente, falar de educação a distância e de educação presencial, não vai ter tanto
sentido. Em alguns cursos, predominará o presencial, em outros o virtual, mas
tudo será híbrido nesses próximos anos e será possível com facilidade fazer
cursos em vários lugares, tanto aqui, na USP, na PUC ou na UFRGS em Porto
Alegre. Há uma série de iniciativas promissoras. Estão surgindo consórcios de
Educação a distância, públicos como a UNIREDE e
particulares, como a UVB – Universidade Virtual Brasileira. Uma
série de propostas novas estão surgindo. Isso nos obriga a
redimensionar, a reorganizar o conceito de aula presencial.
Está mudando o conceito de aula. Vou lhes dar um pequeno exemplo
pessoal. No ano passado, no fim do
primeiro semestre, tive que ir à Espanha por causa do falecimento do meu pai.
Uma morte repentina apesar da idade dele. Estava faltando quase um mês para
terminar os meus cursos, dois de graduação e um de pós-graduação. Então, eu
disse que iria à Espanha e tentaríamos encaminhar as
atividades programadas para a última etapa. Todos os alunos estavam conectados
através de e-mail, tínhamos as e onde nos falávamos, trocávamos materiais. Ao
mesmo tempo em que estava com a minha família, entrava todo dia no computador
do meu irmão, numa cidade pequena no noroeste da Espanha, Vigo,
perto de Santiago de Compostela com uns 350.000
habitantes. Entrava em contato com a página da USP, lia as mensagens dos
alunos, enviava respostas, propunha algumas atividades para cada grupo, para
continuar pesquisando. Recebi os trabalhos, avaliei-os e enviei as notas para a
secretaria. Enquanto estava com a minha família, também desenvolvia atividades
acadêmicas que permitiam ampliar o conceito de aula presencial. Estávamos ensinando
e aprendendo de uma outra forma. A dez mil quilômetros, eu tive a clara
percepção de que o meu papel se modificava, ampliava. Era um professor em
contato, gerenciador de processos, não o informante, o que “dá aula”, mas o que
“gerenciava atividades a distância”.O conceito de aula
muda porque, mesmo distante, o processo de aprendizagem pode acontecer. À
medida que essas tecnologias vão-se tornando mais e mais rápidas, além de
escrever coisas e ler mensagens, poderemos ver os alunos, eles verão o professor,
a um custo relativamente barato. Então, isto vai modificar profundamente todo o
conceito que nós temos de aula e o nosso papel professor e aluno. Pergunto-me:
Quando vale a pena irmos juntos a uma sala de aula e para fazer o quê? Como é
que eu vou dar aula para o aluno que está em casa e me vê? Como vai ser este
tipo de aula? Que tipo de atividades eu vou desenvolver? São essas as questões
que estou apresentando. Para falar dos cursos mais avançados, existe o conceito
que nós chamamos de banda larga de transmissão em tempo real. Em São Paulo há o
Virtual da Net, o @jato da TVA, o Speed da
Telefônica. Permitem que haja um acesso maior de velocidade. Uma pessoa coloca
uma câmera pequena, a outra coloca também uma câmera, e as pessoas se vêem, se
falam. Posso uma aula dar em uma tela de computador ou num telão. Aparece a
minha imagem, ao lado aparece o resumo do que eu estou falando, o aluno pode
utilizar um chat e fazer um comentário ou pergunta, e eu
administro o ritmo da aula, quando responder, a quem autorizar a falar, etc.
Basta ter só um pouquinho mais de velocidade e isto já começa a ser possível.
Como a velocidade está chegando, daqui a um
ou dois anos, no máximo, nas Universidades vai estar implantada a banda
larga para alguns cursos de especialização, de pós-graduação e algumas
disciplinas da graduação.
Nós temos
que pensar sobre como dar aula. É desafiador. Não é um modismo, não é algo
voluntário e só alguns professores fanáticos irão fazer. Cada um de nós vai, de
alguma forma, confrontar-se com essa necessidade de reorganizar o processo de
ensinar. Não será tudo a distância, sem contato
físico. Nós precisamos do contato, do encontro. Ele é e será sempre superior ao
que nós fizermos através de uma câmera. Mas será muito mais cômodo. Você se
conecta, eu posso estar na minha sala, em São Paulo e conectado com uma série
de alunos em Pelotas, por exemplo. Podemos marcar um horário para orientação
individual ou grupal, para tirar dúvidas, para desenvolver uma pesquisa.
Evitamos todo esse deslocamento atual. Depois que você está presente (depois da
viagem...) vale muito mais a pena, pela intensidade da troca, estarmos juntos.
Mas a comunicação virtual será muito mais econômica e cômoda para todos. A
relação custo x benefício vai fazer com que todos tenham que repensar esse
processo. Hoje, muitas faculdades estão sendo abertas em cidades menores. Há uma proliferação de cursos superiores. Se
eles não forem bons, daqui a pouco tempo, será possível escolher fazê-lo localmente
ou a distância, em universidades de ponta,
comodamente.
Hoje muita
gente faz faculdade aqui porque fica perto, porque não tem outra opção, porque
é caro ir para uma cidade grande. Teremos grandes centros com alguns núcleos de
apoio locais, onde o importante é a grande universidade, onde você tem os
grandes professores, grupos de pesquisa e know-how
gerencial. Não quero assustá-los, mas as mudanças serão muito significativas. O
papel do professor no nível superior também está se modificando bastante. Na
escola, na pré-escola, a inserção em ambientes virtuais serão
feitas com muito mais cuidado, vai ser muito mais difícil, no sentido de
se ter mais cuidado. A criança tem que aprender a conviver, a estar com os
outros, a socializar-se. Então, o foco da educação a distância não será para
alunos pequenos. A pré-escola vai incorporar alguns momentos em que os alunos
navegarão na Internet, verão outras crianças em outras escolas, conversarão,
mas, em geral, eles estarão fisicamente juntos, aprendendo a conviver. Na
educação superior e contínua de adultos, a flexibilidade de propostas
pedagógicas e tecnológicas será muito mais abrangente.
Depois
desse panorama que parece um pouco assustador para alguns, vou expor o que é
educar. A questão fundamental não é a tecnológica. As tecnologias podem nos
ajudar, mas, fundamentalmente, educar é aprender a gerenciar um conjunto de
informações e torná-las algo significativo para cada um de nós, isto é, o
conhecimento. Hoje nós temos inúmeras informações e um conhecimento bem menor,
porque estas nos escapam, estão soltas, não sabemos reorganizá-las. O
conhecimento é isso. Além de gerenciar a informação, é importante aprender a
gerenciar também sentimentos, afetos, todo o universo das emoções. Educar é um
processo complexo, não é somente ensinar idéias, é ensinar também a lidar com
toda essa gama de sensações, emoções que nos ajudem a nos equilibramos e a
viver com confiança. O professor que tem uma atitude de equilíbrio e que
inspira confiança, ajuda muito os seus alunos a
evoluir no processo de aprendizagem.
Ao mesmo
tempo, educar também é aprender a gerenciar valores. Não basta só informação e
conhecimento. A universidade se omite muito neste campo, quando deixa os
valores para o âmbito da família, religião, do campo pessoal. Tudo está impregnado
de valor, mesmo as equações mais abstratas.
A educação
tem sentido se trabalhamos com valores que nos ajudem a nos realizarmos, a
sermos felizes – professores, alunos e os demais envolvidos no processo. De que
adianta educar somente para o trabalho? Ele é importante, mas tem tanta gente
insatisfeita, mesmo ganhando muito....!
De que adianta só trabalhar se a pessoa não encontra sentido para a
vida? Então, educar é também procurar encontrar sentido para viver. Educar é
aprender a gerenciar processos onde, de um lado, você caminha em direção à
autonomia, à liberdade. E, de outro, você busca sua identidade. Você deixa uma
marca e, ao mesmo tempo, você interage, você consegue viver em sociedade,
trabalhar em conjunto. Educar também é aprender a gerenciar tecnologias, tanto
de informação quanto de comunicação. Ajudar a perceber onde está o essencial, e
a estabelecer processos de comunicação cada vez mais ricos, mais
participativos.
Eu vejo uma
parte dos alunos de hoje na universidade, pelo menos na área em que eu atuo em
São Paulo, muito preocupados com o futuro, mas somente no sentido de conseguir
um lugar, ganhar dinheiro, uma boa posição social, numa perspectiva
individualista, competitiva. Isso é preocupante. Há algumas áreas da
universidade onde predomina o ensino bem tradicional. Um colega relatou-me que
acompanhou uma aula em que havia um grupo grande de alunos tomando notas. Um
aluno do fundão levantou a mão: “Professor não entendi”.
E a turma da frente disse: “Continue, continue, nós não podemos perder
tempo”. Mas que tipo de processo é esse
em que os alunos querem só anotar o que o professor fala e quem fica para trás,
é deixado de lado?. De um lado nós estamos falando de educação, dessa visão
integradora, mas existem ainda muitos alunos e também professores, que ainda
tem essa visão competitiva de “absorver a informação”, de chegar logo na
frente. Estou falando de exemplos concretos de pouco tempo atrás, não da década
passada.
Antes de falar
de Internet, quero falar da educação como comunicação. O educador revela na
hora em que entra em contato com o aluno, mesmo que não fale, pela postura,
pelo olhar, pela inflexão de voz, em que estágio de desenvolvimento e
aprendizagem se encontra. Revelamos o que aprendemos realmente. Temos um
currículo oficial onde listamos nossos cursos, tudo o que nós fizemos. Isso é
uma parte da nossa história, que revelamos quando buscamos um emprego. Mas há
um outro currículo que se chama de aprendizagem de vida, que mostra, quando
você fala, pela forma como que você se expressa, pelas idéias que você
comunica, o que você realmente aprendeu. Às vezes duas pessoas que fizeram os
mesmos cursos, depois de alguns anos, já adultos, chegam a resultados
completamente diferentes. Há pessoas que vão aprendendo sempre mais, enquanto outras, parece que desaprendem, que se complicam, se fecham,
se tornam mais agressivas ou depressivas.
Aprendemos
mais combinando de forma equilibrada a interação e a interiorização. As pessoas
estão tão solicitadas pela ação externa, que se esquecem de si mesmas, estão
todo o tempo navegando, viajando, todo tempo falando com as pessoas, indo de um
lugar para outro, estão sempre ocupadas. Então, aprende-se hoje muito pela
interação, mas esquecemos que o conhecimento só se faz forte, só se consolida
quando o reorganizamos dentro da nossa própria perspectiva, do nosso universo,
do nosso repertório, do nosso contexto e, para isso, precisamos ter o nosso
tempo, o nosso dia, ter também a capacidade de olhar para nós mesmos, de
encontrar tempo para meditar no sentido mais amplo, não somente religioso, e
isso muitos adultos e também crianças não o têm. Esse, para mim, é um dos
grandes problemas. Temos muita informação e pouco conhecimento. As pessoas procuram
informações, navegam nos sites. O conhecimento não se
dá pela quantidade de acesso, se dá pelo olhar integrador, pela forma de rever
com profundidade as mesmas coisas. Para conhecer o mundo, não é preciso viajar
muito. Basta enxergar o mundo a partir de onde você está, com um olhar um pouco
mais abrangente. Não é só correr mundo, isso também é bom, mas se fosse assim
os agentes de viagem seriam grandes sábios. O conhecimento também se dá pela
interiorização e pela observação integradora.
Um dos
desafios é como transformar a informação em conhecimento e em sabedoria.
Sabedoria é um conhecimento integrado com a dimensão ética. A universidade
prepara para o conhecimento. Mas o conhecimento pode ser usado para explorar o
outro, para manter a desigualdade de um país. Então, na universidade, muitas
pessoas se preparam para servir aos grupos que tem mais dinheiro, esquecendo-se
da maioria; falta-lhes a visão social. Então, o conhecimento parcial não
integra a competência intelectual, a emocional e a ética. Esse é o desafio.
Como juntar tudo isso numa sociedade tão desestruturada, onde estamos voando e
não sabemos para onde? Como juntar o intelectual com o emocional e o ético, e
não ver o ético como uma espécie de carga, mas como um desafio de crescimento
pessoal?. A pessoa que evolui percebe que ter um comportamento honesto, não é
ser otário; pelo contrário, significa gostar de si mesma. Otário é o desonesto,
aquele que leva vantagem. Esse está atrasando a evolução dele e a de toda a
sociedade. Está complicando tudo, mas infelizmente muita gente não percebe isso
ainda.
Como se
comunicar de uma forma coerente numa sociedade em que predomina
o marketing, as meias verdades? Só vou falar aquilo que me interessa e esconder
de baixo do tapete o que pode me prejudicar? Isso é um desafio, hoje também
interessante. A comunicação autêntica faz avançar mais o processo de
compreensão da realidade, mas, ao mesmo tempo, as nossas falas são cada vez
mais superficiais. As pessoas falam muito, passam o tempo todo falando. Nos bares,
no trabalho, na rua todo mundo está falando. Mas as pessoas não se revelam,
falam de tudo menos de si mesmas, elas se escondem atrás das falas. Às vezes
você pensa que conhece uma pessoa durante anos, mas de alguma forma ela
escondeu o principal. Você pensa que uma pessoa é realizada, e depois você
percebe que é infeliz, não se mostra assim... ela coloca uma barreira, finge
até que desabafa, tudo isso... Às vezes, pessoas que pareciam extremamente
equilibradas entram em depressões, psicoses... mas como podem, pessoas tão
cheias de vida?!
O desafio é
como sermos educadores, comunicadores de pessoas competentes e integradas.
Creio que nós não precisaríamos de tantas teorias pedagógicas, se fôssemos
pessoas mais amadurecidas. Na hora em que você é uma pessoa mais integrada,
mais amadurecida, mais equilibrada, o seu processo de comunicação com esse
aluno flui, a sua credibilidade aumenta, a forma como você comenta as coisas
chama a atenção dele. Esse é um processo em que muitas pessoas não acreditam.
Costumamos ter a visão de que tudo é imperfeito, de que já conseguimos aquilo
que podíamos, de que a vida é assim mesmo, e esperar mais é uma bobagem.
Perdemos o idealismo, deixamos de acreditar, principalmente na fase adulta, na
capacidade de mudar. Acomodamo-nos, ficamos repetindo os mesmos ritmos, as mesmos coisas, tornamo-nos pessoas pela metade, quando
poderíamos ser pessoas muito mais evoluídas. Se nós mesmos não acreditamos,
como educadores, no nosso potencial, como poderemos estimular o potencial dos
nossos alunos?
Outro
desafio é integrar as tecnologias em projetos pedagógicos, inovadores e
participativos. Aqui também, o mundo das tecnologias envolve muitos grupos
empresariais que querem ganhar dinheiro, que só querem vender, que vendem tudo
como solução. A tecnologia nos ajuda, mas também nos complica. Tem um lado que
nos favorece e um lado que nos controla: essas câmeras que eles colocam nas
grandes cidades que servem para observar o trânsito e também para vigiar os
cidadãos, para controle dos movimentos sociais. Temos também muitas
ambigüidades no uso das tecnologias. Então, como sociedade nós avançamos muito
sob o ponto de vista tecnológico. Dizia Arnold Toynbee que, tecnologicamente, somos como que deuses,
enquanto do ponto de vista humano, ainda somos como primatas. Isso não acontece
só no Terceiro Mundo. As guerras mais cruéis, os grandes genocídios do século
XX aconteceram na Europa avançada, na Europa refinada, na Europa cheia de
museus e de história.
Nunca
tivemos tanta informação disponível, tantas tecnologias, mas nunca tivemos
também tanta dificuldade de comunicação. Comunicar significa interagir de
verdade, todos nós que estamos envolvidos no processo.
Ensinar e aprender com a Internet
Quanto mais
eu mexo com a Internet, mais sinto que a questão está em outro lugar. Internet
é fácil de aprender, é uma tecnologia legal, você a domina em pouco tempo. Mas
a questão humana é um desafio que as tecnologias não conseguem dar conta.
A Internet
é uma mídia de pesquisa, cuja palavra chave é a “busca” o “search”.
É também uma mídia de comunicação, com ferramentas como o “chat”,
o “e-mail”, o fórum. Mas, fundamentalmente, a Internet começa a ser um grande
meio de negócios, um espaço onde estão surgindo novos serviços virtuais, on-line. A Internet está ainda engatinhando,
é uma nova mídia de comunicação, é como a televisão na década de 40, no começo
da década de 50. Ela ainda está numa fase muito embrionária, mas vai explodir.
Em 10 anos ela será mais famosa do que a televisão hoje, porque ela, de alguma
forma, vai-se ligar com todas as outras mídias, porque ela não vai ser acessada
somente por um computador, que é caro, mas também por outras tecnologias, agora
pelo celular, vai estar no carro, vai estar na nossa casa, em qualquer
eletrodoméstico, teremos um acesso por mil formas que nós hoje nem imaginamos.
Será uma mídia extremamente popular nesses próximos anos. Ela vai-se tornar a
maior mídia de massa.
Caminhamos
para formas de comunicação audiovisual pela Internet de uma parte dos
brasileiros, não de todos. Mas a qualquer momento você poderá ver e ouvir
facilmente os outros, e a um custo barato. Isso é algo que até agora só as
pessoas da televisão fazem, repórteres e apresentadores, vendo-se e conversando
ao vivo de diferentes países. Com a Internet e a velocidade... isso vai ser
relativamente fácil e barato. Só que isso também não vai diminuir as
desigualdades, pelo menos a curto prazo. A questão
tecnologia não vai ser resolvida. Mesmo que se tenha a televisão hoje, de que
adianta só ter o acesso? A televisão não muda o modelo social, faz com que mais
pessoas tenham acesso, mas dentro de um mesmo modelo concentrador (os mesmos
falam para os demais).
Há uma
expectativa exagerada em relação às tecnologias, mas elas realmente vão mudar
algumas coisas. Vamos poder estabelecer pontes entre o presencial e o virtual,
entre estarmos juntos fisicamente e só conectados. Em um curso que dei há pouco
na pós-graduação de Comunicação da USP, fui apresentando o seu conteúdo numa
página. Ao mesmo tempo, esse conteúdo gerou uma série de pesquisas que depois
nós fomos divulgando. Tínhamos uma série de discussões em tempo real e off-line. Tudo foi gerenciado por um
programa que integrava o conteúdo, a comunicação e a administração do curso. Os
alunos enviaram seus textos, comunicaram-se por fórum,
conversamos em várias salas de chat, a distância, para trabalhos em grupo, dar orientação,
tirar dúvidas.
Como nem
sempre é possível reunir os alunos em horários predeterminados, organizei
também discussões gerais ou grupais no fórum. É um espaço onde se podem criar
tópicos de discussão e cada um escreve quando o considera conveniente. Havia
fóruns gerais, para todos e também para grupos, para discutir assuntos
específicos e facilitar a interação. Os fóruns de grupos podiam ser abertos a
todos ou só para cada equipe, dependendo do grupo e da atividade.
As
ferramentas de comunicação virtual até agora são predominantemente escritas,
caminhando para serem audiovisuais. Por enquanto escrevemos mensagens,
respostas, simulamos uma comunicação falada. Esses chats e fóruns permitem contatos a distância, podem ser úteis, mas não podemos esperar que só
assim aconteça uma grande revolução, automaticamente. Depende muito do
professor, do grupo, da sua maturidade, sua motivação, do tempo disponível, da
facilidade de acesso. Alguns alunos comunicam-se bem no virtual, outros não.
Alguns são rápidos na escrita e no raciocínio, outros não. Alguns tentam
monopolizar as falas (como no presencial), outros ficam só como observadores.
Por isso, é importante modificar os coordenadores, incentivar os mais passivos
e organizar a seqüência das discussões.
Aqui outra
página, outro espaço de comunicação, fórum, correio, ajuda, dicas, colaboração
e bate-papo. Essa é outra cara dessas ferramentas, esse é o conceito de fórum,
quer dizer os fóruns são mensagens que estão sendo enviadas pelos alunos de
onde eles quiserem, da casa deles. Aí existem informações, perguntas,
contribuições ao curso, você pode organizar isso por grupos.
Aqui é uma
sala de bate-papo (chat). Podemos resgatar aquele conceito de chat para a educação. Podemos discutir a
distância alguns assuntos ligados a nossa matéria. Então, o programa prevê
algumas salas, são salas de bate-papos onde você pode realizar certas
discussões com os alunos, colocá-los em grupos na sala 1, sala 2, sala 3, sala
4, simultaneamente e tudo o que é feito nesse momento é gravado,
disponibilizado. Então, de alguma forma é um espaço de discussão, mas ao mesmo
tempo é um espaço de aprendizagem que pode ser disponível.
Aqui é uma
das salas. Você escreve embaixo e tudo vai aparecendo aí em cima com o seu
nome. À direita aparecem os usuários, quem estão conectados. Em alguns momentos
em que os alunos estavam distantes de mim geograficamente, eu tinha uns que não
eram nem do mesmo Estado, de São Paulo. Nós nos encontrávamos e fazíamos
atividades com a mesma página, com a mesma sala. É muito inferior a poder estar
fisicamente juntos, mas é muito interessante sentir quando uma pessoa estava em
Belo Horizonte, outra em Curitiba e outra em São Paulo, e todos podiam discutir
o mesmo assunto na mesma tela.
Aqui há, ao
mesmo tempo, algum apoio para os alunos, materiais que você disponibiliza, como
bibliotecas virtuais, endereços básicos para pesquisa em educação a distância, que era o que nós estávamos trabalhando.
Simultaneamente,
participei de outro curso de especialização na PUC do Paraná. Primeiro entrei
em contato físico com os alunos, depois nos encontramos no ambiente Eureka, um programa que nos permite gerenciar o curso a
distância. De São Paulo ou de outra cidade, pude apresentar novos textos,
responder e-mails, comunicar-me com
os alunos.
Na verdade,
tudo isso não é o principal. A questão não é usar a ferramenta. O que eu queria
passar para vocês como mensagem é que podemos mudar com tecnologias, mas mesmo
que vocês não tenham essas tecnologias mais avançadas, podem mudar para
processos participativos e investigativos. Significa que o aluno sai da posição
mais passiva em que se encontra no processo de aprendizagem: ele pesquisa, ele muda
de atitude de consumidor de informação, não espera que só o professor fale
tudo. Podemos experimentar esta nova relação com o aluno, ajudá-lo na sua
mudança de atitude, mais ativa. É um processo de envolvimento constante na
busca de soluções, é compartilhar, é trocar.
O que
consegui perceber nesses últimos anos é que posso falar menos numa sala de aula
e, ao mesmo tempo, os alunos aprenderem. Há momentos em que eu falo, dou aula
expositiva, ou ilustrativa, para situar, para contextualizar. Mas na maior parte
do tempo, minha função é estimular a pesquisa, propor questões, situações,
buscar experiências com os alunos, nem sempre pela Internet, muitas vezes em
sala de aula, através de um texto. Incentivar que eles pesquisem, consultem
bibliotecas, façam entrevistas com pessoas, e depois compartilhar e trocar os
resultados com os colegas e para toda a classe, e mais tarde divulgá-los na
Internet.
Com as
tecnologias, o que muda é o conceito de espaço e de tempo. Lembra do meu
exemplo de quando fui à Espanha? O tempo de aprendizagem se dá quando um aluno
envia um e-mail. E eu, hoje, se me
conecto na página dos alunos e encontro ou envio mensagens, a aula continua,
mesmo a centenas de quilômetros da minha cidade.
Ao mesmo
tempo, o espaço muda. Já vimos no começo que aula não é somente espaço físico,
o qual é combinado também com espaços virtuais com novas interações. Isso aqui
está mais distante para uns do que para outros, mas todos, pelo menos, têm que
estar atentos. Ao mesmo tempo, também o processo que aí está é muito dinâmico,
baseado mais em questões, em problemas, em projetos. Com tecnologias, eu posso
adaptá-los mais a cada grupo e ao ritmo dos alunos. Mas vejam... isso pressupõe
ter condições de trabalho, o que a maior parte dos professores ainda não possui.
Então, posso fazer algumas coisas, porque me encontro numa situação diferente
daquela da grande maioria dos professores. A maioria dá muitas aulas, tem
muitos alunos, não tem condições econômicas e tecnológicas suficientes. Eu hoje
tenho poucas turmas, poucos alunos em cada turma e tenho uma boa rede
tecnológica.
O que eu
estou expondo para vocês não é para que o copiem ou para que se sintam culpados
se não puderem fazer isso. Tentem mudar o que lhes for possível, tornar de
alguma forma suas aulas mais participativas, incentivar a que os alunos se
tornem pesquisadores com as tecnologias disponíveis – jornal, televisão, vídeo,
gravadores; às vezes não têm Internet, mas se tiverem podem fazer algumas
coisas a mais.
É
importante ir planejando e construindo, transformando uma parte das aulas no
processo contínuo de pesquisa e de comunicação no qual você equilibra o
planejamento com criatividade. Não podemos deixar a aula totalmente solta,
tampouco totalmente amarrada. Prever as coisas e, ao mesmo tempo, ir sentindo o
momento, as circunstâncias, ligar o conteúdo à vida. Planejar as aulas é, ao
mesmo tempo, construí-las com processos participativos. Eu diria que isso é um
desafio. Como fazer? Eu encontrei a minha forma na minha situação concreta, mas
não foi de fundo tecnológico, foi um processo mais de percepção, de que
envolvendo o aluno, tornando-o mais participativo, ele aprende mais. Ele
aprende melhor do que somente me ouvindo. Ele pode aprender só me ouvindo, mas
aprende melhor interagindo, pesquisando.
Apesar de
tantas mudanças, a comunicação presencial é fundamental ainda, e vai ser
sempre, para certos momentos fortes, para conhecer-nos, para estabelecermos
elos de confiança. O olho no olho ainda é decisivo para definir
objetivos, quando nós queremos saber o que queremos, para situar um
assunto, um tema, para motivar os alunos, para elaborar cenários de pesquisa,
saber o que nós vamos pesquisar. Para orientar esses alunos, para formar grupos
a presença física é ainda fundamental. Eu creio que isso vai ser sempre. Mas
também há momentos em que a presença virtual, a comunicação virtual é
importante. Ela cria uma interação mais livre no tempo e no espaço, porque
personaliza ritmos e estilos diferentes, porque integra pessoas que estão
distantes geograficamente, porque permite maior liberdade, também, de
comunicação. Há pessoas que, às vezes, são mais quietinhas em sala de aula e
que se soltam através de Internet. Escrevem muito, escrevem bem, quando parece
que não têm esse controle externo, físico. Então, é interessante
essa idéia de também usar a rede como um campo de comunicação.
Utilização de recursos simples da Internet
Queria pelo
menos mostrar, rapidamente, algumas coisas simples sobre como ensinar. Aqueles
que ainda não estão utilizando a Internet, não vejam isso como... “Eu não tenho
nada a ver com essa palestra”. Você que não a está usando, tem que estar
acompanhando o que está acontecendo. Mesmo as pessoas mais pobres, hoje, ouvem
falar da Internet na televisão. A Globo fala da rede mundial de computadores, e
assim, até o menino de favela tem informações sobre a Internet, mesmo sem nunca
ter navegado.
O professor
novo tem que ser alguém que sabe por onde as coisas vão, mesmo que ele nem
sempre tenha todas as condições tecnológicas.
Para
ensinar, é importante começar conhecendo os alunos, como eles são, o que
querem. Sensibilizá-los para aquela área de trabalho que você vai trabalhar,
para aquela matéria. Mostrar a importância de desenvolver processos de
comunicação mais participativos e para o uso da Internet.
O professor
pode criar uma página na Internet. Pode
ser simples, como uma espécie de espaço virtual de referência, com um pouco do
histórico de vocês, o que vocês fazem,
qual é a área em que atuam, que tipo de curso vocês dão. Se você não sabe criar
páginas, peça a ajuda de um adolescente, de um colega ou de um filho.
Mostre-lhe o esquema do que você quer colocar na página e você vai ver como ele
resolve. Coloque os programas das suas disciplinas, alguns textos, a
bibliografia, sempre que possível linkada com os endereços na Internet.
A página é
importante como visibilização de quem você é hoje,
para aqueles que o conhecem e para aqueles que não o conhecem. Para os colegas dentro
de um colégio, de uma faculdade, para pessoas que estão trabalhando em outros
colégios, em outras faculdades, com temas semelhantes, pode ser interessante
essa divulgação, que propicia o intercâmbio de idéias, de projetos e até pode
abrir novas oportunidades profissionais.
Eu já
descobri muita coisa interessante, por ter feito uma página (www.eca.usp.br/prof/moran). Esta
serve para os alunos atuais, para os ex-alunos e para as pessoas que têm
interesse de tratarem de comunicação, educação e tecnologia. Eu vou
disponibilizando alguns textos sobre comunicação pessoal, mudanças na
comunicação pessoal e sobre tecnologias de comunicação. Trabalho com a mudança
das formas de ensinar e de aprender, com algumas questões ligadas à tecnologia
e um pouco também sobre educação a distância.
Disponibilizo também endereços comentados sobre, o que vale a pena pesquisar a
cerca de algumas áreas de comunicação e educação. Há uma área sobre teses em
relação à educação a distância, disponíveis, on line, que
você pode ler e copiar no seu computador. São coisas que para alunos podem ser
úteis.
Quais
seriam os primeiros passos nas tecnologias ligadas à rede? Primeiro dominar as
ferramentas. Alguns alunos sabem navegar, outros não, e mesmo aqueles que
sabem,sempre desconhecem algo, por exemplo, como pesquisar na Internet.
Pesquisas em bibliotecas virtuais, em sites de busca,
pesquisa mais abrangente e mais focada. Procuro também que todos os alunos
tenham seu endereço eletrônico, seu e-mail.
Para isso, deve a instituição oferecer alguns espaços para o aluno entrar
na Internet (salas de acesso), para não depender só do acesso doméstico. Na
USP, posso pedir atividades pela Internet e enviar mensagens para os alunos,
porque há salas de acesso para eles em cada Faculdade. Depois, o professor cria
uma lista de e-mail ou de discussão
para todos; eu dou um nome, e a partir daí, estamos todos conectados. Aí
qualquer informação que eu tenho vai para todos, a informação de um aluno vai
para todos colegas, isso cria um certo vínculo além da sala de aula. É
interessante! A gente não se vê fisicamente? Se vê,
mas ao mesmo tempo em que se vê, também mantém um outro vínculo através da
rede. Eu chamo essa lista de revista eletrônica interna, ela serve para manter
uma conexão-vínculo permanente entre professor e alunos, para passar
informações importantes para o grupo – “o gente... não
esqueçam, na próxima semana vamos discutir tal coisa, não esqueçam de trazer
tal material, é importante!”. Lembretes para meditar sobre assuntos, sobre
pesquisas, para intercambiar materiais, textos, até para entrega de trabalhos
(dependendo do tamanho, peço também uma cópia escrita). O fato de enviar textos
pela Internet confere ao curso agilidade e um charme, quando no fundo não é
mais do que uma ampliação do texto escrito tradicional, com uma nova roupagem,
atraente para os alunos.
A lista de
discussão contribui para a construção cooperativa do conhecimento, misturando
espaços. Você vai juntando as informações da sala de aula, do laboratório e do
espaço virtual de aprendizagem, o ambiente virtual.
Uma outra
idéia que tenho experimentado e tem dado certo é que cada classe crie a sua
página e ali eles vão dispondo os materiais, individualmente ou em grupo.
Outros materiais o professor coloca e assim vai se construindo o curso, entre o
que você prevê e o que eles vão trazendo. Essa página pode ser interna, sem
divulgação, para haver mais liberdade. Se vale a pena,
no final do semestre, essa página pode ser divulgada externamente. Eu tenho uma
página dos alunos de pós-graduação do ano passado. O curso de alguma forma
continua, apesar de que academicamente está encerrado, porque a página está ali
disponível para quem quiser (http://sites.uol.com.br/cdchaves)
Eles
criaram essa página deles, e eu tenho a minha, que tem uma conexão para esta
página. Eles são responsáveis pelo formato e pela atualização. Eles foram
colocando os textos que pesquisaram, ou pelo menos uma parte deles, os
endereços interessantes também para o curso. Vocês percebem que no ano passado
eu utilizava ainda essas ferramentas integradas, como o WebCT,
que mostrei há pouco. Eu usava mais uma lista de e-mail, criávamos alguma página simples. Isso tornava o curso
extremamente rico e interessante. Por isso, não se preocupem só
em ter o mais moderno, o programa mais moderno. Comecem com coisas simples.
Vocês verão que, se incentivarem seus alunos, eles participarão, se envolverão,
eles trarão contribuições significativas.
Outra área
importante é usar a Internet para pesquisar. Muita gente copia coisas da
Internet, então, tem que orientar como pesquisar, que tipo de trabalhos você
pede, de forma que não venham as coisas prontas, e orientar... fazer alguns
processos de pesquisas coletivas sobre alguns temas fundamentais para o curso.
Pesquiso junto com eles um ou dois assuntos importantes da disciplina, oriento,
tiro dúvidas. Isso lhes dá uma certa tranqüilidade e também eles me ensinam
muita coisa, pois eles pesquisam de um jeito diferente do meu: eu pesquiso de
forma meio lógica e eles, de forma meio intuitiva. Você pergunta: Como você
chegou lá? “Eu estava aqui, fui ali, cliquei aqui,
entrei aqui”, e de repente, encontrou uma página que você não conhecia sobre a
sua própria área de especialidade. Interessante esse trabalho de estar todos
juntos em alguns momentos, fazendo uma pesquisa grupal primeiro aberta. Nela
propõe o assunto e dá um tempo para que o aluno o procure onde ele quiser. A
única recomendação é que, quando ele achar algo legal, o comunique: “gente,
achei uma coisa interessante”... Aí coloca o endereço na lousa e quem quiser
vai lá e pode conferir. Não pesquisamos para competir, para dizer “eu sou o
melhor, eu achei mais informação que o colega”. Não creio que esse seja o
caminho melhor. É melhor aprender cooperativa do que competitivamente. Depois
fazemos uma síntese dessa primeira parte da pesquisa, divulgamos os endereços
principais e num segundo momento fazemos uma pesquisa mais focada, mais dirigida,
afunilando o que vimos antes ou orientando-os para endereços que eu previamente
tenho selecionados. Tudo isso é gravado. Eu peço que
eles levem disquetes, que eles gravem as principais páginas que encontraram e
troquem constantemente informações entre si. Eles podem enviar por e-mail e
para a lista da classe os endereços ou materiais principais. É um processo
muito rico. É um tipo de aula muito criativa, e eu não sei exatamente o que vai
acontecer quando começa. Esse também é o lado fascinante! Quando eu estou no
laboratório com eles, eu aprendo tanto quanto eles. Essa é a idéia da troca,
principalmente no nível superior, na pós-graduação, etc. Se você se coloca
diante do aluno como alguém que não sabe tudo, que também está aprendendo, você
verá como ele ajuda, como envia informações importantes. Você, nesse momento,
não é só um informador, você é um gerenciador, um coordenador. Alguns textos
podem ser impressos também e, no final, a gente faz uma síntese dessa aula: o
que aprendemos, o que descobrimos de mais interessante, mais novo. Peço que
alguns textos sejam analisados durante a semana. Fazemos uma espécie de coleta
meio superficial no laboratório. Em casa, fazemos uma leitura mais aprofundada.
Na próxima aula, vemos os resultados e alguns textos são incorporados à
bibliografia do curso, textos que os alunos descobriram e que
eu não conhecia no começo do curso. Na verdade, nesse processo, o aluno
e eu trabalhamos muito mais do que no ensino tradicional. Estou alertando... é
mais prazeroso, mas é também mais trabalhoso. Se eu tivesse sempre o mesmo
curso, repetisse as mesmas coisas, os mesmos exercícios, eu não teria que fazer
tudo isso. Agora, a cada semestre eu penso o curso e a mesma matéria, mas de
alguma forma ela muda, eu costumo reinventar. Às
vezes, as coisas não dão muito certo; esperava um
resultado... nem sempre acontece aquilo que esperava, mas pelo menos tentei.
Tentem o que lhes for possível, até onde vocês puderem, mas tentem, não fiquem
na mesmice. Procurem também ajuda de alguém no gerenciamento do curso, para que
consigam acompanhá-lo sem ser um peso insuportável de tempo e atividades.
Ao mesmo
tempo em que trabalhamos na pesquisa com toda a classe, organizo também a
pesquisa individual ou em dupla, depende do número de alunos. Eles escolhem um
assunto de interesse que esteja ligado à matéria: "desses tópicos que
estão aqui, qual é do teu interesse? Faz uma ponte entre teu interesse e a
área. Faz uma proposta de pesquisa". O aluno faz uma proposta. Eu as
organizo e dou um mês aproximadamente para terminá-la. Ele mostra os resultados
oralmente para a classe, de forma breve e motivadora. Ele traz uma cópia para
cada colega, do texto escrito, ou o envia antes pela Internet. Eles trabalham
com a Internet, a fala e o texto escrito. Se ele o copiou da Internet, vai
haver perguntas, ele vai ser argüido, não no sentido chato, mas vamos
perguntar. Ele, aluno, explica as dúvidas até onde sabe e eu ajudo e
complemento, dentro do possível. Depois os textos podem ser colocados na página
do curso.
Uma outra
área interessante na Internet é a comunicação. Comunicação, como já falei há
pouco, pode ser usada em alguns momentos em atividades bem focadas . Para
trabalhos de grupos, eles podem usar o ICQ, o NetMeeting, uma sala de bate-papo
específica. É útil para orientar grupos, tirar algumas dúvidas. Principalmente
é útil para alunos que têm dificuldade em permanecer fora do horário das aulas,
porque moram longe ou trabalham. Os alunos podem se reunir virtualmente para
desenvolver algumas atividades de grupo. Os chats, por enquanto, são escritos. Daqui a pouco serão audiovisuais e
interativos, e aí sim, serão muito mais úteis pedagogicamente.
Avaliação do ensino/aprendizagem com a Internet
A avaliação
que eu faço de todo esse processo de ensinar e aprender com a Internet de forma
mais participativa: eu vejo que os alunos estão motivados; se
estão motivados, se apresentam trabalhos mais criativos, creio que eles aprendem mais. Eles mostram
mais interesse e curiosidade, mas não são todos, alguns vão sempre a reboque,
há alunos que se escoram no grupo. Isso acontece em qualquer situação de
ensino.
A motivação
aumenta, se são estimulados a produzir algo concreto, algo que pode ser
apresentado. Eles querem ver resultados. Por isso, é importante que os alunos
apresentem suas pesquisas, que criem uma página e coloquem essa pesquisa na
página. Eu os ensino, às vezes, a criar uma página simples. Isso já é uma
tarefa, um produto concreto. Vejo os
alunos mais motivados e confiantes: eles têm que falar em público, produzir coisas.
Eles se comunicam pela Internet e diminuem a distância entre professor e aluno
que estão geograficamente distantes. Eu gosto muito de incentivar a comunicação
com grupos de escolas ou países diferentes. Na graduação, de vez em quando, eu
dou uma idéia – “Bem, gente, se vocês quiserem, eu tenho colegas na Espanha,
conheço alguns professores de lá, se vocês quiserem, podemos criar uma espécie
de bate-papo com alunos de lá". Não é uma atividade do curso, atividade de
nota. Quem quiser, faz isso como uma atividade paralela”.
Eles adoram essas coisas. Ficam trocando e-mails
com novos colegas. Isso é uma motivação para o curso, é uma coisa muitas
vezes tangencial, não traz resultados diretamente para o próprio curso, mas
eles estão desenvolvendo atividades prazerosas e abrem seus horizontes
culturais. Isso é importante também; propiciar atividades em que eles se sintam
motivados.
O professor
precisa ter muita flexibilidade e capacidade de adaptação neste processo. Criar
muito, estar atento para ver se está indo tudo bem, mudar a estratégia, as
dinâmicas. Às vezes, uma aula no laboratório não está funcionando, trava a
rede, tudo fica lento... aí tem que mudar, tem que prever alternativas. Se travou a rede, invente outra atividade, tenha uma segunda
proposta para dar continuidade à aula.
Os alunos e
os professores desenvolvem mais a intuição, pela necessidade de avaliar
instantaneamente sites,
textos, grupos. Tudo é instantâneo na Internet, o que traz a confusão entre
informação e conhecimento, entre navegar e conhecer. A intuição é fundamental,
como capacidade de organizar de forma imediata o que está disperso.
A
comunicação com os alunos é facilitada dentro de um processo afetivo. Os alunos
são muito sensíveis à aproximação afetiva, ao apoio, ao incentivo. Alguns
professores só sabem impor e controlar para conseguir resultados. Pode parecer
mais eficiente, mas com certeza é menos rico e participativo.
Outra
dimensão positiva é que a Internet traz a idéia de modernidade, do prazer de
estar atualizado. Quando eles vêem que o professor está atualizado, que
acompanha as mudanças, confiam mais nele, se aproximam mais.
Às vezes
alguns colegas ficam preocupados comigo, porque os alunos os questionam sobre a
forma tradicional de dar aula e por que não utilizam todos os recursos
tecnológicos. Cada um de nós dá suas aulas do jeito que sabe, mas os alunos
comparam e se perguntam: Por que aqui só fico ouvindo e com o outro professor
fazemos tantas coisas interessantes?
Também já
recebi recados mais ou menos assim: “Você só fica brincando de Internet no
laboratório. Isso não é dar aula!. Quero ver você ficar na sala de aula falando
o tempo todo”. Eu também dou aula expositiva. Cada vez vou menos ao laboratório
e oriento mais as atividades na sala ou na nossa página na Internet. O
importante não é falar mais ou menos, mas contribuir para que o aluno aprenda,
e isso pode ser feito de várias formas, com ou sem tecnologias, mas com elas o
nosso trabalho pode ser facilitado.
A Internet,
na fase atual, contribui para o desenvolvimento da escrita. Os alunos lêem e
escrevem muito. É uma escrita mais solta, nervosa, sintética,
coloquial, mas treinam vários tipos de escrita, uma mais coloquial e
outra mais organizada. No futuro, teremos que repensar a questão da escrita,
quando o falar se torne preponderante na Internet.
Muitos se
preocupam com a perda de mercado no campo da educação. Mas vamos continuar
precisando muito de educadores competentes, de pessoas que saibam fazer relações
entre o que está solto, que as adaptem àquele grupo, que peguem uma informação
no cotidiano e a conectem com a vida do aluno, com a profissão dele. Esses
professores terão um futuro brilhante. Começamos a ter uma demanda enorme de
bons profissionais na educação, mas somos poucos. Os outros, nós vamos ter que
suportá-los, ainda muito tempo, porque a educação demora a mudar, mas aquele
que tem essa visão e se prepara para isso, tem e terá mercado em qualquer
lugar.
Eu sinto
hoje, em certas áreas, na área onde eu estou, em São Paulo, que não temos
muitos profissionais bem preparados. As empresas estão buscando profissionais
da educação e da informação, que tenham visão inovadora e capacidade de
mediação, de fazer pontes entre a informação e as organizações. Sobrarão os
professores papagaios, que só repetem o que lêem, que são previsíveis, que
pouco mudam.
Muitos, com
os métodos tradicionais controladores, preparam os alunos para a repetição,
para a obediência. Um aluno bom, qual é? Aquele que me obedece, que repete tudo
que eu quero, que faz tudo o que eu mando. Quem sobrevive hoje nas grandes
empresas? Pessoas criativas, que muitas vezes trazem contribuições
diferentes daquilo que era esperado, que também saibam trabalhar em grupo, que
não sejam excêntricas, pessoas que criem e para criar você tem que sair
do esquema de só obedecer, você tem, de alguma forma, que discordar, não no
sentido ser "cri-cri", mas propondo
alternativas. E nós não educamos nossos alunos nessa perspectiva mais
aberta, e sim na perspectiva da obediência, da submissão. Então, nós os estamos
preparando para o desemprego.
Alguns problemas no uso da Internet
O aluno tem
propensão à dispersão, perde muito tempo, abre muitas páginas ao mesmo tempo,
nem todas páginas que você quer, muitas que você não quer ao mesmo tempo, faz
um hipertexto de navegação muito curioso, dispersivo e confuso, ao menos para
um adulto. Confunde também quantidade com qualidade, quantidade de páginas com
conhecimento (o mesmo processo de sempre, só que a Internet o torna mais
visível).
Alguns
alunos ainda preferem as aulas tradicionais. Preferem ficar ouvindo, fazendo
anotações. Custa-lhes mudar de atitude e por isso criticam o professor que
inova.
Um outro
problema é o deslumbramento dos jovens pelas imagens e sons. De um lado é uma
qualidade, porque eles têm uma aguda percepção da linguagem audiovisual, mas de
outro lado ficam babando pelos sites que têm
animações, banners,
muitas cores e não olham para o conteúdo, a qualidade dos artigos. Há sites muito ricos, que eu não consigo esgotar e que os
alunos demoram dois minutos, pois afirmam que já viram tudo...
Outro
complicador é o alto grau de consumismo de muitos jovens: consomem rapidamente
a informação e sempre procuram algo novo, diferente, o que os torna superficiais,
rápidos, “antenados” e dispersivos. O conhecimento se dá pela troca, pelo
intercâmbio, pela interação, mas também pela interiorização, pela reflexão
pessoal, pela capacidade de reorganizar pessoalmente o que percebemos fora. E
para muitos, atentos ao navegar, torna-se difícil mergulhar em si mesmos.
Alguns
princípios que continuam sempre fundamentais nesse processo: Como integrar
tecnologia e humanismo? Na primeira parte foquei mais o humanismo, depois falei
de tecnologia, agora vou juntá-los. Alguns princípios continuam sendo básicos:
·
Ligar
a Internet à vida dos alunos, ver os interesses deles no cotidiano, o que está
acontecendo. Isto sempre os motiva: fazer uma ponte entre o que a TV mostra e o
tema a ser trabalhado em classe.
·
Tentar
chegar aos alunos por todos os caminhos possíveis, pela experiência, pela
imagem, pelo som, pelo teatro, dramatização, pela multimídia, pela interação
real e virtual. Depois observar onde o aluno está, partir de onde ele está, ir
até ele e ajudá-lo a avançar, a evoluir. Acontece que o
professor, com freqüência, usa toda a experiência que ele tem hoje como
adulto e descontextualiza totalmente a visão que o adolescente está
construindo. Isso cria uma incomunicação profunda. É
importante aproximar-se do aluno, conhecê-lo, valorizar seu conhecimento
específico e, a partir daí, ajudá-lo a crescer e a problematizar mais.
·
Integrar
as tecnologias com a vida o tempo todo, o real e o virtual. Vocês percebem que
eu não estou excluindo uma coisa ou outra. Algumas pessoas se isolarão mais,
como hoje o fazem diante do medo que a grande cidade lhes provoca. Outras
equilibrarão o estar conectados e o encontro físico, o olho no olho. Projetamos
nas tecnologias nossos desejos, nossos medos e as utilizamos a partir do nosso
modelo de enxergar o mundo. Precisamos aprender a integrar tudo, num olhar abrangente e afetivo, que relacione todas as dimensões da realidade.
Somos pessoas receptivas ao afeto. Somos crianças grandes: um afago nos acalma.
Muitos se expressam de forma agressiva ou distante, fruto de inúmeras formas de
rejeição. A comunicação afetiva facilita o caminho da aprendizagem.
·
Tentar
manter sempre a atitude aberta, estar de antenas ligadas. Uma das coisas mais
bonitas que aprendi nesses últimos anos é que o processo de aprendizagem não se
faz só na escola, mas se faz fundamentalmente na vida. A escola serve para
organizar rapidamente algumas áreas do conhecimento, mas é na vida que
aprendemos mais, que vamos adquirindo a visão de totalidade. E me inspiro no
exemplo de algumas pessoas que foram sempre crescendo na capacidade de
compreender o mundo, mesmo já em idade avançada, e sempre estavam prontas para
aprender, para evoluir sempre mais. E eu
acho isso fantástico! Enquanto isso, quantas pessoas vão minguando física,
psicológica e moralmente, à medida que envelhecem! Por isso, é fundamental
estar sempre de antenas ligadas, interligando tudo, aumentando a comunicação
entre o sensorial, o emocional, o racional, o tecnológico e o transcendental –
a esse universo que está aí e ainda não compreendemos bem, pois é cheio de
mistérios.
·
Desenvolver
processos de comunicação cada vez mais coerentes e autênticos, até onde for
possível, principalmente comigo mesmo. Procurar ser autêntico e compreensivo.
Autêntico significa que vou aceitando o que percebo sobre mim mesmo, como o
percebo, aceitando meus limites atuais, apoiando-me e procurando avançar até
onde me for possível em cada momento, no ritmo que me for possível. Se eu não me aceito, muitos não me aceitarão. Muitos vivem
em função da aceitação dos outros: se o outro gosta de mim, eu estou feliz; se
me critica, desmorono. Aprenderei mais e me realizarei mais se parto da
aceitação profunda pessoal e não só da social; e se desenvolvo o prazer de
aprender e o prazer de viver. Somos os profissionais da aprendizagem, e que
exemplo damos se não sabemos aprender o principal, que é aprender a viver?.
Todos podemos aprender o tempo todo, podemos transformar nossa vida em um
processo permanente, paciente, confiante e afetuoso de aprendizagem.
(Ano 2001)