Educação inovadora presencial e a distância*
José Manuel Moran
Especialista em mudanças na educação presencial e a distância
Precisamos reinventar a forma de ensinar e aprender, presencial e virtualmente,
diante de tantas mudanças na sociedade e no mundo do trabalho. Os modelos
tradicionais são cada vez mais inadequados. Educar com novas tecnologias é um
desafio que até agora não foi enfrentado com profundidade. Temos feito apenas
adaptações, pequenas mudanças. Agora, na escola e no trabalho, podemos
aprender continuamente, de forma flexível, reunidos numa sala ou distantes
geograficamente, mas conectados através de redes.
O presencial se virtualiza e a distância se presencializa. Os encontros em um
mesmo espaço físico se combinam com os encontros virtuais, a distância, através
da Internet. E a educação a distância cada vez aproxima mais as pessoas,
pelas conexões on-line, em tempo real, que permite que professores e alunos
falem entre si e possam formar pequenas comunidades de aprendizagem.
A educação presencial e a distância começam a ser fortemente modificadas e
todos nós, organizações, professores e alunos somos desafiados a encontrar
novos modelos para novas situações. Ensinar e aprender, hoje, não se limita
ao trabalho dentro da sala de aula. Implica em modificar o que fazemos dentro e
fora dela, no presencial e no virtual, organizar ações de pesquisa e de
comunicação que possibilitem continuar aprendendo em ambientes virtuais,
acessando páginas na Internet, pesquisando textos, recebendo e enviando novas
mensagens, discutindo questões em fóruns ou em salas de aula virtuais,
divulgando pesquisas e projetos.
Quando alunos e professores estão conectados, surgem novas oportunidades de
interação, antes simplesmente impensáveis. O que vale a pena fazer quando
estamos em sala de aula e quando estamos só conectados? Como combinar,
integrar, gerenciar a interação presencial e a virtual? Como "dar
aula" quando os alunos estão distantes geograficamente e podem estar
conectados virtualmente?
A Internet abre um horizonte inimaginável de opções para implementação de
cursos à distância e de flexibilização dos presenciais. Pelo desenvolvimento
da rede é possível disponibilizar, pesquisar e organizar em uma página WEB
conteúdos, interligados por palavras-chave, links, sons e imagens e utilizar
ferramentas de colaboração como correio eletrônico, fóruns de discussão e
outras mídias que favorecem a construção de comunidades virtuais de
aprendizagem.
Temos poucos profissionais capacitados para preparar e gerenciar cursos flexíveis
semipresenciais e de educação a distância. É uma área de grande futuro, mas
ainda estamos aprendendo fazendo, experimentando, pesquisando.
A flexibilização dos cursos presenciais
Tendo acesso à Internet, podemos flexibilizar a forma de organizar os momentos
de sala de aula e os de aprendizagem virtual de forma integrada e alternada.
Os cursos podem alternar momentos de encontro numa sala de aula e outros em que
continuamos aprendendo cada um no seu lugar de trabalho ou em casa, conectados
através de redes eletrônicas.
Há muitos programas (softwares) que permitem realizar um conjunto de atividades
pedagógicas e de acompanhamento de alunos dentro de um mesmo ambiente virtual.
Os mais utilizados atualmente são o WebCT (www.webct.com), o Blackboard (www.blackboard.com),
o Teleduc (http://hera.nied.unicamp.br/teleduc), o AulaNet (http://www.aulanet.com.br/)
entre outros, como o Universite, o LearningSpace, o FirstClass. O Teleduc da
Unicamp, o AulaNet da PUC-Rio e o E-Proinfo do MEC são gratuitos. O WebCT
e o Blackboard são pagos, embora este último permite criar cursos individuais
gratuitos.
São programas que rodam na Internet e possibilitam colocar textos, sons,
imagens; enviar e receber mensagens. Eles possuem também um conjunto de
ferramentas de comunicação, que permitem fazer discussões a distância ao
mesmo tempo em salas de bate-papo (chats) ou em um lugar, chamado fórum, onde
as mensagens vão se organizando por assuntos ou por grupos e que podem ser
escritas e acessadas por alunos e professores a qualquer momento. Esses
programas evoluem rapidamente e vão incorporando ferramentas mais sofisticadas
de comunicação, como o vídeo chat, uma comunicação em tempo real, com um
mix de som, texto escrito e imagem, - o professor pode ser visto pelos alunos ao
vivo - adequado para este momento de transição entre a banda estreita e a
larga, de maior velocidade. Os programas permitem também o gerenciamento do
curso a distância: cadastrar os alunos, acompanhá-los em cada etapa, ver se
estão participando adequadamente do curso, que materiais estão sendo mais ou
menos acessados, etc. E, pela primeira vez os mesmos programas podem ser
utilizados para flexibilizar um curso presencial ou gerenciar um a distância.
Num curso costumamos seguir um padrão relativamente semelhante. Antes de começar,
selecionamos as ferramentas que vamos utilizar e as personalizamos. Colocamos a
estrutura do curso, os temas principais, uma biblioteca virtual com os links
principais comentados. Preparamos os textos básicos que vão sendo colocados
conforme o andamento do curso. Consideramos importante planejar o curso como um
todo e, ao mesmo tempo, estar atentos às situações concretas que se
apresentam com cada grupo, para incorporar o que nos pareça mais válido, para
valorizar as qualidades dos alunos, para interagir efetivamente ao longo de
curso.
Nas primeiras aulas é importante motivar os alunos para o curso, criar boas
expectativas, estabelecer laços de confiança e organizar o processo de
aprendizagem. Podemos valorizar os primeiros encontros com os alunos para que se
tornem agradáveis, interessantes, cativantes. Isso facilita todo o processo
posterior. Se os alunos compreendem que vale a pena participar do processo de
aprender juntos, o nosso trabalho fica extremamente facilitado. Procurar
organizar uma aula com uma boa apresentação tecnológica (PowerPoint), vivências,
navegação on-line pela Internet e idéias inovadoras. Dar muita importância a
criar um clima de apoio, de incentivo, de afeto, partindo de mim. Mostrar que
estamos gostando de estar lá, que vale a pena investir esse tempo juntos,
porque todos vamos aprender muito (eu também). Procurar ter uma sala de aula o
mais rica possível de tecnologias: computador e multimídia para apresentação
e ponto de Internet para acesso on-line. Isso nos permite uma grande
flexibilidade na passagem de um momento de apresentação de idéias, para outro
de ilustração, de pesquisa, de contribuições dos alunos. Se um aluno conhece
um texto ou site interessante, vai lá e o mostra diretamente à classe. Esse
clima cordial e otimista contagia à maior parte dos alunos e os predispõe a
colaborar mais, a dar o melhor de si.
Como uma parte do curso vai acontecer no ambiente virtual, mostramos esse
ambiente ao vivo, onde estão os textos, o espaço de colaboração, o que
facilita a navegação dos alunos depois.
É importante também orientar o processo de pesquisa, tanto do ponto de vista
metodológico como tecnológico (como fazer pesquisa na Internet). Assim é mais
simples realizar pesquisas orientadas, no virtual.
As primeiras aulas também podem ser utilizadas para organizar os alunos em
equipes, em grupos de pesquisa, de projetos. Assim poderemos orientá-los melhor
a distância.
Quando propomos flexibilizar o tempo presencial e virtual damos mais importância
ao estarmos juntos. Nada supera a presença física. O virtual é um pálido
reflexo das possibilidades de contato e intercâmbio que o presencial propicia e
que exploramos pouco. O virtual é mais "cômodo", facilita o acesso a
distância, a comunicação em qualquer momento sem sair do nosso espaço
profissional ou familiar. Mas é uma interação muito pobre comparada com a de
estarmos juntos.
Como até agora a aprendizagem é feita basicamente de forma presencial, não
lhe damos valor. Em cursos semipresenciais, se demoramos muito para retornar à
sala de aula, há uma expectativa pelo reencontro, um desejo de ver-nos, de
estar juntos, de colocar em comum nossas impressões. A flexibilização
curricular re-valorizará a importância de aproveitar os momentos de presença
física.
Depois das primeiras aulas presenciais, podemos marcar uma primeira leitura
virtual de um texto e o início da primeira pesquisa. Os alunos lêem o texto,
colocam suas observações no fórum. Voltamos ao presencial, aprofundamos as
questões que apareceram no fórum e vamos dando mais tempo para o virtual,
vamos espaçando mais os encontros, de acordo com a maturidade da turma, com o
tipo de assunto. Como orientação pode-se fazer a primeira aula virtual curta e
depois manter uma relação de duas por uma: uma presencial e duas virtuais. No
virtual pode-se manter uma parte do tempo ocupado em compreensão de textos
fundamentais. Os resumos vão para o fórum. As questões principais são
resumidas pelo professor e se marca um encontro virtual em tempo real (chat)
para aprofundar algumas das questões do fórum. Os alunos fazem suas pesquisas
sobre o mesmo tema, as colocam na página e as aprofundam no próximo encontro
presencial.
Algumas atividades no chat são para tirar algumas dúvidas, onde quem quiser
coloca alguma questão em relação ao texto projeto e o professor procura
orientá-lo. Em outros momentos, organizamos grupos para discutir um tema bem
específico dentro de cada sala de aula virtual, com a supervisão do professor.
Cada experiência virtual on-line tem o seu valor. Tirar dúvidas pode ser útil,
se o grupo for disciplinado e não muito numeroso. Os nomes dos alunos e do
professor aparecem em um canto da tela e todos sabem quem entra, sai ou
permanece lá. Discutir um texto ou questão em pequenos grupos em salas
virtuais é interessante. Corresponde à discussão feita em grupos numa sala de
aula presencial. Através da lista de discussão ou fórum o professor organiza
os grupos com seus coordenadores e salas respectivas e discutem o texto ou
assunto indicado durante um tempo determinado. O professor navega pelas várias
salas, acompanha a discussão, participa quando percebe que é conveniente. Essa
conversa de cada grupo fica registrada para acesso posterior de qualquer aluno
na hora que ele quiser. É importante que cada grupo faça uma síntese do que
foi discutido para facilitar o próprio trabalho de aprendizagem e de quem
acessar depois. Essa síntese pode ser colocada também no fórum para dar-lhe
mais visibilidade. É conveniente ter um assistente para acompanhar no
gerenciamento do chat. A seqüência de perguntas e respostas é muito rápida.
Ele se envolve mais com as respostas imediatas e o professor fica observando
mais o ritmo, o movimento e faz rápidas sínteses ou colocações em menos
momentos, mas significativos. Assim consegue-se perceber melhor o que está
acontecendo, quando há dispersões desnecessárias ou quando ressaltar um
aspecto que está sendo apresentado.
Como nem sempre é possível reunir os alunos em horários predeterminados, o
professor pode organizar também discussões gerais ou grupais no fórum. É um
espaço onde se podem criar tópicos de discussão e cada um escreve quando o
considera conveniente. Há fóruns gerais, para todos e podem também ser
organizados em grupos, para discutir assuntos específicos e facilitar a interação.
Os fóruns de grupos podem ser abertos a todos ou só para cada equipe,
dependendo do grupo e da atividade. O importante é que os grupos participem, se
envolvam, discutam, saiam do isolamento, um dos grandes problemas da educação
a distância até agora.
As ferramentas de comunicação virtual até agora são predominantemente
escritas, caminhando para ser audiovisuais. Por enquanto escrevemos mensagens,
respostas, simulamos uma comunicação falada. Esses chats e fóruns permitem
contatos a distância, podem ser úteis, mas não podemos esperar que só assim
aconteça uma grande revolução, automaticamente. Depende muito do professor,
do grupo, da sua maturidade, sua motivação, do tempo disponível, da
facilidade de acesso. Alguns alunos se comunicam bem no virtual, outros não.
Alguns são rápidos na escrita e no raciocínio, outros não. Alguns tentam
monopolizar as falas (como no presencial) outros ficam só como observadores.
Por isso é importante modificar os coordenadores, incentivar os mais passivos e
organizar a seqüência das discussões.
O ritmo do presencial-virtual depende de muitos fatores. Não se pode
estabelecer a priori um padrão rígido. Cada professor encontrará o seu ponto
ideal de equilíbrio e depende também do grau de maturidade e cooperação da
classe. O importante é que prever uma espécie de aula-sanfona, que vai do
presencial para o virtual e volta para o presencial de acordo com o ritmo do
grupo.
Hoje a possibilidade que temos de troca no presencial é muito maior que no
virtual (embora não aproveitemos, em geral, o seu potencial). Com o avanço da
banda larga, ao ver-nos e ouvir-nos facilmente, recriaremos condições de
presencialidade de forma mais próxima e sentiremos mais o contato com os
outros, que estão em diversos lugares.
Pela avaliação feita com os alunos, vale a pena utilizar ambientes virtuais
como ampliação do espaço e tempo da sala de aula tradicional, mas não são
uma panacéia para a aprendizagem nem substituem a necessidade de contatos
presenciais periódicos. Equilibrando o presencial e o virtual podemos obter
grandes resultados a um custo menor de deslocamento, perda de tempo, e de maior
flexibilidade de gerenciamento da aprendizagem.
Educar em ambientes virtuais exige mais dedicação do professor, mais apoio de
uma equipe técnico-pedagógica, mais tempo de preparação – ao menos nesta
primeira fase - e principalmente de acompanhamento, mas para os alunos há um
ganho grande de personalização da aprendizagem, de adaptação ao seu ritmo de
vida, principalmente na fase adulta.
Com o aumento do acesso dos alunos à Internet, poderemos flexibilizar bem mais
o curriculum, combinando momentos de encontro numa sala de aula com outros de
aprendizagem individual e grupal. Aprender a ensinar e a aprender, integrando
ambientes presenciais e virtuais, é um dos grandes desafios que estamos
enfrentando atualmente na educação no mundo inteiro.
É importante neste processo dinâmico de aprender pesquisando, utilizar todos
os recursos, todas as técnicas possíveis por cada professor, por cada instituição,
por cada classe: integrar as dinâmicas tradicionais com as inovadoras, a
escrita com o audiovisual, o texto seqüencial com o hipertexto, o encontro
presencial com o virtual.
O que muda no papel do professor? Muda a relação de espaço, tempo e comunicação
com os alunos. O espaço de trocas se estende da sala de aula para o virtual. O
tempo de enviar ou receber informações se amplia para qualquer dia da semana.
O processo de comunicação se dá na sala de aula, na internet, no e-mail, no
chat. É um papel que combina alguns momentos do professor convencional - às
vezes é importante dar uma bela aula expositiva – com um papel muito mais
destacado de gerente de pesquisa, de estimulador de busca, de coordenador dos
resultados. É um papel de animação e coordenação muito mais flexível e
constante, que exige muita atenção, sensibilidade, intuição (radar ligado) e
domínio tecnológico.
Gestão inovadora de cursos a distância
A educação a distância está evoluindo rapidamente no Brasil. As tecnologias
telemáticas permitem uma rápida comunicação entre professores e alunos, na
escola e no trabalho. A Lei de Diretrizes e Bases legitimou a educação a distância,
ao conferir-lhe valor legal equivalente ao dos cursos presenciais. Nestes próximos
anos vivenciaremos aproximações significativas entre o presencial e a distância.
Teremos uma flexibilização maior de modelos de cursos, de ambientes de
aprendizagem, semi-presencial ou a distância.
O conceito de Educação a Distância está mudando rapidamente. De cursos por
correspondência ou somente baseados em textos estamos começando a organizar
processos de aprendizagem com forte apoio da Internet, de interação mais
constante. As grandes universidades ainda não entraram para valer em EAD. Estão
começando a oferecer alguns cursos, mas o foco principal continua sendo o
atendimento aos alunos regulares presenciais. O grande problema dos cursos a
distância é a ênfase no conteúdo e muito menor na interação. O grande
desafio é transformar o espaço virtual em um ambiente rico de aprendizagem,
que ultrapasse a relação texto e exercícios.
O desafio inovador em EAD é superar o "conteudismo" e criar ambientes
ricos de aprendizagem. As grandes universidades são importantes não somente
pelo acontece nas salas de aula, mas também pelas inúmeras possibilidades de
aprendizagem em grupos de pesquisa, eventos, congressos, laboratórios,
bibliotecas, conversas ocasionais em espaços diferentes. A educação a distância
será importante quando ofereça essas inúmeras possibilidades de aprendizagem
simultaneamente, quando houver atividades diversificadas e eletivas num curso e
quando superarmos a programação rígida de leitura e atividades fixas que a
caracterizam até o presente momento.
A educação a distância pode ser feita nos mesmos níveis que na educação
regular: É mais adequada para a educação de adultos, principalmente para
aqueles que já têm experiência consolidada de aprendizagem individual e de
pesquisa, como acontece na pós-graduação e também na graduação.
Até agora predominam os cursos de curta duração em Educação a Distância:
cursos livres, de extensão, de atualização, cursos técnicos. São mais fáceis,
as organizações arriscam menos, são úteis para aprender a gerenciar
processos de EAD. Há uma demanda por educação contínua na educação escolar
(formação de professores em serviço) e nas empresas (educação corporativa,
"treinamento"). Algumas empresas estão optando por assumir elas
mesmas o processo de educação contínua (com o nome pomposo de universidades
corporativas) e estão dando cada vez mais importância à educação on-line,
pela necessidade de rápida atualização e para baratear os custos da formação
contínua. A competição entre as empresas e a necessidade de formar
continuamente os trabalhadores, nos diversos níveis, favorece o crescimento da
educação a distância on-line. Temos duas mil universidades corporativas nos
Estados Unidos e mais de vinte no Brasil. Jeanne MEISTER (1999) estima que
quarenta por cento de toda a formação e treinamento empresarial será
oferecido pela Internet até 2003.
A segunda área de oferecimento de cursos é na Pós-Graduação lato sensu (no
sentido mais amplo): são cursos de especialização, de aproximadamente 360
horas. Muitas organizações estão capacitando seus funcionários em serviço,
sem tirá-los dos seus postos de trabalho. O que importa, principalmente na área
empresarial, é a qualidade dos docentes e a certificação por uma universidade
de renome, principalmente os cursos voltados para o mercado. Para obter
certificação oficial precisam de autorização do MEC.
Estão começando os cursos de graduação a distância. Várias universidades,
principalmente públicas, como a Federal do Paraná, a Estadual de Santa
Catarina, a Federal Fluminense têm cursos em andamento, principalmente em
Pedagogia. O Estado do Rio de Janeiro reuniu as cinco universidades públicas em
um consórcio chamado CEDERJ e está ofertando atualmente Licenciatura em Educação
Matemática e em Ciências Biológicas a distância, em convênio com algumas
prefeituras e se prepara para implantar outras licenciaturas. O processo é mais
lento porque depende de autorização formal da Secretaria de Ensino Superior (SESU)
do Ministério de Educação, que exige um projeto bem fundamentado e detalhado
e uma vistoria feita por especialistas para avaliar a qualidade técnica, pedagógica
e financeira da instituição. Há um campo muito promissor para a educação a
distância no ensino técnico de nível superior e de nível médio.
Na Pós-Graduação stricto sensu (a que forma mestres e doutores), foi
autorizada em 2001 e sinaliza que as universidades que já estão bem avaliadas
pela Capes possam oferecer esses mesmos cursos a distância. É um campo
promissor pela grande demanda de qualificação acadêmica exigida para poder
dar aula em faculdade e pela competitividade crescente também no campo
profissional.
A educação a distância está muito contaminada por modelos instrucionais,
behavioristas, de linha de montagem. Há um deslumbramento com tecnologias, com
o charme de nomes impactantes mercadologicamente como "E-learning",
"Educação on-line", mas a grande maioria desses cursos são
"treinamento", informação, conteúdo modernizados.
Estamos numa fase de transição na educação a distância. Muitas organizações
estão se limitando a transpor para o virtual adaptações do ensino presencial
(aula multiplicada ou disponibilizada). Há um predomínio de interação
virtual fria (formulários, rotinas, provas, e-mail) e alguma interação on
line (pessoas conectadas ao mesmo tempo, em lugares diferentes). Os cursos são
muito empacotados, seguem formulas semelhantes, dão ênfase excessiva ao conteúdo
e pouca à aprendizagem em pequenos grupos, à pesquisa significativa, à produção
de conhecimento adaptado à realidade de cada aluno e grupo.
Apesar disso, já é perceptível que começamos a encontrar universidades com
projetos mais participativos, ao menos no seu planejamento. Mas são experiências
ainda muito iniciais e que, assim como no presencial, também precisam ser
testadas, experimentadas, avaliadas dentro desta visão mais flexível e
inovadora.
Na verdade estamos caminhando para uma aproximação sem precedentes entre os
cursos presenciais (cada vez mais semi-presenciais) e os a distância Os
presenciais terão disciplinas parcialmente a distância e outras totalmente a
distância. E os mesmos professores que estão no presencial-virtual começam a
atuar também na educação a distância. Teremos inúmeras possibilidades de
aprendizagem que combinarão o melhor do presencial (quando possível) com as
facilidades do virtual.
Em poucos anos dificilmente teremos um curso totalmente presencial. Por isso
caminhamos para muitas fórmulas de organização de processos de
ensino-aprendizagem. Vale a pena inovar, testar, experimentar, porque avançaremos
mais rapidamente e com segurança na busca destes novos modelos que estejam de
acordo com as mudanças rápidas que experimentamos em todos os campos e com a
necessidade de aprender continuamente. Nos toca viver uma etapa fascinante em
que precisamos reorganizar tudo o que conhecíamos em novos moldes, formatos,
propostas, desafios. Os que compreendam e ponham em prática antes essas novas
experiências, os inovadores, colherão rapidamente seus frutos em realização
afetiva, profissional e econômica.
Caminhamos para formas de gestão menos centralizadas, mais flexíveis,
integradas. Para estruturas mais enxutas. Está em curso uma reorganização física
dos prédios. Menos quantidade de salas de aula e mais funcionais. Todas elas
com acesso à Internet. Os alunos começam a utilizar o notebook para pesquisa,
para busca de novos materiais, para solução de problemas. O professor
universitário também está conectando-se mais em casa e na sala de aula e tem
mais recursos tecnológicos para exibição de materiais de apoio para motivar
os alunos e ilustrar as suas idéias. Teremos mais ambientes de pesquisa grupal
e individual em cada escola; as bibliotecas se converterão em espaços de
integração de mídias, software, bancos de dados e assessoria.
O processo de mudança na educação não é uniforme nem fácil. Iremos mudando
aos poucos, em todos os níveis e modalidades educacionais. Há uma grande
desigualdade econômica, de acesso, de maturidade, de motivação das pessoas.
Alguns estão preparados para a mudança, outros muitos não. É difícil mudar
padrões adquiridos (gerenciais, atitudinais) das organizações, governos, dos
profissionais e da sociedade. E a maioria não tem acesso a esses recursos
tecnológicos, que podem democratizar o acesso à informação. Por isso, é da
maior relevância possibilitar a todos o acesso às tecnologias, à informação
significativa e à mediação de professores efetivamente preparados para a sua
utilização inovadora.
Com o aumento da velocidade e de largura de banda, ver-se e ouvir-se a distância
será bem mais fácil e barato. O professor poderá dar uma parte das aulas da
sua sala e será visto pelos alunos onde eles estiverem. Em uma parte da tela do
aluno aparecerá a imagem do professor, ao lado um resumo do que está falando.
O aluno poderá fazer perguntas no modo chat ou sendo visto, com autorização
do professor, por este e pelos colegas. Essas aulas ficarão gravadas e os
alunos poderão acessá-las off line, quando acharem conveniente.
As possibilidades educacionais que se abrem e os problemas são imensos. Haverá
uma mobilidade constante de grupos de pesquisa, de professores participantes em
determinados momentos, professores da mesma instituição e de outras. Muitos
cursos poderão ser realizados a distância com som e imagem, principalmente
cursos de atualização, de extensão. As possibilidades de interação serão
diretamente proporcionais ao número de pessoas envolvidas.
Os problemas também serão gigantescos, porque não temos experiência
consolidada de gerenciar pessoas individualmente e em grupo, simultaneamente, a
distância. As estruturas organizativas e currículos terão que ser muito mais
flexíveis e criativos, o que não parece uma tarefa fácil de se realizar.
Conclusão: experimentar e avaliar
Estamos aprendendo, fazendo. Os modelos de educação tradicional e de EAD não
nos servem mais. Por isso é importante experimentar algo novo em cada semestre.
Fazer as experiências possíveis nas nossas condições concretas.
Perguntar-nos no começo de cada semestre: "O que estou fazendo de
diferente neste curso? O que vou propor e avaliar de forma inovadora?"
Assim, pouco a pouco iremos avançando e mudando.
Podemos começar pelo mais simples na utilização de novas tecnologias e ir
assumindo atividades mais complexas. Começar pelo que conhecemos melhor, pelo
que nos é familiar e de fácil execução e avançar em propostas mais ousadas,
difíceis, não utilizadas antes. Experimentar, avaliar e experimentar novamente
é a chave para a inovação e a mudança desejadas e necessárias.
Vivemos um período de grandes desafios no ensino focado na aprendizagem.
Podemos encontrar novos caminhos de integração do humano e do tecnológico; do
racional, sensorial, emocional e do ético; integração do presencial e do
virtual; da escola, do trabalho e da vida.
Bibliografia:
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez,
1998.
HEIDE, Ann & STILBORNE, Linda. Guia do professor para a Internet.
Porto Alegre: Artmed, 2000.
LANDIM, Claudia Maria Ferreira. Educação a distância: algumas considerações.
Rio de Janeiro: s/n, 1997.
LITWIN, Edith (org). Educação a distância: temas para o debate de uma nova
agenda educativa. Porto Alegre: Artmed, 2000.
LUCENA, Carlos & FUKS, Hugo. A educação na era da Internet. Rio de
Janeiro: Clube do Futuro, 2000.
LUCENA, Marisa. Um modelo de escola aberta na Internet: kidlink no Brasil.
Rio de Janeiro: Brasport, 1997.
MAIA, Carmem (org). EAD.BR: Educação a distância no Brasil na era da
Internet. São Paulo: Anhembi-Morumbi, 2000.
MASETTO, Marcos (org.). Docência na Universidade. Campinas: Papirus,
1998.
MEISTER, Jeanne. Educação Corporativa; A gestão do capital intelectual
através das universidades corporativas. Rio, Makron Books, 1999.
MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos & BEHRENS, Marilda. Novas
tecnologias e mediação pedagógica. 7 ed. São Paulo: Papirus, 2003.
MORAN, José Manuel. Internet no ensino. Comunicação & Educação.
V (14): janeiro/abril 1999, p. 17-26.
MORAN, José Manuel. Textos sobre Tecnologias e Comunicação in www.eca.usp.br/prof/moran/textosead.htm
NISKIER, Arnaldo. Educação a distância: a tecnologia da esperança; políticas
e estratégias a implantação de um sistema nacional de educação aberta e a
distância. São Paulo: Loyola, 1999.
SILVA, Marco (org.). Educação online. São Paulo: Loyola, 2003.
*Idéias extraídas do meu artigo "Contribuições para uma pedagogia da educação online" publicado em SILVA, Marco (org.). Educação online. São Paulo, Loyola, 2003