As possibilidades das redes
de aprendizagem
Especialista em mudanças na educação presencial e a distância
Hoje temos um número
significativo de professores desenvolvendo projetos e atividades mediados por
tecnologias. Mas a grande maioria das escolas e professores ainda está tateando
sobre como utilizá-las adequadamente. A apropriação
das tecnologias pelas escolas passa por três etapas, até o momento. Na
primeira, as tecnologias são utilizadas para melhorar o que já se vinha
fazendo, como o desempenho, a gestão, para automatizar processos e diminuir
custos. Na segunda etapa, a escola insere parcialmente as tecnologias no
projeto educacional. Cria uma página na Internet com algumas ferramentas de
pesquisa e comunicação, divulga textos e endereços interessantes, desenvolve alguns
projetos, há atividades no laboratório de informática, mas mantém intocados
estrutura de aulas, disciplinas e horários. Na terceira, que começa atualmente,
com o amadurecimento da sua implantação e o avanço da integração das
tecnologias, as universidades e escolas repensam o seu projeto pedagógico, o
seu plano estratégico e introduzem mudanças significativas como a
flexibilização parcial do currículo, com atividades a distância combinadas as
presenciais.
Os professores, em geral, ainda estão utilizando as
tecnologias para ilustrar aquilo que já vinham fazendo, para tornar as aulas
mais interessantes. Mas ainda falta o domínio técnico-pedagógico que lhes
permitirá, nos próximos anos, modificar e inovar os processos de ensino e
aprendizagem.
As redes, principalmente
a Internet, estão começando a provocar mudanças profundas na educação
presencial e a distância. Na presencial, desenraizam o conceito de
ensino-aprendizagem localizado e temporalizado. Podemos aprender desde vários
lugares, ao mesmo tempo, on e off-line,
juntos e separados. Como nos bancos, temos nossa agência (escola), que é nosso
ponto de referência; só que agora não precisamos ir até lá o tempo todo para
poder aprender.
As redes também estão
provocando mudanças profundas na educação a distância (EAD). Antes a EAD era
uma atividade muito solitária e exigia muita auto-disciplina. Agora, com as
redes, a EAD continua como uma atividade individual, combinada com a
possibilidade de comunicação instantânea, de criar grupos de aprendizagem,
integrando a aprendizagem pessoal com a grupal.
A educação presencial
está incorporando tecnologias, funções, atividades que eram típicas da educação
a distância, e a EAD está descobrindo que pode ensinar de forma menos
individualista, mantendo um equilíbrio entre a flexibilidade e a interação.
Blogs e Flogs
Quando focamos mais a aprendizagem
dos alunos do que o ensino, a publicação da produção deles se torna
fundamental. Recursos como o portfólio, onde os alunos organizam o que produzem
e o disponibilizam para consultas, são cada vez mais utilizados. Os blogs, fotologs e videologs são recursos muito interativos de publicação com
possibilidade de fácil atualização e participação de terceiros.
Os blogs,
flogs (fotologs ou videologs)
são utilizados mais pelos alunos que pelos professores, principalmente como
espaço de divulgação pessoal, de mostrar a identidade, onde se misturam
narcisismo e exibicionismo (em diversos graus). Atualmente há um uso crescente
dos blogs por professores dos vários
níveis de ensino, incluindo o universitário. Os blogs permitem a atualização constante da informação pelo professor
e pelos alunos, favorecem a construção de projetos e pesquisas individuais e em
grupo, a divulgação de trabalhos. Com a crescente utilização de imagens, sons e
vídeos, os flogs têm tudo para
explodir na educação e integrarem-se com outras ferramentas tecnológicas de
gestão pedagógica. As grandes plataformas de educação a distância ainda não
descobriram e incorporaram o potencial dos blogs
e flogs.
A possibilidade dos alunos se
expressarem, tornarem suas idéias e pesquisas visíveis, confere uma dimensão
mais significativa aos trabalhos e pesquisas acadêmicos. A Internet possui hoje
inúmeros recursos que combinam publicação e interação, através de listas,
fóruns, chats,
blogs. Existem portais de publicação mediados, onde há algum
tipo de controle e existem outros abertos, baseados na colaboração de
voluntários. O site www.wikipedia.org/ traz um dos esforços
mais notáveis no mundo inteiro de divulgação do conhecimento. Milhares de
pessoas contribuem para a elaboração de enciclopédias sobre todos os temas,
A escola em conexão com o mundo
A escola com as redes eletrônicas
se abre para o mundo, o aluno e o professor se expõem, divulgam seus projetos e
pesquisas, são avaliados por terceiros, positiva e negativamente. A escola
contribui para divulgar as melhores práticas, ajudando outras escolas a
encontrar seus caminhos. A divulgação hoje faz com que o conhecimento
compartilhado acelere as mudanças necessárias, agilize as trocas entre alunos,
professores, instituições. A escola sai do seu casulo, do seu mundinho e se
torna uma instituição onde a comunidade pode aprender contínua e flexivelmente.
Destaco, por exemplo, a importância do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT) de Chicago, que disponibiliza todo o conteúdo dos seus
cursos em várias línguas, facilitando o acesso de centenas de milhares de
alunos e professores a materiais avançados e sistematizados, disponíveis
on-line http://www.universiabrasil.net/mit/.
Alunos, professores, a escola e a comunidade se beneficiam. Atualmente, a maior
parte das teses e dos artigos apresentados em congressos estão publicados na
Internet. O estar no virtual não é garantia de qualidade (esse é um problema
que dificulta a escolha), mas amplia imensamente as condições de aprender, de acesso,
de intercâmbio, de atualização. Tanta informação dá trabalho e nos deixa
ansiosos e confusos. Mas é muito melhor do que acontecia antes da
Internet, quando só uns poucos privilegiados podiam viajar para o exterior
e pesquisar nas grandes bibliotecas especializadas das melhores universidades.
Hoje podemos fazer praticamente o mesmo sem sair de casa.
Os professores podem
ajudar o aluno incentivando-o a saber perguntar, a enfocar questões
importantes, a ter critérios na escolha de sites, de avaliação de páginas, a
comparar textos com visões diferentes. Os professores podem focar mais a
pesquisa do que dar respostas prontas, ou aulas todas acabadas. Podem propor temas interessantes e caminhar dos níveis mais simples de
investigação para os mais complexos; das páginas mais coloridas e estimulantes
para as mais abstratas; dos vídeos e narrativas concretas para os contextos
mais abrangentes e assim ajudar a desenvolver um pensamento arborescente, com
rupturas sucessivas e uma reorganização semântica contínua.
Uma das
formas mais interessantes de desenvolver pesquisa
O processo de mudança será mais lento do que muitos
imaginam. Iremos mudando aos poucos, tanto no presencial como na educação a
distância. Há uma grande desigualdade econômica, de acesso, de maturidade, de
motivação das pessoas. Alguns estão prontos para a mudança, outros muitos não.
É difícil mudar padrões adquiridos (gerenciais, atitudinais) das organizações,
governos, dos profissionais e da sociedade.
Ensinar com as
novas mídias será uma revolução, se mudarmos simultaneamente os paradigmas
convencionais do ensino, que mantêm distantes professores e alunos. Caso
contrário conseguiremos dar um verniz de modernidade, sem mexer no essencial. A
Internet é um novo meio de comunicação, ainda incipiente, mas que pode
ajudar-nos a rever, a ampliar e a modificar muitas das formas atuais de ensinar
e de aprender.
Texto adaptado do capítulo 4 do meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, da Editora Papirus, p.89-111)