Docente da ECA recebe prêmio Tese Destaque USP por pesquisa em Artes Cênicas
Trabalho de Luciano Mendes de Jesus explorou relações étnico-raciais e identidade afrodescendente em grupo performativo internacional
A descrição de um sonho sobre identidade negra com a pesquisadora Neusa Santos Souza abre a tese de doutorado de Luciano Mendes de Jesus. Eventuais post-its estão espalhados ao longo do trabalho e autores como Achille Mbembe e Frantz Fanon aparecem como personagens-guia do texto. O pesquisador explica que buscou uma estrutura que produzisse “um conhecimento legítimo, mas que não tem que ser legitimado pelas lógicas de uma certa academia, e nem mesmo pelas normas da ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas]”.
O resultado foi a tese O mapa é de fragmentos de um espelho no chão do mundo: amizades, africanidades e identidades na Estrada Negra de Grotowski ao Workcenter. Orientado pela docente Sayonara Sousa Pereira, do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), o trabalho recebeu menção honrosa para a área de Letras, Linguística e Artes no Prêmio Tese Destaque USP deste ano.
O estudo aborda o Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards a partir da vivência do próprio autor como performer do grupo entre 2013 e 2015. Ele conta que, apesar das relações de amizade estabelecidas no local, a pesquisa buscou abordar criticamente o pouco destaque de epistemologias afrodiaspóricas e a relevância das presenças negras na trajetória pós-teatral de Grotowski e do Workcenter. Para ele, “o doutorado foi a possibilidade de olhar para isso não de uma maneira de cancelamento”, mas como uma forma de ver as falhas e potências do projeto.
O pesquisador
Luciano é um dos mais novos docentes do Departamento de Artes Cênicas (CAC) e colabora como orientador da Escola de Arte Dramática (EAD) até o fim deste ano. Ele conta que o desejo de fazer teatro surgiu cedo, quando assistiu a um espetáculo de mímica durante o ensino fundamental, em uma escola pública do centro paulistano. “Era algo muito fascinante, era uma magia ver aquele ator fazendo um número de mímica. Ele ficava colocando máscaras diferentes e me levava para um lugar tão especial. Isso me marcou muito”. Depois, no primeiro ano do ensino médio, Luciano participou de sua primeira peça e no ano seguinte, em 1994, ingressou em um curso de teatro.
Foto: Luiza Miyadaira/ LAC-ECA.
Com o desejo de se dedicar apenas à arte, Luciano abandonou a escola. “Só que, lógico, no meu engano juvenil, eu passei 10 anos [como] autodidata. Depois que a minha vida me colocou contra a parede é que eu entendi que, para continuar fazendo teatro, eu tinha que terminar meus estudos. E, dentro de toda a minha condição de realidade, de vida, a universidade surgiu como uma possibilidade de continuar”, explica.
Assim, ele terminou o ensino médio em 2003 e passou a se preparar para o vestibular por meio do cursinho popular da Associação Cultural de Educadores e Pesquisadores das Universidades de São Paulo (Acepusp). Após um ano de estudo, Luciano passou nos vestibulares da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e, também, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Escolheu a Unicamp, por já conhecer e ter feito cursos com um núcleo da universidade, o Lume Teatro.
Entrou na faculdade em 2004 e, com o início da formação superior, começou também o percurso pedagógico em teatro: foi convidado pela Acepusp para dar aulas preparatórias para as provas práticas dos vestibulares de Artes Cênicas. “Eu passava a semana inteira na Unicamp e voltava [para São Paulo] na sexta; geralmente no sábado eu dava aula a tarde inteira”, explica ele. “Acho que o cursinho me deu os primeiros calos e a paciência para lidar com todas essas adversidades que é estudar, pesquisar e criar no campo das artes, principalmente do teatro, aqui em nosso país.”
“Hoje eu me tornei um docente do curso de Artes Cênicas, mas foi a partir dessa longa trajetória, pedagogicamente, em projetos populares, de formação artística básica, em contextos de ONGs.”
Luciano Mendes de Jesus, docente do Departamento de Artes Cênicas
Depois da graduação, Luciano tentou entrar no mestrado três vezes e, em 2013, ingressou no Programa de Pós-Graduação em Música (PPGMUS) da ECA, ao mesmo tempo em que foi admitido no Workcenter. Como resultado desse período de estudos, em 2016 Luciano defendeu a dissertação Quando até as paredes cantam: o som como experiência na obra de Jerzy Grotowski, orientada por Fernando Henrique de Oliveira Iazzetta. Em 2018, ele começou o doutorado no PPGAC para continuar a pesquisa sobre questões que surgiram na experiência vivida no exterior.
O Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards
O Workcenter foi um espaço de trabalho performativo situado na cidade italiana de Pontedera, na região da Toscana. O projeto foi fundado por Jerzy Grotowski, diretor polonês que dedicou parte de sua carreira à criação de encenações teatrais que se tornaram históricas. No entanto, ele rompeu com o teatro tradicional e passou a se dedicar a “uma investigação sobre o ser humano em situações performativas, buscando a performance como um veículo de conhecimento da pessoa sobre si mesma”, conforme conta Luciano.
O pesquisador explica que essa investigação levou o diretor a entrar em contato com os cantos de tradição haitiana e outras culturas afrodiaspóricas, como a cubana e, posteriormente, com o desenvolvimento das pesquisas do grupo, a do sul dos Estados Unidos. Esses cantos foram então incorporados como a base do trabalho investigativo e performativo do Workcenter, que esteve em atividade entre 1985 e 2022.
Foto: Reprodução/Alejandro Tomás Rodriguez.
Luciano afirma que esse tipo de canto, “sobretudo das tradições continuadas e reconstruídas na diáspora, com seu alto poder de transculturação, constrói territórios simbólicos”. Para ele, o ato de cantar reterritorializa a pessoa afrodescendente e as canções funcionam “como âncoras que aterram uma identidade que deriva, geram a noção concreta de pertencimento”.
A tese de Luciano aponta que esses elementos da cultura afrodiaspórica, bem como as presenças de colaboradores afrodescendentes na trajetória do Workcenter, “foram pouco consideradas nos discursos elaborados pelo binômio Grotowski-Workcenter e em pesquisas acadêmicas sobre o mesmo”. Por esse motivo, o pesquisador buscou olhar para essa falta de representação de um modo crítico. Chamou sua atenção o fato de que em quase 30 anos não havia uma presença negra expressiva no grupo, mas justamente quando começaram a aflorar discussões sobre apropriação cultural e racismo institucional, ele e mais três pessoas negras foram selecionadas para ingressar no Open Program do Workcenter.
“Não há discursos neutros. Quando acadêmicas (os) brancas (os) afirmam ter um discurso neutro e objetivo, não estão reconhecendo o fato de que elas e eles também escrevem de um lugar específico que, naturalmente, não é neutro, nem objetivo ou universal, mas dominante. É um lugar de poder.”
Grada Kilomba, escritora, psicóloga e artista portuguesa citada na tese
Amizades teatrais e inimizades raciais
O conceito de políticas de inimizade foi elaborado pelo filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe. Essas políticas correspondem ao conjunto de práticas que visam “a determinação da figura de um inimigo essencial, de um Outro ameaçador da ordem, da estabilidade e da segurança”, conforme explica Luciano. Para nações hegemônicas e grupos extremistas, como consequência da determinação de um inimigo em potencial, a guerra “passa a ser uma ferramenta institucional, com sua práxis da violência e fronteirização sobre a vida”.
No entanto, Luciano considera que sua experiência no Workcenter foi marcada pelo que ele chama, na tese, de políticas de amizade, então ele “tinha que falar dessa experiência de construção de ações criativas, éticas, de colaboração criativa e investigativa fundada no antirracismo”. Ao mesmo tempo, o racismo do meio externo exercia certa influência no trabalho, como ele conta sobre uma experiência de inimizade racial no consulado dos Estados Unidos: às vésperas de uma viagem de trabalho com a equipe, o pesquisador teve o visto negado sob o pretexto de ser um potencial imigrante ilegal, mesmo com muitos documentos que comprovavam seu vínculo ao grupo e à Itália. A consulesa perguntou onde Luciano tinha comprado os documentos e, além disso, afirmou: “eu conheço a gente da sua terra”, se referindo ao Brasil.
Ele explica que é importante falar desses locais limítrofes, como fronteiras e alfândegas, porque eles “determinam, em nível global, a experiência de existência do artista negro africano e afrodescendente” pelo modo de tratar pessoas negras. Na tese, o autor comenta: “o choque entre estes dois modos de vivência [de amizade e inimizade] teve como consequência, em mim, uma constante sensação de deriva”, e ainda diz: “é nesse jogo de tensões que consigo encontrar a crise de uma afrodescendência como marcador identitário em constante elaboração”.
A partir dessas reflexões, Luciano desenvolveu sua pesquisa “observando as experiências comuns que a gente vivia, desse racismo que se dá nas fronteiras, nos aeroportos, nas ruas, nos lugares onde não somos esperados, onde nossa presença não é vista no primeiro momento como legítima”.
O pesquisador também explorou a presença de Thomas Richards, estadunidense que assumiu a direção do Workcenter após a morte de Grotowski, em 1999. Thomas é filho de Lloyd Richards, professor emérito da Universidade Yale. Luciano explica que Lloyd “foi um dos primeiros atores negros a atuar na Broadway e abriu caminho para outros artistas, dramaturgos, diretores, atores. No entanto, Thomas Richards nunca trouxe muito a presença do pai em sua obra...”. O pesquisador também aponta que o reconhecimento como afrodescendente e a relação de Thomas com as tradições afrodiaspóricas só chegaram por meio das provocações de Grotowski, um homem branco.
“E se é verdade que esta terra é de todos, não se pode exigir de quem quer que seja que volte à sua terra.”
Achille Mbembe, filósofo e cientista político camaronês citado na tese
A tese foi composta pelos relatos de experiências próprias entrelaçados à base teórica, com autores como Frantz Fanon e Michel Foucault. Essa abordagem veio a partir da banca de qualificação do doutorado, quando foi sugerido que ele explorasse outras formas de produzir conhecimento. Ele explica que, na qualificação, o doutorado mudou de rumo — o tema, a metodologia e o formato da tese mudaram. A partir daí, Luciano abandonou o formato mais tradicional das produções acadêmicas e passou a produzir seu trabalho a partir da experiência “radicalmente qualitativa”, por meio de uma autoetnografia, metodologia em que o pesquisador emerge como parte do contexto pesquisado.
Além disso, o docente buscou tratar os pensadores citados no trabalho como personagens: fotografias acompanham muitas das citações e, segundo ele, essa seria uma forma de ler as citações como em um diálogo. “Colocar a imagem era fundamental para dar o contorno. Sempre que ia trazer uma citação de um autor negro, eu colocava a imagem nele”.
Com a análise de situações vividas no Workcenter e de seu contexto histórico, Luciano conclui que, no período em que foi parte da equipe, a “maior representatividade [negra] foi uma forma de conseguir legitimação sobre o trabalho sobre cantos de tradições afrodiaspóricas, realizado por uma maioria de pessoas brancas desde a fundação do centro de pesquisa artística”.
Esses cantos foram usados, segundo ele, de forma desracializada, sem a preocupação com as raízes étnico-históricas dessas tradições. Era “um monte de pessoas brancas cantando cantos de pessoas pretas, mas num grupo onde não tem pessoas pretas”, segundo a citação de uma fonte anônima que compõe a tese.
Para Luciano, “quando Grotowski fala do canto de tradição como algo de autoria anônima ou patrimônio da humanidade” o material afrodiaspórico é tratado como arquivo do mundo. Como consequência, esses elementos são mantidos “nas sombras do indiferenciável” apesar do potencial de “construção de vitalidades em qualquer circunstância cultural no tempo presente”.
No pós-doutorado, Luciano pretende pesquisar os vissungos, cantos de tradição do interior de Minas Gerais. O tema começou a ser trabalhado por ele quando ainda estava no Workcenter, e tomou forma no projeto Garimpar em Minas Negras Cantos de Diamante, que foi apoiado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). Para ele, “trabalhar, ensinar, pesquisar e criar nesse campo com as africanias e no diálogo com as culturas dos povos originários e do sul global, é fundamental para, de fato, a construção de uma comunidade na construção de conhecimento”.
“Eu penso as africanidades de maneira afro-referenciada ou afro-perspectivada, mas não afrocêntrica. [...] Eu não quero um novo centro, me interessa muito mais olhar que tudo é centro, o centro está em todos os lugares.”
Luciano Mendes de Jesus, docente do Departamento de Artes Cênicas
Imagem de capa: reprodução/Luciano Mendes de Jesus.