20 anos do Obitel: telenovelas evoluíram com o Brasil
Um dos principais produtos culturais da América Latina, telenovelas são foco de estudo do Observatório Iberoamericano de Ficção Televisiva
O Observatório Iberoamericano da Ficção Televisiva (Obitel) completou 20 anos em fevereiro deste ano. Criado em 2005, o observatório hoje é composto por grupos de pesquisa de 12 países, e tem como objetivo principal cumprir o desejo do teórico Jesús Martín-Barbero, que incentivou a pesquisa na área de telenovelas, consideradas por ele o maior produto cultural da América Latina.
O Obitel é uma rede internacional de pesquisa coordenada pelo Centro de Estudos de Telenovela (CETVN) da ECA. A professora sênior Maria Immacolata Vassallo de Lopes, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) da ECA, pesquisadora da área de telenovelas, foi a criadora do Obitel, além de ser sua atual coordenadora. A criação do observatório aconteceu em Bogotá, na Colômbia, onde seu documento fundador foi apresentado pela primeira vez. Desde então, o grupo publica estudos anuais da ficção televisiva ibero-americana.
Uma breve história da telenovela brasileira
A primeira telenovela brasileira (e do mundo) foi Sua Vida Me Pertence, da TV Tupi, lançada em 1951. O enredo da produção era sobre um homem apaixonado por uma mulher que não o correspondia. Diferente das telenovelas atuais, que apresentam capítulos diários, essa primeira versão começou com capítulos semanais. Outra diferença está nos processos de produção: à época, não existiam videotapes para gravação dos episódios. Todo capítulo veiculado era apresentado ao vivo.
Com o desenvolvimento do formato, outras produções apareceram, assim como outras emissoras além da TV Tupi. A primeira telenovela diária surgiu pela TV Excelsior, em 1963. A professora Immacolata explica: “o primeiro canal de telenovela é a Tupi, depois vem a Globo. Também aparecem a Record e a Manchete, mas o que eu quero dizer é que todas elas passaram a ter ficção, e aí pode-se falar da criação de um modelo”.
modelo visto até hoje na televisão brasileira.
Imagem: Divulgação/TV Tupi
Um dos marcos da televisão é a novela Beto Rockfeller (1968) que, de acordo com a professora, foi essencial para consolidar a ideia de telenovela brasileira. Em seu enredo, Beto é um vendedor de sapatos na avenida Teodoro Sampaio que engana as pessoas, fazendo-as acreditar que ele faz parte da classe alta de São Paulo. Além do uso pioneiro de “externas” — gravações feitas em ambiente aberto, na rua — a produção trazia o conceito de um alpinista social, indivíduo que se aproveita de outras pessoas para entrar em círculos dos quais não faz parte. Esse tipo de personagem apareceu em outras novelas brasileiras, como Vale Tudo, lançada pela primeira vez em 1988 e regravada em 2025.
De acordo com Immacolata, após um período de produção das telenovelas brasileiras, o público começou a se identificar cada vez mais com as narrativas apresentadas nas telas. “[O espectador] se reconhece naquilo que está sendo contado e esse reconhecimento leva ao sentimento de pertencer àquilo. Se eu me reconheço, estou aí.”
A partir dos anos 80, a Rede Globo alcançou seu estado atual de hegemonia na produção e audiência do gênero, apresentando clássicos como Roque Santeiro, Guerra dos Sexos, Rei do Gado, Mulheres de Areia, entre outras. Também como forma de manter esse monopólio, a emissora criou mais recentemente o Globoplay, serviço de streaming que contém todo o catálogo de novelas, séries, minisséries e outros programas famosos dos quais ele detém direitos.
A característica mais marcante das produções da Rede Globo — garantindo seu reconhecimento internacional — é seu padrão de qualidade. “Você tem muito investimento e a novela, no caso a ficção, tem um alto padrão de produção, o padrão Globo”, explica a professora. “O padrão é o melhor que existe dentro de um país. Então, no caso da esfera de produção, temos os diretores, os atores, a equipe técnica, os funcionários e o autor”, complementa.
As telenovelas e a nação imaginada
A telenovela brasileira é reconhecida também pela sua complexidade. As narrativas veiculadas causam reações emocionais no público que assiste, além de abordarem temas sociais com múltiplas tramas entrelaçadas, os denominados “núcleos”. Maria Immacolata introduz em suas pesquisas a ideia de “nação imaginada” no contexto das novelas. O espectador médio, ao assistir diariamente uma narrativa que trata, mesmo que de maneira ficcional, de situações reais com que essa pessoa pode ou não ter contato, como dificuldades financeiras ou problemas amorosos, cria a ideia de uma “nação” — nesse caso, o Brasil — que existe de maneira simbólica através da televisão.
“Assistindo a telenovela e o que ela faz no Brasil, a relação do público com ela, com o autor, com os temas, inclusive sobre a fidelidade [de audiência], do capítulo terminar e ansiar pelo próximo. É uma nação imaginada, mas não fictícia. É o imaginário de um grupo, de uma seleção, e é potente”, explica a pesquisadora. A professora ainda compara o nível da produção e construção narrativa das telenovelas aos de documentários. De acordo com ela, através dos temas e das narrativas complexas, a novela atinge níveis muito realistas. “Você assiste e você sabe que aquilo é uma novela, mas aquilo começa a ser quase a realidade para você”.
Para a professora Immacolata, as telenovelas têm um potencial ainda não explorado: o de recurso de ensino em salas de aula. “Você faz uma aula com telenovela e ensina a pessoa a ver algo que às vezes não veem, só sentem”, explica. “Tem professores que dão as costas, acham ótimo usar filme, documentário, jornalismo, mas novela não. A novela pode estar bombando, o professor chega em casa, assiste, mas não fala em sala de aula”. O motivo para esse recurso ser deixado de lado, de acordo com a pesquisadora, está na característica popular da novela. “A novela é popular, e no Brasil há muito preconceito de classe”, termina.
O Obitel e seus trabalhos
O Obitel atua há 20 anos na análise dos produtos televisivos de 12 países do continente americano. O grupo publica seu livro de estudos todos os anos, com explicações sobre as metodologias, análises individuais e comparativas dos mais diversos programas ficcionais que passam na televisão de diversos países, em diversos contextos, dando espaço para discussões sobre suas particularidades culturais. Esse acompanhamento de décadas é uma forma de observar a relação entre esse produto cultural e a sociedade em que ele está inserido, além de compreender os avanços tecnológicos que o impactam, como a ascensão do streaming, destacada pela professora.
Para a pesquisadora, uma das ações fundamentais para a continuidade dessas análises é acreditar na importância do próprio trabalho. “Acreditar que estamos produzindo um conteúdo válido e diferente, que muita gente não sabe e precisa ser divulgado mais”, explica. “As mudanças estão cada vez mais aceleradas. A gente pisca e já muda. Com coisas cada vez mais complicadas, elas exigem também cada vez mais estudos, renovação de teorias e renovação de conceitos”, completa.
Imagem de capa: montagem de Lorenzo Souza a partir de fotos de Reprodução/Globoplay Novelas e Tânia Rego/Agência Brasil.