Artigo na revista Rumores analisa a série de TV Avisa Lá Que Eu Vou
Texto explora como o programa de entretenimento também expressa um posicionamento político
Na sua última edição, a Revista Rumores traz o artigo Representações do popular e do político em Avisa Lá Que Eu Vou, que trata da produção televisiva criada e apresentada por Paulo Vieira. A série dá visibilidade a grupos historicamente pouco retratados. A análise demonstra como o programa de entretenimento de massa apresenta personagens densos e reflete sobre diferentes realidades com profundidade, em uma construção que explora a brasilidade.
Avisa Lá Que Eu Vou é uma mistura entre programa de viagens e entrevistas. Ele aproveita o simples e a conexão entre as pessoas para apresentar o Brasil de uma forma descontraída ao mesmo tempo em que aborda as complexidades do país. A série, transmitida até 2025 pela Globo, está disponível no Globoplay em 40 episódios divididos em 4 temporadas.
A análise foi realizada pelos pesquisadores Eduardo Paschoal de Sousa, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) e Rosana de Lima Soares, professora do PPGMPA e coordenadora do grupo MidiAto no Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da ECA.
Os autores investigam como a construção dos relatos na série expressa a singularidade de diferentes regiões e das pessoas que vivem nelas enquanto evoca o Brasil Profundo. O conceito remete às realidades de regiões interioranas, locais e pessoas comuns frequentemente desconsideradas na mídia — televisão, streaming, entre outros.
As andanças de Paulo Vieira
O artigo destaca que Paulo Vieira é a figura central para a construção da narrativa, demonstrando aproximações entre a série e o repertório de vida dele: um homem negro, nascido na cidade interiorana Trindade (GO), que cresceu em Tocantins e é camdomblecista.
A linguagem simples e bem humorada de Paulo Vieira cativa os espectadores e as pessoas entrevistadas enquanto o repertório de vida dele direciona a sua criação para um Brasil com mais representatividade.
Um dos exemplos do artigo é o episódio que estreia a série: Natividade. O nome é o mesmo da cidade visitada, na qual o apresentador já viveu. No início, é apresentada uma panela, herança da tataravó escravizada de Paulo, item que desencadeia as interações posteriores.
O artigo também alude à carreira do comediante para explicar como os trabalhos bem sucedidos dele, aliados à sua vivência, trazem legitimidade para a produção:
- Ele ganhou o Prêmio Multishow de Humor, em 2013;
- Participou de um concurso no Domingão do Faustão, em 2015;
- Estreou um quadro no Programa do Porchat;
- Participou do Zorra e da Escolinha do Professor Raimundo;
- Apresentou o Fora de Hora, um jornal fictício de humor.
Avisa Lá Que Eu Vou proporcionou que “Paulo Vieira se tornasse a primeira pessoa negra a apresentar um programa solo na Globo”, destacam os autores.
A importância do comediante para o sucesso da série é estabelecida no artigo. Mas além da relevância da carreira e da história de vida dele para a criação da narrativa, ele também possui uma postura assertiva ao escolher os locais visitados, os temas discutidos, as pessoas entrevistadas e como elas são abordadas durante as conversas.
Uma série com as várias regiões e faces do Brasil e dos brasileiros
Baseado nas falas do primeiro episódio, o artigo fala da inspiração de Paulo Vieira para a criação do programa: ele quer conhecer gente. Através do programa, ele vai aos locais para encontrar as pessoas enquanto essas pessoas singulares representam os locais. A abordagem é interessante porque a produção considera os vínculos afetivos e as culturas regionais quando apresenta os nativos em cada episódio.
O estudo mostra que o programa selecionou territórios fora das grandes metrópoles, inclusive, com predominância do Norte e Nordeste. Os autores avaliam que explorar histórias de locais longínquos do Brasil e de pessoas mais simples não é algo incomum na mídia brasileira. O que merece destaque é a forma como isso é feito.
Como é ressaltado no texto, Paulo fala em Avisa Lá Que Eu Vou: “É que eu sempre quis ter um programa de entrevista, mas não tenho paciência para famoso”. Com um humor despretensioso, o programa aproveita a audiência abrangente da TV Globo para apresentar mais do próprio povo. Ele faz isso com relatos, o que torna os lugares e as pessoas indissociáveis.
Segundo o artigo, o canal de transmissão do programa ampliou a divulgação da série a cada temporada. Dados do setor indicam que a segunda temporada teve 6,7 milhões de espectadores e foi o segundo programa mais visto na Globoplay em 2023. Com o lançamento da quarta temporada, foram promovidas entrevistas com Paulo Vieira.
Os autores mostram que ao buscar narrativas que refletem sua trajetória pessoal, o apresentador se põe como um mediador. Ele abre espaço para vozes sub-representadas. Paulo Vieira cria um conteúdo que se aproxima de um Brasil Profundo, o que aumenta a representatividade em comparação às narrativas que a sociedade está acostumada a assistir nas televisões.
“Construir um Brasil popular e profundo por meio do audiovisual seriado pode ser considerada também uma estratégia política de reivindicação de um certo espaço de representação.”
Eduardo Paschoal de Sousa e Rosana de Lima Soares, pesquisadores
Os pesquisadores apontam a relevância de um seriado representativo das várias faces do povo brasileiro. O programa traz temas que navegam pela raça, gênero e classe social em diferentes faixas etárias. Assim, o seriado serve como instrumento de inserção política na vida cotidiana do espectador.
A estética reforçando a mensagem
Os autores demonstram que o conteúdo e a linguagem estética usada reverberam no posicionamento do seu criador. A diversidade de locais e indivíduos, a presença de pessoas negras, indígenas, entre outros, remonta à própria posição de Paulo Vieira, que faz parte de uma minoria política. Ele dialoga com as pessoas em posição de igualdade e, assim, explora a essência de cada entrevistado, incentivando depoimentos autênticos.
“Ao conduzir a entrevista, Paulo Vieira se coloca sempre ao lado da(s) pessoa(s) com quem fala. Sentados, em uma posição de diálogo horizontalizada, os bate-papos são elaborados tendo como cenário representações de um imaginário de um Brasil comum, popular, situado nos interiores do país: cadeiras de área plásticas ou com estrutura de ferro, cadeiras de praia, mesas de bar com comidas de boteco, redes, pedras, troncos de árvore.”
Eduardo Paschoal de Sousa e Rosana de Lima Soares, pesquisadores
O artigo mostra como a representatividade apresentada na série é reforçada pelas escolhas feitas pela produção do programa. Além da abordagem descontraída do criador, imagens e sons também aproximam a audiência.
O visual da gravação transmite a forte identidade dos locais visitados, revelando o íntimo e comum da vida das pessoas sem recorrer à representações estereotipadas ou preconceituosas, alterando a dinâmica frequentemente empregada na mídia hegemônica.
“O plano de fundo oscila entre a praça principal das cidades, a frente da casa da pessoa com quem fala, a garagem de uma casa sem muros, o coreto, uma árvore em meio ao campo [...].”
Eduardo Paschoal de Sousa e Rosana de Lima Soares, pesquisadores
As músicas são uma mistura da realidade local e sons populares em todo o Brasil, como o funk. A análise evidencia como expressões culturais nativas — como artesanato e ritmos da região — e globais — aplicativos de mensagem e namoro — se associam na realidade atual, criando novas dinâmicas sociais enquanto o cerne da vida é a interação humana.
Revista Rumores: Edição Especial
Esta última edição da Rumores é especial comemorativa dos 15 anos do grupo que a publica, o MidiAto - Grupo de Estudos de Linguagem e Práticas Midiáticas. A revista é semestral e seu conteúdo é composto por artigos científicos sobre cultura e mídia.
A edição comemorativa reuniu textos sobre comportamentos na era das redes sociais, plataformas de streaming, filmes e séries brasileiras, Inteligência Artificial, entre outros. Nessa edição, você também vai encontrar outros artigos como Influência, crítica de mídia e disputas na divulgação científica no Instagram, uma analise dos perfis Nunca vi 1 Cientista e Mari Krüger para entender a disputa de espaço na divulgação de conteúdo científico na rede social e Os jovens e a máscara: A vizinhança do tigre e o estigma, texto em que o autor explora como imagens estereotipadas de jovens periféricos são reproduzidas em filmes brasileiros.