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ECA revelada aos 60 anos

Professor Joel La Laina, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão, rememora a história do antigo Laboratório de Fotografia da Escola

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Desde os primeiros anos de sua formação, a ECA já oferecia os melhores equipamentos disponíveis no ambiente profissional, tanto de captação de imagens fixas, quanto em movimento. Laboratórios externos eram contratados para o processamento cinematográfico, enquanto os trabalhos de fotografia e de TV podiam ser finalizados na própria Escola.

Foto em preto e branco de homem branco de perfil operando uma câmera de cinema junto a outro homem, cuja cabeça está coberta pela câmera apoiada em seu ombro. O homem em primeiro plano tem cabelos escuros, ondulados e curtos, e barba escura. Veste camisa xadrez de mangas dobradas. No canto direito, parte do rosto de um homem amarelo. Ao fundo, à esquerda, uma mulher negra observa a cena usando camiseta listrada e macacão. Ao fundo também há um orelhão, um gramado, cercas e um prédio baixo.
O fotógrafo Carlos Moreira, pelo olhar do então estudante Fernando Scavone, hoje professor de Imagem do CTR. No canto, Reinaldo Volpato, cineasta. Foto: Fernando Scavone. 

No curso de Audiovisual, o antigo Laboratório de Fotografia se transformou em Laboratório de Imagem, onde os efeitos e toda finalização para exibição são concebidos e elaborados. A magia de ver a fotografia aparecer, que experimentávamos na penumbra da ampliação, hoje, está na modulação da luz nos estúdios, na correção e gradação da luz, e por fim na exibição.

Só foi possível manter esse encanto natural do processo fotográfico, em nosso caso específico, por conta dos professores e alunos que se encontraram por aqui nos últimos 60 anos.

Posso esquecer de alguns e recordar de outros pouco reconhecidos, que aproveitaram as condições oferecidas nesse generoso convívio criativo. A fotografia é um ato solitário e, no laboratório, se torna estudo compartilhado. A fotografia pode ser memória, e alguns nomes, peço que pesquisem, enquanto outros já são bem conhecidos e citados.

Denise Camargo, que estudou com Carlos Moreira e Ruth Toledo, desenvolveu suas primeiras pesquisas em Deter-se nas banheiras dos químicos reveladores. Hoje, na UNB, como ela mesma se define: “mulher preta, artista, fotógrafa, educadora, gestora cultural”.

Nos anos 80, o Laboratório recebeu alunos dos departamentos de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), de Jornalismo e Editoração (CJE), de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP) e de Artes Plásticas (CAP). O fotógrafo e professor João Musa, na altura, já cuidava das Artes. 

Montagem com duas imagens: a primeira é uma foto em preto e branco de mulher jovem, de pele clara e cabelos curtos com franja, sentada em cadeira de vime segurando um cigarro diante de uma janela iluminada A imagem está colada sobre um papel texturizado marrom com o texto: “O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand convida para a abertura da exposição ELLA DURST fotografias”. A segunda é uma foto em preto e branco de homem branco de perfil operando uma câmera de cinema junto a outro homem, cuja cabeça está coberta pela câmera apoiada em seu ombro. Ao fundo, à esquerda, uma mulher negra observa a cena usando camiseta listrada e macacão. Ao fundo também há um orelhão, um gramado, cercas e um prédio baixo.
Em 74, os meus professores eram Ella Durst (cópia-contato original para exposição MASP) e Chico Botelho, em aula prática. No canto, o diretor de elenco Sung Sfai e, à esquerda, a montadora Cristina Amaral. 

No auge, circulavam pelas salas escuras cerca de 200 alunos e já tivemos mais de 20 ampliadores em pleno funcionamento, sala de aula com projeção de slides, processamento de filmes e papel. A dissertação de mestrado Anatomia da imagem fotográfica, de Antonio Carlos d’ Ávila, uma verdadeira aula de ponto de vista, luz, enquadramento e narrativa fotográfica.

 

ECA revelada aos 60 anos - Galeria 1

Foto em preto e branco de grupo de pessoas em local movimentado com estrutura metálica e grades. No primeiro plano, à esquerda, homem branco, de perfil, apoia-se em grade; veste camisa e jaqueta, com relógio no pulso. À direita, homem fardado com quepe aponta para a frente com o indicador erguido Algumas pessoas ao redor dele olham na direção apontada. Outras pessoas brancas e negras compõem o grupo em segundo plano. Ao fundo, arcos metálicos e parte de uma grande janela semicircular arredondada.

Foto: A. C. d'Ávila

Montagem de duas imagens. A primeira é de dois fotogramas de um filme fotográfico. Em ambos, um homem e uma mulher jovens e brancos aparecem abraçados e sorridentes. A segunda imagem é uma montagem de duas fotos em preto e branco. À esquerda, uma mulher jovem e branca com o corpo de frente, o rosto ligeiramente voltado para o lado e uma das mãos erguida. À direita, um detalhe da mesma imagem em close-up, focando em seus olhos e nariz. O fundo de ambas as imagens é preto.

À esquerda, fotogramas testes de Tamanduá Tai, de Ícaro Martins. Nas fotos, A. C. d'Ávila e a dançarina contemporânea Lenira Rengel posam para a objetiva 600 mm. À direita, a atriz Juliana Carneiro da Cunha em Possession, fotografada com a Leicaflex + 90 mm, e blow up com ampliador Focomatic II. Fotos: Ícaro Martins e Joel La Laina Sene. 

Montagem de duas fotos em preto e branco de performance artística em gramado ao ar livre. Na imagem à esquerda, uma pessoa de perfil usa figurino arredondado no tronco, máscara e está segura um cabo de madeira entre as pernas, como se estivesse montado em um cavalo. Na imagem à direita, Um homem usa túnica escura estampada e outro, à direita, segura um megafone. Ao fundo, nas duas imagens, jovens sentados na grama observam.  Atrás deles, um prédio de três pavimentos e palmeiras.

Marian Van de Ven se especializou em Som, continua até hoje ótima fotógrafa de cena. O coletivo Assaltimpraças, que nestes registros invade a Prainha, reunia estudantes de música, dança, artes, cinema e movimentos culturais sobreviventes, como capoeira e circo. Fotos: Marian Van de Ven.

 

Nos anos 80 e 90, no primeiro andar do Prédio Central da ECA, a cada final de curso, os alunos exibiam seus ensaios na parede do corredor, entre as portas do Laboratório. 

 

Montagem de duas fotos artísticas e abstratas dispostas lado a lado, separadas por uma faixa vertical clara. À esquerda, imagem em tons de cinza e preto, com camadas semelhantes a pinceladas que contornam o que parece ser o negativo de um tronco humano. À direita, imagem em tons de azul vibrante e ciano, destacando a região do abdômen e umbigo de uma pessoa, sobreposta por formas fluidas e manchas que lembram tinta ou revelação fotográfica experimental.
Carolina Sasse, colorista formada no CTR e mestre pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), experimentou várias técnicas de ampliação, viragens e processamentos alternativos. Fotos: Carolina Sasse.

 

Montagem de duas fotos em preto e branco sobre um fundo cinza claro À esquerda, uma mureta de pedra em primeiro plano avança em direção a um prédio ao fundo. O prédio tem dois andares com fachada de cobogós e palmeiras. À direita, foto de mulher jovem e amarela sentada em elementos de formas arredondadas. Ela tem cabelos longos e lisos, veste camiseta clara e olha em direção à câmera. Ao fundo, o mesmo prédio com fachada de cobogós, gramado e vegetação.
A câmera pinhole era construída pelos próprios alunos e permitia fazer imagens de qualidade considerável tendo em vista que são caixas escuras com um furinho no lugar das objetivas. Os negativos em papel foram obtidos em exposições longas, que permitiram à fotógrafa Luciana Arakaki posicionar a câmera e aparecer na imagem. Fotos: Luciana Arakaki.

 

Foto em preto e branco de mulher jovem e branca. Ela tem um dos braços apoiados sobre um tronco de árvores, observando um pequeno objeto entre as mãos. Tem cabelos curtos e escuros. Veste camiseta regata clara entre dois prédios baixos.
A realizadora e fotógrafa Julia Zakia, pelo olhar da fotógrafa Heloisa Ururahy. Foto: Heloisa Ururahy.

Alguns filmes foram produzidos a partir de ensaios fotográficos, como Maria da Luz, de Wilson Barros, Seo Chico, de Rafael Mamigonian, e o atualíssimo Juvenília, de Paulo Sacramento.  

No século XXI, o laboratório analógico de fotografia do CTR foi cedendo espaço para a captação e os processamentos digitais. Recursos como os de tratamento de imagem, e mesmos os estúdios, começam a ditar os novos olhares e experimentações da imagem narrativa. 

O audiovisual requer princípios fotográficos e ainda hoje utilizamos câmeras, objetivas e iluminação na elaboração das imagens para expressar uma determinada intenção visual.

 

ECA revelada aos 60 anos - Galeria 2

Foto de mulher jovem e negra em semi-perfil, voltada para a direita. Ela sorri levemente e tem cabelos pretos, curtos e crespos. Veste camiseta cinza e macacão jeans. A iluminação lateral destaca seu rosto, enquanto o lado esquerdo está em sombra. O fundo é composto por uma parede roxa e parte de um painel cinza.

A realizadora Victoria Negreiros. Foto: Clara Dias.

Montagem de fotos coloridas em cenário de estúdio que simula uma praia com areia, mar e objetos cenográficos. Na imagem principal, quatro jovens brancos estão sentados em cadeiras de praia conversando. Ao fundo, painéis azuis e rosas com bolas brancas. No canto inferior direito, uma foto menor sobreposta mostra dois desses jovens — um homem de costas e uma mulher de cabelos azuis — sentados à frente de uma mesa com garrafas e frutas.

Ana Chomps entrevista Jão. Foto: Joel La Laina.

Foto em perfil de homem branco e idoso, cantando e tocando violão. Ele usa óculos de grau, chapéu de palha e camisa estampada azul. O fundo é preto. À esquerda, um microfone no pedestal.

O brincante multiartista Antônio Nobrega. Foto Joel La Laina.

Cenas de programas produzidos por estudantes de Audiovisual na disciplina Direção de TV, com apoio de iluminação da disciplina  de Imagem, também do CTR. Atrás das câmeras, a ex-aluna e hoje professora Taís Nardi
 

 

 

No início, a função básica do Laboratório foi dar vazão à experimentação, pesquisar, refletir, criar poéticas e narrativas visuais. As técnicas fotográficas perpetuam seus elementos de linguagem: ponto de vista, enquadramento, composição, objetivas, foco, modulação luminosa. Expressar-se por imagens demanda cultura no sentido do cultivo das parcerias, histórias para contar, conceber autorias coletivas. As imagens dos 60 anos da ECA seguem contando com o laborar fotográfico.

 

Sobre o autor

Foto de homem branco e idoso com um leve sorriso, olhos arregalados e sobrancelhas arqueadas. Ele tem cavanhaque e cabelos grisalhos, usa óculos de armação retangular preta e camisa jeans. O fundo é composto por uma superfície com tons amarelos e prateados.
Foto: Joel La Laina.

Joel La Laina é professor aposentado (1990-2019) do CTR na área de Fotografia Cinematográfica. É bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Fotografia Cinematográfica pela ECA-USP (1979), mestre em Artes Visuais pela Unesp (1997) e doutor em Educação, área de Linguagem e Educação, pela FE-USP (2002), tendo sido bolsista Capes na Universitat Autònoma de Barcelona (2001). 

Fotógrafo e pesquisador, atua nos seguintes temas: fotografia poética e documental brasileiras, direção de fotografia, crônica e narrativas fotográficas. Foi professor-visitante da Kyoto University of Foreign Studies, pesquisador de Assuntos Culturais e Coordenador do Setor de Audiovisual do Centro Cultural São Paulo (CCSP), de 1979 a 1986, professor de Fotografia (1979-1990): Imagem-ação, Sesc Pompeia, Universidade Presbiteriana Mackenzie e editor de Fotografia da Enciclopédia Larousse (1989). Participou do Encontro Internacional Entretelas da UNB (2017), que gerou a publicação Temporalidade das Telas (2024), e do Cinematography in Progress, em Bruxelas, com o paper Work Flow for Young Filmmakers (2019).

 

 

 

Foto de capa: Fernando Scavone.