História da Fundação da ECA Jr.

Seguindo nas comemorações dos 60 anos da ECA, um dos fundadores da primeira empresa junior da Escola compartilha suas memórias

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Entrei na ECA em 1989, quando Publicidade e Propaganda era o curso mais concorrido da USP. Eram 15 vagas no matutino, a propaganda estava no auge com o garoto Bombril, o primeiro sutiã Valisére e Olivetto consolidado como gênio na W/Brasil.

Os primeiros anos do Ciclo Básico davam o embasamento teórico da comunicação, mas os aspirantes a publicitários queriam mesmo criar campanhas. Somente no terceiro ano, viveríamos aulas mais práticas no Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), porém respirando ares de frustração. Na melhor universidade da América Latina, vivíamos distantes do mercado, com ótimas teorias, mas recursos antiquados.

Espiávamos a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), cheia de profissionais famosos, eventos de impacto e ambiente moderno. Na ECA, ao lado de bons conteúdos, havia professor de produção que nunca tinha empunhado uma câmera, salas antigas, raros eventos. Assim, nossa turma foi tomada pelo desejo de mudança e não queríamos ficar só no tradicional modo de protesto e barricadas! Queríamos empreender e construir o futuro de maneira ativa.

Foto de material impresso amarelado e com marcas de envelhecimento. Do lado esquerdo o título Uma agência de propaganda dentro da USP e um texto sobre a proposta de relacionar os cursos de Publicidade e Relações Públicas da USP com o mercado. Do lado direito, o logotipo da Agência ECA Júnior USP e a inscrição na parte baixa: A universidade chegou ao mercado.
Primeiro folder. Foto: acervo pessoal/ Luiz Serafim

Luiz Barco, professor incendiário, matemático, doutor em comunicações e colunista da revista Super Interessante, estimulava nossa rebeldia contra o status quo. Cogitamos concorrer para o Centro Acadêmico Lupe Cotrim (Calc), imaginando direcionar uma entidade existente e liderada por estudantes para causas mais transformadoras. Nosso senso de realidade percebeu que jamais venceríamos as eleições e nunca conseguiríamos envolver o CA para pautas de empreendedorismo.

Então, veio a ideia de fundar uma empresa júnior. Eu também estudava administração na Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde havia nascido a primeira empresa júnior do Brasil em 1988. Aprendi com eles que poderíamos criar uma associação civil sem fins lucrativos, vinculada à nossa instituição de ensino, gerida pelos próprios alunos. Uma forma viável para assumir protagonismo e transformar nossa escola, aproximando a teoria do mercado.

Alguém indicou um professor das Artes Cênicas que poderia nos ajudar com as burocracias porque também era advogado. Clóvis Garcia nos ensinou sobre questões de associação civil, elaboração de estatuto e registro em cartório. Na manhã de 13 de agosto de 1991, fundamos a ECA Jr.

O departamento CRP não pôs obstáculos e fez a ponte com a diretoria da ECA. Recebemos sinal verde, uma minúscula sala e ramal telefônico. Nesses tempos heróicos, tivemos a cumplicidade da Izete, da secretaria do departamento, que nos ajudava em tudo.

Os mais engajados nessa construção inicial da ECA Jr éramos eu e meu parceiro Yeh Chun Lin. Parte da classe que ainda não estava mergulhada em estágios planejava a agência. Concebemos um organograma que refletia estruturas típicas de mercado e dividimos as funções.

Fui indicado como o primeiro presidente enquanto Yeh assumiu a diretoria de Atendimento. Cristina Cardoso virou Diretora de Relações Públicas, Alberto Missrie ficou com a área financeira, Luciana Bülau foi para a Diretoria de Mídia e Pesquisa, Eliana Watanabe se ocupou da Diretoria Administrativa e Mauro Villas-Boas se tornou Diretor de Criação, sendo responsável pelo primeiro logo da ECA Jr. Ainda estabelecemos um conselho consultivo que contou com Danilo Castro, Camila Bassanezi e Fábio Saboya.

 

Foto de cinco pessoas jovens com cabelos lisos e escuros, sendo os dos homens curtos e o das mulheres longos. Eles vestem roupas de frio escuras como moletons e jeans. Sentados: um homem de óculos e cachecol de lã cinza e uma mulher branca. De pé logo atrás: um rapaz amarelo, outro branco com uma caneta sobre a orelha e uma moça branca. Todos têm os rostos voltados para baixo observando algo sobre uma mesa e um dos que está em pé fala. No fundo, uma parede clara com um mural de cortiça.
Sentados: Luiz Serafim e Luciana Bulau. Em pé: Yeh Chun Lin, Bruno Graell e Cristina Cardoso. Foto: acervo pessoal/ Luiz Serafim

Os primeiros tempos foram divertidos para aqueles jovens empoderados, com seus cartões da ECA Jr, sala de reunião e uma atuação de vanguarda no movimento estudantil. Captamos clientes, organizamos uma nova festa de recepção para os calouros e concebemos o célebre Café Acadêmico. Participei das primeiras reuniões da Federação das Empresas Juniores do Estado de São Paulo (Fejesp) e recebemos visita do reitor Leal Lobo e Silva.

Foto de três impressos. À esquerda, um menor e em papel mais claro escrito Agência ECA Junior USP acima e tendo na parte baixa um endereço. No centro e à direita, duas cópias de um folder com dobra no meio escrito Café Acadêmico, com logotipo e nome de convidados: Zé Rodrix, Cap. James T. Kirk, Official Spock, seguido de datas, horários, locais, patrocínio Nestlé, CAC e Contábil Lago Azul de Pinheiros e organização. Os três materiais estão sobre uma superfície clara e algumas folhas pautadas.
 Primeiros convites do café acadêmico. Foto: acervo pessoal/ Luiz Serafim

O Café Acadêmico merece parágrafo à parte. Planejávamos um evento para receber palestras de profissionais do mercado e foi o Luiz Fernando Bongiovanni, do curso de Relações Públicas, o mensageiro da ideia ouvida de uma professora que visitou universidades francesas e conheceu reuniões acadêmicas mais informais, sem auditório e com serviço de cafeteria. Criamos o Café Acadêmico, com espírito criativo, patrocínio da Nestlé para as bolachas e da Cooperativa Agrícola de Cotia para os sucos. O logo da xícara de café vista de cima foi criação do Bruno Graell.

O primeiro Café foi com o Diretor da ECA José Marques de Melo. No segundo, Roberto Duailibi, o D da DPZ, um dos maiores publicitários do país e, depois, professor da ECA. No terceiro, Zé Rodrix, músico, um dos pioneiros do Rock Rural ao lado de Sá & Guarabyra, sócio da produtora de som A Voz do Brasil, com o fundador da banda Joelho de Porco, Tico Terpins. Na quarta sessão, Rubens Furtado, diretor-geral da TV Bandeirantes. O quinto e último Café de nossa gestão foi com a Frota Estelar, maior fã clube de Star Trek para os geeks que já habitavam a ECA. Todos os Cafés começavam com um vídeo satírico cheio de colagens e dublagens divertidas. 

Em agosto de 1992, passei o bastão para a segunda gestão. A primeira fase da jornada foi intensa e transformadora, mas repleta de desafios. Nosso primeiro cliente não nos pagou. Só enchemos a sala do quarto Café porque pedimos de joelhos para a professora Beatriz Lage liberar seus alunos. O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) era o cliente que nos sustentava com jobs frequentes. Mas conseguimos consolidar o projeto, estabelecer um modus operandi, garantir continuidade e até compramos a primeira impressora colorida do CRP. 

35 anos depois, ficamos impressionados com a proporção que a ECA Jr alcançou. São tantas gerações de estudantes que somaram talentos ao projeto, colecionando experiências e amigos eternos. Hoje, há inúmeros clientes e uma multidão de alunos engajados. O Café Acadêmico chegou à edição 58 e extrapolou os muros da USP. Hoje, tem a Matraca, a Jr. Apresenta, a Frenesia, entre outros eventos. Ficou faltando um grande Festival Bienal de Comunicação e Arte com a participação de alunos e ex-alunos por toda a USP, que imaginamos, mas não tivemos tempo de desenvolver. Quem sabe no futuro?

Parabéns a todos que se dedicaram a construir e reinventar a ECA em seus 60 anos. Para nós fundadores, fica o sentimento maravilhoso de ter inaugurado algo tão marcante na jornada ecana. Parabéns, ECA Jr.! Feliz 35 anos!

 

Foto de homem branco sorridente, recortada em formato circular. Ele tem cabelos curtos e castanhos, usa óculos com armação retangular escura e veste camiseta cinza-escura. O fundo está desfocado e mostra uma porta branca à esquerda e detalhes em verde-escuro à direita.
Luiz Serafim. Foto: acervo pessoal

 

Luiz Serafim é especialista em inovação e criatividade, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), palestrante, escritor, músico, consultor, ex-executivo da 3M por 30 anos. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da ECA Jr.

 

 

 


Foto de capa: Grafite em comemoração aos 30 anos da ECA Jr., em 2021. Reprodução/Ágora ECA