Institucional



Conselho Universitário aprova título de Doutor Honoris Causa para Vladimir Herzog

Proposta do Departamento de Jornalismo e Editoração apresentada pela ECA teve votação unânime

Gestão
história
jornalismo
honoris causa
ditadura militar
docente

No dia 24 de fevereiro, o Conselho Universitário (CO) da USP, em sua primeira reunião de 2026, aprovou por unanimidade a concessão do título de Doutor Honoris Causa in memoriam a Vladimir Herzog, jornalista e professor da ECA assassinado pela ditadura militar em 1975

Conforme o Estatuto da USP, o título de Doutor Honoris Causa é conferido a “personalidades nacionais ou estrangeiras que tenham contribuído, de modo notável, para o progresso das ciências, letras ou artes; e aos que tenham beneficiado de forma excepcional a humanidade, o País, ou prestado relevantes serviços à Universidade”. Para ser aprovada, a proposta deve contar com votos favoráveis de no mínimo dois terços dos integrantes do CO.

Ao apresentar o pedido do título ao colegiado, a professora Clotilde Perez, diretora da ECA, lembrou a trajetória pessoal e profissional de Vlado e a comoção em torno de sua morte. O assassinato, forjado como suicídio por agentes do regime, uniu amplos setores da sociedade civil e impulsionou um processo de resistência que culminaria no fim da ditadura militar, quase dez anos depois.

 

“Conceder o título de Doutor Honoris Causa in memoriam a Vladimir Herzog é uma forma não de premiá-lo simplesmente, mas uma forma da USP se posicionar frente à sociedade, deixando claro que aqui é a casa dos direitos humanos, da dinâmica de construção e desconstrução constantes dos conhecimentos e das ciências, sempre em harmonia, com amplo respeito à toda diversidade. Que aqui não se toleram preconceitos, prejuízos e desumanidades, que aqui a excelência na pesquisa e no ensino só fazem sentido em liberdade. É também uma forma de dizer que a vida de Vlado poderia ser a de qualquer um de nós, mas que o seu desfecho jamais poderá ocorrer novamente. E o enfrentamento pelos direitos universais e pelos conhecimentos serão a nossa principal epistemologia. A ECA, no ano do seu sexagésimo aniversário, propõe o título de Doutor Honoris Causa in memoriam a Vladimir Herzog. (...) Como diretora da Escola de Comunicações e Artes, como professora, como mulher, como mãe e como cidadã, eu convido a todos os membros do Conselho Universitário, a mais alta instância decisória da Universidade de São Paulo, a fazer parte, com este ato, de um momento histórico de reconhecimento e também de exercício da digna missão da nossa Universidade, a de ser uma instituição voltada para o bem comum, para o fomento de valores e conhecimentos de aplicação universal, enquanto base do serviço público, enquanto uma mediadora do dever do Estado no âmbito da educação superior, da pesquisa comprometida com a melhoria dos cidadãos e do nosso país, da América — que somos muitos —, e do mundo. Que o título de Honoris Causa in memoriam que propomos conceder a Vladimir Herzog inspire as nossas gerações de comunicadores, profissionais, artistas e cientistas a compreenderem que comunicar e criar são atos sensíveis, mas também são atos de coragem.”

Clotilde Perez, diretora da ECA

 

A proposta do título partiu do Conselho do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), em 2025, por ocasião do cinquentenário da morte de Herzog.  Vlado lecionou no CJE a disciplina de Jornalismo Televisivo até outubro de 1975, quando foi convocado a prestar depoimento no DOI-Codi e acabou morto sob tortura. Aprovada por unanimidade pela Congregação da ECA, a proposta foi então encaminhada ao CO, com o apoio da Comissão de Direitos Humanos da USP, da Faculdade de Direito (FD) do Largo São Francisco, da Faculdade de Direito da USP de Ribeirão Preto e da Faculdade de Educação (FE). Também apoiaram a iniciativa a TV Cultura, a Fundação Padre Anchieta e todas as entidades que fazem parte do Instituto Vladimir Herzog e da Comissão do Prêmio Vladimir Herzog

A cerimônia de outorga do título de Doutor Honoris Causa in memoriam a Vladimir Herzog acontecerá em data ainda a ser definida


Quem foi Vladimir Herzog?

Foto em preto e branco de homem de cabelos escuros e ralos, usando suéter claro e olhando para a câmera. Em segundo plano, à direita, há um grande relógio de parede com mostrador analógico marcando aproximadamente 11h17. O relógio está fixado em um painel de madeira com mostradores e botões metálicos. Na frente do homem, desfocado, há um objeto escuro que pode ser um microfone. A imagem apresenta manchas e marcas, sugerindo que é uma fotografia antiga.
Vladimir Herzog na Rádio BBC de Londres. Foto: acervo pessoal/Ivo Herzog.

Vladimir Herzog, nascido Vlado Herzog na antiga Iugoslávia, na região da atual Croácia, imigrou para o Brasil com pouco mais de dez anos. Em 1959, iniciou sua carreira como repórter no jornal O Estado de S. Paulo. Poucos anos depois, em 1962, formou-se bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Mais tarde, passou a se dedicar ao jornalismo cultural, com foco na crítica de cinema, e também à produção cinematográfica. Realizou formação em direção cinematográfica no curso Arne Sucksdorff, entre 1962 e 1963, e obteve diploma em Direção e Produção de TV pelo BBC Film and TV Course for Overseas Students em 1968.

Herzog teve passagens pela TV Excelsior, BBC de Londres e TV Cultura, onde, em 1975, assumiu a direção de jornalismo. No mesmo ano, ingressou como professor de Jornalismo Televisivo na ECA-USP.

Em sua memória, foi criado o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que é organizado por diversas entidades e pelo Instituto Vladimir Herzog, fundado em 2009 com o objetivo de celebrar a vida do jornalista e promover a democracia, os direitos humanos e a liberdade de imprensa.

 

 


Imagem de capa: Vladimir Herzog em sua mesa de trabalho na TV Cultura. Foto: Cedoc/ TV Cultura.