Cidade Invisível: um olhar decolonial para a adaptação de mitos no audiovisual

Pesquisador estuda sequências dramáticas da série para entender como mitos tradicionais brasileiros são representados na obra audiovisual

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Em 2021, a série da Netflix Cidade Invisível, criada por Raphael Draccon e Carolina Munhóz chamou a atenção do público ao propor uma releitura contemporânea dos mitos do folclore brasileiro. Nela, um policial ambiental descobre a existência das “entidades”, que longe de estarem confinadas às matas ou às estórias, transitam livremente entre o seu mundo e a cidade. No Brasil, a série foi a mais vista na plataforma de streaming naquele ano, e figurou entre as dez mais vistas nos Estados Unidos, França e Espanha, segundo o What 's on Netflix

Com a intenção de discutir, sob um olhar decolonial, os aspectos da cultura folclórica incorporados à série, o doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA Claudinei Lopes Junior realizou a pesquisa que resultou no artigo Folclore brasileiro na tela do streaming: uma análise crítica sob o olhar decolonial de Cidade Invisível. O estudo foi publicado na última edição da Revista Novos Olhares e se baseia na análise qualitativa e exploratória de sequências dramáticas, visando entender como se dá a incorporação dos mitos no audiovisual e criar novas hipóteses sobre o objeto estudado.

 

Uma apresentação contemporânea do folclore brasileiro

Para o pesquisador, o termo “folclore” pode ser entendido como a “maneira pela qual um povo expressa seus sentimentos por meio de símbolos”, sejam artísticos, religiosos ou mesmo padrões de ações “que são consagrados coletivamente e adaptados para garantir sua sobrevivência”. Claudinei parte de algumas sequências de cenas no primeiro e segundo episódios da primeira temporada da série, que apresentam e desenvolvem personagens que representam mitos folclóricos, para avaliar as proposições narrativas e temáticas em torno de sua construção e, assim, identificar como a obra trabalha, no meio audiovisual, tais sentimentos e símbolos.

Foto de homem branco de terno olhando para animal quadrúpede com a cabeça em chamas que está de pé sobre as duas patas traseiras.. No fundo, há a sala de uma casa de arquitetura e decoração rebuscada, com uma escada à esquerda e móveis ao redor.
Na série, os personagens que representam seres mitológicos são chamados de “entidades” em vez de mitos ou lendas. O termo remonta, explica o pesquisador, a “espíritos que descem do plano em que se encontram e vêm à terra para trabalhar”. Foto: Reprodução/Netflix.

O personagem Curupira, por exemplo, é apresentado não diretamente, mas em um flashback de outro personagem: Ciço (José Dumont). Nele, o jovem conta ter visto o Curupira agir para proteger o meio ambiente, já que a entidade “só ataca quem destrói as florestas”. Em seu relato, Ciço está acompanhado de Antunes, que deseja matar uma coruja, mas é advertido pelo jovem de que na floresta “só se mata para se alimentar”. Contrariando Ciço, Antunes mata a coruja e, em seguida, é encurralado por uma espécie de fogo andante, que o confunde, além de ser intimidado por gritos

O pesquisador explica que o Curupira era um ente temido pelos indígenas já nas cartas dos portugueses à monarquia de 1560, que o descrevem como infixo, multiforme e veloz. Além dos característicos pés para trás e cabeleira de fogo, o personagem sempre foi retratado como um protetor das florestas que é benigno ou maligno a depender do comportamento de quem o avista. Todas essas características são exploradas na série já nas primeiras cenas do personagem. 

A representação do Saci, personificado por Isac (Wesley Guimarães) também cobre as características tradicionais do mito, mas com algumas decisões mais disruptivas na construção do personagem, modernizando-o. Isac é um jovem negro que mora em uma ocupação na Lapa, no Rio de Janeiro, um bairro cuja arquitetura rememora o período colonial, tem as duas pernas, porém uma delas é uma prótese e, no lugar do gorro vermelho, usa uma bandana com propriedades mágicas. Já na sequência que introduz o personagem, Isac é confrontado com os “estereótipos” da sua lenda por Luna, uma criança que duvida da forma com que o “Saci” se apresenta. Em resposta, o homem brinca dizendo que a menina “está assistindo muito desenho animado”.

A escolha dos locais de gravação da série complementam a caracterização dos personagens: “filmar em locais icônicos com ruas estreitas e arquitetura colonial”, diz Claudinei, “corrobora a criação de uma atmosfera de mistério e de ancestralidade”. Além disso, algumas cenas foram filmadas em áreas de preservação ambiental próximas de Ubatuba, o que sublinha a temática da série, que envolve a relação entre seres míticos e a natureza.

 

Uma obra meio decolonial

Para Claudinei, a série Cidade Invisível “rompe com o sistema de pensamento colonial que impõe valores ocidentais universais e muitas vezes silencia as tradições locais”, a partir de algumas decisões na construção de seus personagens. “Ao projetar figuras folclóricas de maneira contemporânea e global”, explica, “a série pode ser vista como um exemplo de uma cultura renovada”, uma tentativa de iluminar as tradições culturais brasileiras excluídas que desafia a hegemonia colonial e propõe “novas formas simbióticas de existência de culturas locais no âmbito global”.

Entretanto, o pesquisador comenta que mesmo tendo sucesso em modernizar personagens tradicionais, a obra ainda falha em tornar essas representações mais um reflexo da cultura brasileira do que da cultura colonial. “Ressaltamos”, explica Claudinei, “a necessidade de que haja um cuidado ao lidar com os traumas coloniais que ainda seguem muitas vezes como feridas abertas até os dias de hoje”: 

Nosso imaginário social é um retrato do tempo. Contudo, no cenário brasileiro, o que não se vem alterando são as imagens que compõem esse imaginário social. Na verdade, estamos diante apenas de remodelações daquilo que conhecemos por colonialidade, que busca enraizar cada vez mais forte a diferença colonial, inclusive, por processos como a modernidade.

Claudinei Lopes Junior, pesquisador. 

 

Foto de um homem negro idoso sentado entre um homem e uma mulher negros jovens. Eles vestem roupas casuais, com o mais velho coberto por tecidos e plásticos variados. No fundo, há um prédio com fachada desgastada, expondo parcialmente seus tijolos, e algumas pichações pretas. A rua tem rachaduras e poças d’água, com pichações brancas no meio fio.
Para o pesquisador, a “modernização” também implica em uma comodificação de conteúdos, para torná-los mais comerciais. Foto: Reprodução/ A União. 

Por um lado, o pesquisador aponta que, em se tratando de uma obra que aborda o folclore em um viés narrativo, poderia haver mais gravações fora do eixo Rio-São Paulo e além disso, personagens como Saci, Cuca e Curupira poderiam ter representações mais fidedignas às histórias populares (mais personagens interpretados por pessoas indígenas, por exemplo). Por outro, “a quebra dessas expectativas e a projeção de escolhas mais disruptivas”, diz Claudinei, rompe com a visão “calcada na colonialidade”, que prevê “sempre pares de opostos, como: dominante/dominado, verdadeiro/falso entre outros.”. 

Por fim, o pesquisador afirma que adaptações de conteúdos tipicamente populares por grandes plataformas como a Netflix “fazem parte de uma estratégia de transnacionalização de obras originais”. Nela, espera-se que as obras expressem sensibilidades locais ao mesmo tempo em que apelam a questões que transcendem o nacional em prol apenas do lucro, acrescentando mais uma camada de complexidade à análise da obra. 

 

Revista Novos Olhares

A Novos Olhares – Revista de Estudos Sobre Práticas de Recepção a Produtos Midiáticos, é vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) e publica artigos que investigam a percepção e interpretação de obras pelo público e pela crítica, além de análises e investigações sobre a produção de obras audiovisuais, tanto de ecanos quanto de pesquisadores de outras universidades.

A partir de 2025, a revista passou a ser publicada em fluxo contínuo, em um único volume anual. Além do artigo sobre a série Cidade Invisível, a última edição apresenta outras pesquisas sobre obras e sua recepção, como a  adaptação em quadrinhos do filme 2001: uma odisséia no espaço, e uma análise da circulação do filme Barbie em portais de entretenimento.

 

 


Foto de capa: reprodução/Revista Quem.