Como fóruns de internet facilitam acesso a armas
Pesquisa publicada na Revista Matrizes mostra como usuários anônimos disseminam conteúdo armamentista online
Imageboard ou chans são redes de socialização virtuais similares aos fóruns de conversa, mas que se diferenciam por ter imagens vinculadas aos comentários. Além disso, a maior parte das postagens são temporárias.
Na última edição da Revista Matrizes, um estudo mostra como o anonimato e mensagens temporárias em imageboards facilitam a busca por conteúdo armamentista online. A pesquisa que resultou no artigo Construindo “um braço armado”: o papel dos fóruns da extrema direita na obtenção de armas de fogo foi desenvolvido pelos pesquisadores: Daniel Namise, doutorando da Universidade Federal do Paraná (UFPR); Fernando Antonio Egert, doutorando da Universidade Federal Fluminense (UFF); e Eleonora de Magalhães Carvalho, pós-doutoranda, também pela UFF.
Nesses espaços há uma grande variedade de assuntos circulando, mas o foco do trabalho é uma subcategoria armamentista que integra o imageboard 1500chan, um dos maiores do Brasil. O estudo explica que essas plataformas são compostas, principalmente, por homens brancos que exploram e reforçam uma cultura de masculinidade baseada na virilidade. Nela, há um incentivo para manter os papéis de gênero, as normas e padrões da sociedade, onde minorias sociais como mulheres e a comunidade LGBTQIAPN+ são vistas como inferiores.
Segundo o artigo, esse entendimento de mundo se alinha com discursos da extrema direita, além de ser um campo ideológico que também promove pautas armamentistas. Nesse contexto, os indivíduos se veem como figuras protetoras, como o pai, o esposo e o homem de família, e as armas complementam a construção dessa identidade.
“Em vez de compreenderem as armas como vetores de violência, esses usuários as consideram instrumentos de maior segurança.”
Daniel Namise, Fernando Antonio Egert e Eleonora de Magalhães Carvalho, pesquisadores
Os debates no 1500chan não se restringem à transmissão desses valores – a pesquisa apresenta informações mais alarmantes. Na categoria armamentista do imageboard, há muitas buscas por informações sobre como contornar regras para obtenção de armas, principalmente relacionadas a exames psicológicos para a aquisição por vias legais. O artigo revela que uma parcela significativa dos usuários possuem traços de sadismo, maquiavelismo ou psicopatia.
O processo de aquisição de armas lícitas no Brasil tem custo a partir de 4 mil reais. Apesar das mensagens no fórum trazerem dicas sobre todo o trâmite, muitos tópicos são de reclamações sobre os preços altos, que delimitam uma faixa socioeconômica para a compra. Para desviar desse obstáculo, há tópicos aconselhando a aquisição de armamento mais barato por meios ilícitos. Dicas sobre como comprar armamento em países estrangeiros ou por redes sociais circulam livremente dentro da rede.
A análise dos posts foi feita através de tópicos permanentes – fixados – na categoria armamentista do 1500chan, chamada Armas e militaria. Esse fórum ficou mais conhecido em 2022, quando usuários participaram de um esquema de divulgação de notícias falsas favoráveis ao ex-presidente, atualmente preso, Jair Bolsonaro. 149 comentários foram considerados na seção entre 2021 e 2023. Foi verificado o teor das mensagens e a quantidade em cada tema para extrair aquelas que retratam melhor a dinâmica do fórum.
Alegal se refere a algo que não é ilegal porque ainda não foi regulamentado ou proibido, portanto, não se enquadra em nenhuma lei. O termo científico é explorado por Primavera De Filippi, jurista e ativista francesa e uma das referências teóricas do artigo.
Para os autores, o design alegal dos imageboards, principalmente as mensagens temporárias e o anonimato, criam um espaço que incentiva a violência e o discurso extremista enquanto propaga informações sobre a compra de armas. De acordo com eles, regulamentar esses espaços demanda ações conjuntas entre governos, especialistas em segurança cibernética, educadores e a sociedade civil, porque é necessário considerar os obstáculos tecnológicos e comportamentais nas plataformas.
“As discussões identificadas neste estudo desafiam a classificação simplista entre o que é legal ou ilegal, e o que é socialmente aceitável ou não. Estes fóruns não só aumentam o potencial para a ocorrência de crimes violentos, mas também promovem uma cultura de radicalização, onde certos grupos são vistos como naturalmente inferiores ou inimigos.”
Daniel Namise, Fernando Antonio Egert e Eleonora de Magalhães Carvalho, pesquisadores
Um breve histórico dos imageboards
Para entender o formato dessas plataformas, é necessário voltar a atenção ao Japão, local onde surgiram. No país, em 2001, lançaram o Futaba Channel, também conhecido como Futaba Chan, com usuários fãs de cultura pop japonesa, o que não era bem visto socialmente no Japão. Uma vez que essas pessoas buscavam um espaço para acompanhar os conteúdos de seu interesse sem serem identificadas, as mensagens temporárias e anônimas serviam bem a esse propósito.
Com esse histórico, os pesquisadores mostraram como o design dessas plataformas foi capaz de aumentar o senso de comunidade e de pertencimento dos usuários ao mesmo tempo que desafiou estruturas sociais.
Cultura troll é a busca por satisfação pessoal causando um impacto emocional negativo nas pessoas. Esse comportamento busca irritar, provocar, espalhar discórdia no ambiente virtual, enquanto as motivações podem ser diversas, como chamar atenção, espalhar desinformação, causar confusão, entre outros propósitos.
Em 2003, surgiu o 4chan, inspirado no primeiro imageboard e trazendo discussões sobre animes e mangás. Ele foi tão popular que vários imageboards reproduziram seu formato com adaptações. Mas essa expansão também massificou a influência da extrema direita nesses canais, principalmente, devido à efemeridade das mensagens, falta de controle interno e a cultura troll – explorada na parte escrita dos posts e através dos memes.
Confira mais artigos nesta edição da Revista Matrizes
A revista Matrizes faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) e reúne pesquisadores de diversas universidades. Ela existe há quase 20 anos e aborda temas relacionados aos fenômenos e meios de comunicação e a interação na sociedade. O volume 20 da revista tem artigos que, entre outros temas, analisam séries televisivas e a influência estadunidense, releituras de personagens femininas históricas da TV e a apropriação de dados dos profissionais.